sábado, 6 de julho de 2019

Glória latente (Conto), de Raul Pompeia



Glória latente
Até que, sentindo no pensamento as ideias nítidas, recortadas como arabescos em aço e a grande vida da paixão como um tumulto de asas de águia num entalho de escarpas; delineada a pauta da meditação; a harmonia geral do poema como preludiada em sinfonia; o ardor nervoso, que precede a composição, mordendo o freio de ouro do metro e da disciplina planejada, sôfrego como um cavalo de guerra num começo de balada: – plenamente possuído da obra, ele resolveu-se a tomar a pena.
No papel em branco, lustroso, iriava-se por uma zona estreita um reflexo do claro dia. Ele deixou-se fascinar pelo brilho da folha. Era como um rio de luz infinitamente.
O primeiro canto celebraria a Vontade e o Amor, inteligência e instinto, as feições primordiais da existência poeticamente delimitadas e o encontro destas energias, distintas, confundindo-se como sexos, ou divergindo violentamente para promover os dramas da natureza e da humanidade. A Vontade agita o caos; o Amor encaminha a agitação; a Vontade cria o mundo, o Amor perpetua.
Concluiria por um quadro do terror dos homens pré-históricos, nas vésperas de um grande cataclisma...
Ao alcance da mão tinha o tinteiro, algumas gotas do sangue negro dos livros.
– Era aquilo a forma. Bastava colher habilmente no cristal o fio líquido e desfiar na página.
Ali dormia o estilo na síntese fluida do bocal, a cor, o desenho sábio da palavra.
Palavra?... Sim, o veículo da vaidade de que o escritor depende, palavra, o mesmo vil instrumento das permutas do interesse e do apetite.
Uma dúvida de repugnância paralisou-lhe a pena.
– Escrever: formular, comunicar. Mas que pretendemos dos outros? Aplauso? A arte que vive do aplauso rebaixa-se, prostitui-se; as chamas ardem para cima. Critério? A arte que não tem apoio na convicção da própria força sucumbe; a hesitação atrofia e anula; a arte forte cresce de si mesmo, organicamente. De que lhe podia valer a eleição do vulgo?
Formulem os músicos ambulantes da expressão, os mercadores de espírito, que vão de feira em feira, pelas cidades da tolice humana, mostrando o próprio talento como um asno douto, ou um macaco esperto, os mercadores de plástica, que despem em público a imaginação, pobre escrava palpitante, e oferecem a pura carne à fome grosseira de quem a compre, a flor da epiderme cultivada ao dente brutal das feras do prazer. Formulem os pregoeiros de opinião, pagos a preço de renome, em moeda corrente de lisonja, e os outros, os que vencem, os grandes homens do ventre, mordomos do consumo dos povos, chamados políticos, supostos governos, preciosamente agaloados por maior brilho de ucharia, às ordens do Vulgo poderoso...
O canto segundo resumiria a construção histórica da Vontade: sociedade, impérios, as corrupções, as guerras acabando pelo espetáculo de Roma espavorida, estalando as calçadas de mármore das praças sob o galope da cavalaria dos bárbaros.
– Podia escrever, admitiu. E molhou a pena. Uma lágrima mais grossa da tinta voltou ao tinteiro. Podia escrever. Findo o trabalho, perfeito de grandiosa inutilidade, entregá-lo-ia ao fogo. Ninguém saberia daquela existência artística ali começada, ali destruída: ele só, depois da alegria da criação, sem apreço, sem desdém, assistindo, de alto, ao perecimento da obra, como a divindade indiferente que visse esgotar-se a vida emprestada a um meteoro.
Que sublime poder, esta imolação da vaidade ao orgulho! O livro em retorno ao não-ser original, independente de estranho juízo, glória bravia de estrela, vivida, consumida num recanto insondado do espaço, longe da admiração, longe do olhar, virgem da crítica, alheia aos homens como a fatalidade!...
O canto terceiro seria a notícia épica dos fatos do Amor, religiões, com o argumento das filosofias, perseguições, martírios, num quadro da Idade-Média. Serviria de remate à agonia do último Cruzado em São João d’Acre, velho, esquecido desde muito da sua dama, negando Deus, prevendo e lamentando um futuro a chegar em que a Vontade predominaria inteiramente, vestida na frase de todos os disfarces, saudando enfim a Morte, a terrível amiga e conselheira, que havia de sugerir um dia a verdade da vida como sugeriu as crenças váquas e as meditações inanes...
– Mas escrever fora provar: a consciência perfeita não ensaia. Demais, que pretendia escrevendo? Castigar na tortura da fórmula a ideia livre, encadear as ondas do pensamento, a tormenta infrene da paixão, escravizar à norma a sua força, feliz inteiramente, sobre aquele mundo incriado, como espírito do Gênesis sobre as águas.
Bastava-lhe sentir e pensar intensamente a alma dos homens, vibrar como um eco o sofrimento, o entusiasmo dos semelhantes. Para que transmitir? Poder é a força em si.
Realizar é somente a expansão ocasional, a expansão é o suicídio da força. O vocábulo define a ideia; a encarnação limita o Verbo. Amesquinha-o.
Não! Gozaria no íntimo o egoísmo ignorado da pujança. Seria a sua alma para ele o próprio espetáculo. Ser uma alma completa: que mais? O seu poema aprofundaria os seus amores, servir-lhe-iam as ideias para a visão lúcida das cousas: seria poeta como um forte na barbaria primeira, antes da linguagem. Que sólido descanso repousar a mediocridade obscura sobre a força que produziria um universo! Tranquilizar a inércia sobre a glória de poder!
O poema voltaria ao cristal como a gota escapada à pena. Não baixaria à fórmula. Ignorá-lo-ia o mundo. Ignora-se também o diamante primitivo na obscuridade compacta das minas negras. Far-se-ia o sepulcro do seu orgulho, satisfeito de conservar inviolada a psique no mistério da renúncia...
Renunciou.

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