sexta-feira, 5 de julho de 2019

Alegoria (Conto), de Brito Camacho



Alegoria
Nos círculos bem informados dá-se
como certo que ao atual governo,
de concentração, seguir-se-á
um governo ainda não partidário.
(Dos jornais)
Crianças!
O pai comprara o brinquedo para todos, muito intencionalmente, no propósito de ir formando naqueles espíritos juvenis esta grande virtude social — a solidariedade. Chamou-os ao seu gabinete, sentou-os no mesmo fauteuil, tomou lugar em frente deles, numa cadeira de braços, e, ao passo que ia desenrolando o embrulho que tinha sobre os joelhos, ia fazendo aos petizes um curso de educação cívica, que eles não ouviam, tão concentrada tinham a atenção nos olhos.
— Que era para todos; a nenhum ficava o direito de lhe chamar seu, reivindicando uma posse que não tinha, o que seria um abuso intolerável. Um só não poderia servir-se dele; mas todos juntos, em perfeita inteligência, poderiam auferir do seu funcionamento as maiores vantagens. Com esta condição indispensável — não o escangalharem.
Entregou-lhes o brinquedo, tendo-lhes ensinado a servirem-se dele, e recomendou-lhes que não empregassem a força quando alguma peça ou órgão da engenhosa maquineta oferecesse resistência, pois que esta só com jeito poderia ser dominada,
Crianças!
Mal se apanharam fora dali, muito contentes com o seu brinquedo, cada qual o queria para si, exclusivo dono e possuidor, e o desejo de todos... era desmanchá-lo.
Como seria aquilo feito?
Há quem diga que o pretendido instinto de destruição, que os pedagogos atribuem às crianças, como aos selvagens, é tão somente o desejo de saber, a rudimentar curiosidade cientifica dos pequeninos cérebros em formação. Assim pensando, Herbert Spencer arquitetou um sistema de educação, que seria perigoso executar à risca, deixando uma criança cortar os dedos... para ficar sabendo que as navalhas cortam, deixando outra queimar-se... para saber que o fogo queima.
Certo é que daí a pouco, malpassadas algumas horas, os petizes foram ao gabinete do pai, choramingando, com o brinquedo num feixe, inútil como um relógio desmontado.
Entraram a acusar-se uns aos outros — foi o Ju, foi o Toneco, foi o Zeca — nenhum querendo assumir, perante o pai, as responsabilidades do mal que fizera, mostrando assim que fora perdida, inteiramente perdida, aquela breve lição de civismo que haviam recebido havia instantes.
Sentou-os no mesmo fauteuil, ao lado uns dos outros, tomou lugar em frente deles, numa cadeira de braços, e, ao passo que ia compondo o desconjuntado maquinismo, ia-lhes fazendo novo curso de educação cívica, que eles não ouviam, porque toda a sua instável atenção a tinham concentrada nos olhos. E, quando chegou ao termo da sua perlenga, com mais brandura do que severidade, entregando-lhes o apetecido brinquedo:
— Espero que lhes aproveite a lição. Desmanchar é fácil; o difícil é construir.
Foi uma alegria doida, mas ainda não haviam transposto a porta do gabinete, já cada um deles não pensava noutra coisa que não fosse... escangalhá-lo outra vez.
Pois elas são assim, as crianças!

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Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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