7/14/2019

Divina (Conto), de Jorge Falleiros



Divina
Meu irmão e eu somos estudantes de Engenharia. Chamo-me Pedro, ele se chama Paulo. Gostamos muito de dançar. Isto depois de termos frequentado uma Escola de Dança que nos custava 60 mil por mês, o que representava um desfalque enorme na mesada. Fomos, outro dia, a um baile no Trianon, em benefício não sei de que casa de caridade, para recolhimento de crianças pobres. Paulo valsou com uma moça bonita que lhe deitou uns olhos compridos. Foi quanto bastou para entabularem um namoro que, por desequilibrado, não me pareceu gracioso. Passaram assim até à madrugada.
Ao nos retirarmos Paulo me disse que era ela filha duma das famílias mais distintas da Pauliceia. Chamava-se Mariana e morava não sei em que palacete da Alameda Barão de Limeira.
Pobre rapaz! Queria por força ir visitá-la, conforme ela o havia convidado. Acabou pedindo-me que o acompanhasse: — Sem ti não vou, disse-me. Acedi. Quando deixamos o palacete da Bela procurei dissuadi-lo.
— Olha, não sejas tolo. A moça é formosa, é rica, é de boa família, é tudo quanto quiseres, mas não será nunca tua esposa.
— Isso dizes tu... e quais são as razões para tal afirmares?
— Eu? motivos?... Ora bolas! eu sei.
— Sabes como?
— Escuta, quero ser franco: tua pretensa namorada é para contigo duma indiferença quase desdenhosa...
— Desdenhosa?
— Desdenhosa. Não lhe viste aquele modo de perguntar: — Sim?... É?... É, é?... — a tudo quanto lhe dizias?
— Qual! histórias! Vá saindo! São elegâncias que não compreendes. A própria indiferença é o encanto das mulheres.
— Bom, se é assim, faze o que entenderes.
Aquela sua ideia a respeito da indiferença das mulheres lisonjeou tanto a sua vaidade de poeta (porque é um poeta) que, ao outro dia, veio me trazer um soneto que terminava por este verso:
Indiferente, má, quase divina.
***
Não digo mais nada; um mês depois da primeira visita, Paulo era noivo da senhorita Mariana. Fiquei boquiaberto, mas, nem por isso, duvidando menos. Pudera não! Se a família havia pedido prazo até ao dia da formatura!
***
O contrato que acabo de narrar se deu há uns dois meses mais ou menos. Ontem assisti ao casamento do meu irmão. Não houve outra assistência além da minha. Fizemos a coisa às escondidas.
— Como assim? perguntará o leitor — pois a noiva não tinha pedido um prazo enorme?
De fato; mas é que ele não se casou com a noiva. Casou-se com uma pequena italiana, costureirinha corriqueira.
Paulo tinha o mau costume (por, mim várias vezes repreendido) de ir estudar no Largo do Arouche porque o nosso quarto é um tanto escuro. Ora, aconteceu que a italianinha passava por ali todos os dias, e eles se entreolhavam mutuamente. E, como o Diabo escreve torto por linhas direitas... o resto o leitor já sabe. Também o pai dela veio a saber e quis que a policia também o soubesse. Esta forçou meu irmão ao casamento. Uma desgraça! Fiquei desconsolado.
— Mas Paulo, — disse a meu irmão — que fizeste? Deitaste a perder a tua honra, a honra da nossa família, todo o teu futuro...
Como, porém, ele começasse a chorar como uma criança, de tal maneira que fazia dó, tive pena dele. Consolei-o:
— Mas afinal... agora... que diabo!
***
Hoje estava eu fingindo esperar o bonde no Largo dos Guaianazes, quando me encontrou um colega de pensão.
— Estavas esperando o bonde?
— Não. Estava te esperando a ti para prosarmos.
Não tínhamos prosa. Passou por nós uma rapariga.
— Divina, pois não? — fez-me ele.
— Deixa disso! — respondi com uma ideia fixa. Só houve na terra uma mulher divina.
— Qual terá sido, Deus de bondade!
— Foi a noiva de meu irmão no momento em que soube do casamento dele.
— Estás maluco?
— De fato, aquela indiferença foi divina.
Uma divina indiferença. Não riu, não sorriu não chorou, não caiu desmaiada, não sentiu a menor emoção; disse apenas: — Esses estudantes são uns infelizes; qualquer italianinha os perde Divina, pois não achas?
 São Paulo 1921.

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Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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