terça-feira, 16 de julho de 2019

Filha do Sol (Conto), de Cláudio Basto



Filha do Sol

Sentei-me na borda alta da...        taça de mármore, onde a água soturnamente dormia, — e esperei que me dissesse, enfim, o seu mistério aquela mulher complicada...

— A noite era calma e escura. Na água morta e negra da taça luziam, vigilantes, os reflexos das estrelas. —

Ela começou a falar, vibrantemente, e eu escutei em silêncio.

— “Donde vim? Quem sou?

Quantas vezes me interrogo a mim mesma, achando-me estranha, e só, neste mundo?! Que mistério é a minha existência, Deus do Céu! Rolo na vida, como levada na dominadora asa de não sei que ideal rajada!... Para que vivo? Quem sou? Donde vim?

Eu sinto, para trás da minha existência incompreensível, um vácuo frio, de treva. Parece-me que tombei, um dia, dos espaços intersiderais — e que vim, como um sonho, em uma vertigem doida, por entre os astros a rodopiarem silenciosos o seu rodopio eterno, deixando atrás de mim uma escuridão álgida, a apagar o meu rastro!

Oh, sim! Há qualquer coisa, há muito de singular, de complexo, de irreal, a escandecer a minha alma! E este fogo, que me consome e referve turbilhonante dentro em mim, afigura-se-me que foi o Sol que mo pegou, quando por junto dos seus raios passei. Foi ele decerto que me insuflou a vida num beijo ardente. É o fogo do Sol, é a lava do Sol que eu trago em mim. O Sol é o meu pai: o Sol, fonte de toda a vida, Deus máximo das energias eternas, Deus dos deuses, é que é o meu pai! Ergo os meus olhos triunfais para o Sol, e vejo no rosto dele, diademado de onipotência, o seu sorrir de lume, o seu sorrir paterno. E, pelos meus olhos que se fixam audazes, sem deslumbramento, na face rebrilhante do Sol, eu sinto penetrar em mim o seu fulgor candente, que me corre as artérias e os nervos um a um. É o Sol que me beija com os seus beijos de fornalha — O Sol! ele ao certo o meu pai, a minha alma é feita do seu fogo!

E o seu fogo é amor em mim. Como a flor se dinamiza em aroma e cor e veludesa, e a mão se poetisa em gesto e o corpo em atitude e a garganta em canção... — assim o fogo da minha alma se revela, espiritualizado, em amor. E eu amo as idealidades, eu amo as volatilizações, — amo a graça, o ardor, a carícia, a pressão, o beijo, aéreos, fluidos, voláteis, em si, abstratamente, livres dos corpos, das materialidades.

Não são os olhos que me seduzem, são os olhares, o magnetismo expressivo dos olhares. Não sinto lábios, sinto a ardência suspirada dos beijos. Abstraio dos braços, das mãos, dos corpos, que me comprimem, para só me deliciar no vigor dos abraços, na leveza e no veludo das carícias, na pressão tumultuária do peito amante.

Eu quero exteriorizações ideais de afetos, de paixões, de loucuras de amor. Que me importam os homens? Só quero deles os desejos, os sonhos, os carinhos, que se evaporam dos seus lábios, dos seus olhos, dos seus gestos, não me interessando a quem pertençam, porque nada me interessa a fealdade ou gentileza dos corpos. Almejo um incêndio de prazer, quero calcinar-me em volúpia, quero vibrar, enrolar-me, retesar-me, convulsar-me, estorcer-me, como um vime zimbrado por um ciclone, — ciclone de ânsia, de gozo, de epilepsias lúbricas; quero afogar-me voluptuariamente num furioso mar de sensações, vibratilidades, arfares, suspiros, delíquios, que se evolem, estonteantes, dos homens, — mas sem os ver, sem pensar em nenhum, como se me afogasse na cor e na veludesa e no perfume, insulados da flor... Eu separo da carne a forma, a tepidez, o movimento, o contato, o espasmo — e só essa imaterialização eu amo”...

Calou-se, — e eu continuei no meu silêncio... E ela, a Filha do Sol, estranha Pasífaa, como para dar escape à tormenta nervosa que se reprimia dentro de si, e que o silêncio e a quietude mais flageladora tornavam, feriu com as mãos, freneticamente, o espelho negro da água adormecida...

Entre os seus dedos, a água estremunhada chorou pérolas; — e por toda a taça de mármore, num gemente sobressalto, a água ondulou...

E os reflexos das estrelas, inquietados, eram gotas de luz, caídas umas após outas para o fundo, como rosários de lágrimas de oiro a desfiar-se........

Lisboa, abril de 1916.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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