terça-feira, 23 de julho de 2019

Gonçalves de Magalhães: últimos anos (Biografia)



Gonçalves de Magalhães: últimos anos

Em 10 de junho de 1874, Magalhães é acreditado junto à Santa Sé, na qualidade de enviado extraordinário e ministro plenipotenciário, e, quase simultaneamente, por decreto de 25 do mês seguinte, passa de barão a visconde com grandeza.

Quando o Visconde de Araguaia apresenta as credenciais a Pio IX, dois príncipes da Igreja, frei Vital e D. Antônio de Macedo Costa, acham-se, um na fortaleza de São João e outro na da Ilha das Cobras, expiando a pena de quatro anos de prisão simples, em que lhes foi comutada a de prisão com trabalho, a que foram condenados pelo Supremo Tribunal de Justiça, às ordens do primeiro Rio Branco.

Tanto basta para demonstrar a delicadeza excepcional da situação do diplomata brasileiro junto ao Sumo Pontífice.

Em boa hora vem facilitar-lhe a missão a anistia de 1875, Magalhães pode então voltar às suas preocupações filosóficas.

As duas últimas obras que lhe saem da pena são A alma e o Cérebro, em 1876, e Comentários e Pensamentos, em 1880.

Desta nenhuma página existe, que mereça menção. Naquela, dedicada ao Imperador, que se dignou "ouvir a leitura de alguns capítulos" e animou o autor a concluir o trabalho, há uma apreciação da frenologia de Gall, do sensualismo de Condillac e do materialismo. Na parte negativa está, para Leonel Franca, a parte melhor da obra filosófica de Magalhães.

Em Roma, a 10 de julho de 1882, com pouco menos de setenta anos, falece o Visconde de Araguaia.

Bem pode ser que, a dois passos do trânsito supremo, lhe tenham acudido à memória aqueles versos de Antônio José:

Morrer... Morrer... Quem sabe o que é a morte?
Porto de salvamento ou de naufrágio?

O naufrágio, para um homem como ele, seria o esquecimento. Passados cinquenta anos, o seu nome vive ainda e não morrerá tão cedo, porque sem decliná-lo ninguém poderá traçar a história do pensamento nacional. Entendia assim José Veríssimo, representante da geração que lhe sucedeu: "influiu poderosamente na formação da literatura brasileira, que desde então começa a distinguir-se da portuguesa". Reconhecem-no os moços de hoje (década de 1930) como Ronald de Carvalho e Mota Filho, que enaltecem "o empenho de Magalhães em prol da libertação literária do Brasil".

Pouco importa que, fecunda em abortos, a obra do poeta, do teatrólogo, do crítico, do novelista, do filósofo tenha mais intenções do que realizações. A grandeza dos ideais que o inspiravam, o desejo constante de enobrecer a vida, o culto ardente das coisas da inteligência, a coragem e por vezes a galhardia com que abordou todos os gêneros, o papel que, embora contra a sua vontade e ao arrepio de suas convicções mais radicadas, desempenhou no movimento romântico, fazem de Magalhães um dos valores de nossa aristocracia espiritual.

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ALCÂNTARA MACHADO
"Gonçalves de Magalhães ou o romântico arrependido" (1936)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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