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7/04/2019

O Cego e o Mealheiro (Conto), de Teófilo Braga


O Cego e o Mealheiro

Era uma vez um cego que tinha ajuntado no peditório uma boa quantidade de moedas. Para que ninguém lhas roubasse, tinha-as metido dentro de uma panela, que guardava enterrada no quintal, debaixo duma figueira. Ele lá sabia o lugar e quando arranjava outra boa quantia, desenterrava a panela, contava tudo e tornava a esconder o seu tesouro.

Ora um vizinho espreitou-o, viu onde é que ele tinha a panela, foi lá e roubou tudo. Quando o cego deu pela falta, ficou muito calado, mas começou a dar voltas ao miolo para ver se arranjava maneira de tornar a apanhar o seu dinheiro. Pôs-se a considerar quem seria o ladrão e achou que por força teria de ser o vizinho. Tratou de ir à fala com ele e disse-lhe:

― Olhe, meu amigo, quero contar-lhe uma coisa muito em particular, que ninguém nos ouça.

― Então o que é, senhor vizinho?

― Eu ando doente e isto há viver e morrer. Por isso quero dar-lhe parte que tenho algumas moedas enterradas no quintal, dentro de uma panela, mesmo debaixo da figueira. Já se sabe, como não tenho parentes, há de ficar tudo para si, que sempre tem sido um bom vizinho e me tem tratado bem. Ainda tenho aí num buraco mais umas moedas de ouro e quero guardar tudo junto, para o que der e vier.

O vizinho, ao ouvir aquilo, agradeceu-lhe muito a intenção. Naquela noite tratou logo de ir enterrar outra vez a panela de dinheiro onde ela estava, com a intenção de apanhar o resto do tesouro. Quando bem entendeu, o cego foi ao sítio, encontrou a panela e levou-a para casa. Depois desatou num grande berreiro, para que o vizinho ouvisse:

― Roubaram-me! Roubaram-me tudo!

E daí em diante guardou as suas moedas num sítio onde nunca ninguém soube.

O Relógio de Estrasburgo (Conto), de Teófilo Braga


O Relógio de Estrasburgo

Em pleno século XIV. O sol brilhante, num céu sereno e límpido de um dia de alegria, derramava-se em torrentes sobre a catedral de Estrasburgo. Voltada para o oriente, segundo o rigor do simbolismo religioso, recebia a luz do alto, como um cenáculo em que as línguas de fogo vinham revelar os mistérios da vida e a serenidade, que ela havia de infundir aos tristes que se acolhessem, corridos das tempestades do mundo, na tranquilidade do seu recinto. A luz refletia-se coruscante das vidraças, que ostentavam um rosicler das cores mais caprichosas e vivas; cada pedra, cada ângulo, cada saliência destacava-se mostrando os rendilhados e lavores esquisitos; a torre parecia então mais altiva, não topetava com as nuvens, perdia-se na profundeza do espaço azulado e puro. Era um belo dia de primavera.

Diante da catedral majestosa foram-se agrupando pouco a pouco alguns vultos ociosos; e, atraída na razão direta das massas, instantes depois a multidão flutuava impaciente, como quem espera um prodígio anunciado, um eclipse. Não era nenhum eclipse, nem tampouco o aparecimento de um cometa, que então fazia tremer os pontífices e os reis. Não era mesmo procissão esplêndida, que o povo e os amadores de tertúlias estavam esperando com ansiedade. O que seria então?

Uma figura estranha, embuçada num tabardo escuro, chapéu emplumado ao uso da corte, vinha montado, a passapelo, num cavalo fouveiro; custava-lhe a romper por entre a turba apinhada; estrangeiro ali, não quis atropelar ninguém, e resolveu esperar que o concurso fosse diminuindo.

— O que está toda esta gente aqui a fazer, num dia de trabalho? — perguntou o desconhecido para um rapaz, que parecia esconder-se entre o vulgo, com um ar de tristeza e de uma dor indizível. — Há alguma procissão ou festa de jubileu? Ainda as portas da catedral estão fechadas.

— É certo que vindes de bem longe, — volveu-lhe vivamente o pobre rapaz — pois que ainda vos não chegou a fama do grande Relógio de Estrasburgo. É uma maravilha da Alemanha. Não vedes aquela estatuazinha da Virgem? Diante dela, vêm ao bater do meio dia os três Reis Magos com seus presentes, e o Galo autômato, que lá está, sacode as asas logo que o sol toca o zênite.

O cavaleiro não teve tempo para compreender o que ouviu, porque um sussurro imenso, repentino, burburinhou por toda a praça. O carrilhão de Estrasburgo dava meio dia. Ficaram boquiabertos, atentos esperando o aparecimento dos Reis Magos. Sentiu-se primeiro o ruído estrepitoso de umas asas pesadas, depois o clangor de uma voz ênea, soturna. O cavaleiro estava pasmado com o que via. A fama do Relógio de Estrasburgo correra as partidas do mundo. Os palácios, os mosteiros, os castelos desejavam uma maravilha igual. Ignorava-se o nome do artista. O cabido da catedral ufanava-se com tão magnífico e singular artefato.

— Oh! diz-me, — acudiu o cavaleiro, saindo do espasmo da admiração — diz-me quem fez esta obra prodigiosa, que é a inveja de todas as cidades do mundo! Porque se não fala no nome dele? Onde está o artista? Venho de França para vê-lo.

— Perguntais, nobre cavaleiro, como se eu pudesse violar tal segredo! Mal sabeis que as vossas palavras acordam na minha alma uma dor profunda como um eco num páramo aziago. Quem fez o Relógio, perguntais vós, e a glória tenta-me, precipita-me, impele-me a arriscar a vida! Foi o meu pai! — E as lagrimas de alegria e pesar foram-lhe arrasando os olhos, até que rompeu num choro insofrido de criança. O cavaleiro apeou-se e estreitou-o nos braços.

— É a saudade do teu pai, que te lava o rosto com esse pranto de ingenuidade e amor? Não soube a morte respeitar tão preclaro engenho? E eu que vinha da parte de Carlos V, de França, para visitá-lo e falar-lhe!

— Ele ainda vive, senhor. Mas que vida! Oh! antes a morte o tivesse envolvido nas suas trevas geladas; antes houvesse nascido sem aquela luz do talento, que é sempre a predestinação do martírio.

A praça estava já deserta, e os dois partiram enleados nesta conversação.

Chegaram à oficina do relojoeiro. Era um velho; tinha o rosto escondido entre as mãos, como quem se abismara numa abstração intensa, ou numa grande e entranhável agonia. O estrangeiro permaneceu hirto sob a soleira da porta; não se atrevia a interromper os processos misteriosos daquela mente perscrutadora. A criança aproximou-se com familiaridade, e segredou-lhe longamente umas palavras mal articuladas e confusas. O velho ergueu então a fronte banhada numa alegria suave, e voltou-se para a porta:

— Buscam-me da parte de el-rei Carlos V de França? — perguntou ele com um ar afável e indicando um assento ao desconhecido.

— Em verdade, el-rei me envia aqui.

— E o que pretende de mim, que nada posso, el-rei, que tudo manda?

— Conhecendo a vossa boa fama, vendo que enriquecestes a Alemanha com essa maravilha do Relógio de Estrasburgo, ele quer também colocar na torre do palácio da Justiça uma máquina, que dividindo com justeza as doze horas do dia, ensine a observar a justiça e as leis.

— Como o não serviria eu de boa vontade, se me não houvessem apagado para sempre o lume dos olhos. Não vedes estas órbitas vazias?

Cegaram-me. Há já dezesseis anos que vivo mergulhado nestas sombras cerradas, que me antecipam a escuridão tétrica do sepulcro, mas que me prolongam a vida, no abandono da desgraça, para sofrer a cada instante as mais excruciantes provações. Eu vivo ao desamparo; nem sei já trabalhar.

Nesta solidão do espírito, para esquecer o tédio e a desesperação que me pungem, eu invento maquinismos complicados, que o meu pobre filho executa. É ele o herdeiro do meu engenho. Cada pancada do relógio no carrilhão da catedral, é uma palavra de sarcasmo, um insulto vibrado por uma língua satânica, só entendida por mim. Vou contando as horas na mudez das noites de insônia, e cada uma me descreve com mais feias cores esta morte onde fui precipitado em vida.

Havia nas palavras do velho um misto de resignação e dor, uma conformidade, uma santidade admirável. A fronte, enrugada pelos anos e o estudo, pendia-lhe sobre o peito; o filho ainda imberbe, engraçado, ingênuo, estava de pé ao seu lado, mudo, com os olhos no chão.

— Como houve mãos tão bárbaras, que ousaram pôr diante do vosso espírito, para sempre, a sombra eterna da morte? Foi o acaso? Foi a malvadez que vos despenhou nessa desgraça? Seria a inveja quem vos suplantou à traição, vendo-se obrigada a admirar os artefatos que não podia exceder? Oh, contai-me. Não! não! tenho horror de ouvir; deve custar-vos muito isso. El-rei há de sabê-lo e acudir-vos.

O velho ergueu lentamente a fronte; pousou as mãos sobre a cabeça loira do filho, brincando distraído com os cabelos anelados. Depois de um momento de indecisão, começou:

— O bispo João de Lichtenberg encomendou-me um relógio grande para a torre de Estrasburgo. Era preciso que as horas canônicas fossem observadas com escrúpulo; as irregularidades na divisão do tempo causavam graves inconvenientes às rezas e ofícios divinos do coro. Eu trabalhei dois anos consecutivos; tinha empenhado naquela obra a minha fama. Inventei um calendário em que representava as indicações das principais festas móveis: ao lado pus-lhe um quadro em que estavam escritas em verso as principais propriedades dos sete planetas; ao meio coloquei-lhe um astrolábio, em que os ponteiros notavam o movimento do sol e da lua, as horas e os quartos. Ao alto estava uma estátua da Virgem, perante a qual se inclinavam, ao dar do meio dia, as figuras dos três Reis Magos. Ficaram espantados com a maravilha da obra; soou por toda a parte a fama dela. O povo aglomerava-se na praça para ver. O cabido receou que os outros mosteiros ou as cortes da Europa quisessem ter um monumento igual. Como impedi-lo? Uma noite, estava eu descansando do trabalho assíduo, ímprobo que levava, quando me bateram à porta. Vieram dizer-me que o relógio estava parado. Levantei-me à pressa, aterrado, confuso, e dirigi-me para a torre. Quando ia subindo, e já a uma altura vertiginosa, apagaram-se de repente os archotes; os que me acompanhavam, lançaram mão de mim para me precipitar; as unhas prenderam-me ás fendas da cantaria, com a tenacidade do amor à vida. Por fim, cansados, agarraram-me, arrancaram-me os olhos. Aos meus gritos, os malvados respondiam que me desse por feliz em não ser queimado vivo na praça pública, exposto à irrisão da plebe, por feiticeiro; que eu tinha pacto com Satanás, que o evocava com linhas cabalísticas com que formava as rodas denteadas.

O pobre velho permaneceu um instante silencioso refletindo no assombro daquela noite infernal; depois mudando de conversa, o embaixador pediu-lhe para levar o filho, que havia de fazer por certo o relógio para o palácio da justiça. Não faltaram negações e hesitações. O velho conhecia o talento do filho, e temia um igual desastre. O cavaleiro jurou protegê-lo com a vida, e trazê-lo incólume a casa do seu pai, logo que tivesse findado o trabalho.

O relógio foi posto na torre do palácio da Justiça, e, ele que aconselhava a observância da justiça e das leis, foi o mesmo que, dois séculos mais tarde deu o sinal para a execranda carnificina da noite de São Bartolomeu.

Quando o filho do relojoeiro de Estrasburgo voltou à pátria, ainda o pobre velho vivia. Estava no meio da sua desgraça, possuído de uma alegria infinita.

Na solidão do espírito em que ficara, procurara constantemente vingar-se.

Vingou-se afinal. Um dia conseguiu aproximar-se do Relógio, e tocou numa roda de tal forma, que não voltou mais a regular, apesar de todos os esforços; em 1574, intentou restaura-lo Dasípodes, outros em 1669, em 1731, até que cessou de trabalhar em 1789, como uma relíquia última da Idade Média que arrebatava a Revolução. O desgraçado levava esta única consolação do mundo. A mesma lenda se conta dos relógios de Nuremberga, de Auxerre e Lyon, em que as versões parecem filhas da compreensão de uma mesma verdade.

7/03/2019

Hora legal (Conto), de Brito Camacho



Hora legal
No próximo dia 17 à meia-noite
será ás onze horas, ficando assim
estabelecia a hora oficial.
Diário do Governo.
O registro tinha de fazer-se até ao meio dia, porque um dos padrinhos, brasileiro de torna-viagem, devia embarcar às três horas, com destino ao Rio. De modo que a Repartição a abrir, o pai do menino a entrar, acompanhado dos seus dois compadres. Não se demorou o oficial, contrariando velhos hábitos, e assim que entrou no seu gabinete, mobilhado com estrema pobreza, meteu mãos à obra.
— O menino nasceu?...
— No dia 17.
— A que horas?
— Eram onze e meia da noite.
— Não pode ser!...
— Como é que não pode ser? Eu sou o pai do menino, e verifiquei a hora precisa do seu nascimento.
— Tudo isso será assim, mas eu sou funcionário público e tenho de observar rigorosamente as leis da República.
— O que eu não percebo é o que tem que ver as leis da República com a hora a que uma pessoa nasce, a não ser para dela se fazer registro.
— Ora aí está... Eu não posso fazer registro duma hora que as leis da República aboliram. Ninguém nasceu, ninguém morreu, ninguém existiu na hora a que o senhor pretende que veio ao mundo o seu menino.
O registro não se fez, está bem de ver, mas no dia seguinte, o “Diário do Governo” publicava este decreto, que a todos e a tudo deu satisfação:
Artigo lº — Ficam sem efeito os nascimentos e os óbitos que tiveram lugar entre as onze horas e a meia noite do dia 17 de junho de 1916.
§ único — Aos indivíduos nascidos ou mortos nas condições deste artigo, não querendo tornar a nascer ou morrer, será permitido justificarem na repartição do registro civil do seu bairro ou freguesia, abonando-se com testemunhas idôneas, que motivos de força maior os obrigaram a nascer ou morrer fora das horas legais da República.
Art. 2º — Fica revogada a legislação em contrário.

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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

O último a saber (Conto), de Brito Camacho



O último a saber
Era uma vida infernal, de manhã à noite, todos os dias, incluindo o domingo e festas. Casara se para viver tranquilo, mas por um engano desculpável era quem não tem pratica, imaginando que casava com uma mulher, casara com uma fera. Por mais de uma vez acreditou que ela ia bater-lhe, mas então arregalava-lhe muito os olhos, mostrava-lhe os punhos cerrados, e assim a continha em respeito. Era uma vida infernal, de manhã à noite; mas habituara-se àquilo, de tal maneira que, em passando um dia fora, a tratar de negócios, tinha a impressão que lhe faltava alguma coisa, sem se aperceber bem do que era. É o caso do moleiro que acorda quando a moinho para; o caso do soldado, nas trincheiras, que pega no sono quando o bombardeio é mais intenso, e acorda quando o fogo cessa. Custava lhe imenso aturá-la; mas algumas vezes dava por si a estranhar que ela o não increpasse por qualquer motivo, o não descompusesse por qualquer razão e essa estranheza, sem que ele de tal se apercebesse, era um desejo. O homem é ura animal de hábitos, e mesmo os hábitos que o incomodam, à la longue, tornam-se-lhe necessários.
Os seus beijos pareciam beliscões, e assim mesmo só lhos dava com muita parcimônia, economizando-os como se valessem dinheiro. No seu vocabulário não havia os diminutivos afetuosos que empregam, com variável frequência, as mães e as esposas — as mães para quem os filhos são adoráveis bocados da sua carne — caro mea, as esposas que são bem a metade, a mais delicada e sensível metade do marido.
Uma coisa o consolava no meio da vida negra que tinha em casa — a fidelidade da esposa. Oh! lá quanto a isso estava perfeitamente descansado. E, contudo, pequenos nadas tinham ocorrido de molde a abalarem-lhe a confiança conjugal.
Um dia, estando na varanda, à espera que pusessem o jantar na mesa, ouviu altercação forte na cozinha, e prestou um pouco de atenção, só para se informar. A criada pareceu ficar esmagada sob a avalanche de impropérios que a patroa lhe atirava, como se fossem pedras, e fazendo um esforço sobre si mesma, não fosse escapar-lhe uma acusação grave, em voz baixa, quase sumida, articulou estes dizeres:
— A senhora bem sabe que se eu quisesse falar tinha muito que dizer.
Sentiu ganas de pôr a moça em confesso, mas logo pensou que esse rebate de ciúme, o primeiro em toda a sua vida de casado, seria ridículo para si e escusadamente vexatório para sua esposa, que nunca lho perdoaria.
Encolheu os ombros e deixou-se ficar, como se nada tivesse ouvido.
Desabafos insólitos de sopeira repreendida...
Já depois deste episódio entrou no chapeleiro, para comprar um chapéu.
— Vamos a ver a medida.
— Não é preciso, que eu sei qual é — sessenta centímetros.
— Isso varia, disse o chapeleiro, olhando de soslaio para uns sujeitos que estavam na loja.
E muitas coisas neste gênero, todas elas insignificantes, mas podendo muito bem pôr de sobreaviso outro que não tivesse como ele uma infinita confiança na mulher. Era uma fera; mas lá no capitulo honestidade, pediria meças à Lucrécia, aquela famosa patrícia romana, que para não aparecer ultrajada perante o esposo, vilmente atraiçoado, cravou um punhal no coração, preferindo a morte à desonra.
Um dia, estando a jantar, recebeu um telegrama do Porto, chamando-o ali com toda a urgência, por motivo de negócios. A demora seria pequena, um dia, dois dias; mas como era da mais rigorosa pontualidade nas suas contas, recomendou à mulher, já a descer a escada, que no caso de vir alguma fatura a pagamento mandasse ou fosse pedir o dinheiro necessário ao Lopes, com mercearia na vizinhança, seu amigo desde os bancos da escola primaria. Na verdade houve necessidade de pagar uma fatura, mas nem pela cabeça lhe passou pedir dinheiro ao Lopes.
— Disse que voltassem no dia seguinte, a qualquer hora, e escrevi a meu irmão José, dizendo-lhe o que era passado. Mandou-me logo o dinheiro pelo mesmo portador que levara a carta. Bem sabes a fama que tem o Lopes, um traste que mede todas as mulheres pela mesma bitola.
Era uma fera; mas em solteira nunca doidejou com namoros, e depois de casada era duma severidade que poria a muitas léguas de distância o atrevido D. João, o descarado Lovelace que ousasse dizer-lhe uma palavra equivoca em que se contivesse uma infinitésima parcela de avance amorosa.
Ora sucedeu que na quinta-feira da Ascensão, fendo ele saído de casa logo de manhãzinha, a mulher abandonou o lar doméstico, explicando-lhe numa carta lacônica que ia procurar, junto do amante idolatrado, a felicidade que não encontrara numa união legítima.
No outro dia o chapeleiro, mal o viu:
— Então, vizinho, ontem apanhou a espiga?
E ele, muito convicto, como quem diz a coisa mais natural do mundo:
— Não senhor, não apanhei; livrei-me dela, E que espiga!
Ainda ninguém sabia, na vizinhança, que lhe tinha fugido a mulher.

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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

7/02/2019

A Morte (Conto), de Raul Brandão



A Morte

Oh eu já não sei bem, pobre de mim, o que e realidade e o que é sonho. Por vezes me parece que o próprio Hospital se põe a falar pela sua boca de pedra.

Em noites de luar, quando tudo para lá se envolve em álgido luar, ei-lo que enternecido conta sonhos rotos e tristes, o sonho dos pobres, dos cegos das estradas, coisas humildes e no entanto vivas, como os fiozinhos de água, que apenas convivem com uma lapa e um farrapo de musgo, esquecidos no globo, mas que exalam uma frescura enorme...

Encontraram ontem o Astrônomo estendido na latrina. Ultimamente ia-lhe no crânio um ruído estranho. Constelações de fogo, mundos e coisas terrenas confundiam-se. Absorto, tremendo de frio dentro do casaco de alpaca, olhava o céu num êxtase. Donde tombara? Da fome ou dum sonho? Consumira-se com um tronco num lar.

Deram com ele caído na tábua molhada daquela ignóbil latrina de casa de hóspedes. Nos seus olhos, mesmo mortos, ficou luciluzindo uma poeira de espanto. Morrera surpreendendo algum mundo desconhecido ou descobrindo outro sonho tão vivo, que, de vê-lo, caíra fulminado? Em torno era o asco: as paredes com dedadas, versos obscenos e legendas prodigiosas – e entre aquela lama o Astrônomo morto era como a claridade das constelações, que luzem até no fundo das latrinas.

Um rio, dir-se-ia um rio, com coisas trágicas à tona. Só a Árvore cresce e à medida que ela cria forças a Mouca se consome. A tosse desconjunta-a. Criou-a a desgraça humana, construiu-a do lodo das ruas e da abjecção. Mas a dor vem e purifica: é como o fogo que torna um galho apodrecido, atirado ao lume, no ramo do ouro mais fulgido. Magra, alta, luziam-lhe os olhos dum brilho estranho. Riem-se os soldados, batem-lhe os ladrões e só ela não ri como outrora. Se a fazem sofrer, a Mouca chora. Um dia ao ver que batiam em Sofia diz-lhe:

– E se nós nos matássemos?

– Cala-te! cala-te!

– Sabe a menina? Eu não sei que tenho, já não me importo de viver. Perdi o amor à vida. Olhe para o meu corpo. Já não tenho senão ossos. Por que será que a gente muda? Diga-me: é p’ramor do velho que se não quer matar?

– É, está calada.

– Eu cá sou assim, que quer? Às vezes, quando não tenho com quem falar, ponho-me a falar sozinha. Antigamente não me lembravam coisas que me vêm agora à ideia. Esta vida sempre é mais negra, não é?

– É.

– Pois é, eu bem digo e mais não conheci outra. Sempre a gente nasce com cada sina! Olhe, quando eu estiver pra morrer, não me deixe ir pra o Hospital.

– Não fales...

– Por quê? Eu bem sei como estou. Dá-se-me bem! A gente tem de morrer, não é? Então quanto mais depressa melhor...

Uma noite que os ladrões espancaram Sofia, a Mouca pôs-se a olhá-la como um cão ao dono. Por fim disse-lhe:

– Vamos ambas ao rio, quer? Eu não me importo de morrer. Mais vale acabar. E a menina? Que ando eu a fazer neste mundo? Se a menina tem medo da água, eu deito-me primeiro ao rio.

– Não, deixa! não te aflijas!...

– Eu, sim! bem me importo!...

De noite muitas vezes tinha aflições, sufocada. Agarrada a Sofia:

– Oh valha-me!...

No entanto falava de curar-se, quando tornasse o sol. Por ora tudo estava transido.

– Na primavera...

– Sim, na primavera.

– Vês a Árvore, vê-la? Assim que tiver flor, é mais quentinho...

Mas veio março e depois abril e que transformação! Quase nada restava da Mouca, escárnio de ladrões e de soldados. Até a voz se lhe sumira...

Dia soturno, de névoa, cinzento e úmido. Começo da noite. Fora, na rua, lama e gritos; dentro as mulheres acendem um candeeiro fumarento. Vai morrer a Mouca.

Limpam-lhe as prostitutas o suor da agonia e pé ante pé vêm os ladrões e os soldados para o redor da enxerga vê-la acabar. Moldado pelo lençol um corpo ressequido e no silêncio da espera ouve-se só a rala aflita, o estertor, a ânsia de quem quer ainda viva e que a morte estagna – mais perto! mais perto!...

O Velho, com a boca enorme some-se no escuro e de lá os seus olhos brilham; à cabeceira Sofia ajeita-lhe as repas curtas e úmidas. O lenço está ensopado de suor de aflição.

– Ajudai-a a morrer – diz uma das mulheres.

– Está a passar?

– Chiu! baixinho...

Chegam-se mais os ladrões e os soldados e curvam-se em volta da enxerga – o Pita, o Morto, os outros. Nas feições cruéis, há espanto e terror.

– Inda fala?

– Chiu!...

Esperam. E a rala enrouquece, mais aguda, como se a morte fosse apertando – mais perto! mais perto!... A Mouca abre os olhos enormes na cara branca e imaterializada:

– Menina! menina, valha-me!...

– Estou ao pé de ti.

– Tenho frio, muito frio...

Juntam-se as caras dos ladrões e dos soldados, todos em roda – e pé ante pé também o Velho se chega para a cama. A Mouca abre os braços e dum lado o Morto, do outro Sofia, seguram-lhe as mãos.

– Aqui está uma manta – diz o Velho baixinho. E apresenta um farrapo de manta coçada.

– Chiu! já não precisa.

– É melhor deitá-la com a enxerga no chão, para acabar de penar – aconselha a patroa.

A Mouca respira aflita.

– Tenho frio... nas mãos, na cara...

Devagarinho, arrepanhando o lençol, rodeada de todos que a tinham maltratado, de todos os que se tinham rido dela, devagarinho se fina; a vida extingue-se-lhe como a última gota dum fio de água que acaba de correr. Haviam ficado em volta imóveis.

Este ato de o espírito se libertar é de tal forma grande, o início do mistério, que até o Pita olhava estarrecido. Fora disse para os ladrões:

– A morte, rapazes, ensina. Não há lição mais formidável. É doloroso e no entanto pacifica. Ver morrer, enche de grandes ideais, filhos!...

A Mouca (Conto), de Raul Brandão



A Mouca

Noite de chuva, desta chuva miúda que enlameia e entristece como uma angústia. Na rua Sofia passa com o xale de rasto. Há um clarão de tochas à porta. Vai sair um enterro. Morreu o pequeno do gato-pingado. Trouxe-a para casa uma noite, a essa criança que encontrou caída na rua. Um rapaz de dez anos, abandonado e com uma pneumonia... Que lhe queria o gato-pingado fazer, não me dirão?...

Estava a chorar. Deu-lhe para chorar sobre o caixão dum garoto, que não lhe é nada. Ele que não tem onde cair morto, chora o pão que tiraria à própria boca para dar a outro.

Morreu-lhe ontem. É decerto um gato-pingado a menos.

Primeiros farrapos da noite a esvoaçar, dessa noite de primavera negra, em que todos se põem a contar baixinho os seus sonhos à escuridão.

– Deitam flor à noite... – diz o Astrônomo.

A treva entope os buracos das ruelas. As tochas têm debaixo da chuva sinistros clarões de incêndio. Vai uma balbúrdia na rua e o redemoinho da noite traga o bairro acastelado. Eis o enterro. Vão mulheres perdidas e uma velha a tossir, vai o Astrônomo, e na frente dum caixão de passarito, comboiando a turba, lá marcha o gato-pingado, de brandão em punho, chapéu alto e casaca a esvoaçar... A que irão eles deitar fogo na noite trágica, de lama e chuva? Mulheres perdidas, ralé, o velho tísico...

Todos os dias desaparece alguma das mulheres levada para o Hospital. Mas cantam, cantam sempre. Sofia sorri resignada. Na vida que lhe resta?

O Gebo a sustentar.

Todas as manhãs sobe à mansarda onde o velho dorme, levando-lhe pão, que ele mastiga com um nó na garganta. Olha-a com lágrimas e só diz:

– Filha!

Dizem-me: a que recanto espantoso vai a natureza buscar esta ígnea bondade? A que esconderijo, a que veio oculto? De que força é que se constrói, de que química é que se forma a bondade profunda, inabalável, inextinguível, que sustenta e ampara os pobres?...

As prostitutas, que dantes odiavam Sofia, chamam-lhe agora menina, depois que a vêem sua igual. Repartem com ela o pão que ganham, e ao vê-la caída, chorando, ficam aflitas, porque não sabem consolá-la.

– Mais lhe valia deitar-se a afogar – diz uma.

– Isto aqui é uma vida de cão.

– Olhai que ter fome!... Sempre a fome é negra – conclui outra.

Só a Mouca a odeia. Ela que foi sempre a mais maltratada, maltrata agora. Se pudesse, pisá-la-ia aos pés. Ela, de quem todos se riam com escárnio, cuspida pelos soldados, quer fazer sofrer. Não há ser mais degradado, não porque seja má, mas porque é como todas as criaturas que o homem cria para o gozo.

A princípio todas faziam sofrer Sofia. Tinham vontade de a rebaixar, de a verem chorar lágrimas de aflição para a igualarem.

– Cá temos a menina!

– Quem no diria? Não falava a ninguém a mosquinha morta! E para aprender!

– Deixai-a!

– Deixai-a o quê? Ela é como as outras.

– Deixai a pobre, que não faz senão chorar. Vocês não têm coração.

– Também a gente sofre.

Riam-se, empurravam-na para os piores tratos, mas pouco e pouco, diante daquela dor silenciosa e profunda, calaram-se. Tratavam-na por menina. Uma queria penteá-la, outra ajudá-la. Só a Mouca lhe tinha o mesmo ódio.

– Olha lá, ó parida!

– É comigo que fala?

– Faz-te tola! acaba lá com esses ares de senhora.

Já estou farta. Tu aqui és tanto como eu, sabes?

– Sei – diz Sofia.

– Tu conheces-me? Olha se me conheces, senão ensino-te quem sou. Acabou-se! embirro com isso. Pareces uma sonsinha... Tu falas?

Sofia olha-a silenciosa.

– Ah, tu não falas? Olhas pra mim com cara de escárnio? Não quero que olhes pra mim, não quero, ouviste? Ai, não falas? Toma!

E deu-lhe uma bofetada.

– E agora? agora? Quiseste, aí tens. Toma. Tu aqui és uma desgraçada como eu. Aqui não há meninas. E agora? agora? pensas que és mais do que as outras?

– Sou mais desgraçada.

E pôs-se a soluçar.

Mas de súbito a Mouca gritou:

– Perdão! perdoe-me, menina! Eu era por inveja. Saiba: não a podia ver por inveja. Fui sempre assim, Não me fique com raiva. Eu dizia cá comigo: Então os outros têm mãe e eu nunca a tive? Os outros são infelizes um dia, mas eu fui infeliz desde que nasci. Criaram-me os ladrões, já deve ter ouvido. Tenho sido muito má pra a menina, peço-lhe que me perdoe. Era por inveja. Peço-lhe que se ria pra mim, para me mostrar que não está zangada comigo. É boa! eu dizia cá por dentro: hei de pô-la tão rasa como eu. Que é ela mais do que eu? Sabe por que lhe tinha esta osga? Por ver que a menina era infeliz e boa pra todos. Eu sou assim, sou como um cão.

Peço-lhe uma coisa... Bata-me, para eu acreditar que é minha amiga.

O que é a vida? (Conto), de Raul Brandão



O que é a vida?

O Gabiru não entende a vida. Acha-se de repente num pélago refervendo ouro. Descobre torrentes impetuosas de ódio, torrentes de escárnio, a Árvore, as estrelas, um eterno redemoinho, gritos, levadas de sonho. Para onde? para onde corre tudo isto? A Morte ao lado duma árvore cheia de flor. Um caos. Treva e sol, ouro em borbotões, e o homem indiferente... Ao dar de cara com a existência, ao ver-se escarnecido, o Gabiru grita. Pois passa o inverno e a tempestade, vem a primavera e o sol, e o homem nem sequer os olhos ergue? Sob os seus pés a terra move-se, num burburinho, toda ela viva; sobre a sua cabeça a abóbada do céu arqueja, carregadinha de estrelas – e o homem queda-se inconsciente? Há o escárnio, a desgraça, pedras, constelações e o mar profundo e o homem continua impassível.

O que é isto? o que é a vida? o que é este mistério onde o homem entra como a salamandra no fogo? Pode alguém de repente dar com uma árvore cobrindo-se de flor, sem ficar espavorido? No mais desprezível charco se espelha o sol e tumultua a matéria em combinações infinitas – e o homem segue o seu trilho inconsciente!...

Todos os desgraçados se reúnem no saguão para o interrogarem – os ladrões, os pobres e as mulheres da viela. O que é a Vida? o que é a Vida? Uma alma, um sonho? A vida tem realidade? O que pratico sobre a terra é indiferente ou vai repercutir-se algures? Isto é lodo ou fogo, aparência ou temerosa realidade? E o escárnio e a água a nascer fulgindo de entre a terra, a dor, o amor, a nuvem que passa, o vento? Tudo isto é um turbilhão de almas e de pedras, de árvores e de sonho, sem fito, ou esta levada esplêndida caminha para um fim ignorado de beleza? Ideio numa cova, num sepulcro fechado, ou vivo a verdadeira existência?

E os pobres? por que é que os pobres sofrem sem gritos, revolvidos como a terra por este arado – a dor? Só vêm a este mundo para sofrer?

O Gabiru via-os cheios de resignação seguirem o caminho da vida, cada um com sua cruz, feridos nas pedras aspérrimas, sem pão, escarnecidos, tombando por terra sem poderem mais. Por quê tudo isto? Para quê sofrer?

Ele e o Astrônomo ficaram um pedaço a cismar. O que os prendia afinal à vida? em que criam? Nesse fim da tarde, chovia e aquilo era lúgubre: como que as coisas os empurravam para a morte. Na vida tudo lhes falhara e aos quarenta anos já se não constroem nuvens. Só o Astrônomo se consumia ainda em sonho: os outros, sentindo-o feliz, puxavam-no para o fundo, como os afogados aos que se querem salvar.

– Sonhar! sonhar! – pregava.

– Sonhar, deixe-se disso!...

– Que querem se eu nasci para isto? Eu só vivo na solidão, e a vida para mim é sonhar. Como hei de eu, que vivo lá em cima, pobre, com este casaco que de gasto nem sequer me aquece, compreender a existência? Dum lado estou eu misérrimo, do outro um turbilhão de astros... Quantas riquezas! Astros todos de ouro, astros de crime, plagas duma areia fina e rubra e depois largos oceanos desertos... Talvez o céu seja uma árvore sempre na primavera... Infinitos mundos, colossos mudos, que passam, e eu pobre, transido de frio, compreendo e vejo!... Depois, se desço cá pra baixo, nu, a vida parece-me triste e logo corro a refugiar-me no céu.

– Mas a natureza...

– Eu sei, eu vejo do meu quarto: havendo sol é belo: é tudo de ouro e verde. Sei que há árvores, o mar, rios, mas nunca ninguém os viu ao pé...

– Perdão! mas já muita gente... O amigo confunde!

– Na minha pobre cabeça tudo se confunde.

– Sempre sonhar, sempre sonhar! Eu por mim já estou farto de nuvens!

– E que querem que faça, se eu não sei mais nada? Nem me sei rir, nem sei falar...

Falavam do suicídio, riam do Astrônomo – um sonhador! – e no fundo todos temiam a morte e quereriam ser como ele. Morrer sem ter vivido!... O que haviam tentado realizar, esse esforço para materializarem a própria alma, que outra coisa não é criar, dera-lhes como resultado um bloco gélido e informe, talvez vivo mas um bloco. Por isso a morte os aterrava, a morte que era o nada para todos, até para o Pita então idealista. Sabiam que iam morrer sem ter vivido. A existência não era decerto como eles a haviam compreendido: alguma coisa lhes falhara. Tinham rido de tudo. Só a Morte ainda restava intacta, sem dedadas na sua roupagem negra, com todo o seu mistério e toda a sua beleza. Ela põe, até no homem que na terra representa a onipotência, o banqueiro, arrepios de alucinação e terror, quando acaso a Havas diz à Terra que um Rotschild acabou duma forma idêntica à dum pobre diabo, ou dum poeta, ou dum santo. Ela iguala, porque enfim é indiferente ir apodrecer num

palácio de mármore ou na vala comum: ela mistura pobres com ricos, heróis e cépticos, egoístas e santos, e desse oceano negro não saem nem gritos, nem bênçãos, nem palavras. É o formidável, o misterioso silêncio.

Morrer, dormir, dormir! Sonhar talvez!... – Ela impõe-se ao homem, negra e férrea: quase sempre, porém, sob o seu manto tem claridades de relâmpago.

Nada lhe escapa, e se para uns é madrasta, para outros é noiva.

Os humildes, que vêm ao mundo para gritar, aqueles para quem a vida é aziaga e que vão de rastros até essa praia onde o mar desconhecido rola as suas ondas silenciosas, vêem-no dourado, cheio de claridade, numa madrugada eterna. Apenas caídos, exangues, sem fibra que não tenha sido torcida e despedaçada, sem boca para gritar – eles sabem-no – vão erguer-se e, transfigurados, embarcar nas naus que os esperam para uma viagem de maravilhoso sonho. Para os cépticos esse mar e negro, tumultuário, de horror, como aquele oceano nunca dantes navegado, onde só monstros cresciam.

Há pobres e tristes que passam a vida a esperá-la, a sonhá-la. Os humilhados, os ofendidos, amam-na porque ela iguala, os escravos porque ela liberta, e até os incompletos, aqueles a quem não é dado nem sonhar nem amar, porque nela deve existir o Sonho e o Amor. Cada um encontra nesse pélago o que lhe falta na vida.

E falam! falam... Todos os sonhadores se põem a falar ao mesmo tempo.

– Para quê então ser homem?

– Ninguém sabe.

– Quem me dera não sentir, andar como anda a essência do tição ardido, perdida no redemoinho eterno, ora na mãe d’água, ora no fundo do mar!

– O que é a Vida?

Os pobres a um canto escutam em silêncio aquelas criaturas nascidas entre pedras e que passaram a vida agarradas a um sonho. E não dizem palavra – porque só eles sabem sofrer.

– Mas então mais vale a morte.

– Pois mais vale.

E não vêm lá no fundo as feições consumidas, os olhos fartos de chorar, as cabeças de mártires e de santos que parecem cavadas na madeira por algum escultor ignorante, mas que as impregnou para sempre duma vida estranha. Alguns são verdadeiros seres de espanto; de outros só se vêm as mãos enormes. E a certas fisionomias a luz ilumina-as e a sombra corrói-as como um ácido. São anônimos. Só eles gastos e mudos mergulham na vida raízes profundas. Os outros dizem palavras, constroem em nuvens – eles edificam. Mas todos perguntavam na mesma ânsia – o que é a Vida?...

Sei lá o que é a Vida? Todos me interrogam e eu debalde me interrogo... Nunca foi só no mundo: fios invisíveis prenderam-me sempre a todos os seres não só pela piedade, não só pela comunhão com os desgraçados, mas por outra coisa maior e mais profunda, por um sentimento de remorso, como se eu tivesse alguma responsabilidade nesta dor e na criação das figuras de desgraça... E tenho medo. Tenho ao mesmo tempo remorso e medo. Nunca entrei numa casa de prostitutas sem pavor. Afigurava-se-me sempre uma cena de outro mundo atroz – e isto é ainda o menos – de outro mundo que eu tivesse engendrado. Um crime atrai-me. O crime fascina-me como se eu participasse do crime, como se um fantasma desligado do meu próprio ser fosse cúmplice do criminoso. Não quero ver e fujo! fujo de mim mesmo!... E a primeira impressão que sinto diante da desgraça não é piedade – é irritação como se eu pudesse sustar o sofrimento e a injustiça...

O que é a vida? Fui eu porventura que tracei este caminho doloroso para que todas estas figuras me apareçam e interroguem?... Estão aqui na minha frente os vivos e os mortos – e não me largam. Somente os mortos não falam. Não é preciso... As fisionomias graves e cansadas contam-me a sua história. Basta olhar para os teus cabelos brancos para saber o que a vida fez de ti. Estas rugas são sulcos abertos pelas lágrimas. À minha roda estão todos os que me deram um bocadinho de ternura e todos os que encontrei pelo caminho fora – os mendigos das estradas, os velhos, os ladrões, as mulheres humildes e os que choram baixinho para que ninguém os ouça chorar... Até a dor desapareceu – porque até a dor acaba por ser consumida por esta coisa imensa que se chama a Vida. Mas todos, vivos e mortos, todos me fazem a mesma pergunta a que não sei responder: – o que é a Vida? – Figuras de santos e figuras de ladrões com as mãos ósseas e geladas; este velho curvado pela vida até ao chão; estes olhos turvos que não se tiram de mim: – Para quê? para quê... – e esta criança que sofre e não sabe porque sofre e cuja expressão me persegue e se obstina: – Para quê? para quê?... – estes seres nodosos como troncos e que mal sabem falar, e estes de que a vida fez espectros e que desatam em risadas descompostas diante do mistério da vida... Outras figuras estão mais perto de mim e sigo dia a dia as dedadas trágicas com que a vida as vai modelando. Sua dor é mais contida, e misturada de ternura, mas a interrogação, sem ser ansiosa, nem por isso deixa de persistir nem de ser igualmente dramática: – Para quê? para quê?... – Compreendo agora melhor o lado sério e sagrado da afeição, e fito as mãos deformadas, as mãos que eu queria beijar, com dor e espanto. Todos sofreram – todos cumpriram a vida. E nenhum sabe o que é a vida. O céu, esta bondade cega e muda, não responde, a morte não responde... Só sabemos todos que ao lado da vida – é que está a verdadeira vida. Outra vida. A consciência da vida. Debalde desviamos o olhar. Ela é que nos importa. A Vida está aqui presente – e todos nós pressentimos que a sua sensibilidade é extraordinária e que é tão delicada que por um ato nosso a podemos matar. Essa vida sofre com as nossas ações e aproxima-se ou afasta-se em gritos de desespero. Às vezes quer deter-nos, às vezes quer prevenir-nos, às vezes faz esforços enormes para se interpor entre nós e os nossos atos. Às vezes grita e não lhe ouvimos os gritos. Às vezes toca-nos, está ao nosso lado. Às vezes perdemo-la no caminho.

Creio que é essa Vida que nos sustenta. E os humildes sentem-na mais profundamente, sentem-na mais perto de si, porque vivem em maior silêncio e mais isolados, e talvez também porque essa Vida é muito grande e muito simples e se dá melhor com a humildade dos desgraçados. Mas a Vida, que é um clarão ou uma luzinha de candeia que se apaga num sopro – nem eu a conheço nem tu a conheces...

Por fim o Gabiru ficou sozinho com os pobres. Eles não sabiam explicar a vida: sentiam-na e sofriam. De pé ainda teimou:

– Foi assim... Disseram-me um dia: – Eis aqui um tesouro, cava! e eu pus-me a cavar. Dum lado e de outro acumulou-se a terra. As minhas mãos eram negras, os meus vestidos cheiravam a terra e eu cavava. A mina era profunda como um poço. O céu esquecera-o, as árvores esquecera-as. Um dia topei pedras que me pareciam luzir como ouro puro e embebido a contemplá-las esqueci-me do tempo, da terra, do mundo... Súbito, cá fora, ouvi rir. Trepei pela terra acima e achei-me com pedras negras nas mãos, cheio de terra, feio e cego como os bichos que nunca viram o sol... E tudo era belo! Tudo o que esquecera, tudo o que desprezara!... Atônito, com as pedras inúteis na mão, olhei... E assim desperdiçara a vida à procura dum tesouro que tinha ali à mão!...

Ninguém me respondeu. Só uma mulher, curvando-se-lhe sobre o ouvido:

– Eu sei o que tu tens, eu sei o que tu tens...

– Que é?

– É pena. A vida não se torna a viver. Perdeste-a. Esqueceste-te dela a sonhar... a sonhar!... Trocaste o sol, o ódio, trocaste a realidade por nuvens. E, aí! a vida não se torna a viver! A vida para ti foi como a água que passa pelas mãos duma dessas estátuas que tu vês nas fontes. Nunca cessa, igual, fresca, cheia de cintilações, e nunca também estanca a secura dessas figuras de pedra... Ai, não se torna a ter na boca o sabor a sangue e a mocidade, nem as árvores são as mesmas árvores e o riso o mesmo riso. Queria ter fome e ser moça... Perdeste-a! perdeste-a!...

– E tu?

– Eu?... Eu fui nova e todos dariam a vida por mim. Amaram-me, mas o que eles queriam era o mármore do meu corpo e a minha boca moça e viva. As rugas vieram, mirrou-se-me o colo, seco e inútil, e então arredaram-me. E dentro do meu peito ardia ainda o mesmo amor. Como pode meter-se uma nuvem dentro duma pedra ressequida? Desci à humilhação, a procurar o amor que se paga. Isto! isto!... Só então entendi que os homens nos aproveitam e usam para nos deitarem fora depois de servidas... Olha para mim... Envelheci. Há muito tempo que moro com o ódio. Diante do espelho, ao ver-me mirrada, tornei-me ainda mais seca. Escarnecida, deitei-me a odiar... Oh fazer gritar os homens que nos desfrutam, para depois se rirem... E sonhei... Eu sou inútil, o meu ódio murchará comigo, sem poder florir. Inútil, velha, caída, quem toma aí a sério o meu ódio?...

O que eu tenho sonhado!... E o que eu daria para ter uma filha!...

Saiu também. Só ficaram a um canto os pobres, gastos, com fisionomias de santos e olhos murchos de tantas lágrimas choradas e que não sabiam queixar-se, e meia dúzia de desgraçados que se puseram entontecidos a narrar, numa voz amarga – a voz da desgraça. Erguiam os braços e de cansados e sinistros acreditá-los-íeis foragidos do hospital e da guerra.

Um disse:

– Eu gosto de ver sofrer! eu quero ver sofrer!...

Como ele anda a espreitar ilusões a ver se as calca. Onde nascem flores logo as esmigalha, nada lhe sabe, nem o sol às levadas. Calca tudo e ri, tudo o que nasce, mesmo a ponta verde da erva que rompe de entre as lajes.

Um velho gasto queixa-se. Quer viver e exclama:

– Fui sempre como as toupeiras, como os bichos que, no fundo da terra, minam e cismam, minam e cismam sempre na claridade e nunca chegam a ver o sol.

– Há desgraças e dores que fazem rir – diz alguém. Outro ri, ri sempre de aflições, de catástrofes.

Procura dores para se rir e doido ei-lo a rir e a clamar:

– Calcamos terra, hein, calcamos dor... A terra está farta de sofrer.

– Queremos ter saúde e ter risos. Eu nunca me ri, eu nunca me pude rir – prega uma boca na escuridão.

O Gabiru sente-se agarrado pelo homem que vivia nas trevas e que fugira das trevas.

O olhar reluz-lhe e a sua voz, através do pano que lhe tapa a cara, parece provir dum túmulo.

– Leve-nos! mostre-nos o ouro, as árvores, os montes todos de ouro, mostre-nos a vida!

– É impossível...

– Oh não saber nunca o que é amar, viver como os outros que se podem rir – e ser só, ser diferente!... Eu vi! eu vi!... Mas não, eu não sou amigo do sol nem das árvores! Tenho a minar-me a alma uma ferida como esta... Os risos com que os outros se riem, os seus risos – e eu sem boca para rir!... Esta ferida come-me a vida – e triste vida de aflição a minha! Fui sempre doente. Até em pequeno senti a piedade agasalhar-me. Por que é que Deus faz nascer criaturas com vida e dá a outras um quinhão de negrura? Tenho frio e fome de sol, de saúde, de forças e vivo gelado, sempre gelado, e sem poder olhar nada no mundo sem sentir rancor. Tenho inveja até da terra onde nascem pedras e cardos, porque ela ao menos não sofre. Deem-me o quinhão de risos que me pertence!... Se eu te escancarasse a minha alma, tu a verias transida, negra, mirrada... Ouvi dizer – é certo? –

que até as árvores noivam... Eu apenas sei que existe a inveja, a dor e a enfermaria, onde o próprio sol requentado sabe a hospital. E nunca ninguém quis saber de mim, nunca! Que me dera beijar! ter boca para beijar! ter boca para beijar! Diz-me: há porventura pedras nojentas?

Arrancou o pano da casa e uma fisionomia de túmulo, onde os dentes surdiam pela carne dilacerada, rompeu de entre os trapos que a cobriam.

– Olha! olha pra mim!...

Saíram – e atrás de todos, não tendo dito palavra, caminharam os pobres, curvos, descalços, resignados.

Havia-os gastos pela dor; havia-os tirando o pão da boca, para o repartirem; havia-os com uma vida de lágrimas. Saíram uns atrás dos outros, sem queixas nem gritos.

Afinal todos tinham desaparecido; só na escuridão ficara uma velha prostituta. Era quase uma coisa – a podridão. Não sabia falar, nem sabia queixar-se. Tinha aparecido para dizer o quê? Que acusação tremenda contra a vida?

Chegou-se a ela o Gabiru e pôs-se a olhá-la. Depois perguntou-lhe:

– Tu que tens? tu que queres? Vai-te!...

Ela não respondeu, e ele esquecido ficou muito tempo a cismar. O que era a Vida afinal?... Pouco e pouco um clarão se fazia na sua alma... O Gabiru absorto sonhou, até que a seu lado uma voz rouca lhe disse:

– Mas então pra quê? pra que criam a gente? Eu tenho amargado a vida e nem posso gritar... E tu?

– Eu também... Mas olha: eu gosto de sofrer...

Escuta: sofrer é afinal reanimar uma labareda, um fogo que se extingue... Possuir um sonho e vê-lo calcado!...

– Eu cá fui sempre assim, andei sempre assim...

Quem se importa? Não me lembro de ter sido feliz...

Não me lembro... Sempre se riram de mim e toda a vida me bateram.

– Tu sim, pobre de ti... e amaste?

– Não me lembro. Depois de servida batiam-me. Eu fui sempre menos que nada. Quem se importa! Inda se a gente encontra o pão de cada dia... Agora sempre anda um frio!...

– Tu sim... Pobre, pobre de ti! Eu fui feliz, fui sempre feliz afinal. E batiam-te?

– Punham-me o corpo negro... E a ti?

– Puseram-me a alma negra.

– E tu?

– Eu sofria. Diz o que sofreste.

– Não me lembro.

Encostados um ao outro, para se aquecerem, cismavam, enregelados, quase cobertos pelos mesmos trapos. Noite escura, mas no sítio onde eles encolhidos sonhavam, pareciam arder faúlas, restos dum lar a apagar-se.

– Ouve, não chores... Tens frio?

– Estou gelada de frio.

– Olha: sofrer não importa, sofrer na vida, que importa? Tu imaginas que o que se sofre se perde? As lágrimas e as dores vão criar, para depois, alguma coisa de extraordinário. Do que se espezinha vem sempre a nascer. E se tu amaste e se riram de ti, alguma coisa brotou, que se não extingue e germina com as tuas lágrimas e os teus gritos. Amaste?

– Tudo perdi! tudo perdi!... Não fales! oh não fales! não me lembres!...

– Se tu amaste e sofreste nada é perdido. As tuas mãos estão geladas, mas as minhas ardem.

– Eu já não sinto o frio... Só me sinto de rastros, pequenina e perdida... Oh dói-me e tenho pena de mim. Tu para que falas? De que serve a gente lembrar-se? Para chorar? É melhor dormir, dormir sempre...

– Nada é perdido. Olha: vai-se criando com as nossas aflições e os nossos gritos uma outra terra!...

– Aonde?

– Uma terra toda alma, cria-se, para depois, quando  última dor, aos últimos gritos, se esbrasear...

– Conta! conta-me!

– Escuta: quando se traz um sonho... Sabes, um sonho?

– Um sonho?! Não me lembro!

– Um sonho é como se tivéssemos na alma um mundo maior que este. Todo em fogo... Quando se traz um sonho e se sofre, mais ele cresce. Tanto mais puída é a matéria, mais ele arde!... Isto não se perde... Constrói-se das nossas lágrimas... É um palácio. As pedras de que é feito são os gritos... Sabes?

– Um sonho!...

– Tudo se ilumina dentro de nós. E a cada humilhação ele se torna maior. Depois que sofri, é que comecei a ver o que nunca tinha pressentido. Tudo. Sabes, as árvores, as nuvens, as estrelas? vejo-as agora transformadas, de fogo. Arde... Nunca é noite. E tanto mais sofro, mais se ateia o meu sonho.

– Não sei nada.

Ambos se perdiam, unidos, gelados, na escuridão. Por fim só a voz dele corria: ela escutava-o sufocada, unida contra a terra, rasa como a terra.

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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)