segunda-feira, 15 de julho de 2019

O Pai (Conto), de Sylvio Floreal


O Pai

Luiz nascera desventurado.

Maria, sua mãe, concebera-o inconscientemente.

Na idade em que todas as jovens flertam inocentemente, ela, só na vida, já tinha uma noção acabada da maldade dos homens.

Não querendo levar a mesma vida que Maria Madalena antes de conceber Rabi, concentrou toda a atenção no filho e no trabalho.

Desorientada, a braços com mil contratempos, procurava um emprego mas o seu aspecto pouco a recomendava e em vão empregava todos os artifícios possíveis na luta pela própria manutenção e a do seu rebento.

Porém a força de bater em todas as portas que se lhe cerravam como se a quisessem condenar à fome, abriu-se-lhe, certa vez, a de uma fábrica de tecidos, em que ela havia trabalhado quando menina.

Alugou um quartinho no bairro operário e deixava ali o filho, durante o dia, aos cuidados de uma velha conhecida.

Luiz criava-se à lei da natureza, entre outras crianças espertas e desavergonhadas. Era ágil, astuto, vivo, como todas as crianças que vivem em liberdade e entregues aos próprios instintos, nos meios populosos, onde a sagacidade e a malícia bebem-se até no ar...

Longe dos carinhos maternos crescia como um broto nascido das raízes de uma árvore cheia de seiva. Confirmava-se a crença popular: filho do nada, reúne em si os germens de todas as qualidades!

Perto de sua casa, havia uma linda mansão de aspecto alegre, propriedade de um casal de fortuna que tinha muitos filhos.

Todos os dias, pelas seis horas da tarde entrava o pai, e ao chegar ao portão do jardim, era recebido pelos filhos que saltavam ao colo contentes e alegres, chamando-o carinhosamente; Papai, papai! Luiz assistia àquele espetáculo de ternura e não podia compreender porque todos os meninos, menos ele, tinham pai!

A esta reflexão, começava a surgir do fundo do seu pequenino cérebro o primeiro vislumbre de raciocínio.

E tinha grandes tristezas e desejos infinitos de chorar...

A mãe, sempre empregada na fábrica, parecia haver tomado a vida a sério, como se quisesse refazer e apagar com um presente de sacrifícios e fadigas, todo um passado de desonestidade e ócio.

Aproximavam-se as festas de Natal, e Maria andava muito atarefada em confeccionar um traje para seu filho, com uma custosa casimira de um vestido que ela usara em tempos que já lá iam...

Quando a roupa que cosia lhe recordava o passado, a pobre mãe levantava-se lentamente e ia beijar a cabeça do filho adormecido.

Uma noite, faltavam poucos dias para o Natal, o pequeno despertou sobressaltado, chorando, chamando pela mãe, e em seguida, instintivamente pelo pai.

Maria, aflita, não sabia como consolar o filho e acariciando-o suavemente, disse-lhe:

— Papá? Sim, virá... Dorme, meu filho, papá está viajando. Mas virá para a noite de Natal com um sapatinho branco cheio de doces. Dorme, meu coração, dorme!...

Luiz reconciliou o sono.

Ela, para distrair-se um pouco, abriu a janela que deitava para um pátio cheio de roupas estendidas.

Olhou em torno, por toda parte reinava o mais absoluto silêncio.

Ergueu para o céu os olhos úmidos e contemplou a lua solitária que espargia uma claridade suave e monótona, como se fosse o olho de “alguém” que estivesse espiando aquela cena dolorosa...

No dia seguinte, Luiz, brincando com outros meninos, ouviu contar que na noite de Natal nascia o menino Jesus, e que iriam com os pais à missa do galo para ver o presépio.

Luiz, filho espúrio, era a personificação do fenômeno inexplicável para todos os filósofos que nutrem veleidades de nobreza e negam que haja no fundo da plebe qualidades geniais.

Além de não ter pai, arrastava consigo o tormento da precocidade! E a ideia de ver o pai crescia no seu cérebro, agravada fortemente pelo poder de sua consciência precoce!

Vinte e quatro de Dezembro. Céu estrelado. Meia noite...

Natal! Os sinos repicam nas torres de todas as igrejas. O bairro inteiro prepara-se para assistir à missa do galo. Algazarra em todas as esquinas, onde param os rapazes para ver passar as jovens que vão à igreja.

Não há flertes! O povo não perde tempo em coisas inocentes e inúteis.

Pares diversos falam do amor à distância fatal em que os lábios dizem palavras que são projéteis arrojados ao coração.

A agitação cresce à medida que as ruas se enchem de gente.

Luiz, que a essa hora dormia, desperta e como a mamãe lhe havia prometido que seu pai viria na noite de Natal, interroga:

— Mamã, não estamos na noite de Natal?

— Sim, meu filho. Dentro de pouco tempo nascerá o menino Deus.

— E papai, por que não vem?

— Papai não chegou ainda da viagem. Mas, fica tranquilo que ele não tardará a vir.

— É muito longe, onde foi papai?

Enquanto Luiz fala, a mãe procura um retratinho que tinha guardado, emoldurado num caixilho ordinário.

E levando-o aos lábios da criança, disse-lhe fervorosamente:

— Beija-o, meu filho, é o retrato de teu pai!

Luiz aperta-o ternamente de encontro ao peito, e, apoiando a cabeça sobre o travesseiro, balbucia:

— Papá... papá... papá!...

Em seguida adormece religiosamente, com o retrato de Jesus Cristo sobre o peito.

A mãe soluça aos pés da cama e implora com fervor:

— Jesus! Pai de todas as criaturas que não têm pai... sê na noite de Natal o pai de meu filho!

Revista A Novella Semanal, 16 de julho de 1921.

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