quarta-feira, 24 de julho de 2019

A magistralidade de "o Mandarim" (Ensaio)



A magistralidade de "o Mandarim"

Eça de Queirós define-se numa frase — é um inspirado, é um talento. As suas obras são obras de uma fantasia desgrenhada, convulsa, nervosa. A sua característica literária, mais profundamente acentuada, é a impressionabilidade imaginativa, é a facilidade de desenhar perfeitamente, nitidamente, com uma clareza, com uma precisão fotográfica. Ninguém, como ele, descreve com dois traços uma paisagem, fixando, apresentando todos os contornos, todas as nuances, todos os claros escuros do quadro. Ver é fácil, é facílimo. Ver bem, ver num relance todos os pontos culminantes, a alma, o caráter, a fisionomia do que se quer descrever, é um talento a raríssimos concedido. No vastíssimo catálogo da literatura francesa, em cujas fontes a moderna literatura vai beber, destacam-se alguns poucos vultos, mas esses grandes, mas esses enormes. Sobrenadam Zola, Flaubert, Droz, George Sand, poucos mais. Do nosso, insignificante e pequeno como é, ainda assim sobressaem notavelmente os de Eça de Queirós, Teixeira de Queirós, Ramalho Ortigão e Júlio Lourenço Pinto.

Eça de Queirós possui num grau intensíssimo essa grande condição. Mais. Todas as suas páginas ao mesmo tempo que descrevem magistralmente uma paisagem, um quadro, fotografam também a humanidade, as paixões, os sentimentos. Desce aos abismos profundos, tenebrosos das consciências e faz a anatomia rigorosa dos espíritos, a anatomia profundamente verdadeira e nua dos sentimentos nos seus diferentes aspectos e nas suas distintas manifestações, a anatomia do amor e do ciúme, a anatomia da cólera e da abnegação.

Por este meio, por este processo é que Balzac, o imortal autor da Comédia Humana, criou alguns dos seus tipos, tipos que são, e sê-lo-ão sempre, o resumo de todos os indivíduos de que se compõe a humanidade.

Essas criações são de todos os tempos e viveram no passado, como vivem no presente, e hão de viver ainda no futuro. São eternos, são imutáveis. Outros definem uma dada nação, num dado e num limitado espaço de tempo.

Os livros de Eça de Queirós estão neste caso, como também, mas numa ordem um pouco diversa, estão os Lusíadas. Camões define nas suas páginas de bronze a vida do seu tempo com todos os seus sentimentos, com todas as suas monstruosas crenças. Eça de Queirós define a vida do seu tempo, a vida da moderna sociedade portuguesa, combatendo os seus ridículos, as suas chagas, com as suas grandes gargalhadas fulminantes.

Eça de Queirós é um grande romancista. No nosso país é o representante de Balzac, de Walter Scott, de Croper. É realista, mas realista na acepção única, perfeita da palavra.

O realismo é a interpretação da natureza; é esta a moderna definição de um grande crítico, de um grande trabalhador, de Gustavo Planche. A sua reprodução, como alguns a definem, não.

Eça de Queirós sorriu-se, servindo-se primordialmente do primeiro meio, e aceitou o segundo como um poderoso apoio. É por isso que o temos como um discípulo direto de Balzac, aliando mais de Flaubert a compreensão do homem exterior. Tem a psicologia de um e a fisiologia do outro.

Enquanto a estilo, sejamos francos, tem algumas inexatidões, alguns defeitos, mas a par deles tem qualidades verdadeiramente admiráveis, qualidades que os sufocam.

No seu último livro, O Mandarim, prova-o bem mais uma vez. Ali é que se vê o estilista com toda a sua poderosíssima energia. Tem descrições admiráveis. Tem páginas de um colorido deslumbrante, de um colorido arrebatador. Ao lê-las sentimos a alma vivificar-se, como se respirássemos a plenos pulmões uma atmosfera profundamente oxigenada. As frases mordentes, vivas, pitorescas rompem a todo o instante, como das grandes rochas brota água viva. A ironia é espontânea. Vem do fundo.

Nesta sua última produção, como ele mesmo o diz no pequeno prólogo, repousa do áspero estudo da realidade humana, e entra alegremente no domínio do sonho, do sobrenatural. Abandona os processos científicos dos seus romances, toma outros, vai descansar à sombra frondosa do idealismo, como que se rindo da fórmula intransigente dos Lavallois, de que nada existe fora dos domínios da vida.

O Mandarim, como veem, é um esplêndido conto fantástico, de uma fantasia cheia de vida, de um vigor pouco vulgar. Aqueles tão falados contos de Hoffman, de Edgard Poe, devem sentir fortes estremeções de espanto ao defrontarem com o recém-chegado — o que nos sucederia a nós se víssemos destacar-se da penumbra o vulto zombeteiro de Mefistófeles.

O novo conto é no gênero dos romances de Júlio Verne, é perfeitamente um conto de viagem, onde a par da ciência, se encontra um enorme fundo de bom senso.

Talvez que a crítica moderna seja um tanto severa com ele, mas há de necessariamente curvar-se de admiração. A crítica moderna queria talvez a adjetivação metódica do conselheiro, as imprecações grosseiras de Juliana, os desfalecimentos de Luísa e pedia aquele meio agitado, convulso dos episódios frisantes do Primo Basílio, gostava daquele vertiginoso turbilhão, gostava poderosamente daquele meio aonde refervem, no grande cadinho depurante do martírio, a luxúria, o ódio, a vergonha, o desespero. Era isso talvez que a crítica moderna esperava. Não o encontra. Mas em compensação encontra páginas de um vigor extraordinário, mas não perscrutadas com a fria precisão de um matemático.

A cidade de Pequim, por exemplo. Como descreve bem os bairros militares e os nobres! As ruas, uma de uma tranquilidade austera, outra cheia de vida ruidosa; as ruas que semelham caminhos de aldeia; as lojas com as suas tabuletas vermelhas de letras douradas sobre fundos escarlates, as sedas, as franjas, os esmaltes, as porcelanas de Ming que sobressaem vivamente do fundo escuro dos balcões!

Aqui descreve com perspicacíssima sutileza as torres negras do Templo do Céu, a grande Coluna dos Princípios, hierática e severa como o gênio mesmo da raça, os terraços de jaspe do Santuário da Purificação. Além mostra-nos o Templo dos Antepassados, o Palácio da Soberana Concórdia, o Quiosque dos Historiadores, fazendo brilhar os seus telhados lustrosos de faianças azuis, verdes, escarlates e cor de limão.

Sobretudo a descrição final, a da noite passada a bordo, é admirável.

É ao anoitecer. O mar, enorme, profundo, de um azul esbatido, estende-se na imensidão silenciosa das águas. Ao longe uma longa fita encarnada cerca o horizonte, são os reflexos pálidos dos últimos raios do sol, parecendo glóbulos inflamados, que dão um tom profundamente fantástico ao quadro. Os passageiros, no tombadilho, olham vagamente para aquele surpreendente espetáculo do pôr do sol a bordo, animados pelos mais desencontrados pensamentos. Este, encostado à amurada, pensa talvez nos seus pequeninos e louros filhos; aquele no seu longínquo futuro...

Depois a lua nasce, marmórea, redonda e branca, erguendo-se do nível da água, e numa meia tinta pálida, deslumbrante, dando reflexos prateados de fosforescência à enorme massa d'água que cerca o vapor...

É magnífico!

FRANCISCO MARIA BORDALLO
Bibliografia Portuguesa e Estrangeira (ano: 1880)

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