domingo, 7 de julho de 2019

Sarica (Conto), de Rocha Pombo



Sarica

Afinal, parece que era preciso compreender que a vida é aquilo mesmo...

Queixam-se todos, mais ou menos, da sorte; mas, lá um dia, a Providência como que nos surpreende com a sua misericórdia infinita.

Viviam, há tantos anos, naquela tristeza: ele, o pobre Luís, paralitico e cego, uma alma simples e fina, atada àquele castigo de uma existência dolorosa, na imobilidade e na escuridão; ela, a misera Josefa, ainda mais delicada e sensível, sempre espantada em presença da desgraça; procurando, resignada e sublime de ternura, talvez inconsciente da sua grandeza tão humilde, provar ao mundo que, ainda no meio das vicissitudes mais duras e amargas, pode um peito fiel e amoroso levar alguma coisa que zomba impassível do tempo e das amarguras.

Viviam há tanto naquela miséria; ele, ruminando mistérios, como um deus vencido e desolado; ela, a desentranhar-se em ternuras por aqueles entes tão inditosos que o destino lhe confiara.

Queixavam-se continuamente de Deus e dos homens... No entanto, só agora é que ela, a boa Josefa, está compreendendo como não tinham razão para acusar a vida. O Júlio já presta algum serviço; e a coitadinha da Sarica... já sabe pedir... Decerto que era horrível esmolar! Mas que direito haverá, mais do que este, sagrado para o mundo, quando se tem fome?

A primeira vez que lhe passou pelo espírito esta ideia de fazer a filhinha esmolar, a Josefa chorou tanto que o Luís, lá da sua noite, chegara a perceber e afligir-se. Expor aquela criaturinha tão hedionda aos olhares curiosos de todos... era horrível!

Mas a miséria vence as naturezas mais resistentes...

Demais, pior, mil vezes pior, do que este recurso à caridade do seu semelhante, havia no mundo tanta coisa!

A princípio, Josefa seguia de longe a aleijadinha acompanhada do Júlio. Levava o coração agitado ao ver a filha arrastando-se pelas ruas e praças, a estender as mãos aos passantes.

Depois, tudo se foi normalizando; ficou tudo muito natural: a mãe, desafogada, lidava na casa; a Sarica e o irmãozinho exerciam fora a sua profissão.

As duas crianças, logo cedo, arranjavam-se e partiam, para só voltar à tarde, muito fatigadas, com a colheita do dia. Quando tinham sido felizes e traziam uma boa féria, o Júlio entrava muito contente; mas a Sarica, morta de cansaço quase sempre, pedia logo o seu repouso numa enxerga, junto ao catre do pai. Mal tinha ela forças para afagar o cego, e dar-lhe alguma boa noticia: quando a mãe dava por ela, a Sarica dormia, atirada ao chão, como um embrulho, sem forma humana...

Uma vez, demorava ela em preparar-se, e já se fazia tarde. O Júlio, muito aflito, diz-lhe que outros mendigos já deviam ter-lhe tomado os melhores pontos na praça. Josefa mesmo entendeu que era tempo de apressar a filha, ao vê-la muito cuidadosa a compor-se melhor, a esconder bem as pobres pernas atrofiadas e torcidas. Tinha muita vergonha quando lhe viam as pernas... Da corcunda já não fazia mais caso; mas deixar aparecer o horror das pernas...

– Ah! Fez-lhe sentir a mãe sem cuidar – tranquiliza-te... Quem haverá, minha filha, que te queira ver essas perninhas tão secas e tortas...

E o Júlio disse mais:

– Será melhor até que todos vejam toda a tua tristeza...

A menina calou-se, mas revelando no gesto compungido a infinita desconsolação de todo aquele infortúnio.

Saíram os dois. A Sarica tinha a frontezinha sumida, como imersa naquela mistura de ossos: bela frontezinha, o único sinal de majestade humana que havia naquele corpo monstruoso. Dir-se-ia uma cabeça, um semblante de anjo metido na fealdade, na hediondez de uma rã, a olhar vagamente para cima, lá do chão onde rasteja.

Horas e horas, abrasada às vezes por um sol de janeiro a um canto da praça, ela passava pedindo. Quando as esmolas lhe caíam lá de cima, ela sorria e se alvoroçava e tinha vontade de erguer-se...

Mas, às vezes, as esmolas não vinham... Ela pedia inutilmente; e o Júlio chegava a dizer-lhe com maus modos, que ela não tinha jeito para o ofício; que não sabe fazer voz comovente, e que não revira para o alto os olhos meio nublados... Ela se esforçava na sua função, falando como os moribundos, e fazia, trêmula e exausta, por imitar os mais hábeis dos pedintes que enchem a praça...

Muitos daqueles eram mais felizes do que ela. Chamavam sempre a atenção do publico, e sempre com fruto copioso. E no entanto, nenhum deles tinha, como ela, o direito de pedir. Ela devia ser ali a primeira; mas a piedade dos homens não compreendia isso... Os próprios cegos não estão no seu caso. Os cegos têm ao menos o seu conspeto humano, e não sabem o que é a dor de ser... monstro. E aquele público passa às vezes por ela sem vê-la... Era horrível!

E quase sempre ia pensando assim, até chorar.

Quando, porém, as esmolas caíam, tudo se acabava; esquecia as queixas; e até o seu semblante readquiria a serenidade das auroras. Sentia-se boa e meiga, capaz de uma simpatia incondicional por todos os entes, mesmo os mais ditosos da vida. Já era alguma coisa aquela justiça, que lhe faziam, de reconhecer quanto ela é digna de compaixão.

À tarde, um dia, entrou ela, de volta das ruas, naquele triste lar. A receita fora das boas. A mãe recebeu-a, como de costume, com todos os carinhos; e o cego, lá no seu escuro, teve um farto beijo aquele dia.

Ah! a vida era aquilo mesmo... Estavam então amparados todos pela desgraça daquela criatura...

Coração de mãe, por mais vencido que ande, às vezes como que se deixa galvanizar pela própria miséria. É por isso que, ainda familiarizado com a dor, vem de repente lá do seio materno um protesto que parece espantar o próprio destino. Josefa dissera aquilo, e teve logo ímpetos de esmagar de carícias a filhinha: aquelas palavras como que despertaram naquela alma de mãe a consciência de tanta desgraça... de que os pais se aproveitam. O cego, que tem toda a sua vida concentrada na filhinha, e que, se não vê com os olhos, tem a luz interior que devassa as profundezas do ser, estremeceu numa convulsão de pranto ouvindo aquelas palavras.

O Júlio, a um lado, desconfiava de tudo aquilo. Ele sentiu que todas as demonstrações eram para a Sarica. A ele não lhe reconheciam coisa alguma. Entretanto, sem os esforços dele, a irmãzinha nada faria. Muitas vezes a Sarica chegava até a querer cantar e a sorrir, e ele é que evitava tais imprudências...

– É certo – explicou a menina – eu às vezes tinha mesmo vontade de cantar. Eu estava triste, vendo que não me davam coisa alguma... e sem que eu soubesse como... um grupo de moços passava... e tantos níqueis eu recebia num instante, que meu coração parece que saltava... Era em tais momentos que sentia umas ânsias de cantar para o céu um hino com que uma vez sonhei, cantado pelos anjos... E não hei de morrer sem compor uma oração que exprima tudo que sinto pela bondade da minha santa... Eu sei que é santa Cecília quem me protege. Por mim mesmo, que poderia eu merecer de Deus! Se ele me fez nascer assim, não seria porventura para avisar-me que não devo esperar coisa alguma do céu neste mundo? Não, Júlio, tem paciência: hei de cantar a minha oração...

– Pois se tu cantares nas ruas – disse o Júlio gravemente – desde já te asseguro que não traremos um vintém. Tu bem viste hoje: foi bastante que te alvoroçasses um pouco para que ninguém mais te desse. Não há quem goste de mendigos alegres, ou de mendigos que cantem...

E suspirando muito intencionalmente:

– Não fosse eu... e havíamos de ver... Eu é que te ando a ensinar a fazer cara de miséria e ares de fome. Tu estás sempre a querer ocultar as pernas e os braços... Não fosse eu...

E concluiu amuado:

– Entretanto, nada mereço... Tu é que fazes tudo. Este mundo é mesmo assim...

Não sei porque também não me fez Deus aleijado...


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José Francisco da Rocha Pombo (1857—1933)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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