sábado, 27 de julho de 2019

Eça de Queirós nas palavras de Ramalho Ortigão (Discurso)




Eça de Queirós nas palavras de Ramalho Ortigão

O mais imperativo dever, de espírito e de coração, me obriga hoje a dominar o inveterado acanhamento dos meus hábitos para o fim de intervir num ato público, — o da entrega solene à edilidade lisbonense do monumento que os amigos e admiradores de Eça de Queirós lhe consagraram, e do qual o talento de Teixeira Lopes fez uma das mais eloquentes e comovedoras obras da escultura portuguesa.

Senhores representantes da cidade de  Lisboa, a vós especialmente tomo a liberdade de me dirigir.

O significativo padrão de que o conde de Arnoso acaba de vos dar posse, representa o apreço em que foi tido por alguns dos seus coetâneos um simples escritor que, inteiramente recluso na religião da arte, se não entremeteu nunca nos conflitos seculares da sociedade a que pertenceu.

Nunca manipulou negócios, nem dirigiu empresas, nem exerceu espécie alguma de autoridade ou de poder sobre os homens do seu tempo. Não foi general, nem ministro de Estado, nem deputado às cortes, e nunca poderes públicos nem sociedades sábias ou recreativas lhe votaram a coroa cívica, de herói, de mártir ou de simples e incategorizado visconde. Foi meramente um artista na mais extreme e estrita acepção desta palavra. Por esse único título, a quem não teve mais nenhum, se erige um monumento. — Caso novo e único nos fastos das consagrações póstumas, por meio do qual, numa cidade portuguesa, inesperadamente se afirma o vínculo de solidariedade que em certo momento pareceu existir entre a vida civil e a vida intelectual da nossa raça. E é por certo um fato que fica bem a Lisboa ser ela que dê ao país, em nossos dias de implacável egoísmo, este primeiro exemplo do subido interesse nacional que alguns cidadãos ainda ligam às mais puras e inegociáveis especulações do espírito.

Os títulos de Eça de Queirós a este galardão podem talvez compendiar-se em breves palavras.

Desde os nossos grandes escritores seiscentistas até Garret nunca mais houve na literatura portuguesa senão estilos derivados, secundários, imitativos, ostentando pomposamente a inexpressibilidade mais indigentemente acadêmica, e mais inânime. Garret foi o primeiro que, opondo-se à corrente do convencionalismo, meteu debaixo do joelho o monstro da ênfase atávica, da hereditária retórica, que por mais de dois séculos resfolegara apopleticamente no fundo de toda a nossa produção artística. Queirós foi para a segunda metade do século XIX o que Almeida Garret havia sido para a outra metade da mesma centúria: o escritor do seu tempo, desprendido de todas as superstições técnicas, exercendo livremente sobre a palpitante realidade do mundo vivo as suas pessoais faculdades de analisar e de sentir. Com a diferença: que Eça de Queirós, especializando-se no  romance naturalista da decadente e complicada sociedade contemporânea, tinha de manejar um instrumento de observação e de notação gráfica sumamente mais complexo, de uma impressionabilidade e de uma agudeza incomparavelmente mais discriminativa, mais minudente e mais sutil, que o que empregara Garret na idealização poética das nossas lendas e na dialogação simplística, forçosamente convencionalizada e exigentemente declamativa, do teatro histórico.

Sem enriquecer o léxico, como Castilho e como Camilo Castelo-Branco, por meio de vozes novas e de vernáculos pela primeira vez trazidos da tradição oral ou da raiz erudita para o discurso literário, Queirós elevou a uma perfeição de relevo, de colorido e de luminosidade, que nunca antes dele se atingira, o que propriamente se chama a arte de escrever, dando ao giro da frase, independentemente do rebuscamento do vocábulo, temas melódicos, combinações de harmonia e efeitos orquestrais do mais dominativo e avassalante poder de sugestiva comoção.

Não é porém um retrato literário do insigne escritor que me proponho traçar. O meu fim é unicamente fazer notar a Lisboa que Eça de Queirós é, como romancista, o mais fundamentalmente e mais genuinamente lisboeta de todos os escritores nacionais.

Ele e eu fomos íntimos companheiros de trabalho e de estudo durante mais de trinta anos — toda uma vida. Nascemos sob a influência astral do mesmo mês, eu um dia antes dele, e só nisto lhe passei adiante. Viemos ao mundo e fomos criados na mesma região de Portugal. Embalaram-nos idênticas orações de nossas mães. Crescemos no seio da mesma paisagem, entre os esfumados e saudosos relevos do mesmo monte e a arfante vastidão do mesmo mar. Passamos na sombra dos mesmos castanhais e das mesmas carvalheiras, entre as amoras e as madressilvas das mesmas azinhagas. Ouvimos o borbulhante murmúrio das mesmas águas regadias, o lento gemer das mesmas azenhas, as ternas cantigas das mesmas esfolhadas, e o alegre repicar dos mesmos sinos, nas vigílias dos mesmos santos.

Foi em Lisboa que mais tarde nos encontramos, ainda moços, mas bem diferenciados já pela influência do temperamento e pela dos contatos da vida na formação e descriminação da personalidade. Eu, mais acentuadamente sanguíneo, grossamente musculoso, antigo passarinheiro, caçador de coelhos e pescador de trutas na sussurrante espessura dos pinhais, e na desnevada corrente dos rios angustiados e precipitosos das serras da nossa província, era, e fiquei para sempre, nostalgicamente minhoto, e como tal com vocação atávica para viajante e para embarcadiço, gostando de ver terras e de andar nas águas do mar, adaptando-me facilmente a todos os meios cósmicos, domando-me a tudo. Ele, delicado, nervoso, eminentemente cerebral, prodigiosamente imaginativo, fora desde logo em Lisboa como que hipnoticamente atraído e aliciado pelo dramático problema de humanidade que encerram as quatro paredes de cada prédio ao longo dos populosos arruamentos de uma cidade. A perscrutação desse fenômeno, compreendendo toda a cerebração e todo o emotismo de um lugar e de uma época, tornou-se a absorvente e dominativa curiosidade do seu espírito.

Lisboa foi desde então o seu laboratório de arte, o seu material de estudo, a sua preocupação de crítico, o seu mundo de escritor, o romance dele, iria dizer o seu vicio, a sua fatalidade, o seu destino. E pela razão de que profundamente se ama tudo o que profundamente se estuda, ele amou profundamente Lisboa, e a pouco e pouco se tornou ele próprio enraizadamente lisboeta, lisboeta até as mais íntimas moléculas do seu organismo, até as mais profundas criptas da sua alma.

Nenhuma das outras grandes e belas cidades em que residiu ou por onde passou — Paris, Londres, Nova York, Madrid — teve o condão de o reter e de o seduzir. Em Paris, que por tantos anos habitou, ele nunca foi senão o estrangeiro, o hóspede, o emigrado, hostilmente refratário, aí como em qualquer outra parte, a toda a penetração de cosmopolitismo. A última vez que o vi, atravessando os Alpes a caminho da Itália, num terraço de hotel, em Glion, tendo sob os nossos olhos o incomparável panorama do lago Leman, perto do qual, poucos dias antes, nos tinham mostrado as casas que haviam sido o refúgio ideal de Wagner e de Ruskin, ele, recebendo-me o abraço de despedida e velando pudicamente a sua comoção com um disfarce de ironia, deixava-me compreender que o que mais o seduzia e cativava na excursão da Suíça e na viagem da Itália, onde, pouco depois, ele esperava ir encontrar-me, não era o lago de Genebra, nem o lago Maior, nem o lago de Como, nem Roma, nem Florença, nem Veneza, nem Palermo, nem Siracusa, nem Taormina; era simplesmente a chegada do vapor de Nápoles ao ancoradouro do Tejo, em frente do Cais das Colunas, ouvindo, ao romper do dia, cantar os galos da Ribeira Velha.

Os seus contos e as suas novelas são o espelho desse consórcio do seu espírito com o espírito da vida lisbonense. Se um cataclismo arrasasse Lisboa e subvertesse todos os seus habitantes, pela obra de Queirós, que poderíamos denominar A comedia burguesa de Lisboa no último terço do século XIX, se reconstituiria toda a vida da cidade durante o tempo em que ele foi o mais encantador dos seus cronistas.

Sobre as páginas imorredouras dos seus livros, Lisboa inteira passa e se reflete como num rio de arte, cristalino, suave e passivo: as ruas com o burburinho familiar e característico do seu comércio, dos seus pregões, das suas guitarradas, os jardins públicos, as lindas hortas e quintas suburbanas, os passeios da moda, os teatros, os botequins literários e políticos, as tabernas populares, as casas de hóspedes e de penhores, os interiores de palácios e de habitações burguesas, os clubes, as redações de periódicos, as cenas de esporte e as cenas de mundanismo, a religião, a política, a oratória, a epistolografia, as modas, as aspirações, os cuidados, os vícios, os fingimentos e as hipocrisias, as taras hereditárias e as psicoses endêmicas, com todas as alucinações, todos os letargos, todas as incoerentes anomalias da grande nevrose do nosso tempo.

E, nesse vasto cenário, toda uma densa população pulula, ama, pensa, estuda, combate, intriga, devora, ou boceja, e numa urdidura de lágrimas e numa trama de sorrisos penosamente vai tecendo a frágil teia da vida. As personagens de Eça de Queirós, que ele arrancou da banalidade da carne para as imortalizar tornando-as típicas pela auréola da arte, vivem em nossa imaginação mais poderosamente e mais intensamente do que se fizessem uma parte material do nosso mundo objetivo. Fradique Mendes, Carlos da Maia, Gonçalo Ramires, o primo Basílio, o padre Amaro, o cônego Dias, João da Ega, o Raposão, o Dr. Margaride, o Libaninho, o conselheiro Acácio, e outros muitos, são outros tantos autênticos, atuantes, ponderosos moradores de Lisboa, que, neste momento talvez nos estão ouvindo, ou cujas opiniões, teorias, modos, gestos, expressões fisionômicas e estados d’alma iremos encontrar hoje mesmo na Havaneza, no Terreiro do Paço, no Central, no Tavares ou no Augusto, descendo o Chiado, às 4 horas, passeando ao crepúsculo na Avenida, ou à noite, no teatro, exibindo-se, pontificando, discursando, flertando ou aborrecendo-se juntamente com as mulheres, as filhas, as tias, os namoros e as próprias criadas: a alucinante e fatal Maria Eduarda, a desgraçada e trágica Luísa, a condessa de Gouvarinho, a Maria Monforte, a D. Leopoldina, a desordenada Lola, a sentimental efêmera Carmen Puebla, a abominável Juliana, a tia Patrocínio das Neves, a hedionda senhora...

Aos que opinem que deste grande quadro se não extrai facilmente uma nítida e bem assinalada lei moral, eu ousarei observar que o fim da arte não é moralizar os costumes por meio do pedantismo de preceituações inúteis. O fim social da arte é simplesmente elevar, por alguns momentos de puro êxtase intelectual, as almas de uma multidão acima dos interesses materiais, que pela persistência da sua ação pervertem os homens, desassociando-os da sua missão coletiva de fraternidade, de admiração, de indulgência e de amor perante a eterna harmonia do infinito universo. É dessa harmonia universal, passiva e transcendente, que a obra artística procura ser a imagem tênue, irreparavelmente incompleta como toda a sublime aspiração humana do imperfeito para o absoluto.

Terminando, meus senhores, permiti-me dizer-vos que a admirável obra de Teixeira Lopes, da qual doravante vós sereis os possessores, como que ratifica por uma rutilante afirmação de arte a minha obscura opinião de crítico. Contemplando um pouco detidamente o enigmático vulto de mulher olímpica, colocado pelo ilustre escultor junto do vulto do meu saudoso amigo, eu concluo perguntando-me se essa gloriosa figura, em vez de personificar uma pura e etérea abstração estética, não é antes a estátua mesma de Lisboa, de Lisboa íntima — casta e heroica Phrynea, modelo de deusas — desvendando intemeratamente o mistério do seu encanto aos olhos amorosamente perscrutadores do seu primeiro, romancista.


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RAMALHO ORTIGÃO
"Discursos",  9 de novembro de 1903.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019).

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