sexta-feira, 26 de julho de 2019

José Veríssimo: "Eça de Queirós" (Ensaio)




Eça de Queirós Por José Veríssimo

A primeira vez que o vi foi em Lisboa, há justamente vinte anos, no salão do Teatro da Trindade, onde se realizava um sarau literário em proveito da família do escritor Santos Nazaré, que, voltando do secretariado da Índia portuguesa, falecera em viagem, deixando os seus em extrema pobreza. Apareceu-me ao lado de Ramalho Ortigão, como no frontispício das Farpas, alto, esguio, menos magro do que ficaria depois, apuradamente vestido à inglesa, o seu monóculo fixo entre o nariz de águia e o olho bem aberto, penetrante, impondo à minha juvenil admiração matuta, de provinciano brasileiro recém-chegado. Reconheci-o, e ao seu fidus Achates, através das caricaturas de Bordallo do Antônio Maria, e do Álbum das Glórias... Ele e Ramalho estavam de pé, junto à parede lateral do salão, a direita do estrado destinado aos atores daquela festa de beneficência literária. Um com as suas grandes lunetas, outro com o seu amplo monóculo inspecionavam a sala. Notei que a entrada de Eça despertara a atenção geral, e as mulheres, que eram numerosas, e da alta roda lisboeta, o examinavam com uma curiosidade especial. Decididamente o autor do Primo Basílio excitava-lhes aquele sentimento bem feminino. Ao meu lado uma senhora, abaixando de sobre ele o binóculo, disse à outra, naquela voz doce e cantada das lisboetas: — Sabes? o Eça também fala. — E a outra, consultando o programa, com leve comoção na voz, como que receosa da tese que ele haveria escolhido: — Que irá ele dizer?... Mas Eça de Queirós não falou; seu nome no programa era uma mentira piedosa dos organizadores da festa; um chamariz para ganhar aos órfãos de Santos Nazaré mais algumas libras. Falaram ou recitaram versos outros, entre os quais me lembram Pinheiro Chagas, Antônio Cândido. Fernando Caldeira; Gonçalves Crespo arrebatou verdadeiramente a assembleia dizendo, como nunca antes nem depois ouvi recitar, a Resposta do Inquisidor e a Morte de D. Quixote. Eça de Queirós observava apenas e guardava na sua retina a imagem daquele sarau, que reproduzido pelo seu humour, e enfeitado da sua ironia, havia de ser uma das páginas mais deliciosas dos Maias.

Vi-o depois muitas vezes, em Lisboa mesmo, e, nove anos mais tarde, em Paris; já então mais magro, mais ossudo, como que mais cansado, conservando, porém, a despeito de uma ligeira curvatura, o aprumo da sua fronte inteligente e a fixidez penetrante do seu olhar, que às vezes algum pensamento íntimo amortecia. Amando-o, não quis jamais conhecê-lo pessoalmente, por essa espécie de pudor indefinível que nos afasta de pessoas admiradas e queridas em silêncio. Não posso, pois, dar dele senão as minhas impressões de seu leitor, e essas mesmas sinto que não têm a precisão, que só uma leitura recente e repetida poderia ter...

Não lhe sei minuciosidades biográficas, mas creio não errar dizendo que entrou na literatura com o Mistério da Estrada de Cintra e com as Farpas, feitas ambas de parceria com Ortigão. O que distingue o Mistério, na parte que sabidamente lho pertence, nem precisava que no-lo descobrisse a vasta inteligência crítica de Moniz Barreto, era o "dom de efusão lírica" desse poeta que fizera de um romance folhetim, de uma novela romanesca, originada de uma brincadeira de rapazes, um doloroso e vivo poema de amor.

É como um romântico que Eça de Queirós começa, mas o poeta sentimental que havia nele — e que nunca de todo desapareceu dele — o imaginoso evocador de formas e de emoções se transformaria, na função crítica de colaborador das Farpas, no analista fino, no observador perspicaz, no realista vigoroso do Crime do Padre Amaro e do Primo Basílio. Estes dois romances são evidentemente o produto direto, quase podíamos dizer o reflexo do movimento naturalista francês de Zola e de Flaubert, deste sobretudo, que será o verdadeiro mestre, o iniciador de Eça no romance naturalista e lhe ocupará sempre o espírito. Somente a intensidade do sentimento poético é talvez maior no romancista português que no francês. Ambos eram dois românticos retardatários, ambos procuraram intencionalmente libertar-se do romantismo, mas, como o passado pesa sempre sobre nós e não podemos livrar-nos totalmente dele, ambos conservaram, como de si mesmo reconhecia Flaubert, notável, sensível, o traço da herança romântica. Em Eça de Queirós, porém, apesar da sua ironia, apesar da preconcebida frieza que ele quisera dar à sua análise, da imparcialidade que pretendia impor à sua observação, esse traço é mais fundo, mais aparente, como o provam os mesmos livros citados, a Relíquia e sobretudo os Maias. Podem-se dar do fato duas explicações, uma etnográfica, outra psicológica, de modo algum entre si opostas. Flaubert é um francês do norte, um normando, pouco sentimental, apesar do que havia de afetuosidade profunda na sua alma : Eça de Queiroz é um puro meridional, um Português, sentimental, amoroso, vagamente idealista e imaginoso como os de sua gente; as partes de poesia em Flaubert são as do criador poderoso, e só neste sentido o podemos chamar de poeta; Eça, ao contrario, é verdadeiramente um poeta, um lírico, repito, um sentimental, um apaixonado, embora sem vontade de o ser, um legítimo filho da terra dos poetas amorosos dos Cancioneiros, dos cavaleiros namorados, dos líricos sentidos e chorosos, de Bernardim Ribeiro, do Garrett das Folhas caídas e do Camões dos sonetos e de Inês de Castro, dos solaus, das xácaras, do fado dolente e amorosamente piegas. Pode ser que estas explicações, que são apenas duas formas de uma mesma ideia, não sejam verdadeiras. Ninguém mais que eu desconfia de tais generalizações. Mas, como quer que seja, a aproximação destes dois nomes e da obra literária de cada um deles, produzem em mim esta impressão. O naturalismo de Eça de Queirós, e é uma das suas superioridades, não tem a insensibilidade rebuscada, a falta de simpatia humana, que se nota no naturalismo de Flaubert, e no de Zola àquele tempo. O sentimento, a piedade ainda se escondem, para seguir os preceitos da escola e o exemplo dos mestres, mas não tanto que os não lobriguemos através da comoção das páginas como as do infanticídio do Crime do Padre Amaro, das desilusões, da doença e da morte de Luísa, no Primo Basílio. O que há de forte e intenso em Eça de Queirós vem justamente dessa simpatia. Não havia nele talvez uma grande potência de invenção, senão de criação, verdadeiramente original. Um estudo acurado e minucioso da sua obra, comparada com outras das literaturas suas contemporâneas, mostraria nela reminiscências, verdadeiros paralelismos, imitações se quiserem, influências de outros livros, de outros autores. Mas não receio exagerar dizendo que, sob este aspecto, Eça de Queirós era de família dos Shakespeare s e dos Molières. A sua cópia, se cópia se pode chamar, era quase sempre superior, e jamais inferior ao modelo apenas consultado, nunca reproduzido. Sinto neste ponto que preciso explicar-me. Seria estultice negar ao magnífico criador de Juliana, do Conselheiro Acácio, do Sebastião, do Cônego Dias, e de outros tipos que vivem na nossa memória como indivíduos da vida real, o dom da criação. Toda a sua obra desmentiria quem o fizesse. O que digo é que, na generalidade dessa obra, quer no seu contexto, quer na sua trama, quer nas suas personagens, descobrimos mais de uma parecença, às vezes frisante, com outras obras.

Quero significar que nele, como em tantos grandes artistas, iguais ou superiores a ele, (e já citei Molière e Shakespeare) a faculdade da criação sobreleva a da pura invenção. Isto me parece sobretudo verdade na sua fase do naturalismo estreme. O Primo Basílio é um romance paralelo à Madame Bovary de Flaubert, mas profundamente diferente da obra-prima do escritor francês e, talvez, de maior intensidade moral. Não duvido em escrever moral, no sentido de social, segundo o conceito nestes ensaios mais de uma vez expendido. Para mim a literatura, e a arte, só tem valor como um órgão social, como expressão e definição da sociedade; fora disto os seus produtos são apenas obras de curiosidade e paciência, mais ou menos bonitas, mais ou menos bem trabalhadas, como japonices e chinezices preciosas, mas sem lucrar na grande arte.

Quem pode lá imaginar sinceramente que um verdadeiro poeta, um artista, faça uma obra de inspiração e de amor somente para fotografar um aspecto social, uma simples vista do mundo e da vida, despido de toda a comoção, estranho a toda a reflexão, inteiramente impassível e indiferente a outro sentimento que a impressão material do fato reproduzido? Não há um fim moral, certo, no Primo Basílio; um artista credor não é um pregador, nem um moralista profissional. Mas no seu ódio senil contra o naturalismo, Camilo não errou de todo chamando-lhe "o romance mais doutrinal que já saiu dos prelos portugueses." E o reparo de Camilo pode-se conciliar com a análise que do romance de seu amigo fez o Sr. Ramalho Ortigão nas Farpas. Reprodução admirável da vida portuguesa em um dos seus aspectos, o Primo Basílio é também a representação viva, exata até à crueldade, do que é o adultério na burguesia, o adultério posto a nu, em toda a sua indecência e pelintrice, despido da vistosa traparia romanesca com que o desfiguraram durante anos o romance e o teatro românticos. A intenção social, e moral portanto, é evidente, mesmo que se pudesse admitir que o autor lhe é pessoalmente alheio. Em Flaubert, apesar das suas denegações, e do seu repúdio irracional, por esnobismo de artista, da sua obra-prima, não é outra, senão a intenção, a significação de Madame Bovary. A mim, porém, me parece mais forte a do Primo Basílio, mais trágico o drama, mais simpáticas as suas vítimas. Fazendo de Carlos Bovary um bobo ridículo, Flaubert seguiu mais estreitamente a sua estética nessa obra, mas falhou ao mesmo efeito estético dela. Eça de Queirós aumentou a emoção da sua, dando a Luísa um marido nulo é certo, mas não ridículo.

Nas duas há verdade absoluta, mas na do português há talvez, com menos beleza de execução, com menor ciência da expressão literária, mais intensidade, se se mede a intensidade na obra de arte pela maior comoção que ela de si expande. Apesar dos senões que os preconceitos da escola deixaram nesse livro e no Crime do Padre Amaro são eles talvez os mais perfeitos, os mais belos, e seguramente os mais característicos, os mais expressivos da obra de Eça de Queirós e do seu lugar e influência na literatura da língua portuguesa. Porque não só em Portugal, eminente foi o seu lugar e larga a sua influência, senão também no Brasil, que principalmente dele aprendeu o naturalismo, sem entretanto haver produzido nenhum naturalista que se lhe equipare. Faltava aos seguidores do naturalismo aqui o que em Eça sobejava, a personalidade para transformar em seu aquilo que acaso lhe não pertencia de próprio e a grande capacidade de transposição para os tons mais originais e mais variados dos temas que lhes ofereciam a literatura e a vida. E com isto, a aliança rara da análise penetrante e pessimista, a ironia risonha e cética, com o lirismo e a tendência romanesca da sua índole pessoal e literária. Ele tinha ao demais, — o possuiu talvez como ninguém depois de Garrett, — o dom da língua, mesmo quando ainda não a sabia perfeitamente, nem a empregava com a mestria com que acabou por manejá-la. A vida portuguesa contemporânea sob o aspecto em que a viu Eça, não deixará de si representações mais perfeitas, quadros mais verdadeiros e mais vivos, e o romance realista, em todas as literaturas, não terá muitas obras superiores a essas.

A fantasia romanesca, o lirismo congênito de Eça de Queirós, porém, se não podia encarcerar para todo o sempre na fórmula naturalista. O realismo fazia evidentemente parte integrante do seu temperamento literário, casando-se harmoniosamente àquelas outras feições da sua índole artística; o naturalismo segundo os seus mestres franceses, era a parte adventícia dele. Com o Mandarim, com a Relíquia e, sobretudo, com os Maias, ele o vai abandonando, e a fusão entre o analista, o observador e o lírico, o romântico, que nele há, se completa, e o desenvencilha do cânon propriamente naturalista. O drama e os personagens burgueses da Relíquia, por exemplo, são do mais acabado realismo, do que ele fez de melhor nessas pinturas exatas e vivas da sociedade portuguesa, da qual nos deixou tantos quadros superiores na sua obra. Mas esse drama, e essas personagens os envolveu em uma ficção da mais alta e da mais bela fantasia, soltando à toda a rédea a sua imaginação romanesca e lírica, e dando à língua portuguesa, no sonho de Teodorico, um dos seus mais belos e mais perfeitos trechos de prosa. Aos que malsinam a insuficiência da nossa língua, basta esse trecho para desmenti-los. Os Maias completam a sua deserção do naturalismo à moda de Crime do Padre Amaro e do Primo Basílio. Com eles Eça de Queirós reintegra o romanesco na arte naturalista, que o havia sistematicamente excluído e refugado. Um aspecto da vida portuguesa fornece-lhe o assunto de um novo quadro em que se sente pulsar a realidade, mas que uma luz de romance penetra de um ambiente romanesco, não menos verdadeiro que a realidade da vida que nele se vive. Não sei se esse livro com todos os senões que uma estética apurada lho poderia notar, não será da obra de Eça de Queirós a mais representativa da sua personalidade de artista, de poeta ao mesmo tempo sentimental e irônico, nervoso e frio, homem de sensações e homem de análise, pintor exato de realidades, e fantasista de alta imaginação. Mas raro é que um escritor se contenha em uma só obra, porque nós não somos somente complexos e diversos no espaço, senão também no tempo. Mudamos, variamos pelo menos, com os dias que passam, trazendo ou levando, alterando, em suma, as circunstâncias da nossa vida.

O romanesco, o lirismo de Eça de Queirós, o levaram insensivelmente à nova estética nascida da reação idealista dos trinta últimos anos. Ele ficará, aliás, alheio às escolas que disputam a representação dessa nova e larga e varia corrente artística. Não é dos que se matriculam e estampilhem em escolas. No mesmo naturalismo, conserva a sua independência, o seu temperamento, a sua personalidade. Mas a sua já indicada índole literária, ou artística, se preferem, devia simpatizar com o que porventura haja de verdadeiro ou pelo menos de belo no movimento simbolista. O símbolo é o eterno elemento da poesia, talvez a sua mesma essência, e este realista é também um poeta de alta fantasia. O lado místico, sentimental, idealista e idealizador das novas formas literárias deviam seduzir a sua fantasia, satisfazer o seu gosto de aliar o real ao imaginário, de recobrir ávida do véu diáfano da sua imaginação criadora. Daí o Defunto, a Perfeição e outros contos que ficarão como as suas obras mais acabadas de artista, ou antes de artífice consumado na arte dos lavores sutis e delicados, mas que sabe pôr inspiração e sentido nas mesmas obras secundárias de sua recreação espiritual, como os que fizeram as figurinhas de Tanagra ou os cinzeladores a Benevenuto Cellini ou os ceramistas das ninharias valiosas de Sèvres ou Saxe. Não que ele fosse de nenhum modo um simbolista. Era bastante grande para não suportar uma etiqueta. Mas o seu espírito largo, como o de um cético, impressionável como o dos poetas, compreensivo como o de um analista, apanhava de cada corrente literária o que nela havia de consoante ao seu gênio — que bastava para manter, na variedade da sua inspiração e da sua forma, a unidade da sua obra.

Por mal da literatura portuguesa e da nossa — é perante escritores do seu valor que compreendemos a solidariedade que a mesma língua estabelece entre literaturas diferentes — essa obra veio interromper a "colossal iniquidade da morte", quando porventura novas inspirações pudessem mostrar outras feições do seu talento. Ele, sabe-se pelos seus íntimos, sonhava ou imaginava romances de santos, aproveitar para sua a arte as lendas hagiográficas de que estão cheias as poéticas tradições da sua pátria, reunir em livro os seus contos e novelas, sujeitando-os primeiro a uma escolha rigorosa e a uma revisão severa, dar a última forma a Fradique Mendes, e publicar, completamente refeito em um livro novo, a Ilustre Casa de Ramires.

Destes projetos, nem todos inutilizou a morte — mas desmanchou talvez os mais prometedores deles, parando o movimento do cérebro onde eles se elaboravam e tomariam forma. A sua obra publicada, porém, parece já bastante para justificar no futuro a estima e admiração dos seus contemporâneos. Prova que havia nela, apesar das reminiscências de que falei, uma grande e funda originalidade, e que, apesar de numerosos imitadores, não pôde ser jamais imitada. Houve dela nas duas línguas apenas arremedos desajeitados.

O que foi Garrett para a língua portuguesa na primeira metade do século, foi Eça de Queirós na segunda. Os seus últimos escritos, e as edições definitivas dos seus primeiros livros, são o mais excelente exemplo de correção, unida à elegância, à beleza verdadeiramente artística, de uma língua que, conservando a sua pureza, a sua índole, mostra-se plástica bastante para exprimir nas suas mais delicadas e sutis gradações toda a gama das ideias e sensações modernas.


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JOSÉ VERÍSSIMO
"Homens e Coisas" (1899-1900)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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