segunda-feira, 15 de julho de 2019

O aleijão da avenida (Crítica), de Sylvio Floreal


O aleijão da avenida

— Se não fosse paradoxal, eu afirmaria aos leitores da Gazeta que nutro pelo Sr. Zadig uma grande admiração pela sua rasgada audácia de, não sendo escultor, afrontar uma cidade como S. Paulo com aquela salgaralhada rotulada de monumento. O Sr. Zadig, ex-massagista, segundo a voz flutuante dos que há muito o conhecem, quis, num momento de delírio ambicioso, mostrar que ele também, seguindo as pegadas dos aventureiros que aqui armam o bivaque da sua piratagem, e enriquecem trazendo na sua bossa somente as garras da ganância, não bancaria o inocente nem a pomba entre milhares, e, consultando a sua bossa, encontrou no fundo, em estado latente, apetites de aventureiro. E, como aqui, tudo se improvisa, ele improvisou-se, do dia para a noite, em escultor. Fez campas, mausoléus, hermas, estortegadas estatuetas, placas, targas, baixos relevos, santos e outras bugigangas pertencentes à categoria das artes plásticas ou femininas. Assim, furando meses e anos, o nosso homenzinho, que suspirava, como aquele personagem do “Guarani”, na “ária do Aventureiro”, à espera de um golpe decisivo que lhe permitisse um salto, nesta terra de saltos, dos baixios da mediocridade e do obscurantismo, onde esmurrava barro para fazer santos, até à suma glória dos triunfadores, contava fazer um dia um grande monumento. A ocasião chegou: vítima, logicamente, devia ser um anafado capitalista que, tendo legado parte de sua fortuna a uma instituição de caridade, a municipalidade entendera de imortalizá-lo, perpetuando o seu arcabouço na praça pública. Mas, assim não aconteceu; nenhum anafado houve por bem morrer e o bode expiatório, arrastado pelas enxurradas do opróbrio, que havia de ser?! — O nosso máximo poeta, de cujo nome eu não me posso lembrar sem me comover! E o Sr. Zadig, de tocaia, ardiloso, sinuoso, premeditativo, envolvente, como um jaguar que se arremete contra uma presa imbele, trançando curvas lépidas de ferino, desferiu contra o bote fatal e espostejou a vítima entre as apuas laminadas de suas garras. E em certa manhã aziaga, para escárnio dos paulistas, a estátua de Bilac surgia no extremo da Avenida Paulista, tétrica, medonha, horrível, como um insulto fundido em bronze, lançado à memória do cantor do “Caçador de Esmeraldas”! Sobre essa manhã aziaga, outras manhãs monótonas rolaram como que compungidas com a sorte do Poeta e sobre a tristeza dos que nesta terra ainda se interessam pelas coisas sagradas. Vivia em paz o sr. Zadig, talvez inconsciente de ter burlado um grande povo, cogitando em ampliar o seu raio de ação, farejando aqui e acolá a maneira fácil de abocanhar mais uma presa para encher o tonel das Danaides de sua ambição. Mas, nem tudo, nesta terra de aventureiros, está medularmente pervertido. Os que não enriquecem seguindo o exemplo dos bandoleiros, ainda velam de cabeça erguida, como sentinelas nas fronteiras da pátria e, de azorrague em punho, e o verbo flamejante de cóleras, chicoteiam e condenam, para o afinamento da raça, e o decoro e respeito à Civilização, todas as manifestações berrantes de todos os escoiceadores da Arte, do Belo e da Harmonia. Compreendo isso mesmo, a Gazeta, tornando-se tuba de todas as indignações que explodiam avulsamente, sem nenhuma força coesiva, abriu uma clareira nas manhãs aziagas que rondaram à volta do monumento de Bilac, e condensando em suas colunas o clamor anônimo, veio reabilitar a memória do grande poeta, reabilitando ao mesmo tempo, a terra que aspirava vê-lo perpetuado no bronze. E essa campanha, avolumando-se dia a dia, há de arrasar, como um furacão de ódio, o aborto engendrado no cérebro nebuloso de um pseudo escultor.

Neste ponto interrompemos:

— Acha você então que o Sr. Zadig não é escultor...

— Já o disse e continuarei a afirmá-lo: Zadig é um sofrível fazedor de túmulos; um marmorista vulgar, que poderia viver aqui muito quietinho se não fosse tentado pelos pruridos da sua audácia. Audácia que cavou a sua ruína; ignorância que o tornou indesejável; ambição que o tornou odioso e o integralizou, novamente, para todo o sempre, no seu antigo plano rasteiro de obscurantismo.


Jornal "A Gazeta", 29 de novembro de 1920.


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Fonte:

Rafael Rodrigo Ferreira: "O 'literato ambulante': antologia e estudo da obra de Sylvio Floreal - 1918-1928" (Tese). Universidade de São Paulo - USP. São Paulo, 2018.

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