sexta-feira, 5 de julho de 2019

Da chita à seda (Conto), de Brito Camacho



Da chita à seda
— Não tem melhor?...
— Queira vossa excelência desculpar, mas esta fazenda, como tecido, como desenho, como cor, é o melhor que há, no gênero.
— É possível, mas estou certa de que não é dela que se fazem os vestidos de Sua Majestade a Rainha da Inglaterra...
— Também não digo que não; mas pode vossa excelência crer que se não é desta fazenda que se fazem os vestidos de Sua Majestade a Rainha da Inglaterra, é porque Sua Majestade os manda fazer doutra, de inferior qualidade.
— Está muito bem. E quanto a rendas?
— Temos por onde escolher — portuguesas, de Alençon, Bruxelas...
As melhores?...
— É muito difícil dizer quais são as melhores. As rendas de Bruxelas mantêm a sua tradicional reputação, mas as portuguesas não lhes ficam a dever nada, e as de Alençon...
— São muito bonitas, umas e outras; mas o preço, naturalmente...
— É igual, neste momento.
— A quanto, o metro?
— Cem mil réis, por enquanto. Não tardará que suba, chegando talvez ao dobro.
— Nesse caso levo-as todas. A conta...
— Figuram aqui dezoito tostões... de quê?...
— Desculpe vossa excelência. Há dois anos comprou vossa excelência aqui seis metros de chita, para um vestido, cálculo que para alguma criada, e como ainda não estivessem pagos... As contas pequenas esquecem, por coisa pouca não vale a pena a gente mandar a casa dos fregueses.

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Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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