domingo, 14 de julho de 2019

O tio da Escócia (Conto), de Lúcio de Mendonça



O tio da Escócia
(A meu irmão Cândido Drummond)
Eu — sem modéstia e sem pesar o declaro — bem sei que não possuo o que propriamente se chama um nome literário, posto que tenha frequentado os prelos com uma assiduidade de que, sem dúvida, se hão de lembrar, em tempo, os meus biógrafos.
Não é que também não conte as minhas glórias; conto. Uma tarde na roça, ouvi uns versos meus recitados por um bando de moças a passeio por uma alameda. Se bem me lembro, já tenho uma ou duas descomposturas do "Apóstolo" e de outra folha católica. Enfim, com algum esforço, e revolvendo bem o passado, podia ainda enramar outros louros. Pois bem: valesse muito mais o meu nome que eu sem pena o trocaria, como hoje.
A explicação deste ato encontra-se numa notícia há meses divulgada pela imprensa: — na Madeira, naquela ilha com que todos simpatizamos pela sua exportação engarrafada, estavam-se habilitando herdeiros de uma fortuna colossal, deixada por João Drummond, um fidalgo de sangue real, um emigrado político da Escócia.
Ora, este homem ilustre era, nem mais, nem menos, tio deste que se tinha por obscuro plebeu. Eu já sabia, por tradições de família, que me girava nas veias o heroico sangue escocês. A verde Erim! já, muito antes da herança, eu estremecia de orgulho filial imaginando que ainda provinha daquela raça de bardos montanheses; e, como bom descendente de Ossian, tinha um fraco pelos nevoeiros. Hoje não! vejam os senhores bardos se têm outro descendente! olha quem! uns miseráveis, que talvez fossem até salteadores! Nós descendemos dos Drummond, senhores de Stogbal na Escócia. Puro sangue real! Se não fossem certas prevenções, que nos ficaram dos nossos tempos de plebeu e republicano escrevíamos ao imperador chamando-lhe primo. E isto mesmo com certa generosidade: o nosso sangue é muito mais azul: da casa de Bragança dizem umas coisas, que nunca se atreveram a murmurar da nossa, de que Walter Scott fala tantas vezes.
Mais do que nós, porém, que ficamos olhando o vulgo muito de cima, aproveitou com a notícia um parente nosso, cuja história aí vai, para maior glória da família.
É um rapaz gordo e forte, e chama-se Marcelo. À noite, parece ter trinta anos; à luz do sol, quarenta. Passou por todas as academias da capital, mas nunca passou disso; ultimamente era revisor de provas num jornal e, nas horas vagas, colaborador de várias confeitarias, seção "balas de estalo". Vestia-se invariavelmente de preto, e era modesto como um prólogo.
Este rapaz sempre teve a previsão da riqueza. Lia todos os testamentos no "Jornal"; só se apaixonava de herdeiras; e, sentindo uma preguiça superabundante, dizia à mãe: — Veja bem, que eu com certeza tenho sangue nobre.
Pelos fins do ano passado, a paixão de Marcelo era pela filha de um titular da capital. O pai, cujo apego às apólices não há quem não conheça, nem desconfiava de que lhe cantavam os melros, todas as tardes num caramanchão do jardim.
 Diga-se, para esclarecimento dos fatos, que Marcelo era um rapagão, e a namorada uma corujinha, que, se não, fossem as apólices paternas, havia de se resignar aos sobrinhos.
Corriam assim as coisas quando, uma clara manhã, leu Marcelo na "Gazeta" a notícia da vertiginosa herança do tio escocês. Logo depois do almoço foi visitar a avó, de quem obteve em conversa a genealogia da família; mas não se falava do ascendente mais glorioso.
— Diga-me, atalhou Marcelo, não tivemos parentes na Madeira?
— Tivemos, sim, e ainda temos. Hoje, os Tristões...
— Sim?! a senhora afiança-me isso? E nunca ouviu falar, num parente nosso que veio da Escócia?...
— Pois não! isso mesmo! um emigrado...
Marcelo saltou na cadeira e saltou ao pescoço da velha:
— Estamos ricos!
Leu-lhe a "Gazeta"; conversou-se ainda muito a respeito do grande homem; elogiou-se a honestidade da lei inglesa, que deixa jazer por tantos anos uma herança; e, quando saiu, levou Marcelo cartas e papeis velhos de família, por onde se provava, pouco mais ou menos, o seu direito aos brasões e às libras esterlinas do emigrado.
Essa noite, no colóquio do caramanchão, perguntou à menina das apólices:
— Que dirias tu, se te propusessem um noivo de sangue real?
Ela fez-se modesta; isso não era para ela; e estava bem satisfeita com o seu.
— Pois o meu sangue é desses!
A outra não compreendeu bem o alcance da notícia, e admirou-se menos do que convinha à magnitude do caso. Marcelo insistiu e explicou; em suma, aquilo vinha abrir-lhe a porta da sala, a ele que só conhecia a do jardim: já se animava a falar ao papai.
Espalhou-se a nova, e no outro dia Marcelo era interpelado a cada esquina:
— Tu também és parente?
— E dos mais próximos!
— Então, milionário?!
— E nobre; acrescentava ele, levantando os colarinhos à altura da situação.
E aos que ainda não sabiam era o primeiro a dizer que descobrira ter sangue real. Um malévolo perguntou-lhe se isso vinha de Pedro I.
— Muito acima, corrigiu Marcelo sem compreender. Vem da Escócia. Não leste a "Gazeta"?
Entraram a surgir-lhe parentes por todos os lados, em todas as classes — na magistratura, no comércio, no magistério, nas letras, na indústria, na política, na diplomacia. Eram apresentações todos os dias. Por uns e por outros, chegou a ser apresentado ao pai da menina, o qual lhe ofereceu a casa.
Iam de vento em popa as suas esperanças. Já se via em Botafogo e no Catete, numa sala de decoração severa, e antiga, onde passavam fâmulos de libré, a passos que os tapetes amorteciam; ou, voltando do teatro, no fundo de um "coupé" brasonado, rolando surdamente, enquanto lá fora faiscavam as ferraduras das parelhas e os plebeus voltavam a pé, com as mãos nos bolsos e as golas levantadas.
E vinham depois os bailes do Cassino, o Jóquei-Clube, os passeios à Tijuca, os verões em Petrópolis. E que horizonte político! uma cadeira na Câmara, o coleguismo das notabilidades, e, mais tarde, a curul do Senado, o direito de sentar-se ao lado de Otaviano e de pedir pitadas ao Sr. Abaeté e oferecer outras ao Sr. Jaguari, que não as dá.
Tinha também a ideia de proteger as letras, favorecer a empresa do "Cenáculo", alcançar uma comenda para o Artur de Oliveira e uma pensão ao Ferreira de Menezes para escrever mais a miúdo e outra ao C. — para nunca mais escrever! E, para mostrar-se bem do seu partido e da sua.classe, maquinava tomar a assinatura do "Apóstolo"; e, se o apurassem muito, era homem para uma conferência na escola da Glória: para a fazer e, até, para a ouvir!
Chegou a achar que era uma afiança desigual a, sua com a corujinha das apólices, e pensou vagamente em uma formosura real, cujo retraio vira na almanaque de Gotha, princesa da Dinamarca; mas isso não deixava de ser complicado; demais, conservava ainda alguns preconceitos democráticas: optou pela fluminense.
Uma noite, apresentou-se ao titular, com bom padrinho, e obteve a mão da namorada; mas o homem, pelo seguro, impôs que o casamento fosse depois de recebida a herança. O herdeiro dos Drummond saiu desconsolado; acudiu-lhe, porém, uma esperança: conseguir logo da menina o que a prudência paterna adiava. A primeira vez que se viu a sós com ela, disse-lhe que não podia esperar tanto pelo casamento, que o pai o ofendia duvidando do seu direito, e insinuou perversamente que era capaz de levar a outra os seus brasões.
Procurou também deslumbrá-la com a exibição do seu rico futuro: podiam ir morar para a.
Escócia, um país de legenda, um castelo antigo entre os rochedos, entre a vegetação fantástica dos alamos e dos pinheiros, ouvindo à noite gemer a alma dos heróis nas lástimas do vento.
Ela achou bonito, com a condição de se pintar de novo o castelo, e de pinhões não queria saber: sempre ouvira dizer que era muito quente; quanto aos fantasmas, podia-se fechar a janela.
Mas uma coisa ficou-lhe — a possibilidade, que ele mostrou de vir a ser conde. "A Sra. condessa!", "a condessa de Stogbal!" já via os esplendores do seu luxo e a inveja das amigas. Lembrava-se da sua viagem à Europa, logo que saíra do colégio, e imaginava-se outra vez a bordo, nas tardes do tombadilho, na vasta alegria do mar, comendo ameixas passadas, sua gulodice predileta. E via-se chegando aos seus domínios, esperada no seu castelo, caminhando entre alas de velhos lacaios de libré; e havia de ter aias inglesas, asseadas e discretas, e uma música suave, como a banda dos alemães do Passeio, que tocasse todas as tardes no pavilhão do jardim...
Não, positivamente, já não podia ser menos que condessa na Escócia; cumpria casar, e já, para que outra não fosse condessa com o Marcelo.
É um velho recurso muito explorado e sabido, mas ainda assim infalível com os pães de coração fraco: amuou dias inteiros, sem comer ou comendo às ocultas, e chorando como quem não tivesse mais que fazer. Não havia meio de a consolar, senão dar-lhe Marcelo; deu-se-lhe. Assim casou, há meses, este meu parente, primeiro que desfruta o tio da Escócia.
É hoje outro homem: não entra nos cafés onde almoçava "de assobio", nem passa pelas lojas de roupa feita da rua do Hospício; foi admitido ao Grêmio do Bernardo, e já tem assinatura de camarote para a Companhia lírica a chegar. Breve o temos na Glória. E vá se preparando o "Apóstolo" para o milagre de mais um assinante.
No baile do casamento, foi visto a conversar com um ministro: suspeita-se-lhe a intenção de representar a nação por Mato Grosso ou Goiás, ou de ser lente substituto na Escola Politécnica, lugar para o qual está provado que se não exige nem exame de francês.
Projeta uma economia que talvez o leve ao ministério — suprimir, a pasta da marinha. E nas horas vagas, que são hoje todas as suas horas, inventou um jogo em que se procura, não onde está o gato, mas onde está o barrete frígio de certo jurisconsulto.
Tal era o homem que se perdia na obscuridade da pobreza e na ociosidade dos cafés, por falta unicamente de uma herança. Bastou-lhe a notícia de uma, ei-lo elevado à altura do seu destino.
Encontrou-se comigo, há dias, na rua, e já não me conheceu, esquecido, tão cedo, de que toda a prosperidade lhe veio do nosso tio comum. Deixa-te estar, vilão, que também, há de chegar o meu dia; já a esperança, a musa profética, mais doce que o mantuano, segreda-me na hora dos sonhos: "Tu Marcellus eris" Também nós seremos gente, e nutriremos na alma cívica a aspiração generosa de ir salvando a pátria a cinquenta mil réis diários.
Até lá perdoai-me, ó manes do meu rico tio, e fazei com que venha a mim, sem demora, o meu quinhão dos brasões e mais das libras, principalmente das libras, de nossa ilustre casa!
Rio, junho de 1878.

---
Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854-1909)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...