terça-feira, 16 de julho de 2019

Meu Fantasma (Conto), de Cláudio Basto



Meu Fantasma

Fantasma cruel, que me não deixas! Ora te sinto no cérebro desordenado, neste meu cérebro esbordante de confusos retalhos de ideias, ora te sinto fremente no sussurro intérmino do meu sangue a arder ou no intérmino zunido de meus nervos a vibrar! E, se de mim sais, por um momento, agora, logo, — enxergo-te, sem te ver, nas sombras bailantes do meu quarto, e sempre cruel, sempre com teus dardos inquietadores empeçonhados de imaginação —, cravados e rebulidos na minha alma hiperestesiada!

Fantasma cruel, que me não deixas! vai-te!

Que mal estranho me aflige e me apavora? Que mal é este que te consente a sanha enraivecida e te amplia soturnamente a maldição das garras, ó Fantasma atroz?

É a soledade apreensiva, eu bem no sei. É de abandono que eu estou doente.

Se nesta indecisa treva, feita de oscilantes manchas negras, tão só riscada por um traço de luar, que fosforeja de través na minha cama, num fio de luz funérea, — se neste silêncio, que apenas o meu zumbido interior enche pavorosamente, eu tivera junto de mim a mão da ternura que me afagara o coração e o cérebro, — adeus, Fantasma cruel, maldito Fantasma, que no teu rasto levarias o meu sobressaltado tormento, a minha febre de solidão!

Tu para que vens atulhar a minha vida interior — de pedaços incongruentes, inurdíveis, de ideias, que se entrechocam informes, num fervente turbilhão enublado, sem que eu as possa reproduzir, nem sequer apreender? Para que me levas, como num vendaval de febre, por imaginárias paragens, entre sons, cores, formas, ritmos, perfumes, luares inéditos, que só dentro em mim se sucedem numa desfilada louca, numa ordem louca, mas numa “ordem”, e que na minha consciência não deixam qualquer imagem, qualquer impressão, qualquer vestígio, quanto mais um fio coordenador?

Quero ver esses ineditismos, quero vê-los interiormente embora, senti-los, registrá-los, e não os encontro sequer! Esvoaçam como aromas vagos, como sombras do crepúsculo, como exalações estonteantes de carnes virginais...

Que amnésia singular é esta?! Por que me laceras, Fantasma cruel e maldito, neste suplício de Tântalo?

E tu falas-me, tu pensas, tu raciocinas, tu mostras-me as tintas, as linhas, os acordes para descrever; mas não decifro a tua voz, não decifro o teu pensamento, não suspeito do teu raciocínio, não posso perceber o que mostras: tudo que vem de ti, Fantasma enigmático, reboa inapreensível dentro de mim, no âmago da minha própria alma que te gerou! Que tu, Demônio que me não deixas, és filho da minha alma, filho de mim mesmo! És como a vaporação que da terra sai ao sol da manhã, e que na terra só deixa uma sombra vaga e fugaz! És filho de mim mesmo e, como um doido, não te conheço nem entendo!

Queria repousar. Esta ebulição mental escalda-me a cabeça. A loucura, por certo, agarra-me o cérebro nas suas candentes unhas de ferro.

Quero repousar. Agora quero repousar; — ouviste, Fantasma odioso?

E estendo-me no leito; amorteço os músculos; regulo a respiração num ritmo vagaroso, de sono; cerro os olhos brandamente; disperso apreensões; arranco, autossugestionado, os cravos que me rasgam o cérebro; alheio-me do murmúrio do meu sangue e dos meus nervos; digo a mim mesmo que o dia não tarda, que não tarda a luz, a boa companheira que me curará desta doença de abandono...

E como o pensamento e o sentimento determinam posturas e gestos orgânicos, simultâneos, correlacionados, — a minha atitude em repouso determinará a paz da minha alma.

Já não quero saber de ti, Fantasma endemoninhado! Já me não remexo inquieto. Esqueci os males, esqueci tudo. Vou-me submergindo conscientemente num profundo, vitorioso esquecimento. Esta onda avassalante de agonia que por mim sobe agora — não é nada. Já te não sinto, Fantasma! Esta lava que jorrou agora tumultuante dentro do meu crânio, em furioso remoinho de áscuas, não é nada, não é nada! Mas abafo. Respiro fundo, sôfrego, desordenadamente. Abro os olhos. Na cama fosforeja o traço de luar. A escuridão é feita de placas, nódoas trementes, como um xisto macabro. As paredes, julgo que se aproximam num baile hediondo. Sinto-me na estreiteza gelada e negra de um túmulo. Respiro mais fundo, mais sôfrego, mais desordenadamente. De fora nem um ruído, nem um sinal de vida. Tudo trescala a morte. Falo. A minha voz soa-me cavamente, como da boca de um sepulcro. Não me posso erguer. Tenho o corpo chumbado ao leito úmido. Se eu me levantasse! Erguer-me-ia, abriria as janelas, sondaria a noite iluminada, reanimar-me-ia com a lua já perto do horizonte, com o luar inundando o meu quarto... E faço em espírito o que penso. Levanto-me, abro as janelas às escâncaras, sinto a frescura da noite cheia de luar, vejo a lua já perto do horizonte, ondas de claridade engolfam-se no meu quarto... Estou porém chumbado ao leito. A minha vontade não se completa: falta-lhe a execução.

Eu quero todavia repousar. Este sobressalto agudo que tive, ao cabo, foi o estremeção último de quem vai enfim repousar, como a crise revolta de um epiléptico antes da paz de um adormecimento.

Tomo a atitude física e fisiológica do sono. Cerro os olhos; amorteço o corpo; desanuvio o cérebro; respiro pausado... — Assim quedo, imóvel, lasso, absorto numa atmosfera tranquila à força de vontade, embalado muito embora num zunir sem fim...

Abro os olhos. Atento na alcova. A luz de alva já se entorna subtilmente na escuridão.

É uma aguada de luz, desigual e baça, que se dissolve nas manchas negras que dançam no quarto. Já tremem as paredes quando as lobrigo, olhadas com fixidez, e, sujamente enevoada, já lhes adivinho a brancura.

Bem-vinda luz, companheira amiga! Esvai-se-me pouco e pouco o mal do abandono.

Bem-vinda luz, terna companheira amiga! Retomo a posição do descanso, e outra vez, com a tranquilidade do corpo, eu provoco a tranquilidade da alma: agora sem esforço, naturalmente, esperançado na luz que chega, — e fico-me em sossego, arrojando o sangue do cérebro, projetando-o por autossugestão, por vontade, para os pés. Não quero cismar, não quero sentir, não quero entender mais contigo, Fantasma! Vai-te! Já perdes a força progressivamente, — escorraçado, batido, desfeito por esta gloriosa luz!

Não te vás, não! Anda cá, Fantasma! Agora que estás enfraquecido, que retraíste as garras empeçonhadas de imaginação, agora vem cá! Na minha calma, posso ouvir-te, posso já entender-te. Vem embalar-me neste doce caminho para o sono. Percebo-te já, Fantasma! Atendo à tua voz, ao teu pensamento, ao teu raciocínio, à tua expressão. Estamos na normalidade, na vulgaridade, — e sei reproduzir-te, pobre de mim!

Ris-te? Tu, diabólico, maldito, cruel, só na minha solidão doente me estonteias com o que nunca foi ouvido, nem visto, nem sonhado. Procuro então, sedento, ansioso, ir contigo, fixar as originalidades que me entremostras em velados relâmpagos de arte inédita, e não as topo, não lhes encontro sequer o rasto, a sombra, porque então, Fantasma, andas de camarada com o Pavor, com a Asfixia e com a Loucura, e é aterrado, tresvariado, com uma pedra de túmulo a esmagar-me o coração, com um capacete em brasa a espremer-me o cérebro, que eu te acompanho num deslumbramento. E levas-me a alturas, a profundidades, para que não tenho sentidos. Arrastas-me, numa vertigem delirante, para fora do campo da minha sensibilidade. Pobre de mim! pobre de mim sempre! E aí, Fantasma, nesse mundo informe que eu não sei adivinhar, deve ocultar-se a Beleza a que aspiro, o Novo, o Inaudito, qualquer coisa que esmague e assombre!

Ah, não me deixes, Fantasma! Não me deixes nunca! Nunca!

Descansa agora, marasmado por esta luz que eu, cobardemente, almejei! Descansa, para à noite redobrares de fúria e me arrebatares nos teus voos ferozes pelas doidas esferas da Imaginação!

Quero-te sempre comigo! Quero a doença do abandono, o terror da morte, a loucura satânica; quero que me vertas no coração o fel das piores ansiedades, — porque, Fantasma, quero entender a estesia que se esconde no teu delírio noturno, quero ir contigo, voando, voando, cada vez mais alto, cada vez mais longe, a ver se num instante supremo, numa fulguração reveladora, inesperadamente se rasga o mistério do Ignorado, e à minha consciência ele surge afinal capaz de fixação! Quero ir logo, amanhã, depois, sempre, nas tuas garras peçonhentas de fantasia, em formidáveis desfiladas tenazes, arrostando os dragões raivosos da Asfixia, da Loucura e do Pavor, a ver se, enfim! num ímpeto de raio, alcanço a torre encantada onde sonha a princesa Inédita!

Fantasma, Fantasma bendito, nunca me deixes!

Viana-do-Castelo, dezembro de 1916.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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