sábado, 27 de julho de 2019

As Últimas Páginas de Eça de Queirós (Resenha)


As Últimas Páginas de Eça de Queirós

Em 1911 escrevíamos num jornal logo extinto, noticiando a próxima publicação das Últimas Páginas:

É curioso que ao ter de dar aos leitores uma grande nova literária, o faça com melancolia, quase com amargura. Tão certo é que as consolações da existência, ainda estas da Arte, "a única flor da Vida", são eivadas muita vez dum travor singular...

Parece que o extraordinário artista, deixando-nos para agora este seu livro inédito, como um tesouro escondido das Mil e uma noites, nos quis dar, com uma satisfação suprema, uma dolorosa saudade.

Ninguém trabalhou com mais graça a prosa portuguesa. Outros têm possuído mais ritmos, maior opulência verbal, sintaxe mais lusitana e mais válida; nenhum o excedeu em bom gosto (como outrora a Garrett), em cintilações de humorismo, na harmonia lenta e vaga, na cultura amorosa da imagem, que ele trata como se cuidasse das flores dum jardim encantado. Nas combinações desse criador de Beleza, — sem preciosismos, sem parnasianismos, — a palavra ganhou novo viço, como se fosse uma já gasta moeda que ele cunhasse de novo. Deu a um léxico às vezes maltrapilho foros de idioma rico; soube-o vitalizar, criar-lhe outra expressão cheia de frescura e leveza. Fez entrar o vocabulário pobre no salão das nossas Letras — expressivo, sugestivo, todo vestido de novo. Porque as palavras parecem feitas de cera, para cada grande artista as moldar diversamente nas mãos felizes e criadoras...

E cada vez o escritor foi sendo mais perfeito, mais opulento, com mais amplitude, mais ar, mais sonho e ritmo. A língua enriquecera-se-lhe no cultivo dos clássicos, mas nunca perdeu o caráter pessoal, esse quid indefinível a que chamamos estilo, um relevo muito seu, elegante, sem maneirismos, e porventura, nas páginas derradeiras, mais soberanamente formosa.

Diante do novo livro de Eça de Queirós não podemos furtar-nos à impressão que nos daria um incêndio que, poupando uma galeria de Velásquez, devastasse nas rajadas de fogo telas de primitivos, de que apenas nos ficassem alguns frescos imortais... Esse incêndio é o da Morte, a ceifeira negra e misteriosa. Deixou-nos a obra naturalista de Eça, mas roubou-nos, em grande parte, a obra de idealismo, de imaginação e de candura, que o próximo volume iniciava. Deixou-nos as rosas púrpuras, as orquídeas elegantes, as dálias o seu tanto artificiais, (outrora tão queridas do mestre como o perfume forte da lúcia-lima); mas secou-nos as flores modestas da piedade, da humildade, da renúncia. Deixou-nos, enfim, os quadros da vida contingente e efêmera, e as figuras da cena quotidiana, que só a Arte tem condão de imortalizar; e levou-nos aquele pedaço de sonho e de vida enigmática, cuja serenidade é como a das funduras do oceano, onde de certo estarão os germens mais puros da vida.

De Eça ficou-nos a obra revolucionária, a obra demolidora, evidentemente grande; mas quase se perdeu a obra augusta de reconstrução e de amor, cujas páginas alvorecem, como um lindo dia de maio, na Cidade e as Serras.

O novo livro no prelo tem duas partes. Uma delas — Artigos Diversos — é, como tudo do autor, uma maravilha. Eça é aí o crítico e o humorista que sabemos, o cronista cujo valor, entre outros volumes, as Notas Contemporâneas, gravaram duma forma indelével, e que ninguém excedeu em brilho, em espírito, e naquela maneira de vestir a Erudição e a História das roupagens mais deliciosamente leves e de mais nobres linhas. Mas há outra parte, e vasta, que é a fundamental do volume: Lendas de Santos (S. Cristóvão, Santo Onofre, S. Frei Gil). É esse o livro novo; é aí que o Artista é outro: um grande pintor de frescos à Fra Angélico, sem a candura ingênua e sem a fé escaldante do visionário de Fiésole, naturalmente, mas em que vitoriosamente se sente o poeta, alumiando as almas com outra lanterna mágica, que é a do lume eterno da bondade e do amor. E é sempre consolador anotar isto: que a poesia é a senhora invisível do mundo, e que é a estrela antiga que mais encaminha ainda o olhar triste dos homens. Através de todas as convulsões, em meio de todos os egoísmos, é ela a única flor imorredoura. E poesia quer dizer amor, quer dizer justiça — e uma infinita, trasbordante piedade. O resto é fumarada, às vezes resplandecente como as nuvens de ouro. A Arte mais bela será de certo a que tiver a alumiar-lhe a forma esbelta e pura, lume que nos aqueça no meio deste frio, música que embale a todos os que vamos na verdadeira onda humana; e essa onda é a dos que têm um grande sonho, de todos os que têm fome, de todos os que escutam amorosamente os gemidos cansados dos que avançam nobremente na vida...

É claro que Eça de Queirós não nos aparece agora, íntegro e lapidar, como por milagre, sem raízes que o prendam à sua obra anterior. Essa florescência de mistério, de imaginação, de poesia, palpita romanescamente revolta nas Prosas Bárbaras; mas neste regresso aos seus amores primitivos, e ao fundo mesmo da sua consciência estética, houve um largo estádio percorrido, que cristalizou divinamente as emoções e as formas. O apologista de Courbet nas conferências do Cassino faria agora o panegírico dum Memling, sem todavia perder o poder evocativo dum prodigioso reconstrutor de épocas extintas, à Flaubert (já visto na Relíquia), mas tocando tudo de outra luz, com um adorável lirismo português, e por vezes, como hão de ver nessas lendas de Santos, da maneira mais amorosa, mais piedosa — mais intrinsecamente poética. Dessas vidas de Santos só está incompleta a de S. Frei Gil — e que imensa pena! Nessa primeira redação, duma rara facilidade e perfeição admirável, — ao contrário do que muitos pensam do grande escritor —, hão de ver a maravilha da sua arte espontânea e suprema. É certo que Eça de Queirós emendava muito nas provas; refundia de alto a baixo; ampliava a ponto de transformar um pequeno conto (Civilização) num livro de trezentas páginas (A Cidade e as Serras). Mas a primeira forma saía-lhe sempre fluente; e talvez com uma graça e uma frescura de tintas, que mais punha em destaque as suas nativas qualidades líricas, a que o Naturalismo prendera e crestara as asas — mas que afortunadamente batem nas Últimas Páginas um voo largo e rítmico.

***

Vem agora a propósito acrescentar algumas notas acerca da Obra póstuma de Eça de Queirós, tão extraordinariamente bela. Essa obra começou em edição da Ilustre Casa de Ramires. Fomos nós quem reviu, a pedido dos editores, nossos velhos amigos, o resto do volume, que o grande escritor deixara em manuscrito, na primeira redação; e nesse volume, melhor que em nenhum outro, se pode verificar a afirmação já feita: que a prosa de Eça de Queirós era já, na primeira forma, límpida, fluente, luminosamente expressiva. Quem se der à tarefa de cotejar com as anteriores as páginas da Casa de Ramires que o autor desventuradamente já não pôde rever, mas que estão intactas, não lhes encontrará desequilíbrios sensíveis, nem desfalecimentos de escritor. São um largo e belo rio, que vai correndo claro, espelhando deliciosamente os céus e a terra. O artista é sempre dum gosto e duma graça admiráveis. Esses capítulos finais seriam com certeza acrescentados e refundidos; mas os que da primeira inspiração brotaram ficaram vivos, harmônicos, perfeitos. Só um artista sutil e de estética congênere veria aqui ou ali um adjetivo provavelmente alterável, algum ritmo a modificar, alguma tinta a esbater.

O segundo volume póstumo, A Cidade e as Serras, coube a Ramalho Ortigão revê-lo — ao velho e ilustre camarada das Farpas. E vejam que maravilha essa, na única redação que tivera, que páginas incomparavelmente cristalinas!

As Últimas Páginas, derradeiro livro, como ficou dito, impresso sobre o manuscrito, foi o  Sr. Luís de Magalhães quem o reviu — como fora o mesmo insigne publicista quem tomara dedicadamente a seu cargo a amorosa tarefa de selecionar e de organizar os diversos volumes de crônicas e trabalhos dispersos, que os editores mandaram trasladar escrupulosamente nas bibliotecas de Portugal e do Brasil: — Prosas Bárbaras (estas excelentemente prefaciadas pelo Sr. Jaime Batalha Reis, o J. Teixeira de Azevedo da Correspondência de Fradique Mendes), Contos, Cartas de Inglaterra, Ecos de Paris, Cartas Familiares e Notas Contemporâneas.

A obra póstuma de Eça de Queirós parecia assim integral, quando, há poucos anos, José Pereira de Sampaio lembrou aos editores a publicação de outro volume, em que se coligissem vários artigos e uma série de dezoito correspondências, dirigidas de Londres, em 1887, ao jornal portuense de então — a Atualidade. Opinava Bruno que o livro seria digno da obra do morto ilustre; e foi combinado que se intitularia Páginas Esquecidas, escrevendo um longo proêmio o crítico eminente da Geração Nova.

Não concordaram, porém, com a publicação dessas Páginas os herdeiros do grande romancista, certamente por motivos ponderáveis, e a edição não se fez,

Mas estará completa, dando-nos todos os seus contrastes e cambiantes, a obra póstuma de Eça de Queirós? Em nosso humilde juízo não está. Falta ainda que se imprimam um ou mais volumes com a sua correspondência particular, cuidadosamente reunida e escolhida. A figura do escritor e do homem ganhará com certeza algum outro relevo ou novo encanto — como o seu valor excepcional de polemista se perdia, se não têm aparecido há tempos, coligidos em volumes, alguns dos seus artigos formidáveis.

Nós continuamos a ver nesses livros de Cartas documentos literários e psicológicos dum valor incontrastável. E, falando-se de Eça de Queirós, que de primores inéditos se não perdem, inestimáveis de ironia e de leveza, talvez de notas imprevistas e esplêndidas!

O valor das Cartas excede ainda, a nosso ver, o das Memórias. Falam com mais clareza, com despreocupação, com mais verdade. Rasgadas, deitariam sangue, — como diria Emerson. São confessionários, tanta vez, de palavras profundas e eternas. A alma, torva ou luminosa, fica ali em farrapos, no rescaldo das lágrimas ou na asa crespa do riso. Valem a peso de ouro. Nas Memórias, como nos Diários, sobretudo de literatos, de artistas e políticos, ainda se descortinam com frequência os homens a esconder-se, um ou outro autor a espreitar... A história, os costumes, a vida enfim, nas suas mil facetas de entremez e de tragédia, reflete-se na intimidade das Cartas como num espelho que ninguém foi embaciar. Mas não queremos insistir no que, sobre o assunto, escrevemos a propósito de Garrett.

Cremos que, em qualquer parte, tratando-se dum homem como Eça de Queirós, alguns volumes de Cartas estariam publicados. Verdade é que, por cá, raro há tempo de sobra para homenagens àqueles que são a nossa mais legítima glória. As cartas de Herculano começaram a publicar-se outro dia... Julgamos, contudo, haver prestado um serviço às Letras de Portugal, se estas nossas palavras conseguirem salvar da dispersão e do esquecimento as páginas deliciosas que hão de ser a correspondência particular do grande romancista. Sem elas ficará incompleta a sua obra póstuma.

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JÚLIO BRANDÃO
"Poetas e Prosadores: à margem dos livros" (1920)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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