quinta-feira, 4 de julho de 2019

Touros (Conto), de Alberto Bramão


 Touros

Tempos de capa e espada! bons tempos esses... Havia então a arte suprema de tornar pitoresca a vida, entrecortando-a de peripécias, de lances arriscados, de aventuras felizes. A altiva aspiração dos vinte anos era a conquista da glória para a conquista da amada. O orgulho indomável da mocidade só se rendia ante os encantos da escolhida do seu coração. O homem que não tinha coragem para antepor aos perigos, e braço de ferro para remover os obstáculos, não alcançaria cativar as graças de uma donzela.

A têmpera das almas nobres fazia-se na guerra ou nos torneios de encruzilhada.

D. Francisco de Quevedo e Villegas, que era feio como um bode, ceifou na seara amorosa muitos corações de donzelas. É que as raparigas desse tempo não gastavam afetos com um bigode mais ou menos retorcido ou com uma bochecha mais ou menos corada e delambida. Os Dâmasos Salcedes do nosso tempo, se os transplantassem para a idade media, poderiam, quando muito, se nesse tempo as houvesse, servir de engomadeiras. Hoje são os leões da moda, e as meninas da baixa disputam-lhes as farripas da cabeleira casposa, com a mesma avidez com que Alcidonie e Josephine, duas velhotas ósseas do romance de Parrel, disputavam as graças do boticário da freguesia – um gordo!

A índole dessa época temperava-se na luta, quer contra os inimigos da pátria, alcançando foros nobiliárquicos e esporas de ouro, quer em arruaças noturnas, que davam à cidade uma atmosfera de perigo e de sobressalto. Isto durou principalmente até ao fugidio reinado de D. Afonso VI, em que os fidalgos partidários deste monarca epiléptico timbravam em apavorar o povo com acometidas de encruzilhada, raptos, arrombamentos e estocadas!

Lisboa nesse tempo era uma cidade recamada de lendas. O povo, compelido pela sua índole maldosa, e mais ou menos justificado pelo exemplo das camadas superiores, fazia-se rufião e desordeiro, e raro era o dia em que das pugnas populares não resultavam cadáveres e cenas de lacerante tragédia; porque, inibido de usar floretes e montantes, como os nobres, usava facas e navalhas, cujas lâminas brilhavam à luz amarelenta dos lampiões, nos momentos do conflito. Foi desta forma que apareceu o fadista, espécie de resíduo ignóbil de todas as camadas sociais, organizando uma classe à parte, cuja existência nenhum princípio de seriedade explica, e cuja perpetuação nasce do impulso tradicional desses velhos tempos.

Os bons homens das províncias e cidades subalternas, quando vinham dantes  à capital, revestiam-se de uma coragem tão grande e tão louca como a dos fidalgos heroicos que foram com D. Sebastião em defesa de Muley Mahomet.

Eles sabiam que em Lisboa a nota predominante era a facada, imposta ao ventre incauto dos estranhos pelos malandrins perversos que fermentavam nos bairros.

Alfama tinha assumido as proporções fatais daquela torre lendária, de onde a crônica extraíra esta inscrição desesperada: – Quem lá vai, lá fica! Todas as vielas, todos os becos tortuosos desse labirinto medonho tinham a sua historia e o seu crime.

Entrava-se em Alfama por uma dessas gargantas sinistras como goelas de tigres, e perguntava-se a algum mendigo que para ali resfriasse os ardores da fome sobre as pedras das ruas, a crônica arrepiada daqueles sítios.

Ali aparecera um homem estrangulado numa noite de inverno; acolá um fadista esfaqueara em delírio a amante ébria; mais adiante, num recôncavo de beco, fora enterrado, vivo ainda, um brasileiro ricaço, abafado pela mordaça e pelo punhal da malta; mais além, uma desgraçada postulenta, como laivos de gangrena no corpo arroxeado, emborcara de um trago uma infusão de fósforos, heroicamente, sobre a última baixeza de um amor profano e maldito...

É um nunca acabar, uma série ininterrupta de cenas trágicas, medonhas, escritas nas pedras soltas desse tortuoso bairro, infamíssimo, de onde a gente saía com o coração apertado e um acre sabor a sangue!

A Mouraria e o Bairro Alto começaram depois a fazer concorrência à criminalidade de Alfama, e a reclamar, com o direito irrecusável, os foros de terror que este bairro monopolizara por longo tempo. E, durante um período extenso, os jornais da capital iam espalhando pelo país inteiro toda a serie de crimes noturnos, sucessivos e delirantes, que constituíam a tragédia fadistal, passada entre malandrins de navalha e mulheres dissolutas, nos lupanares miseráveis e nos becos de onde mal bruxuleava, de longe a longe, a chama ensanguentada e tremula de algum lampião de azeite.

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Depois, a civilização, o progresso, todo o cortejo de conveniências, teorias e processos novos que constituem a maneira de ser da sociedade atual, começaram a destruir os velhos usos e os velhos crimes, demolindo casas, expropriando becos, policiando tudo, proibindo tudo, até a própria facada!

Os bairros que conservavam, desde Martim Moniz, o herói do Castelo de São Jorge, a sua fisionomia fantástica, revelando em cada ângulo um acontecimento histórico, e em cada contorno uma data celebre, começaram a entrar na uniformidade endossa e grave do nosso tempo.

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Mas todos esses episódios dramáticos, em que a facada se inspirava principalmente nos vapores do vinho, eram apenas o produto degenerado da faculdade guerreira, parodiando, em acometidas cobardes, os conflitos de espada, por onde outrora se aferia o valor físico e a grandeza moral de cada homem.

Dada a degenerescência da faculdade, impunha-se ao dever dos legisladores a sua incorporação nas previsões penais, pois que, tendo ela deixado de ser uma elevada manifestação heroica, passara a ser, por uma aviltante transformação, a inspiradora de hediondos e repugnantes crimes. O que fazia dessa faculdade uma virtude social era a altivez e a abnegação que a revestiam, pois que nenhum fidalgo, digno de tal título, deixaria jamais de arrancar a espada contra o homem ou a legião que o ofendesse, nem jamais deixaria de por o seu braço e a sua vida ao serviço da causa nacional, muito embora tivesse a absoluta convicção de morrer despedaçado no campo inimigo. À semelhança de Bayard, cada cavaleiro podia esculpir no seu escudo a divisa – sans peur et sans reproche.

Isto vem mais ou menos a propósito dos nossos toureiros amadores. À falta de assumpto em que exerçam o seu espírito aventureiro, continuador da velha índole dos fidalgos portugueses, inventaram os torneios tauromaquícos, de forma a provarem ali na arena, em face de um animal feroz, que ainda nas artérias desta nacionalidade combalida pulsa algum daquele sangue destemido que brilha em toda a nossa epopeia da Idade Média.

As pessoas que assistem ao torneio do alto de uma galeria, mal podem fazer ideia do que seja um touro na praça, escarvante e mugidor, com algumas garruchas espetadas no cachaço.

Só quem tem descido à arena, a contemplar de perto o animal bravio, de olhar em fúria e nervos em convulsão, poderá compreender quanta coragem, e quanto sangue frio são necessários para arcar alegremente com todos os riscos que esse feroz animal oferece.

Nesta quadra de cômoda pacatez e de pautadas conveniências, os toureiros amadores são por certo fenômenos atávicos, anacronicamente postos, como enigmas, ante o espírito pratico da época. E o atavismo é definido e claro. Eles são, como já disse, os depositários e os representantes do antigo espírito português, aventureiro e destemido, capaz de trocar a vida por um lance violento, de sacrificar tudo por uma empresa arriscada.

Mas como as épocas se transformam na sucessão evolutiva, as faculdades são obrigadas a adaptar-se aos elementos de cada época. Os mouros, por exemplo, desapareceram da península. Se os houvesse ainda, os rapazes que hoje lidam nas praças de touros formariam cruzadas e iriam, em nome da religião de Cristo, derramar intrépidos o sangue dos infiéis. Mas os mouros correram para outras regiões, e na contemplação nostálgica da sua decadência, embevecidos nas passagens melancólicas do Alcorão, já não oferecem ao gênio do século polpa que devastar em favor de interesses nossos.

Desapareceram também as guerras com a nação fronteira. O ditado, que simbolizava a nossa atitude ante os nossos vizinhos – de Espanha nem bom vento nem bom casamento – passou a ser uma mentira redonda. Desapareceram as descobertas; o homem cruzou já todas as paragens do planeta. Era necessário inventar algum alimento para a faculdade aventureira: foi então que surgiu o touro.

Nada mais completo para satisfação de coragem indomável e altiva do que um forcado no meio da praça, batendo o pé ao montanhoso quadrúpede, afrontando-lhe a fúria tremenda, escarnecendo-o, atirando-lhe com o barrete ao focinho bravio, num repto imponente e trocista.

E depois, o animal investe numa vertigem alucinada. Faz-se uma concentração de pavor no anfiteatro repleto, e o bicho parece que vai num golpe desfazer em pedaços o pequeno vulto que se lhe colocou na frente. E vê-se então o forcado amparar o animal na carreira, deter-lhe o ímpeto ferocíssimo, passar-lhe os braços em torno da papeira calosa, e ficar-lhe na cabeça bicorne, triunfante e forte, como um herói de ferro!

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E já que entrei em divagações pelos meandros da arte tauromáquica, seja-me permitido emitir baixinho uma opinião, que certamente porá de pé os cabelos artísticos de toureiros e aficionados, mas que espero me seja relevada em nome da franqueza com que falo.

Há muito tempo que a sisudez da arte de tourear baniu da arena o velho Pai Paulino e a sua trupe. A não ser em praças de segunda ordem, onde mesmo raro aparece o elemento negro, os nossos espetáculos tauromáquicos limitam-se monotonamente a exibir a pericia com que o toureiro mete um par de bandarilhas, passa o boi de capa, crava um ferro curto à tira, pega o bicho de cara, de cauda ou de cernelha.

A gravidade com que estes atos se praticam uma nuvem solene que embarga um pouco a expansão da festa. Os toureiros – a quem não quero desconhecer direitos artísticos – estão excessivamente compenetrados da seriedade do seu papel. Quando entram na arena, levam a vida disposta para alcançar a glória, e alguns certamente irão pensando no panteão que lhes arrecadará os restos mortais, pela eternidade dentro.

Desta compreensão nasce necessariamente a atitude solene, de retraimento e superioridade, que muitos espectadores notam, principalmente nos toureiros espanhóis. E se é certo que a proximidade do perigo pode desculpar essa atitude, certo é também que ela põe no anfiteatro uma nota enfadonha, um peso de monotonia, que no fim de três ou quatro touros corridos só pode ser suavizada pelo sobressalto de alguma colhida, em condições de serio risco.

Ora, pois, para espairecer o espírito e lavá-lo das manchas de monotonia que uma longa corrida produz, insuflando nos espectadores a atmosfera da expansão sem limites, cheia de gargalhadas festivas, nada mais completo do que a colaboração do Pai Paulino e da sua trupe, no programa das touradas.

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A última vez que eu tive a felicidade de ver o Pai Paulino, foi há bons quinze anos, na praça do Campo de Sant’Ana.

A meio da arena, foi rapidamente construído um navio de ripes, com mastros e tombadilho, todo enroscado por uma serpente pirotécnica, cujos anéis eram formados de valverdes, bombas e bichinhas de rabiar. Sobre a amurada de estibordo – de onde viria o temporal do boi furioso – toda a tripulação, composta de seis negros espadaúdos, empunhava garruchas, à laia de punhais, como que preparando-se para resistir a um assalto de piratas.

No público passava um ar de expectativa alegre, fazendo-se conjecturas sobre a sorte da embarcação.

De repente, como um vendável que se desencadeasse, encrespando montanhas de vagas estrepitosas, abriu-se a porta do curro, e um boi mugidor, com chispas nos olhos e o lombo erriçado de raiva, arremeteu de encontro ao navio frágil, despedaçando tudo à primeira marrada, tal como um baixel arrasado subitamente por uma avalanche de penedos, no degelo das regiões polares. E então, toda aquela serpente de lume entrou a esfuziar sobre o animal deslumbrado, e no meio da fumarada e da cintilação do fogo viam-se as caras sorridentes dos negros, mostrando uns dentes alvos de marfim, como os Satanases de mágica que ficam a rir, no meio das grandes derrocadas cênicas.

A gargalhada irrompeu clamorosa do anfiteatro, em palmas à pretalhada vitoriosa e apupos ao boi assarapantado e ridículo.

A sorte da barrica era também deliciosa, eriçada de imprevisto, capaz de escancarar as mandíbulas de um morto.

Em frente do curro, um preto de olhos alvos estendia o busto de dentro da barrica, empunhando uma farpa.

O touro arremetia; a barrica rolava de encontro à trincheira, com o preto dentro. Rompia a gargalhada na praça. E quando o preto ia a estender a cabeça, para espreitar o touro, este, que ficara de atalaia, inteligente e vingativo, caía logo sobre a embocadura da barrica, a qual rolava novamente, arrastando consigo o preto aos trambolhões.

E este espetáculo às vezes prolongava-se, enchendo de gargalhadas retumbantes o ambiente da praça, e dando a cada espectador a sensação de forte alegria, que deve caracterizar as festas populares.

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Vem a propósito intercalar nestas considerações tauromáquicas um episódio histórico, sucedido no ano de 1764:

Um índio de Buenos Aires, tendo sido condenado às galés em Cadiz, propôs ao governador, mediante o premio da sua liberdade, expor a vida numa festa pública, que constaria do seguinte: Ele sozinho, sem o menor auxilio, e apenas munido de uma corda, atacaria na arena um touro dos mais bravos, lançá-lo-ia a terra, prendendo-o depois pela parte que lhe indicassem, por-lhe-ia uma sela e, montando-o, combateria assim dois outros touros, até que lhe dessem ordem para matar.

O governador acedeu e o índio cumpriu à risca o seu programa.

Este feito extraordinaríssimo vem narrado no 1º tomo das Observations sur l'Histoire naturelle, de Gautier.

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Posto isto, resta fazer uma declaração terminante: O autor destas linhas nunca foi toureiro. Houve um dia em que a musculatura irrequieta e um certo desejo inexplicável de provar novas sensações lhe fizeram passar pelo cérebro a ideia de pegar um boi de cara, para ver se realmente a bravura do animal na arena contrastava com a sua mansidão – no prato. Essa ideia, porém, desapareceu fugaz, como um meteoro de mau prenúncio, e de então para cá nunca mais tive o lamentável desejo de tourear boi algum, a não ser – com garfo e faca. O que é, no fim de contas, como bem diz um carnívoro das minhas relações – a única coisa que a gente leva deste mundo.


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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