quarta-feira, 17 de julho de 2019

O humor e a sátira em Monteiro Lobato (Ensaio)



O humor e a sátira em Monteiro Lobato

Quando em nosso país um homem apresenta as singularidades que logo de inicio distinguiram o escritor Monteiro Lobato, os meios letrados entram em pânico à procura de uma palavra definidora. Enquanto não encontram essa palavra, não sonegam.

O vocábulo garimpado no léxico, depois de um trabalho de todos os diabos, evita o esforço bem maior de estudar o homem, indagar de suas origens, formação social é intelectual, deduzir dos escritos aquilo que constitui a sua razão de ser, não se contentando apenas em mirar-lhes a arquitetura literária, numa deleitação puramente estética.

Muitos anos se passaram antes que os nossos críticos pudessem fixar a personalidade de Monteiro Lobato nessa palavra definitiva, espécie de alfinete com que se espetam as borboletas no mostruário dos entomologistas. Até que, um dia, ela surgiu. Foi um delírio. Estava decifrado o enigma.

— Monteiro Lobato é um cético!

Mas, em que sentido aparece aqui a palavra "cético?"

Abramos o dicionário de Aulete e vejamos o que é, em seu rigoroso sentido vernáculo, a palavra ceticismo: "Doutrina dos que examinam e duvidam, doutrina dos sofistas. Dúvida universal; disposição para duvidar de tudo. Por extensão: estado dos que duvidam ou afetam duvidar de tudo; descrença; pirronismo". E na palavra "cético", o autor tem esta explicação muito oportuna, como os leitores hão de ver, para a boa inteligência deste artigo: "Que descrê de tudo; que não liga importância a coisa alguma; que não crê nas coisas dignas de respeito".

Ora, toda a grita suscitada pelo aparecimento de Urupês, ao ponto de um literatelho da época lançar um opúsculo, achando que o caboclo do Norte é um desmentido à inércia deliquescente de Jeca Tatu, foi por haver Monteiro Lobato investido contra as "coisas dignas de respeito". Pois então o caboclismo não era uma "coisa digna de respeito?" Sim, o caboclismo erigira-se em dogma, em religião, satisfazendo triplicemente aos anseios bovaristas da sociedade brasileira: a) afagava-lhe o orgulho racista, porquanto no caboclo se unem os dois sangues, índio e português, incontaminados pelo "africano desprezível"; b) o índio por ser o nativo, cantado em prosa e verso pelos românticos, simboliza uma força contra o invasor, e o nosso heroico antepassado em viva oposição ao predomínio lusitano; e finalmente, c) do ponto de vista estético, o íncola tem os cabelos lisos, a pele bronzeada, em contraste com o negro da carapinha e pele cor da noite. Pode-se apresentar uma quarta e mais honrosa circunstância para os nossos falsos brancos: o silvícola preferia morrer a deixar-se escravizar. Não o macula, portanto, o estigma do cativeiro. Longe ainda dos tempos em que uma revisão severa devia ser feita em todos esses conceitos mostrando a superioridade do mulato sobre o caboclo, e já Monteiro Lobato a antecipava ao notar a miserável condição do Jeca, até nas manifestações artísticas, por mais primitivas que sejam, avesso como é a qualquer tendência musical bem marcada:

"Dirão: e a modinha? A modinha, como as demais manifestações de arte popular existentes no país, é obra do mulato, em cujas veias o sangue recente do europeu, rico de atavismos estéticos, borbulha d'envolta com o sangue selvagem, alegre e são do negro".

Essas palavras foram escritas precisamente quando a mestiçagem afro-lusitana mais reprimia em si o chamado "pudor das íntimas certezas" em nossas altas camadas. A poesia se alimentava ainda dos resíduos indianistas. É de se notar, por exemplo, que lhe pagaram forte tributo Olavo Bilac e Machado de Assis, ambos mulatos, os quais incluíram em sua obra poética inúmeras composições inspiradas em Gonçalves Dias.

Mas a partir de 1919, quando Monteiro Lobato, aproveitando o êxito de livraria do seu livro de estreia, se instala na cidade, disposto a trocar a vida de fazendeiro desiludido pela de editor, o rótulo de "cético", superficialmente inferido do caráter irreverente dos seus contos, começa a desbotar-se. É que se foram tornando conhecidos alguns trechos de sua biografia. Lobato estudara Direito em São Paulo e reuniu em torno de si inúmeros companheiros aos quais dedicava forte amizade. No entender dos nossos críticos, um cético não acredita em coisa alguma, e muito menos nos valores morais. Aqui, nota-se perfeitamente a confusão lexicográfica de "ceticismo" com "misantropia". E tais equívocos resultaram da notação friamente humorística esparsa em todos os escritos do autor de Urupês, a ausência de ênfase, a impossibilidade álgida com que apresenta os quadros mais tétricos, escondendo-se atrás dos personagens e dos episódios.

Mas, sendo o humor entendido em nossa literatura como simples disfarce técnico, motivado por umas tantas características de escola, de que o mais alto e incompreendido exemplo fora até então Machado de Assis, persistiu o engano em torno de Lobato.

Cético permaneceu ele até os últimos instantes de vida, mas por não acreditar naquilo que os literatos bem-pensantes acreditam, ou fingem acreditar: na estabilidade das instituições caducas, nos seus falsos valores entronizados, na onipotência e onisciência dos governos charlatões, nos lauréis acadêmicos, na "cagoterie" dos medalhões bem postos na vida, em tudo, enfim, que constitui a aparatosa fachada de um mundo morto que se esforça por parecer vivo. Em suma, Lobato não acreditava naquilo que realmente não merece crédito, e o seu mérito residiu na posição de combate assumida desde o início até o fim, sem desfalecimentos, contra os mistificadores.

Quando a posição do escritor se tornou perfeitamente definida, mostrando-se ele irredutível à catequese dos bem-pensantes, estes atenuaram um pouco o julgamento, limitando-se a dizer:

— Monteiro Lobato é um espírito de contradição.

***

LOBATO E A LONGA APRENDIZAGEM LITERÁRIA

A ideia geralmente concebida ante a estreia espetacular de Monteiro Lobato, posto em destaque pela referência que Rui Barbosa fez, em discurso político, ao Jeca Tatu, foi de um escritor improvisado graças a um conjunto de aptidões inatas. Porque nós somos, e ainda seremos por muito tempo, um povo que acredita no milagre da vocação. Intuição e vocação, eis as palavras que definem, em todas as camadas sociais, a inclinação para a lei do menor esforço. Entregamo-nos cegamente à certeza de que não adiantam estudos, se o sujeito não trouxe do berço a marca misteriosa capaz de guiá-lo a grandes destinos. O gênio, aqui, nunca será uma longa paciência.

Essa crença é abonada, em todos os espíritos, pela própria natureza tropical. Vemos em torno de nós a quadra estival prolongando-se pelos doze meses do ano. As árvores perpetuamente verdes, certas espécies vegetais, de cultura empírica, produzindo duas colheitas anuais, o céu perpetuamente azul, as flores pintalgando os jardins e várzeas, sem as lúgubres intermissões do inverno. Se é assim a terra, por que acreditar no esforço do homem nas conquistas da inteligência?

Não foi, portanto, sem a mais decepcionadora surpresa que muitos leitores se inteiraram, ao compulsar A Barca de Gleyre, coleção de cartas representando quarenta anos de confidências feitas a Godofredo Rangel, do longo, acurado esforço de Lobato para obter o dútil e vigoroso instrumento de expressão revelado em Urupês e nos livros posteriores.

Para destruir o conceito de cético, foi esse o último golpe. Cético o homem que já havia revelado em seus artigos de jornal, quando enfim entrara para o jornalismo e para a vida de editor, a crença profunda no trabalho da ciência a fim de curar o nosso Jeca verminoso? Cético, enfim, o homem que, na gênese até então ignorada de sua formação literária, bebia em Camilo Castelo Branco a seiva do idioma, provendo-se dos recursos expressionais que raros escritores alcançam em nossa língua de empréstimo? Cético o cidadão que, mais tarde, ficaria quase sozinho em meio da preguiçosa descrença nacional, a afirmar que a riqueza do Brasil está no petróleo, e que o petróleo existe no Brasil, conquanto atestassem o contrário os técnicos oficiais? Cético o brasileiro que, no empenho de provar aos seus patrícios a realidade do "ouro negro", desmascarou os técnicos oficiais e, pela sua coragem inaudita em plena ditadura, foi metido no cárcere?

As cartas de Lobato a Godofredo Rangel trazem à luz da publicidade e do exame crítico o escritor em sua inteireza, tanto moral como literária. Não se improvisou homem de letras como tantíssimos outros que por aí gaguejam algumas ideias-feitas na meia língua a que pomposamente costumam chamar "estilo". Não; Monteiro Lobato não procurou a forma dos mestres, nem tampouco leu Camilo como a maioria dos seus discípulos em busca de palavras peregrinas; nem se percebe em seus sentidos, tanto os da época do Urupês como dos últimos dias, os cacoetes vernaculistas do solitário de Seide, imitados, macaqueados pelos nossos puristas intragáveis. O que ele encontrou no autor da Corja foi o material necessário a quem pretenda dizer as coisas triviais de maneira tão insinuante, que os espíritos mais avessos à literatura venham a interessar-se pela matéria versada. O que o levou para Camilo foi, sem dúvida, o horror a monotonia e ao lugar-comum. E isto não aconteceu por acaso, como logo veremos.

Assim, quando o fazendeiro do Buquira remete ao Estado de São Paulo, para figurar nas Queixas e Reclamações, uma carta protestando contra o mau vezo do Jeca, de deitar fogo às matas e pastagens, exigindo providências contra o sacerdote da Grande Lei do Menor Esforço, como classificado "piolho da terra", era já um escritor pronto e acabado. E não admira que no jornal, a carta corresse de mão em mão e fosse levada ao diretor. E a carta foi publicada com destaque, como peça literária, em vez de ir parar à vala-comum das Queixas e Reclamações. Estava feita a sensacional descoberta que Rui Barbosa, mais tarde, recomendaria à atenção de milhões de brasileiros desatentos.

***

PORTUGAL E A ZONA NORTE DE SÃO PAULO

Não foi por simples acaso, como linhas atrás acentuamos, que Monteiro Lobato se nutriu de Camilo. O drama intelectual de ambos é o mesmo. Com frequência os críticos superficiais, tanto aqui como em Portugal, repetem o julgamento, aceito sem discussão, quanto ao feitio literário do autor de Eusébio Macário taxando-o de pouco imaginativo, de haver composto mais de cem romances sobre dois ou três temas, esgotando-os até ao fastio.

Ora nesse juízo está o maior elogio ao ardente polemista da "Questão da Sebenta". Não tendo jamais saído de seu país, permanecendo em seus serros minhotos entregues ao estudo e meditação das velhas crônicas das famílias e da história de sua pátria, embebendo-se até à medula do humos nativo, que podia escrever um romancista que não trouxesse as limitações intransponíveis do meio e da sociedade nos quais obrigatoriamente devia inspirar-se?

Toda obra deve ser lida de acordo com o espírito do seu tempo Camilo não foge a estas duas contingências: a época e as peculiaridades do meio. Portugal permanecia romântico, mesmo quando o Romantismo encerrara o seu ciclo na velha Europa. Num país rural, de feição eminentemente conservadora, o apego às formulas românticas ultrapassadas tinha que ser uma fatalidade histórica.

Sim numa terra e numa sociedade tardiamente revolvidas pela subversão racionalista, exigir um Camilo diferente é tão absurdo como deplorar, lendo Platão, que a Grécia não tivesse telefones e automóveis. O importante é haver Camilo permanecido fiel ao seu meio e à sua gente. Lê-lo descontando-se as influências do meio e da gente, é libertar-se do hábito muito frequente em Portugal e no Brasil, de confrontá-lo com Eça de Queirós. São dois homens tão diferentes que o paralelo resulta uma intolerável superfetação literária. Tanto mais quanto, o universalismo elegante e sedutor de Eça, não raro soa falso do ponto de vista do ambiente português, embora o transfigure um sentido altamente poético. Em Camilo, a verdade desse ambiente ressalta de modo mais vivo e espontâneo, sem perder, às vezes certo encanto idílico, graças ao qual o escritor alcançou a notoriedade e os favores de um público tão numeroso.

É pena que, nos dois países, a obra camiliana tenha servido de pasto aos vermes da caturrice vernácula, gramáticos e filólogos, desfigurando-o e desafeiçoando-o à simpatia das classes letradas.

Ora, Lobato nos parece, quanto a esse ponto, o único homem de letras brasileiro que assimilou Camilo, sem incorrer no feio vício de "camilice" pedante. E isto porque os dois escritores, o mestre e o discípulo, precisaram superar, pela impressão sempre imprevista, a monotonia do meio. Para se realizarem em toda a plenitude, era necessário que o estilo, as maneiras de dizer fizessem um vivo contraste com a pasmaceira circundante.

Formado em Direito e despachado para a promotoria de Areias, eis o futuro escritor devolvido à zona Norte, já por aquele tempo caída na "austera e vil tristeza" de uma irremediável decadência econômica. É a mesma zona que viria a inspirar-lhe os contos de Urupês e as crônicas de Cidades Mortas. Na sua "oblivion" bíblica, só há uma forma de evasão — a leitura. Lê muito. É o período fecundo das descobertas no mundo do pensamento.
Se o solitário de São Miguel Seide facilmente triunfa sobre a tristeza bucólica de suas montanhas vales, por trazer no sangue insubmisso as taras da inquietação, a neurastenia sexual, estudada por Júlio Dantas num curioso estudo nosográfico; o destemperado orgulho, a revolta bravia contra tudo e contra todos, Lobato, muito mais equilibrado, possui, entretanto, o faro crítico a denunciar-lhe a mais saliente característica do humor.
É tempo de explicar o humor e a sátira em Monteiro Lobato. Ordinariamente, ao tratar do fenômeno Machado de Assis, os nossos ensaístas recorrem aos seus modelos conhecidos na literatura inglesa. O gênio do autor de Brás Cubas consiste em haver conciliado o que há de particular no humor dos bretões, com o que há de geral na escola, quando adotada em outros climas.

O que distingue o humorista é uma espécie de hiperlucidez sem intermitências. O espírito, sempre aceso como uma lâmpada de grande potência, não está sujeito aos sombreamentos da emoção lírica. É como um sol que teimasse em não descer ao poente, permanecendo bem alto, a inundar e ferir tudo com a sua luz crua e implacável. Machado bem que compreendeu isso, como o demonstra no diálogo entre Prometeu e Asverus. A eternidade da vida parece ao Judeu Errante algo de tremendo; e, quando Prometeu lhe diz: "Mas não padeceste, creio; é alguma coisa não padecer nada", Asverus responde-lhe: "Sim, mas vi padecer os outros homens, e, para o fim o espetáculo da alegria dava-me a mesma sensação que o discurso de um doido. Fatalidades do sangue e da carne, conflitos sem fim, tudo vi passar a meus olhos, a ponto que a noite me fez perder o gosto ao dia, e acabo não distinguindo as flores das urzes. Tudo se me confunde na retina enfarada".

Eis aí o estado de espírito de um verdadeiro humorista. A sua hiperlucidez crítica repugnam as convenções humanas; por mais que a elas queira submeter-se, acaba por insubordinar-se e voltar à atitude anterior, isto é, a atitude indagadora, portanto prestes a negar o que antes lhe pareceu aceitável.

Esse comportamento resulta da percepção clara e constante das mudanças operadas atrás das instituições, de que suas leis imutáveis pretendem ser o espelho, de que os hábitos e costumes insistem em afirmar a perenidade tranquila e benfazeja. A sociedade se apresenta, assim, aos humoristas, como os velhos que, por meio de massagens e pinturas, procuram contrariar a ação destruidora do Tempo. Todos lhes percebem as rugas e os cabelos brancos. Os bem-pensantes, calam-se; os humoristas denunciam tudo, fazendo-o às vezes, para mais acentuar o ridículo, de maneira sisuda e impassível.

Enquanto as falhas da literatura bem comportada não foram postas a nu, esteve em moda negar direito de cidadania, em outros países, ao humor britânico. Dickens, Swift, Sterne — dizia-se em todos os tons — são produtos puramente ingleses; não podem ser exportados. A crítica aludia exclusivamente ao "processo" literário em si e não às causas sociais que o geraram. Em França, Paul Saint-Victor foi um pouco mais longe, apontou Swift como um perverso intelectual, um ser destituído de humanidade, comprazendo-o em pilheriar grosseiramente sobre os infortúnios da Irlanda. Não viu, ou fingiu não ver, no sangrento sarcasmo do panfleto sugerindo medidas para salvar a Irlanda faminta, o mais doloroso protesto ditado pela inteligência que se envergonha de mostrar-se revoltada contra as injustiças de um regime no qual as leis se forjam para garantir o direito do forte contra o fraco.

Esse pudor da inteligência hiperlúcida, incapaz de seguir a trilha do lugar-comum, sabendo-o inteiramente inócuo, só pode externar-se pela sátira.

Mas a sátira, sendo a forma do humor, não é em si o humor. O verdadeiro humorista, vencido pelas formas políticas vigentes, pelo círculo de aço em que o encerram os interesses criados e respeitados; e sendo, ao mesmo tempo, ferozmente egocêntrico, portanto incapaz de agremiar-se para destruir um tal estado de coisas, insurge-se a seu modo contra a opressão, mas não acredita que a inteligência possa vencê-la um dia. Por isto, adota a máscara da impassibilidade sardônica.

O satírico é diferente. Amando os homens e a vida, investe contra as convenções odiosas, transformando o riso em arma de combate. Porque acredita na possibilidade de, por esse meio, mudar, não as formas sociais em si que permitem o advento da mediocridade, mas os homens, substituindo os estultos pelos sábios, os maus pelos virtuosos, os hipócritas pelos sinceros, numa palavra, estabelecendo o reinado do mérito.

Monteiro Lobato, como prova a sua ação pessoal direta e a feição combativa dos seus escritos, na fase posterior a Urupês, evoluiu das formas puras do humor para a sátira. Achava possível fazer a República melhor do que é, os governos menos interessados nos artifícios da politicagem do que na solução dos problemas coletivos.

Só nos últimos anos de sua vida sentiu a inanidade de um tal esforço. Mas, do satírico impenitente, substituiu o senso caricatural. Porque, não podendo haver satíricos e humoristas sem um forte sentimento do ridículo, Lobato trouxe do berço esse sentimento, que o estudo e a observação aperfeiçoaram em face das contradições humanas. Sorria. Dickens definiu o humor como o "sorriso dos tristes".

Mas o espetáculo perene das contradições humanas, e a necessidade contingente de submeter-se a elas para subsistir, fazer contraditórios reflexamente os homens desse feitio singular, e isto apresenta Lobato como um caso à parte na literatura brasileira dos últimos tempos. Toda a sua vida é uma trama desconexa, na aparência, para guardar interiormente o fio lógico de sua personalidade autêntica, indestrutível. O homem permanecerá para sempre igual a si mesmo.

Vimos como o julgamento inicial dos críticos se tornou precário ao taxá-lo de cético; veremos daqui a pouco a luta do escritor consigo mesmo para vencer as influências deformadoras contra as quais nunca deixou de lutar. Horrorizou-o, desde os primeiros passos nas letras, a desumanização literária, aquilo que veio a tomar o nome de Torre de Marfim, a fuga à realidade. O feroz egocentrismo dos artistas não participantes, leva-os a não entender a luta de Monteiro Lobato contra os resíduos de sua formação reacionária. E essa luta, encerrando uma lição aos homens de inteligência, é também uma censura que muitos deles vaidosamente repelem.

Enquanto a similitude do meio físico aproxima Monteiro Lobato de Camilo Castelo Branco, um terrível drama de consciência o identifica irremissivelmente com Eça de Queirós.

***

A REABILITAÇÃO DO JECA E DO CULI

Se, como observa Nietzsche, "a natureza criou muitos e variados caminhos para se chegar ao homem de gênio", força é convir que o homem de gênio também conhece "muitos e variados" caminhos através dos quais chega sempre ao conhecimento da razão e da justiça.

Que Lobato, desde os primeiros passos na vida até o termo de seus dias, tenha sido um poço de contradições, sem jamais perder o miraculoso fio de Ariadne de sua personalidade inteiriça, raramente o assinalam os críticos mais afeitos a examinar a literatura do que o homem. Vimo-lo, como fazendeiro no Buquira, imbuído de conceitos meramente beletrísticos, formulando o mais duro anátema jamais atirado à vítima, por se interpor entre o pobre Jeca, em sua lastimosa condição, e as causas reais do seu pauperismo, a cultura unilateral de classe. O mérito de Lobato, nunca assaz louvado, há de ser sempre o haver um dia reconhecido o erro dessa cultura. E reconheceu-o, já no fim da vida, em carta a Matias Arrudão, para explicar outra atitude que o havia de destacá-lo contraditoriamente aos olhos de muita gente: a de incorporador de empresas petrolíferas. Espantosa fábrica de paradoxos foi sempre o homem que, nascido da classe fazendeiral, renuncia à terra para meter-se na indústria dos livros; arruinado e desiludido da indústria dos livros numa terra de pobreza e analfabetismo, ambiciona lançar-se a mais largos horizontes e entra a sonhar com a indústria pesada. Modesto em seus hábitos domésticos, pessoalmente sóbrio, sem vícios, portanto sem necessidade de fortuna, tendo vivido com os seus na mais austera mediania, não pensa e age como um burguês de sua classe, mas como um aventureiro de além-Atlântico descido em Nova Iorque para tentar fortuna. Ficcionista em sua auspiciosa estreia literária, quando entra pelo jornalismo adentro é para partilhar as ideias de Artur Neiva e outros cientistas, buscando salvar o homem brasileiro pela engenharia sanitária. Enfim, podendo findar seus dias com a renda da obra copiosa que deixou, ainda hoje ninguém pôde conciliar sequer o escritor cruel de Bocatorta, Colcha de retalhos, A vingança da peroba, com o autor de livros infantis, debruçado sobre Lilipute, iniciando-o carinhosamente no grande mundo das ideias práticas através das mais descabeladas fantasias. E nenhum homem mais terno, mais rendido à graça inquieta de milhares de cabecinhas infantis, recebendo-lhes as cartas balbuciantes, acolhendo-as em casa, quando as mães até lá conduziam os filhos para conhecer o autor de Dona Benta, do Visconde de Sabugosa e da Chave do Tamanho.

E é, no fim de contas, o humorista que salva Lobato do abismo de si mesmo. Graças a essa rara disposição da inteligência inamolgável ao convencionalismo, chega a perceber o erro cometido, sem entretanto perceber que, para liquidar de uma vez com o falso indianismo e o caboclismo hipócrita, pouco importam as ideias reacionárias do escritor; o que importa é a verdade sobre o nosso Jeca. Até então, somente Euclides da Cunha, nos Sertões, vislumbrara o erro monstruoso do litoral, ao investir contra os nossos irmãos de Canudos, não com as armas do progresso, a escola, a técnica, os jornais, todos os instrumentos tornados monopólio dos habitantes da orla marítima, e sim com os fuzis e canhões destruidores. Mas Euclides, mercê do aprendizado socialista que lhe propiciara Silvério Fontes em Santos, havia devassado novos rumos. E, como depois se averiguou, não estava intoxicado de literatura, não obstante o seu estilo requintadamente literário, mas larga e tumultuosamente aprovisionado de ciência.

Não importam, repitamos, as ideias políticas do escritor. O que importa é o seu respeito à verdade. Balzac, monarquista, partidário de Napoleão, ultramontano, nem por isso deixou de ser o historiador fiel da burguesia capitalista. Não endeusou os nobres para desfigurar o burguês: pintou a ambos como eram e são na realidade. Ao baixar seu olho imenso e perquiridor sobre a sociedade nascente, fazia tábua rasa das ideias políticas e religiosas, mostrando-se avesso inteiramente a todo facciosismo.

E foi porque Lobato agiu da mesma forma, ao traçar, no estilo mais impressivo em oposição ao nosso dessorado beletrismo, o perfil do infeliz "agregado", que provocou a animadversão de todos quantos viviam dentro de um sonho cor de rosa. A literatura havia falsificado a tal ponto o nosso roceiro caboclo, criando em todo o país um ilusório estado de consciência a seu respeito, que o "retrato" de corpo inteiro, tirado por Monteiro Lobato, ficou sendo uma horrenda e repulsiva caricatura. O escritor portou-se, no cerimonioso banquete das letras nacionais, como um convidado indiscreto capaz de comprometer o bom tom, ao declarar ter encontrado na sopa de aspargos, não um fio, mas um chumaço de cabelo.

No fim de contas, a quem interessava a adulteração da verdade a respeito do Jeca?

Aos fazendeiros, aos poderosos do dia, àqueles mesmos em cuja classe se achava encartado o escritor. Numa palavra: aos coronéis tatuíras, que passaram a ver no seu colega fazendeiro da Mantiqueira, possuidor de um másculo estilo literário, a ovelha negra do rebanho. E nunca lhe perdoaram Urupês, como no futuro não lhe perdoariam outras verdades duras, bem como a tomada de posição entre os que desejam de verdade a nobilitação física, moral e intelectual do Jeca.

No entanto, posto de pé o desgraçado Jeca, levado aos quatro cantos do Brasil para que cada brasileiro falsamente ilustrado sobre a realidade brasileira o visse em sua verdadeira condição, quando Lobato enfim se desembaraçara das influências deformantes da literatura doce de coco, e começa a ver claro, apossa-se dele o mesmo remorso que assaltou a Eça de Queirós... por um crime que não havia cometido.

Todo mundo sabe que Eça, antes de frequentar Londres e Paris, na carreira consular, viu-se despachado para Cuba. E eis que a função lhe apresenta sedutoramente aquilo a que hoje chamamos, num sentido imoralíssimo, oportunidade.

Como?

Muito simples. Quem no-lo explica, ao traçar o perfil biográfico de Eça, é o seu amigo Eduardo Prado:

"Florescia então em Cuba o comercio dos "chins" escravizados, nominalmente portugueses porque era do porto português de Macau que eles eram levados para os infernos de verdura, calor e de sofrimento que eram, para eles, as plantações de açúcar da ilha. Foi Eça de Queirós nomeado cônsul para regular, inspecionar e, portanto, manter esse comércio. Por uma disposição fiscal da lei consular, esse comércio era altamente lucrativo para o cônsul. Aconteceu, porém, que o cônsul foi Eça de Queirós, que começou uma campanha oficial contra o comércio dos "chins", que foi, finalmente, abolido".

E, no entanto, se aceitasse a proposta feita pelos fazendeiros cubanos, Eça teria enriquecido. Via de um lado a fortuna proporcionando-lhe os requintes do conforto a que sua natureza de artista era particularmente atraído, mas via de outro o pobre "culi" — o Jeca chinês — escravizado os truculentos "terratenientes" de Cuba. Bastou o fato de, numa visão estonteadora e fugaz, haver em sua imaginação prefigurado um palácio, roupas de fino talhe, gravatas de seda, luvas, mármores, livros raros e, de outra banda, o infortunado "culi", para o escritor, no futuro, como que libertando-se de um pesadelo, escrever O Mandarim. Nessa novela, o escritor altamente dotado de uma moral humanitária, prova que a consciência humana está condicionada ao imperativo das distâncias. Se, para herdar a imensa fortuna de um mandarim, no fundo da China, fosse necessário apenas o gesto de premir um botão, provocando lá muito ao longe a morte do letrado amarelo, quem deixaria de fazê-lo?

Pois Eça de Queirós não só não tocou no botão de cristal, como lançou o seu veemente protesto funcional contra a opressão dos desgraçados "culis". E escrevia ao ministro do Exterior do seu país, a 17 de maio de 1873:

"Sucede, com efeito, às vezes, que nos engenhos há assassinatos misteriosos de "mayoraes", a que os "chins" não são alheios; mas estes excessos não podem ser atrelados à índole, porque vem da desesperação. À desesperação se deve atribuir, também, ainda que haja neste fato muita influência das superstições religiosas, os numerosos suicídios de colonos. Assim é, excelentíssimo senhor, que em todos os exemplos da servidão humana, eu não conheço, a não ser no "felá" no Egito e na Núbia, ninguém mais infeliz do que o "culi". E se a justiça não é uma mera categoria de razão, a condição dos colonos na América Central não é compatível com a dignidade desta época".

Monteiro Lobato, que com leves variantes de meio e circunstâncias, veio a retificar um julgamento feito à base da emoção e não da razão, ou mais precisamente, conseguiu liquidar em si o literato para restaurar o homem justo, subscreveria o arrazoado de Eça.

É possível ampliar o paralelo. Eça, tendo seguido para o Egito, em companhia do futuro cunhado, conde de Rezende, a fim de assistir às festas inaugurais do Canal de Suez, convidados ambos de Ismail-Paxá, o quediva, pôde ver com os próprios olhos o tratamento cruel dispensado aos "felás". Trabalhavam, e por muito tempo ainda trabalharam a chicote.

Pois bem; mais tarde, já cônsul na Inglaterra, descrevendo o bombardeio de Alexandria, para mostrar como Arabi-Paxá estava com a boa razão colocando-se na defesa de sua pátria, em certo passo recorda-se dos sofrimentos do "felá" e dos gastos santuários do quediva:

"...Despesas com os dois mil convidados durante quinze dias no Cairo e no Canal — setenta milhões!... Para a champanha bebida nessas semanas de bambocha — dois milhões! O "felá" pagava. Eh! e eu que estou aqui a falar — também a bebi, essa champanhe que era no fundo o suor do "felá" espumante e açucarado! Também eu fui hóspede de Ismail-Paxá, à custa do "felá!" Também eu... Calemo-nos, cubramos a fronte de cinzas, imploremos o perdão do felá!"

Tal foi o drama de Lobato em relação ao Jeca. Na carta a Matias Arrudão, sinceramente o confessa. Lamenta os dias em que, no Jeca roído de vermes, maltratado, escorraçado das fazendas como um cão lazarento, interessava-o, não o ser humano, mas o motivo estético, o assunto literário. E toda a batalha que veio a travar mais tarde, em busca das riquezas do subsolo, não visava outra coisa senão enriquecer a nação. E, enriquecendo a nação, teria salvo o pobre Jeca da miséria afrontosa que o envilece tanto como ao "felá" e ao "culi".

A diferença entre o drama de Lobato e Eça é que este último, ao fazer-se de vela pelo mar remansoso da literatura estética, estava já largamente abastecido de socialismo, enquanto o primeiro, o autor de Urupês, só veio a divisar a Terra Prometida quando a idade e a doença apenas lhe consentiam lançar a vista para o passado, à procura do tempo perdido.

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GALEÃO COUTINHO
Revista "Fundamentos", edição de setembro de 1948.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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