sexta-feira, 5 de julho de 2019

Deontologia médica (Conto), de Brito Camacho



Deontologia médica
Havia alguns minutos que estávamos com o doutor, no seu gabinete de consulta, quando o criado, abrindo discretamente a porta, anunciou que uma senhora, que acabava de chegar, pretendia falar-lhe imediatamente. Quisemos retirar-nos logo; mas o doutor insistiu para que ficássemos, ouvindo-nos com muita atenção, sem nenhuma impaciência, como se não soubesse que lá fora, na sala de espera, uma senhora com muita pressa, talvez sofrendo muito, aguardava a sua vez. Nisto abre-se a porta com força, e uma dama entra por ali dentro, en pied de vent, e cai aos pés do médico.
— Devo-lhe a vida, doutor. Teria morrido mil vezes sem os socorros da sua ciência e os extremos da sua dedicação. Vou partir para o Brasil, daqui a duas horas; mas não queria partir sem lhe beijar as mãos, e jurar-lhe o meu eterno reconhecimento.
Era uma mulher, forte, bem lançada, sem exuberâncias carnosas, o ar desembaraçado de quem traz retida na musculatura muita energia saudarei. Diz-se que certas doenças, de caráter grave, limpam o corpo, como certas trovoadas, de extrema violência, limpam os ares. Provavelmente dera-se isto com aquela senhora; mas tinha-se a impressão, olhando para ela, ainda relativamente nova, de que nunca tomara remédios de botica, nunca precisara de socorros médicos, sã como um pero desde que nascera até agora.
Quando ela se retirou, debulhada em lágrimas, o doutor, visivelmente comovido, contou-nos:
— Esta pobre senhora sofria há muitos anos, e sofria horrivelmente. Consultou muitos médicos aqui, no Brasil e em Paris, e nenhum conseguiu curai-a, nem mesmo minorar-lhe os sofrimentos. Foi nestas condições que eu principiei a tratá-la, e para lhe falar com franqueza, sem esperança nenhuma de a ver curada. Felizmente o mal foi cedendo, e agora está inteiramente boa, rija e forte como acaba de ver. Um milagre, uma verdadeira ressurreição.
Pareceu-me que o doutor se esquecia de ser modesto a narrar o seu caso clínico; mas se ele tinha arrancado aquela vítima às unhas da Parca inexorável, justificado era o seu orgulho, desculpável a sua vaidade.
— Há momentos de grande satisfação na vida do médico...
— Sim; mas também há horas crudelíssimas, duma tortura incomportável. Noites e noites passei junto desta senhora, a sentir que toda a minha pobre ciência, que toda a minha inexcedível dedicação resultariam inúteis, porque a morte pairava tragicamente sobre o seu leito, às vezes parecendo-me que lhe colava as pálpebras, tendo-lhe já envidraçado os olhos. Um horror!
— Também, no dia em que desapareceu o perigo...
— Esse dia foi dos mais felizes da minha vida. Começava a sentir abalada a minha confiança na Medicina, que se refazia agora por um assinalado triunfo da ciência iluminada, sobre a fatalidade cega.
Fiz os meus cumprimentos ao doutor, paguei a consulta, e retirei-me do consultório trazendo bem depressa a imagem daquela senhora que ali fora, quase à hora de embarcar para o Brasil, lançar-se lhe aos pés, debulhada em lágrimas, jurando o seu profundo, o seu eterno reconhecimento.
Seis meses depois, tendo seguido à risca as prescrições do médico, voltei a consultá-lo, pela segunda vez. Já não se lembrava de mim, e como não valesse a pena estar a dizer-lhe quem era, fiz a consulta como doente novo. Estava o doutor a ouvir-me, com muita atenção, quando o criado, abrindo discretamente a porta, anunciou que uma senhora, que acabava de chegar, pretendia falar-lhe imediatamente. Quisemos retirar-nos logo, e como o doutor insistisse para que ficássemos, ouvindo-nos com muita atenção, a porta abriu-se com força, e uma senhora entrou, forte e de boas cores, como quem pende saúde. Ajoelhou aos pés do doutor, beijando-lhe as mãos, e jurando-lhe um eterno reconhecimento. Quando ela se retirou, debulhada em lágrimas, oferecendo os seus serviços no Brasil, o doutor principiou a contar-nos, visivelmente comovido:
— Esta pobre senhora sofria há muitos anos, e sofria horrivelmente...
E eu então, fazendo um pequeno esforço de memória, tendo diante dos olhos uma pessoa cuja imagem se me vincara na retina, tão impressionante fora a cena que havia presenciado, ali mesmo, por acaso, havia meses, cortando lhe o fio da narrativa:
— Bem sei, doutor; esta senhora consultou muitos médicos daqui, no Brasil e em Paris, sem nenhum conseguir curá-la, nem mesmo minorar-lhe os sofrimentos. Foi então que vossa excelência principiou a dar-lhe os seus cuidados, pondo-a inteiramente boa.
Abrindo muito os olhos, fixando-me como se debruçado no bocal de uma cisterna quisesse ver qualquer pequeno objeto que nela tivesse deixado cair, indistinto no fundo, tendo-me escutado sem me interromper, a beber-me as palavras num crescendo de espanto aflitivo, sentou-se no sofá que estava ao pé da secretária, e com a cabeça apoiada nas mãos, no profundo recolhimento de quem ajoelha no altar da própria consciência, não querendo dali erguer-se senão condenado ou absolvido, assim esteve por instantes, que me pareceram horas, não querendo já fazer a consulta, e não sabendo como sair dali. Senão quando o doutor, esfregando os olhos, erguendo os ombros, no gesto de quem acorda, tendo adormecido sem querer, de pé, encostado à secretária, hesitante, como que a medir as palavras, encarando me com serenidade, debita este pequeno discurso:
— Há meses, não posso agora precisar quantos, esteve aqui uma senhora que eu tratara de uma doença grave, tendo conseguido curá-la ao cabo de mais de um ano de tratamento contínuo. Essa senhora, tendo de retirar para o Brasil, talvez para nunca mais voltar à Europa, quis fazer-me as suas despedidas e renovar-me os seus agradecimentos. Esteve aqui no próprio dia do embarque, indo daqui para bordo. Recebi-a na presença de um cliente, visto ela apenas querer despedir-se. Esse cliente, recordo-me agora, era o senhor.
Por um acaso muito extraordinário, uma singular coincidência, é o senhor que se encontra aqui no momento em que uma irmã dessa senhora, também por mira curada de uma grave doença, e também de regresso ao Brasil, sem tenção de voltar à Europa, me vem fazer as suas despedidas e renovar os seus agradecimentos, quase à hora de partir.
Compreendo o seu espanto, e com grande mágoa, mas sem a menor surpresa, fui lendo no seu espírito todos os juízos desagradáveis, embora lógicos, que nele se formavam a meu respeito.
Quero justificar-me, e espero que a justificação o deixará satisfeito.
As duas senhoras que aqui viu, uma há bastantes meses, a outra há poucos minutos, são irmãs gêmeas; parecem-se como as duas metades de um todo homogêneo; leem as mesmas qualidades e os mesmos defeitos; os mesmos gostos e predileções, e como sucede muitas vezes, em casos tais, registados na literatura médica, têm as mesmas aptidões mórbidas. Vivendo no mesmo ambiente, quando adoece uma, adoece a outra, e a doença, nas duas, tem uma evolução idêntica.
Tirou da estante, ao lado, um livro em brochura, e entregando-mo, disse:
— Se quiser ser, aí encontrará histórias clínicas comprovativas do que acabo de lhe dizer. Entre elas, esta: — Dois rapazes gêmeos, viviam um em Paris outro em Bordéus. Tão parecidos, tão iguais, que os mais próximos parentes não os distinguiam. E eram no moral como no físico. Mal um adoecia, quase ao mesmo tempo, com pequenino intervalo, adoecia o outro, tomado da mesma doença. Veja esta carta que o de Paris escreveu ao de Bordéus: — Há três dias que sofro de uma conjuntivite. Calculo que já estejas a contas com ela. De fato o irmão, na véspera, entrara a queixar-se dos olhos; consultado o médico da casa diagnosticou a conjuntivite. Já vê...
Bateram discretamente à porta do gabinete contíguo, e uma voz de mulher, fresca e bem timbrada, disse:
— É só um instante, doutor.
— Com licença. É com certeza, um recado e não uma consulta. Não me demoro.
Aproveitei o ensejo para me safar, sem o embaraço de explicações inúteis, e descendo a escada do consultório, sem receita, pensei de mim para mim que se curam, por este e análogos processos, muitas doenças graves, e se criam e se enraízam muitas reputações imerecidas.

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Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019

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