sexta-feira, 26 de julho de 2019

Singularidades da vida de Eça de Queirós



Singularidades da vida de Eça de Queirós
No dia 23 de julho de 1866, um jornal de Lisboa inseria a seguinte notícia:

"Vem de Coimbra para Lisboa, com a sua recente carta de formatura o novo bacharel, Dr. José Maria Eça de Queirós".

Ia lançar-se no profissionalismo da advocacia, aquele que mais tarde havia de ser um dos grandes da literatura nacional. É possível que o seu talento o tivesse celebrizado também no foro, mas abençoada a hora em que a caneta de Eça de Queirós, em vez de escrever contestações e minutas, deliberara escrever romances, artigos, contos, sueltos, numa orgia de talento que inundou o século.

Em 1889, entra triunfante nos Vencidos da Vida. As suas definições são labaredas de espírito. Alguém junto dele elogia a função da indústria bancária no desenvolvimento da riqueza e logo Eça, ironicamente:

— Sim, na verdade os Bancos seriam instituições perfeitas, se nós pudéssemos ir lá buscar dinheiro, sem primeiro o termos lá posto.

Eça, com o seu ar catedrático, era encantador no convívio. Só a doença o forçou a abdicar da sua categoria de gourmet incorrigível. Adorava fazer bacalhau de rebolada e já no fim da vida, quase sustentado a uma água termal francesa, de vez em quando, não resistia a uma salada de lagosta. Seguiam-se dias de sofrimento.

Uma vez, esteve hospedado num hotel do Porto, e ao pedir a conta, verificou que estava excessivamente "salgada". Eça chamou o gerente:

— Esta conta está incompleta. Foi, de certo, esquecimento.

— Vossa excelência dirá, senhor doutor, é possível...

— É que esta madrugada, quando eu entrei, elucidou o romancista, o porteiro deu-me as boas-noites, e eu não vejo cá isso metido na conta.

O gerente embatucou.

***

Fialho, que não morria de amores pelo autor do Primo Basílio, escreveu a seu respeito: "Conheci-o há pouco mais de um ano, num gabinete do restaurante, onde ele ia cear todas as noites. Espírito adorável bordado de infantilidades sabiamente permitidas para os efeitos cênicos da sedução, e sobretudo esse privilégio sagaz de não perder um milímetro da estatura pela intimidade e pela franqueza, prodigalizados em volta".

Mais tarde, o autor dos Gatos escrevia:

"De ano para ano, Eça de Queirós vem a Lisboa, observar de quantos séculos Portugal retrogradou desde a última visita que lhe fez. E das suas janelas do Rossio, vê arrastar-se embaixo a miserável gente, amarela e morna que vai para o emprego público ou vem da casa de penhores".

Em 1898, festeja-se o quarto centenário da descoberta do caminho marítimo para a índia. Eça escreve uma longa carta à esposa, ausente de Lisboa. Alguns períodos: "A família Apolônia do tais cuidados me cercou, que quase me incomodou. Logo pela manhã os almoços eram temerosos — porque o prato mais insignificante era sempre um imenso peru ! A etiqueta é comer de tudo, e eu cumpro. No último dia houve um jantar festivo. Então foi tremendo ! Só arroz, havia de três qualidades. De todos tive de provar — depois de repetir."

"Lisboa está em pleno centenário. Dizem que vieram da província, mais de cem mil pessoas. Ainda apanhei o cortejo cívico que não tinha civismo nenhum, e onde apenas ofereciam interesse, um bando de pretos de Moçambique. Entusiasmo nenhum. O povo ainda não percebeu, quem era este Vasco da Gama"

 A prosa do Eça, mesmo íntima, ó sempre saborosa.

***

Da mulher, dizia: "O homem tem para fazer o drama, a guerra, a revolução, o duelo, o livro e o teatro. A mulher confinada no mundo do sentimento, tem apenas o Amor".

E censurava-as maliciosamente explicando:

"A mulher não aceita o corpo que a Natureza lhe dá. Procura aquele que se vende nas modistas".

Perguntando qual era em seu entender, a mulher mais apetecida, Eça não hesitou:


"As mulheres querem-se como as peras, maduras e de sete cotovelos..."

***

O genial escritor sempre teve grande inclinação para as letras. Mais tarde, já consagrado, a sua velha ama comentava: "E lembrar-me eu que me queixava do papel que ele consumia a escrevinhar coisas quando era pequeno"! E para terminar, um pormenor que marca o ambiente de ternura e de gentileza que havia na sua casa.

Eça adorava flores. A esposa, sempre solícita, nunca deixava a sua mesa de trabalho, sem uma jarra.

— Em que mês estamos nós? Perguntou um dia a D. Emília, a dedicada companheira do escritor.

E ela esclareceu: Estamos em abril. Não vês os lilases?

Logo Eça, sorrindo:

— Tens razão. Aquela jarra ó o nosso calendário!


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LOURENÇO RODRIGUES
"Anedotas e episódios da vida de pessoas célebres"
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019).

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