quinta-feira, 4 de julho de 2019

Conversão (Conto), de Lourenço de Caiola



Conversão

O Bernardo tornara-se apaixonado convicto das ideias revolucionárias. E não eram só as de natureza política que germinavam e floresciam no seu espírito. Estas conjugavam-se com o ódio aos padres, à Igreja, aos santos, a tudo o que fazia lembrar a reação e o obscurantismo dos tempos passados, como o Marcolino afirmava, em voz muito firme e serena, quando falava no Centro Fraternidade e Ateísmo, a que ambos pertenciam.

Não professara sempre essas ideias. E hoje tinha vergonha de si mesmo ao lembrar-se de que em pequeno, na sua terra natal, andava sempre agarrado ao sacristão da matriz, pedindo-lhe que o deixasse vestir uma opa nos dias de festa, e da alegria com que se enfileirava nas procissões, erguendo muito orgulhoso uma cruz ou um pendão. Outras vezes escapulia-se para a torre e conseguia que o sineiro o deixasse tocar algumas badaladas no sino mais pequeno.

Quando fora chamado para a vida militar, sua mãe, pobre mártir dolorosa, pusera-lhe ao pescoço uns bentinhos e um pequeno Cristo de prata, a que lhe pedira muito que se apegasse nas horas de aflição, porque lhe fora dado pela sua madrinha, que morrera em fama de santa. Mas, pouco depois, fora transferido para a Infantaria 5, em Lisboa; começara a ouvir dizer a alguns camaradas, no quartel, e aos amigos, na taberna, para onde ia sempre, antes do recolher, que tudo isso de imagens e religiões eram histórias da carochinha, e assim se iniciara a libertação do seu espírito, que estivera, até então, imerso na mais profunda ignorância, como só agora o reconhecia.

Quem mais concorrera para essa mudança tão radical no seu modo de pensar fora o Marcolino, um broxante do bairro, rapaz magro, de andar bailado, olheiras cavadas e negras brilhando como carvões, que era um gosto ouvir quando desancava "a corja da padralhada e as superstições do catolicismo". O Bernardo não percebia bem o sentido daquelas palavras, mas isso não diminuía a admiração que lhe produzia, vendo-o, com as feições de iluminado, anunciar uma era de felicidades e de gozos para todos, quando aqueles erros estivessem destruídos.

Fora ele na realidade o seu guia, quem o fizera gente. Como se sentia agora diferente do tempo em que se desbarretava, humilde e mesquinho, lá na terra, diante do Dr. Guedes, porque era doutor, ou do Sequeira de Castro, porque era fidalgo, como se qualquer dos dois não fosse também feito de carne e osso!

Abrira felizmente os olhos a tempo. Todos eram iguais. Diziam os que pretendiam justificar os modos altivos de Sequeira de Castro que o fidalgo tinha muitos avós. Mentira completa, porque não podia ter mais de quatro, como lhe sucedia a ele, apesar de não passar dum deserdado da sorte. Por isso repetia em ar de desafio: "Para mim agora vem de carrinho", frase que copiara ao taberneiro da Graça, um dos mais devotados e decididos propugnadores das ideias novas naquele bairro.

Quando teve a baixa já namorava a Isabel, engomadeira. Era uma rapariga muito fresca, de faces rosadas, olhos escuros e profundos, cabelos negros, peitos fartos e desenvolvidos de mulher criadeira. Tinha a simpatia de todos que a conheciam, por ser muito bondosa, asseada e trabalhadora, com condições para fazer feliz o homem a quem se unisse. Um tio dela, que juntara uma pequena fortuna com um lugar de hortaliça na Rua do Sol ao Rato e que resolvera regressar à província, prestava-se a passar-lhe o lugar, e desse modo pôde apressar-se o casamento.

Um dia o Bernardo disse à Isabel que desejava que a cerimônia se efetuasse daí a dois meses. Ela escutou-o num alvoroço de alegria, mas o seu contentamento esfriou muito ao ouvir-lhe estas palavras:

— O casamento é só civil. Já sabes que não quero nada com os malandros dos padres.

— Oh! filho — objetou ela timidamente —, um casamento que não se faz na igreja parece que não é abençoado por Deus.

— Qual Deus, nem qual Diabo — replicou o Bernardo sacudidamente. — Deus não precisa meter-se na minha vida.

A Isabel ainda replicou, com as lágrimas nos olhos:

— Que más ideias te meteram na cabeça! Verás que ainda vamos a ser desgraçados.

Mas o Bernardo não cedeu. Ia-se enternecendo quando a viu chorar. Gostava muito da sua namorada. O coração quase o obrigara a concordar com o desejo que ela tão comovidamente manifestara.

Mas lembrou-se do que diriam os seus correligionários se ele transigisse, e por isso terminou a conversa exclamando:

— Já conheces as minhas ideias e sabes que não posso ceder. Os padres não nos podem dar felicidade. Sejas tu sempre boa rapariga e eu um homem honrado e trabalhador, e verás que não nos havemos de arrepender.

Logo que casaram e se instalaram na sua casinha, o Bernardo, esperto e ativo, entrou a alargar o movimento do lugar, adquirindo na terra novos gêneros em boas condições e realizando assim lucros valiosos. A Isabel, pelo seu lado, mourejava também sem descanso. Passava todas as horas de que podia dispor agarrada ao ferro, com a cara muito vermelha do calor, mas cantando como uma cigarra, numa voz muito argentina, e dando desse modo expressão à alegria do seu viver.

O lugar foi-se transformando a pouco e pouco num centro político. O ervanário do lado, o Tomé, cara de poucos amigos, sempre azedo e refilão, com a cabeça enterrada num boné de pala já muito ensebado, e a barba rala e maltratada, fazia ali o seu quartel-general, aparecendo só de fugida no seu estabelecimento. Juntavam-se também, tanto de manhã como de tarde, o Afonso, sapateiro da escada defronte, e o Carlos Pinto, cuja profissão ninguém conhecia, dizendo-se, à boca pequena, que era um espião da polícia.

Essas reuniões convertiam-se, a miúdo, numa assembleia revolucionária. Repetiam-se frases ouvidas outrora com entusiasmo nos comícios. O povo lutara e sacrificara-se pela sua emancipação. Correra muito sangue para se conseguir que a Pátria fosse dignificada.

Instituíra-se um regime fundado na liberdade e na igualdade. Mas de fato — tinham de o reconhecer — as coisas pouco ou nada haviam mudado. Os pobres continuavam a lutar com a miséria, e figuravam como grandes senhores, desprezando os que os tinham guindado ao poder e à fortuna, muitos que ainda ontem viviam na maior modéstia e humildade.

Era o Tomé, principalmente, que fazia ouvir com maior veemência estas lamentações.

Falava como se estivesse a discursar. A palavra saía-lhe sibilante dos lábios muito delgados.

Carlos Pinto ajudava-o, sentindo-se também revoltado. Em geral o Afonso e o Bernardo assistiam calados à explosão daqueles ódios, envergonhados de confessar que se sentiam logrados, mas reconhecendo, no fundo, que os camaradas tinham razão.

A Isabel desesperava-se com tantas discussões, e, quando via o marido mais calmo, prevenia-o, receosa:

— Deves evitar esses ajuntamentos. Os fregueses não gostam de gritarias, nem de políticas. Além disso tenho medo do Carlos. Tem tão má fama! Quem sabe se um dia não vens a sofrer algum desgosto por te deitar as culpas do que ele mesmo diz?

— Cala-te, mulher. Deixa-te de tolices. As minhas ideias são conhecidas. Estão no governo alguns que sabem bem quem eu sou. Viveram muito comigo, nos tempos da propaganda.

— Mas agora talvez se não lembrem de ti. O Tomé é que tem razão.

— Não percebes nada de política. O Tomé está furioso porque queria ser nomeado para o registro civil. Noutros tempos era um reacionário, andava em procissões e vivia quase de casa e pucarinho com o tesoureiro cá da freguesia.

— Tens razão — arrematava a Isabel, condescendente —, não sei nada de política. Mas o que sei é que não temos ganho nada com os barulhos que tem havido.

— Respira-se melhor. Já não há roubalheiras e não temos o peso dos padres.

— Eu dantes não respirava pior, nem sentia o peso de ninguém.

— Já te disse e repito — terminava o Bernardo, casmurro e de mau humor —, não te metas onde não és chamada.

Nos dias em que o Marcolino aparecia, as discussões eram ainda mais vivas e adquiriam maior solenidade. O broxante como que pontificava. Todos lhe reconheciam a superioridade e a inteligência. Logo que começava a falar, aquecia-se com as próprias palavras e as frases saíam-lhe em torrentes dos lábios nervosos, enchendo de pasmo os que o ouviam.

Fixava a vista num ponto distante, a face tornava-se-lhe mais pálida, e afirmava sem exaltações, com a sinceridade e a fé dum apóstolo. Bem sabia que havia descontentamentos. Mas isso só provava a sinceridade das convicções dos que os sentiam.

Lembrassem-se, porém, de que tínhamos uma Pátria a refazer, que tudo estava no caos e que não se podia chegar dum salto à perfeição. Atacara-se o predomínio da Igreja.

Agora já não havia deuses, nem santos, nem altares. Havia simplesmente homens, todos iguais. Isso bastaria para se deverem sentir gloriosos da obra realizada. Pela sua parte passava muitos dias com fome. O capitalismo, que não pudera ainda ser vencido, negava-se a utilizar-lhe os braços. Mas assim mesmo, roto e desprezível, sentia-se feliz e continuava firme no seu posto, na ânsia de redimir o seu país, de tornar felizes os seus irmãos. Não havia razões para esmorecimentos ou desânimos. Era preciso continuar na luta contra tudo o que escravizava a consciência humana. Quem não era por nós era contra nós. Não condenava os desabafos que ali tinham. Estavam entre amigos, entre camaradas. Mas não deviam reproduzir lá fora as suas queixas. Se elas fossem ouvidas para além daquelas paredes, a reação aproveitá-las-ia para abrir brecha nos seus adversários.

Os outros bebiam-lhe as palavras sonoras e embriagavam-se com elas, jurando que iriam com ele até à morte. Homens assim é que mereciam ser escutados e seguidos com devoção.

Nessas noites o Bernardo dizia para a mulher, ainda encantado com a impressão das frases retumbantes do broxante:

— Ouviste alguma coisa? Aquilo é que é falar!

— Pouco ouvi. Estava entregue ao meu trabalho. Sabes bem que aquelas conversas não me entretêm.

— Sim. Aquele não é para mulheres. Mas com que calor e entusiasmo ele fala! Se o visses lá no Clube! Até o Dr. Azevedo, um que é deputado e está agora no galarim, tem medo dele que se fina. Para os padres, então, é um carrasco.

— O que eu queria — replicava a Isabel com carinho, procurando convencê-lo — era que te deixasses dessas manias, que nenhum proveito nos podem dar. Os outros é que figuram e enriquecem, e nós havemos de precisar sempre de viver do nosso trabalho. Lembra-te que daqui a pouco vamos ter um filho e precisaremos ganhar a vida mais ainda do que até aqui.

O Bernardo fitava-a enraivecido e monologava:

— A culpa tenho-a eu, tenho. Já devia saber que as mulheres são, em geral, umas retrógradas, que não sabem compreender o progresso.

A Isabel estava na realidade prestes a ser mãe, e as paixões de seu marido tiveram então um período de esmorecimento. Ela sofria muito, deixara de engomar porque o calor do ferro lhe produzia sufocações, e por isso o Bernardo, no fundo meigo e carinhoso, consagrava todo o tempo de que podia dispor a acompanhá-la, cercando-a das maiores ternuras. Deixara mesmo de ir ao Clube, que ficava lá muito longe, para os lados da Graça.

Na loja, preocupado com a ideia de que a mulher podia morrer, de tal modo lhe notava um enfraquecimento crescente, conservava-se pensativo e abstrato, respondendo com monossílabos ao que os outros diziam.

E assim, pouco a pouco, o Tomé começou a afastar-se. Nascera-lhe a suspeita de que ali havia tramoia, talvez obra da reação, empenhada em abalar o formidável baluarte de liberdade que ele e os seus companheiros tinham erguido contra ela.

Quem sabe se o Bernardo teria sido aliciado para a sua causa? O Carlos Pinto declarou logo que já sentia há muito tempo a mesma desconfiança. Andava desde longe com a pedra no sapato, acreditando pouco na sinceridade de crenças do "comerciante de nabos", como ironicamente costumava chamar ao Bernardo. Aquilo não passava dum relento do Marcolino, embeiçado talvez pelo belo corpo da Isabel, e contava, então, que, ainda há dias, entrando no lugar, por acaso, a vira a ela bisbilhotar ao canto, em confidências e em segredinhos com uma velha ranhosa, a criada do Dr. Lemos, jesuíta de marca, com grande entrada no Patriarcado. E acabava, congestionado de ira:

— A mim nunca o gajo me enganou. Vocês é que eram uns palermas em lhe darem crédito.

Só o Afonso, o sapateiro, menos esturrado, é que resistia, convencido de que o vizinho não se passava para o partido dos jesuítas. Ele que se mostrara sempre tão sincero, e de quem o Marcolino continuava a ser amigo! Podia lá ser!

— Mas por que é que já não vai ao Centro?! Diz lá, tens-lo lá visto? Por que é que está sempre embezerrado como um pato mudo, quando nós falamos? — perguntava o Carlos, cada vez mais excitado.

— Sei lá — respondia o Afonso, confuso, num abanar de ombros imbecil. — O que digo é que não é homem para nos atraiçoar. Isso é que eu podia jurar.

Pouco depois nascia um pequeno. A Isabel fora feliz e a criança apresentava-se com um aspeto magnífico. Desde essa hora, Bernardo dedicou ao filho uma verdadeira idolatria. Era ele quem o passeava de noite, quando o pequeno chorava, para que a mulher não se mexesse e não apanhasse algum resfriamento, porque as manhãs corriam muito frias e agrestes. Era ele quem o adormecia muitas vezes, quando via a Isabel já extenuada, com os olhos a fecharem-se-lhe pedindo descanso.

O Marcolino fora para o Norte, dizendo-se que o levara ali a realização de um projeto grandioso, o de conseguir a federação de todos os elementos operários, em prol da liberdade e da emancipação do gênero humano. E os seus admiradores repetiam estas palavras quase com idolatria, pasmados com a magnitude da empresa.

As crenças de Bernardo não se tinham modificado. Haviam sido as apreensões pela saúde da mulher e a ternura que sentia quando tomava nos braços robustos o indez do filhinho que lhe tinham amolecido um pouco as energias, mas as ideias que o fanatizavam desde que viera para Lisboa continuavam bem firmes a dominar-lhe o cérebro.

Um dia tinha ido, a pedido da Isabel, a casa das Barcelos. Eram duas irmãs muito velhinhas, a quem a mãe de sua mulher servira durante largos anos, onde por isso a engomadeira brincara em pequena, e que lhe haviam ficado querendo como se fosse sua filha. As santas senhoras queriam dar-lhe umas peças para o enxoval da criança. O Bernardo voltou com o embrulho, dizendo:

— Lá estive com as velhotas. Mandam-te muitas saudades.

A Isabel quis ver logo o que lhe tinham dado, ficando enlevada com a beleza da oferta. Eram cueiros, fraldas, corpinhos e babetes de fazendas magníficas, tudo feito com o maior apuro e com guarnições de rendas delicadas e finas. E, à medida que ia admirando e pondo para o lado todos esses objetos que o seu filho muito querido viria a usar, exclamava:

— Coitadinhas, coitadinhas, como se lembraram de mim. São umas santas!

— O que elas são — interrompeu o Bernardo — é umas beatas que metem nojo.

— Não digas isso — replicou ela, indignada. — É assim que lhes mostras o teu agradecimento?

— Trataram-me com muitas atenções e mesuras, não há dúvida. Estenderam-me a mão e perguntaram-me por ti e pelo pequeno. A mais velha até quase que me fez chorar contando-me o susto que tivera julgando que não resistirias ao parto. Por isso mesmo é que me fez mais raiva o que lá vi.

— Então o que é que tu viste que te pudesse causar raiva em casa dumas senhoras de tanta bondade?

— Sabes o que vi?! Imagens por todos os lados e em todas as paredes. Entrei numa sala onde havia um oratório com uma lamparina acesa. Até tive náuseas, não sei se por causa do cheiro do azeite. A D. Amélia queria que eu te trouxesse um Cristo dourado para pores ao pescoço do menino.

Respondi que era melhor dar-to a ti, porque podia perdê-lo, e a outra, a mais rebiteza, descobriu que tem de ir pagar uma promessa ao Senhor dos Passos, feita por tua intenção. Ah! bom arrocho!

Desta vez a Isabel não se pôde conter. Sentiu acudirem-lhe aos olhos lágrimas de revolta. E, com a voz trêmula, exclamou:

— Cala-te, homem, para que Deus não nos castigue. Como te estragaram esses que tu admiras e como conseguiram dar-te cabo do coração! Tua mãe também tinha religião e não era má mulher. É preciso ser-se muito mau para falares como estás falando.

— Eu não sou mau — disse o Bernardo, sentindo que a mulher tivera razão em se ter zangado tanto. — Mas não posso aturar aquele beatismo. Se Deus existe, é melhor deixarem-no sossegado no Céu e não o maçarem a toda a hora. — E depois, mais conciliador: — Não me lembrava que diante de ti não se pode tocar naqueles santantoninhos. Dá cá um beijo e não te arrelies mais, que eu não tornarei a incomodar "suas insolências" — concluiu ele gracejando e fazendo umas festas na cara de Isabel.

Mas o que se acabara de passar impressionara-o no íntimo, profundamente. Sim, a sua mulherzinha, sempre tão dedicada, tinha no fundo alguma razão. As Barcelos eram umas boas velhinhas. Era uma pena terem aquela mania dos santos. Acreditavam em milagres e noutras tolices iguais. Mas isso provinha de serem antigas e de não terem tido quem lhes abrisse os olhos. Não as tinham ensinado, não podiam compreender a marcha do progresso e da civilização, como o Marcolino sabia explicar com tanta clareza. Não era motivo para lhes querer mal, e só devia lamentá-las.

O pequeno prosseguia muito forte, prendendo de dia para dia e cada vez mais o coração dos pais. Quando fez um ano já dava uns passinhos, querendo libertar-se definitivamente. O pai passava horas a rir-se com ele, amparando-o quando o via quase a cair e exclamando ao vê-lo cambalear:

— Era pai, que grande camoeca. Hoje foi bebedeira de caixão à cova.

Manuelzinho derretia-se às gargalhadas, parecendo que já compreendia o que lhe dizia. Revelava muita vivacidade e tinha muita graça. Já proferia algumas palavras: pai, mãe, pão, com a vozinha muito entaramelada ainda, pedindo tudo o que tinha à vista, dando gritos de desespero e tendo birras que lhe arroxeavam as facezinhas se lhe tiravam alguma coisa dos deditos, que mal se viam, e tanto o Bernardo como a Isabel riam, riam perdidamente, como duas crianças também, em face desse pequeno ser que era como que a materialização do seu amor.

Do negócio só tinham razões para dizer bem.

Continuavam a ter meios suficientes para gozarem uma existência desafogada e sem cuidados. A Isabel, acabada a criação, voltara à sua vida de engomadeira, e conquistara tanta freguesia que fora obrigada a contratar uma rapariga para a ajudar. Não tinham pois que se queixar do destino e, ao contrário, a vida corria-lhes tranquila, prometendo-lhes novas felicidades.

O Tomé afastara-se de todo desde que um dia o Bernardo o insultara e quase lhe batera, por ter denunciado como inimigos perigosos do regime o Lopes fanqueiro e o filho, incapazes de fazerem mal a uma mosca e de se meterem em qualquer aventura, só porque o Lopes pai o quisera obrigar a pagar uma quantia que ele lhe devia há muito tempo. O Carlos Pinto andava fugido, por estar implicado nos crimes duma quadrilha de falsificadores de letras. Fora o Dr. Azevedo, o deputado, que o salvara, prevenindo-o para se escapar a tempo. Só o Afonso é que aparecia de longe em longe, muito triste, sentindo velhas e emurchecidas as suas antigas ilusões. O próprio Marcolino raras vezes ia ao lugar. Viera desalentado do Porto.

Todos falavam muito, mas eram bem raros os que se resolviam a caminhar para a frente.

Os operários do Norte não o haviam compreendido. Notava-se uma cobardia geral. E o que ia sucedendo era bem diverso daquilo que tão entusiasticamente sonhara. Mas nem por isso desistira de lutar. Muitos dos que antes mais o impeliam para o combate e mais o adulavam com lisonjas, por sinal bem falsas e interesseiras, evitavam agora o seu convívio e pelas costas chamavam-lhe louco e outros nomes piores. Nada lucrava com a revolução. Continuava a viver do seu trabalho, quando o podia alcançar, porque muitos patrões não o queriam aceitar, assustados com a fama de perturbador que criara. Por isso passava dias de penúria e até de fome.

Em compensação, muitos dos que conhecera ainda mais miseráveis do que ele ostentavam agora riquezas e dispunham de poderio. Nada disso, repetia mais uma vez com inquebrantável fé, o faria abjurar dos princípios e das ideias que constituíam a razão de ser da sua existência. Se um dia se reconhecesse vencido e visse que nada havia já a tentar, não se resignaria ao malogro das suas crenças e a bala de uma pistola poria fim à sua vida.

No espírito de Bernardo causava a mais amarga e desconsoladora impressão esta linguagem, que nunca supusera poder ouvir daqueles lábios, antes aquecidos de tanta fé.

E assim, das discussões que dois anos passados ali se tratavam com tanta fé, quando todos os do grupo vibravam por igual nas mesmas esperanças e em igual entusiasmo, nada existia já, e a crença que os animara amolecera, em grande parte, nos seus corações.

O Centro Fraternidade e Ateísmo caíra também em decadência. O Marcolino, revoltado com as lutas em que ali se haviam digladiado a pretexto da eleição da direção, só de longe em longe lá aparecia.

O Bernardo chegava a desafogar os seus desânimos com a mulher. Já a ouvia com melhor modo e até, por vezes, chegava a concordar com ela. Sim, tinha talvez razão. Os pobres e sinceros como ele, grilhetas eternos do trabalho, fariam melhor deixando-se de políticas e não pensando em ilusões, de que só os ambiciosos se aproveitavam para subir e medrar.

Uma noite a Isabel disse-lhe que estranhava muito o pequeno. Via-o triste há dois dias, sem que o riso lhe abrisse a covinha do rosto, tão graciosa que ela aproveitava para a transformar num sacrário de beijos, e, ao contrário, chorava a miúdo, apontando para a cabecinha, como se sentisse ali alguma dor. Perguntava-lhe muitas vezes o que lhe doía, mas a criancinha não soubera explicar-se. Parecia-lhe melhor mandar chamar o médico da Associação, porque receava que fosse alguma coisa de cuidado. O Bernardo ouvia com uma sensação de pavor.

Concentrara no filhinho as melhores ternuras do seu coração. Repugnava-lhe a ideia de o ver queixar-se sem ter nas suas mãos meio de lhe minorar o sofrimento.

No dia seguinte, logo de manhã correu à farmácia, a pedir que lhe mandassem o médico a sua casa. De tarde apareceu efetivamente o Dr. Amaral, rapaz ainda bastante novo, de óculos e barba apontada em bico, que já conquistara grande fama no bairro pelas curas milagrosas que conseguira realizar.

Os outros médicos do sítio acusavam-no de ser excessivamente teórico, apaixonado por tudo quanto constituía uma novidade, exagerado até à mania pela assepsia e por todos os modernismos, mas no fundo sabendo tão pouco que precisava andar dias e dias à roda dum doente para chegar a conhecer o mal de que ele padecia. Apesar disso a sua fama não cessara de crescer e era geral o coro com que os pobres lhe abençoavam o saber e, mais ainda, a paciência e a caridade.

De tarde o Dr. Amaral veio ver o doente. Auscultou-o cuidadosamente. Pediu à mãe, fazendo-lhe repetidas perguntas, que lhe expusesse todos os sintomas que lhe notara, e despediu-se, depois de escrever uma receita, dizendo que não havia de ser nada de cuidado e menos ainda de perigo, que nas crianças qualquer incômodo se manifestava com uma febre muito violenta, que era preciso seguir-se uma higiene muito rigorosa e atender-se sobretudo à alimentação.

Voltaria no dia seguinte e já esperava então poder diagnosticar a doença com segurança. E quando o Bernardo, à saída, lhe pediu, com o olhar anuviado de lágrimas, que lhe falasse com franqueza e lhe dissesse se podia estar tranquilo, respondeu serenamente:

— Já disse à sua mulher o que me parece. Não sei bem ainda o que tem o pequeno, mas não lhe encontro nada que nos dê motivo para nos assustarmos.

O Manuel passou a noite muito inquieto. O corpo escaldava-lhe. Não havia maneira de lhe acalmar o choro. Com os olhos muito brilhantes, fixava ansiosamente a mãe, parecendo que lhe pedia socorro. A Isabel ameigava-o sem resultado, conchegava-o muito ao peito, embalava-o com a maior doçura, cantando-lhe cantigas que sua mãe lhe ensinara, quando ela era pequena, mas nada conseguia. Então o Bernardo tirava-lho dos braços, julgando que era a mulher que não tinha jeito para o aquietar, mas passados momentos reconhecia, aflito, a sua impotência.

No outro dia, o médico tornou a observar atentamente a criança. Esta mostrava-se mais tranquila. Tratava-se duma enterite. Era preciso tratá-lo só a leite. O menor abuso na alimentação poderia ser-lhe fatal. Se houvesse cuidado, muito cuidado, a doença seria debelada.

E, depois de estabelecer um novo receituário, já com o chapéu na mão, recomendou à Isabel:

— Depende de si ver o pequeno, em breve, completamente bom. Ainda que ele chore e peça qualquer coisa de comida, nada de ter dó, nada de imprudências.

— Esteja descansado, senhor doutor — replicou a Isabel, sentindo-se já reanimada. — Seguirei à risca os seus conselhos.

E, logo que o médico saiu, agarrou-se ao marido, rindo numa grande explosão de alegria e beijando-o, ao mesmo tempo que dizia:

— Sempre apanhamos um susto! Mas agora já estamos descansados. Deus não nos podia querer roubar o nosso filho.

Desta vez Bernardo não protestou. Continuava a não acreditar na existência de um poder superior. As doutrinas de ateísmo que lhe haviam inoculado no espírito ainda lá conservam as suas raízes mais fundas, embora já não tivessem a força e a energia de outrora. Mas entrara num período de quietação, todo dedicado à felicidade da sua mulher e do seu filhinho.

O Manuelzinho melhorou rapidamente. O Dr. Amaral ainda foi vê-lo mais três vezes.

Na última, considerou-o em plena convalescença, mas aconselhou de novo que continuassem a regular-lhe com muita cautela a comida. Podiam já dar-lhe farinhas, mas, nos oito dias mais próximos, não passassem daí.

Na alma de Bernardo, ao desassossego em que se debatera, sucedeu uma confiança absoluta. O pequeno ainda se mostrava muito fraco, conservava a facezinha pálida, mas já ria muito quando o pai tocava desesperadamente num tambor que dias antes lhe comprara e era agora o seu maior encanto. Queixava-se muito menos das dores, a febre quase lhe desaparecera de todo, notando-lhe apenas a mãe a pele um pouco quente, ao morrer da tarde.

A tal ponto a tranquilidade renascera no espírito de Bernardo, que, três dias depois da última visita do médico, ele retomou a sua vida habitual. Acedeu até ao pedido do Marcolino para o acompanhar ao Centro, onde era preciso que os dois fossem convencer os diretores a não tomarem parte numa manifestação de livre pensamento promovida por elementos suspeitos, que queriam explorar com o povo e dar-lhe provas de um zelo e de uma dedicação que só nos tolos poderia iludir. Iriam à hora da sesta, porque a resolução não podia ser adiada, tendo por isso a reunião da direção sido convocada para essa tarde.

O sol estava bastante quente. Um sol de junho, que queimava as pedras das calçadas. Seguiram a pé até ao Rossio e aí tomaram lugares no elétrico da Graça.

No caminho para a Baixa, acotovelando-se com uma multidão que seguia ou indolente ou azafamada, o Marcolino foi desafogando a mágoa que o pungia.

Nunca imaginara que chegaria tão depressa ao desânimo que o dominava, tão grande que ele próprio já não se reconhecia. Por toda a parte esbarrava com traições às ideias por que se sacrificara com ilimitada abnegação e fé. Os que dantes lhe pareciam tão puros eram os que mais se salientavam agora, exigindo que se torcesse a lei e a moral só para poderem defender os seus interesses materiais.

Parecia que se entrara numa hora extrema e que já se ouvia o grito de "salve-se quem puder", não tendo os mais vorazes domínio em si mesmos para adiarem a satisfação das suas ambições. Tudo isto o desalentava e entristecia. E chegara ao ponto de perguntar muitas vezes ao seu cérebro e à sua razão: "Para que servia teimar mais? Para quê?"

outro ouvia-o um pouco embrutecido, sem saber o que havia de replicar. Dantes era o verbo ardente desse lutador modelo que lhe insuflava ilusões e esperanças. Agora, vendo-o tão abatido, sentia-se invadir pelo mesmo esmorecimento.

Ao regressarem, Bernardo mostrava-se satisfeito. Convidou o Marcolino a jantar com ele. A Isabel não pudera esperar, tanto tinha tido de trabalhar por ter atrasado muito os engomados nos últimos dias, e comera à pressa, enquanto os ferros aqueciam. Mal os viu chegar, pôs-lhes a sopa na mesa, uma sopa apurada e apetitosa de grão e arroz, e voltou de novo para o trabalho.

Os dois amigos trocavam impressões sobre o que se passara no Centro. Fora bom terem lá ido, porque assim se haviam desvanecido equívocos que os traziam desanimados há muito tempo. O Manuelzinho soltara-se das saias da mãe e viera para ao pé da mesa, apontando muito guloso para o prato do pai, numa intensa expressão de desejo. O Bernardo achou-lhe muita graça, e, pegando mesmo com os dedos num grão, meteu-lho na boca, que se estendia para ele sofregamente.

O pequeno riu-se como um perdido e, estendendo de novo o dedinho, pediu mais.

Repetidas vezes o pai lhe satisfez o desejo, até que o Marcolino lhe disse:

— Vê lá não lhe faça mal.

— Não faz. Não vês que ele já está fixe?

A Isabel, quando lho contaram, teve um pressentimento terrível. E, quase a meia voz, murmurou estas palavras:

— Fizeste mal, homem. O médico tinha recomendado tanto que tivéssemos cuidado!

O Bernardo, já arrependido do que fizera e querendo combater o seu remorso, replicou de mau humor:

— Não estejas para aí com escarcéus só para me ralar. Não há de haver novidade.

Mas logo nessa noite a criança voltou a ter um dormir inquieto e agitado. A febre aumentou desabaladamente e não havia água que lhe refrescasse os beiços muito secos.

De manhã estava como amodorrado, quase insensível e mal podendo abrir os olhitos.

O Bernardo, mais assustado do que nunca, e no íntimo revoltado com a sua estupidez, não quis perder tempo e dirigiu-se diretamente a casa do Dr. Amaral, suplicando-lhe que fosse ver o filho sem demora. Quando o médico soube o que sucedera, não se conteve sem dizer:

— Que imprudência, que imprudência! Vamos ver o que é possível fazer-se.

No dia imediato não se notaram melhoras nenhumas. O doente continuava muito prostrado, e a febre inclemente parecia abrasar aquele corpinho tão tenro, que um nada poderia aniquilar para sempre.

O médico veio muito cedo. Observou-o com o olhar de uma grande penetração, fez-lhe um exame demorado, prescreveu-lhe um tratamento muito complicado e rigoroso, ordenando que lhe dessem repetidos banhos a uma temperatura abaixo do normal. No fim de cada um deles, o Manuelzinho ficava muito fresco e animado. Por vezes mesmo aflorava aos seus lábios um leve sorriso, mas, daí a pouco, voltava a ideia de que estava todo em chamas por dentro, de tal modo irradiava calor.

Nessa noite, o Dr. Amaral mostrou-se mais apreensivo. Analisou-lhe longamente a língua, palpou-lhe o ventre com uma pressão muito forte, fazendo chorar estridentemente a criança. Depois escreveu uma nova receita e disse:

— O pequeno não está bem, mas não devemos desesperar de o salvar.

Ao outro dia de manhã, as melhoras pareciam sensíveis. O quebramento de forças não era tão pronunciado, mas o doente continuava a pedir água com uma viva ansiedade. De tarde voltou a febre, com mais intensidade do que nunca. O olhar do Manuelzinho vagueava, sem se fixar em ponto nenhum. A Isabel chorava aflitivamente, dizendo-lhe o seu coração de mãe que ia perder o ente querido do seu amor. O Bernardo fitava-a, embrutecido na sua dor e desesperado por ter de ir à Baixa fazer uns pagamentos que não podia adiar.

Pouco depois dele ter saído, a criança sentiu-se mais aflita. Parecia às vezes que nem podia respirar. A mãe tinha-o no colo e debalde procurava aquietá-lo. Sem saber o que fazer e percebendo que o perigo era eminente, mandou à rapariga que a ajudava nos trabalhos de engomadeira que fosse a correr chamar o médico. Este estava na farmácia quase ao lado e acudiu com pequeníssima demora.

Tinha acabado de ver o doente há poucos minutos, quando o Bernardo regressou. Ao ver a mulher, sem poder suster as lágrimas, fitou-a angustiosamente durante um segundo, mudo e terrível como a sua angústia. Por fim perguntou-lhe, balbuciando tremulamente as palavras, com medo de ouvir a resposta:

— O médico já cá esteve? O que é que ele disse?

— Achou o pequeno muito mal. Tenho a certeza, Bernardo, que vamos perder o nosso filho.

— Não digas isso, que enlouqueço. Ele há bocado ainda parecia tão sossegadinho!

— Sim. Mas o Dr. Amaral, quando saiu, preveniu-me, com um ar muito triste, que já nada tinha a fazer aqui, porque só um milagre poderia salvar o menino.

— Um milagre!

— Só Deus o pode fazer. Porque não lhe pedes tu que não nos roube o nosso Manuelzinho, que é a luz da nossa alma?!

— Mas eu não sei rezar. Eu nunca acreditei em Deus!

E Bernardo inclinou-se para o colo da Isabel, onde o pequenino estava reclinado e parecia adormecido. Sentiu-lhe a respiração opressa, viu-lhe a facezinha de cera, e teve a impressão de que aqueles olhos, que tanta vez beijara, já não tinham luz.

Ela insistiu, de novo:

— Deus é bom, ouve-nos sempre nas nossas aflições e tem piedade pelas nossas dores. Até mesmo por tu seres um herege é que o teu arrependimento o há de comover. Queres ter o remorso de que o nosso filho morra por tua culpa?

Bernardo fixou-a então numa expressão de loucura. No seu íntimo travava-se uma luta desesperada. Hesitou ainda alguns instantes. Depois, como que automaticamente, foi ao pequeno baú onde guardava o uniforme militar, tirou de lá o Cristo de metal que sua mãe lhe colocara ao pescoço e em que ela tinha tanta devoção, pousou-o com respeito sobre a cama e ajoelhou, fazendo esforços desesperados para se recordar do padre-nosso, ao mesmo tempo que os olhos se banhavam num choro irreprimível e amargo.

Nessa ocasião entrou o Marcolino. No primeiro momento ficou estativo, sem poder compreender o espetáculo que presenciava. Mas viu o seu velho companheiro de lutas naquela atitude, ouvia-lhe a prece, formulada em palavras quase sem ligação, e em que o Bernardo implorava ao Senhor que conservasse a vida do entezinho a que prendera completamente as exaltações, e, com uma dorida mágoa, exclamou:

— Também tu renegas os nossos princípios? Para que lutar mais? Para quê?

O outro conservava-se ajoelhado, e foi numa voz cortada de soluços e quase incompreensível para os seus próprios ouvidos que lhe replicou:

— O médico disse que só Deus mo podia salvar. Já não tenho a esperar nada da Terra. Se tivesses um filho, havias de perceber o que eu faço!

Marcolino não respondeu uma palavra. Mas os olhos encheram-se-lhe, pela primeira vez, de lágrimas muito ternas e comovidas.


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Texto publicado  da edição de: bibliotronicaportuguesa.pt

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