terça-feira, 16 de julho de 2019

Entre Nova-York e Laredo (Memória), de Ronald de Carvalho


Entre Nova-York e Laredo
(Estados Unidos)

A ventanilha do "Observer-Car" vai absorvendo   devolvendo, em quadros instantâneos, as terras americanas. A velocidade multiplica os espetáculos, condensa as paisagens, transforma campos, vilas, e cidades em schemas dinâmicos.

Os rebanhos de touros e carneiros projetam-se sobre as arvores, colam-se às casas rústicas das granjas, desaparecem, entre bandejas de verdura, e tornam a voltar, pendurados em montículos ou esparramados em manchas pardas sobre os vales.

De vez em vez, a cúpula de um capitólio provinciano sucede aos largos mantos d'água do Missouri.

Por toda a parte, a lição da igualdade.  O "standard" arquitetônico reproduzindo o "standard" ético e social. Tudo disposto para o verão: chapéus, galhos de arvoredo, varandas de roças, trajes masculinos, vestes femininas.

Os Estados da União diferem, entre si, apenas pelos nomes.

O andar do camponês, preciso, retilíneo, seguro de si mesmo, assemelha-se ao do corretor de Wal-Street, ao do operário de Petersburgo, ao do político de Washington. Acompanhando as vacas e os bois, o agricultor americano não segue os animais com aquele instinto amoroso do pastor europeu, mas com a decisiva energia de um jogador de Bolsa. A massa viva do gado converte-se, no seu olhar duro e ávido, em operação comercial, em títulos, em cifras.

Mireio não nasceria aqui. O lirismo da terra não se infiltrou nessas almas algébricas.

Ao meu lado, na poltrona do Pullman, um senador do Arkansas procura explicar-me a geografia do seu país. Observo que só a dimensão o seduz. Tudo se traduz, no seu espírito, em pesos e medidas. Seu cérebro registra estatísticas. Ele não vê o pinheiro, vê os pinhais, não escuta a sinfonia mas enumera os instrumentos que a executam. Não o ouço mais. Suas palavras confundem-se com os sons dos aços que trepidam, incorporam-se aos ruídos metálicos do trem.

Retomo o fio do meu pensamento.

A raiz da civilização norte-americana entranha-se num desesperado urbanismo.  Os campos industrializam-se, à espera das futuras cidades, que virão, mais tarde ou mais cedo, lastrar sobre aquelas ervas, que se agitam ao vento morno de julho.

No alto do seu cavalo, o "cowboy" já tem o aspecto do policeman.

O mais humilde cultivador ó um pequeno Babbitt recalcado, que sonha com um rádio, um Ford e um banheiro de azulejos. As multidões brancas dos Estados Unidos caminham sempre em direção à cidade.

Por isso, as criações do branco são um fenômeno de justaposição. As complexas correntes migratórias aglutinam-se à feição dos bancos de coral. Produzem uma vegetação rica, mas disparatada, onde permanece, indestrutível, a constante europeia. Suas expressões mais características renovam o modelo primitivo. O Woolworth Building é gótico. O Capitólio é greco-romano. As colunas de Chicago ou de São Francisco têm cem metros ou mais de altura. Mas a quantidade não esconde a qualidade. Ao contrário. Diminui. Com má vontade, poderíamos dizer que a enormidade norte-americana é uma diminuição involuntária da Europa. O fenômeno, entretanto, não é esse. O yankismo é uma adaptação, em planos desmesurados, da técnica europeia. É uma grandeza material, de caráter provisório. Uma grandeza que busca as suas proporções. O espírito ainda não lhe insuflou vida própria.

Os Estados Unidos atravessam uma fase de civilização com andaimes. Todo o esforço da sua cultura está, justamente, em poder retirá-los, quando a obra de criação verdadeira estiver concluída.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)
Imagem: "Sanguínea de Antônio Carneiro"

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