segunda-feira, 15 de julho de 2019

Gestação das formas (Crônica), de Sylvio Floreal


Gestação das formas
(Estética obscura)

Tudo na natureza encerra um grito de amor, um beijo ardente, enjaulado na essência amorfa das câmaras imperceptíveis dos elementos brutos. Um grânulo que se transmuta e congrega é uma poalha de harmonia que caminha para a formação gloriosa de outros corpos, insuflado por um sopro invisível.

A coalescência dos átomos no seio obscuro do Cosmos são bulícios ansiosos de júbilos, que prenunciam a existência de outras coisas novas que se estão elaborando no seio recôndito das energias anônimas. A natureza é um Gineceu eterno, onde palpitam em silêncio os germens de todas as coisas que aspiram a adquirir o máximo de estesia para a suprema perfeição...

O fenômeno da estenia é ali um estado latente; tudo tem uma psiquê que sonha em desdobrar-se, um coração que ama e pulsa, regulando o ritmo das coisas que fazem o seu ciclo evolutivo, para plasmarem sempre vidas e formas inéditas. Em todos os lugares, por mais abscônditos que sejam, há um frêmito de volúpia, uma exaltação jovial, inflamando as seivas, propiciando as transfusões nos imos misteriosos das fibras mais humildes, despertando o princípio genésico, acordando dissimuladas vigílias de amor, que noivam às ocultas, nos ovários, nos pólens e nos hilos.

A ânsia da transfiguração, o egoísmo da glória, é uma febre magnética distribuída às coisas mais ínfimas, pelo destino que rege e equilibra a marcha da evolução.

Num fragmento de cristal se encarcera um raio fulgurante de sol. No pistilo seco de um lírio, que o vento ceifou, se o examinarmos, atentamente, encontraremos estiolados nas comissuras dos seus tecidos os últimos brilhos dos beijos das estrelas. Nas lombadas ásperas dos muros solitários a alegria se manifesta pela pelúcia cetínea dos musgos.

Nas penumbras das locas, surpreendemos o sorriso humilde de uma flor a destoar aquela monotonia, como uma esperança louçã a inebriar um organismo decrépito. No reino das coisas toscas há uma harmonia sutil, ressoando no fundo longínquo das estâncias, que servem de berço às formas futuras. Das entranhas marmíferas dos montes se irrompe um grito árdego de desejo; são os alabastros que suspiram pela eternidade, clamando, nesse verbo incomunicativo das coisas divinas, pelo beijo redentor que os cinzéis lhes hão de imprimir, que é a estrofe de uma linha, o poema dumas curvas, o cântico da vida resumido na carne das mulheres...

No silêncio místico dos alfobres onde, na combustão do húmus, as sementes germinam, há um trabalho incoercível, urdindo febrilhas secretas para a formação de variegadas estruturas. Existe em tudo uma vibração velada; o fogo sagrado do amor crepita perpetuamente na alma das coisas, acirrando entusiasmos e exacerbando desejos. Uma filosela de luz que se tamisa em curveteios macios, como um suave soprilho através das gelhas de um tronco senil, é um hálito mesto de epifania que, como mensageiro excelso, vai acordar para a aleluia da vida forças que jazem sincopizadas na ternura virginal das seivas. Os raios comburentes do sol são gotas afrodisíacas de um elixir imponderável e diáfano que fecundam no tálamo da natureza as belezas eternas que bisbilham no sangue ubertoso da gleba.

Obedecendo à lei eviterna da transmutação é que as coisas mais incolores e insonoras se esposam, para doarem galhardamente ao grande museu da natureza a dádiva de uma beleza nova.

Jaz impresso em tudo o delírio da pompa e a embriaguez do fulgor!...

Dentro das células torvas de um punhado de lama se alberga a ilusão mirífica de uma esperança bramante — a lama sonha em ser asa... Os paúes, cansados dos reproches e baldões do céu, numa emulação de suprema vaidade, estrelam-se de lírios.

Todas as belezas afloram e vicejam sobre o delubro do sacrifício e da dor. Quanto orgulho e quanto fastígio ostentam os roseirais afestoados de rosas e as árvores avergoadas de frutos!... E este relumbramento e esta opulência são filhos de uma renúncia; promanam de um gesto de abnegação. São as raízes que, num estoicismo bendito, aceitam para o fausto de alheios triunfos o holocausto rude das solidões inglórias.

E elas, como párias desprezíveis, condenadas ao divórcio perpétuo da luz e à orfandade das carícias suavíssimas dos astros, medram, sempre à procura do seu ignorado destino, como mães que ofertaram os olhos aos filhos cegos e imploram para reavê-los! Assim elas, sem a esperança de uma recompensa, rezam eternamente lá do fundo da terra uma fervorosa oração pagã ao sol, que nem sabe que existe cá embaixo alguém tão humilde que o adora tanto. Ele é bem o príncipe encantado que perturba o sono das raízes... A natureza, mesmo nos seus momentos de crise, quando tudo se envolve numa fosca penumbra de dor, tem um alvo sorriso de Samaritana para a flor que tomba e para a semente que germina, para as árvores arrogantes que sob a doçura dos astros fazem a escalada do azul, e para o arbusto humilde esquecido no anonimato das alfombras!... Vem do silêncio dos túmulos o grito dos berços; parte do coração das rochas o eterno princípio do amor...


Revista "Panoplia", maio de 1918.



---
Fonte:

Rafael Rodrigo Ferreira: "O 'literato ambulante': antologia e estudo da obra de Sylvio Floreal - 1918-1928" (Tese). Universidade de São Paulo - USP. São Paulo, 2018.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...