sexta-feira, 5 de julho de 2019

O dinheiro é tão bonito... (Conto), de Brito Camacho



O dinheiro é tão bonito...
Entrou, pôs a bengala e o chapéu sobre uma cadeira, descalçou as luvas, sentou-se, e principiou a explicar o fim da sua visita.
— Sempre fui libera! Meu avô desembarcou no Mindello, e meu pai esteve no castelo de Extremoz, de onde fugiu na véspera de serem os presos mortos à machadada. Com esta herança, não é verdade? eu tinha de ser liberal, biologicamente liberal, para me servir de uma linguagem consagrada. Solicitado a filiar-me no partido progressista e no partido regenerador, opus sempre a tal convite, muitas vezes repetido, uma recusa formal. Acima de tudo...
— Tenho uma vaga ideia...
— Perfeitamente; acompanhei João Franco no período messiânico da sua propaganda, quando ele proclamava a guerra santa ao rotativismo, e arvorava bem alto o pendão da moralidade. Acompanhei-o nessa fase; mas vossa excelência bem sabe que então ele era simpático aos próprios republicanos, muitos dos quais, e dos mais cotados, punham confiança na sua pregação. Como vossa excelência vê...
— Está muito bem, está muito bem...
— A República é hoje o governo da Nação, e de tal modo ela corresponde às aspirações e às necessidades gerais, que só doidos ou criminosos podem tentar destruí-la. Restaurar a Monarquia dos adiantamentos? Não; que o tentem os que não podem viver num Regime de moralidade, é natural e é logico; mas também é natural, também é logico, e sobretudo é necessário que os bons patriotas se elevem a toda a altura do seu dever, e apoiem o Regime com a maior dedicação...
Ergueu-se, tomou o ar aprumado e solene de quem se dispõe a assumir graves responsabilidades ou se resolve a uma confissão dolorosa que o dever impõe.
— Vossa excelência é, de todos os homens da República, aquele que eu mais estimo pela excelência do seu caráter, e ao mesmo tempo o que mais admiro pela superioridade do seu talento. Do meu nome, da minha fortuna, dos meus préstimos, se alguns tenho, vossa excelência disporá como julgar mais conveniente aos interesses da República.
Deu alguns passos na rua, vagarosamente, aproximando-se de uma paragem dos elétricos, quando alguém o abordou, surpreendendo-o agradavelmente.
— Ora viva! Ora viva! Então por aqui?
— É verdade, doutor, e dirigia-me ao seu consultório, porque preciso muito de lhe falar.
— Alguma novidade?...
— Sim, uma grande novidade. Minha sogra está muito mal.
— Ora essa! Aposto que se lhe estrangulou a hérnia?
— Justamente, estrangulou-se-lhe a hérnia, e a nós parece-nos que ela morre.
— Nesse caso passemos pelo meu consultório, e vamos já operá-la.
— Sim, mas é que ela...
— Diz que não quer operar-se? Isso tem ela dito sempre, mas o caso agora é outro, e ela, vendo que não há outro remédio, entregar-se-á à discrição.
— O doutor há de desculpar, mas eu preciso dizer-lhe o que se passa, embora o faça com muita mágoa. Ela quer operar-se, mas diz que não quer que o doutor a opere, por ser republicano. A razão é infantil, mas o doutor bem sabe que ela foi sempre muito senhora da sua vontade, e era política é de uma intransigência feroz. Com os republicanos não quer nada; deles não aceitaria a salvação, e bem sabe o doutor como ela é religiosa.
— Mas eu não sou republicano, nunca o fui, nunca o serei. Poderia ter sido republicano na vigência da Monarquia, quando os erros dos homens públicos pareciam defeitos do Regime. Mas agora! Para ser republicano numa república como a que para aí está, seria preciso renegar todo o meu passado de homem liberal, todas as tradições da minha família, esquecer que meu avô desembarcou no Mindello e meu pai esteve no castelo de Extremoz, de onde logrou safar-se na véspera de serem os presos trucidados à machadada. Republicano, eu?! Mas é preciso ter em mínima conta a minha inteligência e o meu caráter para me julgar capaz de acamaradar com essa malta que aí tripudia, incapaz de governar, e nem sequer se impondo à consideração pública por uma honesta gerência dos negócios públicos. Republicano, eu!
— Está bem, doutor, está bem. Eu é que não sabia. O doutor vai munir-se de quanto precisa para operar, e eu vou repetir a minha sogra o que acabo de lhe ouvir dizer, e que ela ouvirá com a maior satisfação. O doutor bem sabe como ela é sua amiga e a confiança que tem nas suas qualidades de cirurgião.
A arrumar as ferramentas do ofício, numa pressa, porque a intervenção era urgente, o doutor murmurava de si para si:
—Pois, sim, senhor, ia a fazendo bonita! À manhã, os talassas não me chamavam, por ser republicano, e todos os meus correligionários herniados não davam para um charuto!

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Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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