segunda-feira, 15 de julho de 2019

O amante de fogo (Conto), de Sylvio Floreal



O amante de fogo

— Recordar é sofrer... É reacender o fogo bravio de uma paixão que durou uma eternidade de um minuto turbulento, bramante, dentro de nós!

Assim falava Olga, mulher de trinta anos, que nunca tinha amado.

Angelina, um pouco mais velha do que ela, escutava-a e mordia furtivamente, de espaço a espaço, a polpa sensual dos lábios.

Estavam num terraço que dava para o mar. Era de tarde, uma dessas tardes de fim de outono em que há pelo céu uma alegria de noivado e uma expectativa sôfrega, que anuncia a visita da primavera. Olga continuou com a sua voz que era um misto de raiva e lamúria:

— Tu não podes avaliar o quanto ele me desmoronou e quantas torturas me está fazendo sofrer! Eu vivia calma, alheia ao meu coração e esquecida do meu sexo e de repente, ele, o mago das carícias, apareceu no umbral do meu abandono e me arrebatou violentamente!

E devassando todos os meus sentidos, acordou a mulher que dormia em mim...

Ah! Os amantes de coração são todos assim, duram o tempo que dura uma gota de orvalho dentro de uma corola. A minha alma, entibiada pela ausência de amor, foi abraçada pela sua que estuava e fremia de mocidade.

O seu verbo quente e dominador pôs-me os nervos em derriço e a alma em alvoroço. Não resisti! Aniquilaram-se-me todas as forças, oscilei inconscientemente, e de pálpebras cerradas caí enfebrecida em seus braços... Nesse momento o infinito palpitou em todo o nosso sistema vital! E os nossos lábios, no auge da ânsia, se uniram e se confundiram profundamente, como duas chamas.

Houve entre as duas mulheres um silêncio interrogativo. Angelina, como que na posse de um segredo comprometedor, afetando fugas de memória, fazia-lhe perguntas de coisas e fatos que muito longinquamente tinham relação com o assunto da conversa.

Olga, entregue à sua magoante recordação, não respondia.

Bailava-lhe no lusco-fusco da memória esfumada às vezes pelo ódio e aumentada às vezes pelo amor, a imagem perturbadora de Otávio, o amante de fogo, que lhe revelara num segundo, o augusto poema de ternura e amavio que há num beijo, quando as duas almas ciciando no mesmo diapasão, e vibrando na mesma intensidade, se entrelaçam acima da loucura e além dos sentidos! Olga, movendo negligentemente os lábios, que pareciam guardar avaramente a saudade de outros lábios, retomou a conversa, menos agitada:

— A minha vida tem sido como esses lagos estagnados onde os pássaros não bebem e nem caem folhas. Olga manteve-se por momentos numa quietude distraída e, após um silêncio sutil, Angelina exclamou:

— És rica, Olga! Com o teu dinheiro podes dar curso a todas as tuas fantasias, satisfazer todos os teus caprichos, exibir todas as tuas vaidades as mais recônditas. O maior dos sacrifícios o já fizeste: foi o teu casamento com Carlos. Pois bem ele é morto e de além-túmulo te perdoará tudo, até mesmo os desatinos que cometeres. A herança que te deixou é a paga material do teu sacrifício, coagida como foste pela tua família a contrair este matrimônio que te repugnava. Tu, num gesto de abnegação e de desdém, aceitaste tudo, porque era necessário refazer a fortuna de tua família, seriamente comprometida.

Olga, lutando para dissimular uma irritação nervosa, exclamou:

— Cala-te, Angelina; essa herança é como fogo infernal a queimar toda a minha vida! Melhor fora que esse homem, que só ambicionou a minha beleza física, nunca houvesse atravessado meu destino... Mas não lhe quero mal por isso, perdoo-lhe até os ímpetos do instinto que o levaram ao desatino de negociar com a minha família a minha futura felicidade. Ele só me revelou o que o homem tem de sensual e selvagem, portanto não me fez tanto mal como o outro, que fascina interiormente com a bondade que educa e com o espírito que eleva. Esse foi Otávio, homem de inéditos recursos, predestinado a deslumbrar todas as almas que se debruçarem na órbita do seu sonho, onde irradia a sua alma, luz e perfume de sedução. Antes de o conhecer eu vivia indiferente a estes dois estados de comoção — felicidade e infelicidade. E hoje, depois de ter conhecido os inebriamentos da primeira, expio, angustiada, o amargor da segunda.

Há uma leve prostração de sentidos.

— A felicidade, minha amiga, é como essas joias caras de que só conhecemos o verdadeiro valor quando as perdemos. Nunca ser feliz, eis aí talvez a verdadeira felicidade. Otávio levou-me num momento de transporte e delírio e esse encantado país, a essa Atlântida imaginária do sonho de Platão — a felicidade! A minha estadia lá foi mais curta do que a viagem, mas foi o necessário para eu ficar deslumbrada. Ele, porém, seguiu adiante, em busca de novas emoções em outros lugares desconhecidos, e eu voltei a sós, com a calma entenebrecida e cheia de tédio...

Calou-se, extática, como a ouvir o eco das próprias palavras.

— A felicidade, essa terra longínqua, acabo de a conhecer; antes não a conhecesse!

Estabeleceu-se entre as duas um silêncio de fim de comédia.

— Invade-me agora a nostalgia dessa terra, disse Olga. E baixando a voz, num esmorzando de surdinas, terminou: — Começo a sentir a nostalgia da felicidade... Ah! Os amantes de fogo são todos fatais, todos têm o destino das chamas, admiráveis e trágicos!...


Revista "A Cigarra", 1 de novembro de 1920.

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