quarta-feira, 3 de julho de 2019

O último a saber (Conto), de Brito Camacho



O último a saber
Era uma vida infernal, de manhã à noite, todos os dias, incluindo o domingo e festas. Casara se para viver tranquilo, mas por um engano desculpável era quem não tem pratica, imaginando que casava com uma mulher, casara com uma fera. Por mais de uma vez acreditou que ela ia bater-lhe, mas então arregalava-lhe muito os olhos, mostrava-lhe os punhos cerrados, e assim a continha em respeito. Era uma vida infernal, de manhã à noite; mas habituara-se àquilo, de tal maneira que, em passando um dia fora, a tratar de negócios, tinha a impressão que lhe faltava alguma coisa, sem se aperceber bem do que era. É o caso do moleiro que acorda quando a moinho para; o caso do soldado, nas trincheiras, que pega no sono quando o bombardeio é mais intenso, e acorda quando o fogo cessa. Custava lhe imenso aturá-la; mas algumas vezes dava por si a estranhar que ela o não increpasse por qualquer motivo, o não descompusesse por qualquer razão e essa estranheza, sem que ele de tal se apercebesse, era um desejo. O homem é ura animal de hábitos, e mesmo os hábitos que o incomodam, à la longue, tornam-se-lhe necessários.
Os seus beijos pareciam beliscões, e assim mesmo só lhos dava com muita parcimônia, economizando-os como se valessem dinheiro. No seu vocabulário não havia os diminutivos afetuosos que empregam, com variável frequência, as mães e as esposas — as mães para quem os filhos são adoráveis bocados da sua carne — caro mea, as esposas que são bem a metade, a mais delicada e sensível metade do marido.
Uma coisa o consolava no meio da vida negra que tinha em casa — a fidelidade da esposa. Oh! lá quanto a isso estava perfeitamente descansado. E, contudo, pequenos nadas tinham ocorrido de molde a abalarem-lhe a confiança conjugal.
Um dia, estando na varanda, à espera que pusessem o jantar na mesa, ouviu altercação forte na cozinha, e prestou um pouco de atenção, só para se informar. A criada pareceu ficar esmagada sob a avalanche de impropérios que a patroa lhe atirava, como se fossem pedras, e fazendo um esforço sobre si mesma, não fosse escapar-lhe uma acusação grave, em voz baixa, quase sumida, articulou estes dizeres:
— A senhora bem sabe que se eu quisesse falar tinha muito que dizer.
Sentiu ganas de pôr a moça em confesso, mas logo pensou que esse rebate de ciúme, o primeiro em toda a sua vida de casado, seria ridículo para si e escusadamente vexatório para sua esposa, que nunca lho perdoaria.
Encolheu os ombros e deixou-se ficar, como se nada tivesse ouvido.
Desabafos insólitos de sopeira repreendida...
Já depois deste episódio entrou no chapeleiro, para comprar um chapéu.
— Vamos a ver a medida.
— Não é preciso, que eu sei qual é — sessenta centímetros.
— Isso varia, disse o chapeleiro, olhando de soslaio para uns sujeitos que estavam na loja.
E muitas coisas neste gênero, todas elas insignificantes, mas podendo muito bem pôr de sobreaviso outro que não tivesse como ele uma infinita confiança na mulher. Era uma fera; mas lá no capitulo honestidade, pediria meças à Lucrécia, aquela famosa patrícia romana, que para não aparecer ultrajada perante o esposo, vilmente atraiçoado, cravou um punhal no coração, preferindo a morte à desonra.
Um dia, estando a jantar, recebeu um telegrama do Porto, chamando-o ali com toda a urgência, por motivo de negócios. A demora seria pequena, um dia, dois dias; mas como era da mais rigorosa pontualidade nas suas contas, recomendou à mulher, já a descer a escada, que no caso de vir alguma fatura a pagamento mandasse ou fosse pedir o dinheiro necessário ao Lopes, com mercearia na vizinhança, seu amigo desde os bancos da escola primaria. Na verdade houve necessidade de pagar uma fatura, mas nem pela cabeça lhe passou pedir dinheiro ao Lopes.
— Disse que voltassem no dia seguinte, a qualquer hora, e escrevi a meu irmão José, dizendo-lhe o que era passado. Mandou-me logo o dinheiro pelo mesmo portador que levara a carta. Bem sabes a fama que tem o Lopes, um traste que mede todas as mulheres pela mesma bitola.
Era uma fera; mas em solteira nunca doidejou com namoros, e depois de casada era duma severidade que poria a muitas léguas de distância o atrevido D. João, o descarado Lovelace que ousasse dizer-lhe uma palavra equivoca em que se contivesse uma infinitésima parcela de avance amorosa.
Ora sucedeu que na quinta-feira da Ascensão, fendo ele saído de casa logo de manhãzinha, a mulher abandonou o lar doméstico, explicando-lhe numa carta lacônica que ia procurar, junto do amante idolatrado, a felicidade que não encontrara numa união legítima.
No outro dia o chapeleiro, mal o viu:
— Então, vizinho, ontem apanhou a espiga?
E ele, muito convicto, como quem diz a coisa mais natural do mundo:
— Não senhor, não apanhei; livrei-me dela, E que espiga!
Ainda ninguém sabia, na vizinhança, que lhe tinha fugido a mulher.

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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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