terça-feira, 16 de julho de 2019

O Deserto e o Homem (Artigo), de Ronald de Carvalho



O Deserto e o Homem
(Artigo)

A medida que o vosso olhar for devassando essas planícies, vereis que o deserto vive, que toda aquela aparência de solitude é uma ilusão. Transposto o cabeço de uma duna mais elevada, súbito surgirá, ante o vosso espanto, um rude pastor, de largo chapéu descaído sobre a fronte, com um sarape vermelho, verde e azul pendente do ombro. E onde as árvores não brotam, não correm águas, nem se emplumam aves, está o mexicano, com a sua coragem, a sua resignação e o seu heroísmo espontâneo.

Filho do deserto, em que as suas tribos erraram séculos, o mexicano aprendeu, desde cedo, a estratégia da posse pela violência. Caber-lhe-ia, sem favor, o título de romano da América. A grandeza do México assenta na conquista e numa compreensão de urbanismo tão alta como nunca a tiveram os outros povos do nosso continente. O império asteca é um modelo de sabedoria política. O "status" do cidadão mexicano, os segredos da sua organização administrativa, a riqueza da sua estrutura intelectual fascinaram o invasor hispânico.

Nas "Cartas de Relación", firmadas por Cortez, a vaidade ingênita do europeu mal esconde o deslumbramento do conquistador que, para estabelecer a traça de paralelos condignos, vai buscar sempre, no país natal, os mais honrosos pontos de referência. Aqui, ante a fisionomia grave de uma cidade nomeia Sevilha ou Córdoba, ali, em face de um monumento severo, lembra o atilamento dos engenheiros de César.

O povo mexicano foi marcado nobremente pelo destino. Deu-lhe a natureza um leito áspero de granito, um sonoro berço de pedras, um oceano ondeante de montanhas, picos e grimpas, onde só poderia fixar-se uma espécie enérgica, tenaz e voluntariosa. Ao longo das suas praias refervem as marinhas salgadas, na asa dos ciclones periódicos; à sombra das suas florestas, no claro espelho dos seus planaltos rola, de repente, a cachoeira, das lavas fumegantes; nas entranhas do seu subsolo ardem as pedrarias e os minérios raros.

A raça, ao madrugar, recebeu a mais bela das lições: a lição de que a vida é uma disciplina perigosa. E o asteca de ontem, a exemplo do mexicano de agora, são os descendentes rudes dessa disciplina. Eles aprenderam, destemerosamente, que a existência não comporta gestos inúteis. No braço firme, que se levanta, eles vêm hoje, como antes, uma força calculada, necessária, que não deve perder-se, na mão, que brande a espada ou empunha o martelo, um harmonioso schema da energia universal.

Mexicano exprime sobriedade, resistência de animo, amor de raiz à liberdade, imaginação viril. Cruzando-se com o castelhano voluptuoso, não perderam os povos autóctones as qualidades intrínsecas. Sob as múltiplas influencias do colonizador solerte, debaixo dos punhais e dos mosquetes da soldadesca ibérica, palpitava a mesma alma dos antepassados austeros, que animara os guerreiros de Montezuma e os artistas de Chalco, Teotilhuacan e Tetzcoco. Lentamente, porém, as duas tradições se fundiram, a que viera com os espanhóis, ressoante de vozes latinas e árabes, e a que nascera no golfo luminoso das Antilhas e às margens das lagunas de Xochimilco, produzindo uma soma de fatores poderosos.

Mercê desse caldeamento, refinou o índio puro as qualidades nativas de energia. Ao primeiro relance, contudo, julgá-lo-eis incapaz do menor atrevimento. Enxuto de carnes, desproporcionado de membros, meão de altura, a cabeça achatada por desmedida braquicefalia, o rosto de zigomas salientes, iluminado por um olhar que se retrai sob as pálpebras espessas, de pestanas breves, nada revela, no mexicano, a força recalcada, e silenciosa da sua alma profunda. É um bronze rígido, cuja aparência fria e impenetrável desconcerta.

O sangue impetuoso do andaluz eloquente foi absorvido pelo metal patinado da estátua. O gesto esquivo, a palavra rápida, o riso sem alegria, quebram, às vezes, em repentinas descargas, as linhas serenas, que logo se harmonizam nos relevos da máscara.

Defrontá-lo nos atalhos serranos, cortados de agudas pedras, bamboleando o corpo ágil na garupa de jumentos peludos, à testa de longos rebanhos de bodes e cabras monteses, é um puro prazer. Tudo é decorativo, nesses espetáculos, em que os sentidos se amalgamam num diapasão de coloridos primários. Chapeirões cônicos de abas encurvadas, botões polidos, facas mergulhadas em bainhas compridas, botas altas, esporas de rodízios luzentes, toda a sua indumentária é um brilho de clarões vivos ou furtivos de couros brunidos e cobres límpidos. Chocalham campanas no pescoço dos animais, que saltam e cabriolam em pulos céleres, e o ar todo se arrepia ao contato do fogo amarelo e rubro, que irradia dos ponchos franjados.

O mexicano se desforra da melancolia, vestindo-se de luz. Seu misticismo, como o dos velhos povos orientais, é solar. Sente-se, nesse pendor do índio, como ele está perto dos elementos cósmicos, das "popoteras" inflamáveis, da monotonia dos planaltos. Sua melancolia provém do irrefreável sentimento da liberdade que não pôde atingir-se, daquele sentimento de liberdade a que o homem chega somente pelo mais alto misticismo estético ou religioso, ou pela maior amplitude de ação. Eis por que o mexicano possui o instinto do guerreiro, do santo e do artista. É Cuauhtémoc, Inês de la Cruz ou Diego Rivera. Sua alma é uma perene fuga para essa realidade transcendente, em que o ser se confunde com o Universo.


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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