terça-feira, 16 de julho de 2019

Coloured people (Conto), de Ronald de Carvalho



Coloured people
(Estados Unidos)

Só o negro sentiu e transmitiu o lirismo da terra, nos Estados Unidos. Somente ele conseguiu transpor a fronteira da imaginação criadora. Rodeado de máquinas, desforra-se das técnicas niveladoras, pelo canto e pela dança.

O Jazz e o Bine constituem, até agora, as expressões humanas de maior potencial inventivo norte-americano.

Se os povos se caracterizam pela poesia e pela mímica, só uma raça, nos Estados Unidos, encontrou o seu radical: a raça de Booker Washington e de Du Bois. O ritmo norte-americano está na música e no gesto dos negros. Este ritmo se impôs ao mundo, de tal maneira, que, hoje, em face das construções mecânicas, diante do rádio, do arranha-céu e da lâmpada elétrica surge sempre a imagem do jazz e do blue.

Debaixo da epiderme branca das girls agita-se a coreografia negra.

Em repouso, um grupo de dançarinas de Holywood é uma réplica da estatuaria clássica. Mas aqueles membros, que foram modelados para o minueto e a valsa, quando entram em movimento contrariam a essência da sua origem. Desmancham-se os quadris em contorções violentas, batem pesadamente os pés sobre os calcanhares, a linha dos ombros ondula vertiginosamente, as cabeças têm oscilações de pêndulos furiosos, as faces arreganham-se, com o aspecto das máscaras congolesas, e os músculos vibram, em descargas repentinas.

O tã-tã da macumba deforma e absorve a plasticidade ariana.

A alma do negro infiltra-se e possui os corpos saxões.

Quando o americano dança ou canta, o negro, recalcado por vários séculos de opressão, vem à tona e escraviza os senhores

I too am América, disse o poeta.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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