quarta-feira, 24 de julho de 2019

Eça de Queirós traduzido por George Raeders



Eça de Queirós traduzido por George Raeders

Eça de Queirós é sempre surpreendente e sempre incomensurável. Os seus tipos caricaturais, tão magistralmente deformados, de tal maneira se apresentam, que se pode dizer, no entanto, num estranho paradoxo, que têm a precisão de um retrato físico e moral. A sua pena não era só máquina fotográfica, era especialmente um Raio-X. Ao lado dos contornos, da plástica, das linhas humanas ou dos traços geográficos — ele nos dá sempre, na natureza morta, a cor, os acidentes, os toponímicos, as características essenciais; e quando é o homem o objeto da análise e da dissecação, ele recorre então aos elementos psicológicos frisantes e nos expõe os vícios, as aspirações burlescas ou frascárias, as patriotadas, a corrida atrás das saias das mulheres, tanto pelas maravilhas corporais que podem esconder como pelos opulentos dotes que podem trazer em metal e em propriedades. Eça de Queirós vê sempre, em sua frente, o indivíduo corrupto, com a ambição do dinheiro ou do poder; o nulo endeusado, o pelintra, o malogrado, os políticos profissionais, as raparigas infelizes ou frívolas. A sua galeria é prodigiosa e esse prodígio é uma consequência imediata do poder criador do estilista, que sabe aliar, como ninguém, à cor e ao relevo do corpo, aquilo que fica dentro do corpo, que o anima e que o projeta no mundo material e imaterial da existência, ou seja — a alma, com esse conjunto de virtudes espirituais e morais, que se chama caráter.

Eça de Queirós, lido e provavelmente entendido em tantas línguas, é sem dúvida, em face dessas peculiaridades e sutilezas, um dos escritores universais mais difíceis de serem traduzidos. O tradutor George Raeders não vacilou porém ante os entraves naturais do cometimento — e tornou-se mesmo, com o seu talento interpretativo e o conhecimento perfeito dos idiomas de Camões e Racine, um dos mais seguros e exatos tradutores do insigne escritor português. O professor Fidelino de Figueiredo, que apreciamos recentemente em duas notabilíssimas conferências, é de opinião que o professor George Raeders foi quem melhor verteu para o francês alguns dos trabalhos de Eça de Queirós. O senhor professor George Raeders, nome de intelectual muito conhecido e festejado em nossos centros culturais, já como diretor do Liceu Pasteur, já como autor de numerosos trabalhos literários e históricos, como os comentários à correspondência inédita entre D. Pedro II e o conde de Gabineau — conhece a fundo, com as suas nuances, as suas belezas, a sua sintaxe o a sua expressão mais forte e mais nítida, a língua de Eça de Queirós e a língua de Anatole France. Foi o que possibilitou, o que facilitou a tarefa ingente. Porque escritores como Anatole France e Eça de Queirós, que devem noventa por cento da sua força criadora aos poderosos recursos do estilo, são escritores típicos, que, com as particularidades da sua linguagem, se tornam quase intraduzíveis. Eça e Anatole, não se traduzem ou se adaptam apenas ideias — tem-se que traduzir e adaptar também o vocábulo próprio, que se ornou parte integrante da frase. As palavras, nos escritores dessa classe, têm uma propriedade especial, que exorbita a propriedade da sua significação vulgar. Os substantivos e os adjetivos, à proporção que se unem, dão vivas tonalidades à oração, criam motivos decorais, focalizam de maneiras novas as velhas ideias, transformam-se num fio de ouro, de incomparável ductilidade, com o qual o escritor, a seu capricho, vai tecendo e entretecendo a trama inconfundível das suas obras imortais. Todas as letras estão nas palavras, todas as palavras estão num dicionário — e um dicionário não é uma obra de arte. As sete cores do arco-íris estão na palheta de um pintor, e a palheta do pintor não é uma obra de arte. E assim também as sete notas musicais estão inscritas nos compêndios de música, que também não são uma obra de arte. Da maneira de combinar as notas, as tintas ou as palavras, é que nasce a obra de arte. E dessa maneira, no que toca aos fonemas, ninguém, em nosso século e em nossa literatura, foi mais senhor e mais mestre do que Eça de Queirós.

O professor George Raeders compreendeu, com atilado escrúpulo, os processos linguísticos do prosador incomparável — e entregando-se à tarefa que se impôs, com dedicação e afã, verteu magistralmente a Relíquia para o francês. O trabalho foi completo: mereceu uma edição inicial de cinco mil exemplares, com um prêmio de cinco mil francos da Sociedade de Homens de Letras da França, o que basta para recomendar, excepcionalmente, tanto a tradução, como o tradutor.

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Revista do Arquivo Municipal
Prefeitura do Município de São Paulo, 1950.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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