segunda-feira, 1 de julho de 2019

O vento do Levante (Conto), de Bulhão Pato



O vento do Levante

Estávamos na cidade. A vida era totalmente diversa ali: passeava-se a cavalo pelas ruas do Funchal, tomava-se o ar na praça da Constituição e à noite admiravam-se as elegantes nas pequenas reuniões de família.

Como recebem, como se esmeram em tratar os estrangeiros, as amáveis pessoas daquela terra! Que liberdade e distinção nos costumes, que franqueza e carinho na hospitalidade! No momento de lhe dizermos adeus, de a vermos desaparecer para sempre, os olhos arrasam-se de lágrimas e o coração aperta-se com bem tristes saudades!

A história que se segue, passou-se ali no inverno de 1836 a 1851.

Se tu, leitor benévolo, falares por acaso com algum dos filhos daquela ilha, ou com alguma das pessoas que lá estiveram comigo, dir-te-á que em toda ela não se encontra uma só palavra de verdade. Não acredites, que pretendem indispor-me contigo.

Eu vou contar-ta tal qual foi, simples, sentida e breve. Recordas-te ainda daquela jovem senhora inglesa que eu vi quase como se fora em sonho, no meu primeiro passeio com o teu já conhecido Sir John? Lembras-te que estava para casar-se e que se esperava a cada momento o noivo? Pois é exatamente dela e dele que vou falar-te no prologo desta autentica narração.

Era um domingo, tantos de novembro. O sol brilhava nas ondas azuis do oceano Atlântico, que se enrolavam umas sobre outras encrespadas por uma fresca viração do norte. Eu tinha acordado na melhor disposição de espírito. Assim que se abriu a janela, um raio de luz, em vez de me deslumbrar os olhos, como acontece sempre em princípio de dia aziago, penetrou lânguida e cortesmente no interior do quarto.

Saudei-o, e declarei-me inspirado. É mister que tu notes que esta declaração era fatal para o meu amigo C. de C, que contava logo em seguida a ela, com ter de ouvir uns duzentos versos octossílabos, dispostos em pelotões e que ele detestava com toda a ingenuidade da sua alma infantil.

À noite esperávamos uma reunião em casa de uma família inglesa, para onde havíamos sido convidados, por intervenção do nosso cortes Sir John. Tinha ajustado vir buscar-nos ele mesmo e com efeito à hora precisa estávamos prontos os três. O seu toilette simples, mas elegantíssimo, faria desesperar muitos desses aspirantes a dândis, que consomem por aí a vida ao espelho. Foi até nessa noite que eu descobri que era esbelto e gentil o meu amigo. É porque não estava despeitado com ele. Também era quase a primeira vez que a sua presença não vinha anunciar-me um terrível suplício.

Assim que chegamos foi apresentar-nos à pessoa que fazia as honras da casa. Era uma respeitável e aprumada lady, que devia estar tocando nos seus cinquenta e cinco.

Confesso que estive quase a perder o sangue frio, imaginando ter diante de mim alguma dessas castelãs normandas ou saxônias de que Walter Scott nos deu perfeito e acabado tipo nos seus romances.

Restabeleceram-me felizmente da súbita e desagradável impressão, o gesto afável e as maneiras distintas com que nos recebeu.

Entramos na sala. A inglesa, a adorável Miss Ofélia, estava ali. O nome fazia-me recordar de uma das mais sublimes criações do grande poeta inglês.

A sua formosura, esplêndida e provocante como era, e como o estava sobretudo nessa noite, arrebatou-me ao primeiro lance de vista. Fui cumprimentá-la. Que sedução nas palavras! Que inflexões tão agradáveis no metal argentino e fresco da voz!

Quando me levantei dali estava louco, arrebatado de amor por ela.

E pensar eu que outro homem, o mais feliz de todos os homens, me havia de roubar dentro em pouco, e para sempre, aquela mulher, era um suplício a que não podia resignar-me.

— Ali está o noivo, murmurou ao meu ouvido uma voz conhecida.

Voltei-me, e vi com efeito no limiar da porta a mais gentil figura de homem que em minha vida tenho visto. Era o jovem oficial inglês. Ninguém dizia, encarando com aquele tipo, que o céu nublado de Londres o tinha visto nascer. Os olhos negros e cintilantes, a testa recuada e espaçosa, o corpo musculoso e esbelto, denunciavam-no antes como pertencendo à raça peninsular.

Apresentaram-me a ele. Procurei, despeitadíssimo, ver se lhe encontrava alguma coisa de esquerdo, de trivial ou de feio. Foi impossível. Sir D... era um Apolo, e um gentleman ao mesmo tempo. O diálogo correu rápido, e sobre coisas indiferentes. O momento era crítico. Miss Ofélia, sentada num dos ângulos da sala, olhava para ele com aqueles olhos de odalisca que me tinham perdido a mim, nos delírios da paixão mais frenética e mais nervosa de quantas tem por aí cantado poetas e descrito romancistas!

Era mister que eu esgotasse aquele longo cálix de amargura. Tinha de os ver um ao pé do outro, e ébrios de ventura os dois.

Oh! Antony! Antony! Como nesse instante me apareceu a tua imagem, e como copiei fielmente as tuas posições favoritas! Encostei-me ao umbral de uma porta, franzi as sobrancelhas, enruguei a testa, desgrenhei os cabelos, e principiei a deitar um olhar vago e quase delirante à roda de mim.

Como acordei eu deste pesadelo horrível! É o que ainda me faz arrepiar as carnes quando me lembra. Foi uma dessas explosões de ridículo que deixam um homem suspenso entre a morte e a vida.

Sir John viu-me, chegou-se a mim, e disparou-me ao ouvido uma gargalhada diabólica, que me fez saltar como o cadáver tocado pela pilha galvânica.

— Quer matar-se? disse-me ele com uma ironia de demônio: olhe que é um trabalho inútil. Quando se tem uma organização assim, e se é acometido de uma paixão dessas, a morte não se procura no punhal ou no veneno, espera-se nos efeitos de uma inevitável congestão cerebral.

Sir John abusa do seu espírito. Há situações que se devem respeitar— respondi eu, mordendo os beiços por um impulso de furor cego.

— Deixe ver o pulso. Aflige-me deveras o seu estado; tem a voz convulsa, a respiração abafada: retire-se a tempo, que a catástrofe pode vir mais cedo do que se espera.

Sai da sala sem saber como e encontrei-me no jardim passeando a largos passos...

O ar fresco da noite foi-me pouco a pouco reabilitando; o sangue corria-me já mais sossegado pelas veias e o coração batia-me com menos violência.

O vulto de um demônio encarnado na figura de um inglês surgiu diante de mim...— Então, esta brisa perfumada e fresca, aposto que lhe há de ter feito bem? Beba um copo do Reno, e pode ser que consiga salvar-se.

— Oh! maligno espírito que prometeste imolar-me nos altares da tua ímpia ironia! deixa-me sequer ao menos em paz com o silêncio da noite e com o aroma das flores.

— E quem diz o contrário? Lembrava-lhe simplesmente o hok por ser uma bebida quase refrigerante. Agora o meu amigo pode rejeitá-la, se quiser, para continuar na sua contemplação extática.

Aquele homem exercia decerto sobre mim algum poder oculto. Eu devia detestá-lo, e creio que o detestava, mas apesar de tudo era-me impossível passar sem ele. Dei-lhe o braço e deixei-me conduzir. Encontrei-me sentado a uma mesa, tendo defronte de mim um copo verde cheio daquele transparente e perfumado licor.

— Lord Byron costumava suicidar grande parte das suas paixões com vinho do Reno. O meu amigo acho que está decidido a fazer o mesmo.

A este tempo ouviu-se o ritornelo de uma valsa. Levantei-me repentinamente.

— Está engajado?

— Não, mas falta-me o ar aqui. Deixe-me ir até à sala.

— É o melhor meio de abafar de todo; torne a sentar-se, encha outro copo e asseguro-lhe que daqui a meia hora está em muito melhor estado de avaliar o baile e até de admirar os encantos da minha gentil compatriota. Vê? já principia a voltar-lhe a cor; dentro em pouco está no seu perfeito estado normal.

— Meu caro, deve notar que eu não nasci em Londres.

— Que quer dizer nisso?

— Quero dizer que não descobri ainda no vinho a panaceia universal.

— É um epigrama que pretende fazer-me?! Não importa: à saúde daquele nome querido!

— De qual? perguntei eu ingenuamente.

— Eis aí como são os poetas! E quer que eu acredite neles! Pois não se lembra que mo confessou há pouco tempo, num momento de expansão intima, dizendo que se encerrava nele o único e verdadeiro afeto de toda a sua vida?

Abaixei os olhos suplicante; tinha lavrado a minha própria condenação. Podia agora tiranizar-me como quisesse; eu esperava resignado. Felizmente condoeu-se de mim.

— Vamos, se já se não lembra dele, ao de miss Ofélia, então! quem sabe? pode ser que ainda venha a apaixonar-se pelo meu amigo...

— Como? se ama outro tanto... quanto se pode, quanto se deve amar um homem daqueles.

— E o futuro?

— O futuro que tem com isto?

— Que pergunta a sua! Que tem? tudo. As mulheres variam como o vento. Daqui a um ano pode muito bem ser que eu o veja convertido no seu sweet haert. A propósito de vento: olhe como sopra impetuoso agora?

Com efeito fomos à janela, e vimos que o céu, pesado e negro, se achatava sobre o mar que arrancava de espaço a espaço uns gemidos lúgubres, anunciando próxima a tempestade.

Como aquela mulher era sedutora! Não sei se ta descrevi já, meu bom leitor — creio que o fiz, mas tão rapidamente que não a podes ter na imaginação agora.

Os olhos... eu sei? verdes ou azuis não eram, castanhos tão pouco, negros ainda menos: deviam ser tudo isto para poderem refletir tantos acidentes de luz, para maravilharem com tão esquisito fulgor.

Às vezes, e vistos decerto modo, atiravam para a cor brilhante da esmeralda, outras vezes concentravam mais a luz e pareciam escuros. Por fim eram furtar cores, legítimos. Nunca os viste assim, porque não há nem se encontram outros. Imagina-os agora num rosto oval cor de mármore de Carrara, cercados de negras e bem acentuadas sobrancelhas. Em harmonia, a boca breve e graciosamente recortada, os lábios frescos como as pétalas do cravo úmidas ainda pelo orvalho da manhã. A cabeça pequena, e perfeitamente modelada; cabelos loiros e abundantíssimos. O corpo esbelto, tendo nos movimentos graça e flexibilidade admiráveis. Pés torneados e estreitos, que no rápido voltear da dança se descobriam e com eles um fragmento de perna delicadíssimo, no lugar em que apertava a botinha de cetim branco, e que prometia.... quem sabe o que prometia?

Não vai, nem pode ir com verdade mais adiante a descrição.

Valsava-se. Eu tinha acabado de falar seguramente uma hora com o jovem oficial Sir D... É escusado dizer que a princípio foi preciso contrafazer-me muito para não lhe mostrar má cara. Passado um quarto de hora o meu despeito cedeu àquela nobre presença e aos, dotes da sua acabada educação. Falamos muito e com entusiasmo por fim. O resultado disto foi o mais singular do mundo. Fez com que visse Ofélia passar por diante de mim valsando com ele, que sentisse a sua voz murmurar-lhe o que quer que fosse de apaixonado e que ficasse sem me fazer nada disso a mínima impressão desagradável.

— Parece-me que o hok produziu o efeito que se desejava, disse Sir John batendo-me amigavelmente no ombro. Já não tem no rosto aqueles sinais de excitação febril que me davam há pouco sérios cuidados.

— A paixão morreu, meu amigo.

— E foi sepultada no último copo do Reno, não é verdade?

— Enganou-se desta vez. Evaporou-se num aprazível diálogo que tive, não há meia hora, com Sir D.

— Que me diz, homem?! Fez a mais importante descoberta que se tem feito: encontrar nas mãos de um rival bálsamo para sarar as feridas de um amor infeliz! Não se esqueça de escrever isso; pode tirar daí partido para um originalíssimo romance.

— Admira-se? não conhece um proverbio que existe entre nós?

— Bem sei, e vem a ser a base da homeopatia. Quem sabe se não é essa mais uma maravilha daquela prodigiosa escola.

Neste momento estremeceu a casa, cessou a música, e pararam repentinamente os dançantes. Um tiro de peça ribombou, dando sinal de vento de levante. O vendaval bramia fora urrando furioso por aquelas serras.

Os oficiais de marinha ingleses que estavam ali, despediram-se à pressa e saíram todos. Ofélia, transparente de susto, apertava as mãos do seu amante e não o queria deixar partir. Ele disse-lhe algumas palavras em voz baixa que pareceram sossegá-la, depois tomou o seu paletó, e quando passava por Sir John, deu-lhe a mão, e disse-lhe alguma coisa ao ouvido.

Saímos eram quatro horas da manhã.

À tarde todos os navios tinham desamparado o porto, menos a corveta, que se conservava fundeada ainda.

O temporal crescia de momento a momento, e os entendidos diziam que se ela não levantasse imediatamente, viria sem remédio despedaçar-se sobre o calhau. Pela volta das cinco foi quando principiou a largar pano.

É mister tê-los visto, para se fazer perfeita ideia de um temporal daqueles. As vagas da altura de montanhas arremessam-se umas após outras sobre o costado das rochas, arrancando um som lúgubre que deve ser semelhante ao bramido do tigre quando cai ferido nos juncais da Ásia.

Na praia, quando rebentam e se alastram sobre o calhau, soltam no momento em que refluem outra vez para o mar, um rugido dilatado a que sucede um silêncio breve, mas tétrico, enquanto se levanta a curva abóbada das outras que seguem a despedaçar-se também.

A corveta era finíssima de vela, mas levantara tarde e duvidava-se que pudesse dobrar as pontas. A noite aproximava-se e podia haver resultados fatais. Contudo a perícia dos que a comandavam dava grandes esperanças às pessoas que a estavam vendo da terra.

Sir John, ao pé de mim, no cais, seguia ansioso todas as manobras.

— Sabe que esta noite, quando se ouviu o sinal do vento, senti uma coisa que não sei explicar e eu tenho sempre medo dos meus pressentimentos.

— Dizem que não há risco de vidas, mesmo quando tivesse de vir despedaçar-se aqui.

— Bem sei, mas que quer? Ao comandante aconteceu-lhe o mesmo, e conheço poucos homens que sejam capazes de jogar tão afoitamente a sua vida.

A corveta estava a este tempo quase dobrando uma das pontas; tão depressa pudesse transpô-la ficava salva. Foi nessa ocasião que todos os olhos se volveram ansiosos para ela.

De repente Sir John deixou escapar um grito e bateu fortemente o pé. Uma violenta rajada de vento que a apanhou em sentido contrário, arremessou-a para dentro outra vez.

Toda aquela gente que podia prestar para alguma coisa, por instinto boa e valedora, estava junta na praia.

Era um espetáculo horrível, mas esplêndido ao mesmo tempo. Apenas se podiam descobrir já as velas da embarcação, que ora desaparecia, ora se levantava no dorso da onda, para tornar a sumir-se outra vez.

Com o sair da lua, o vento em vez de mudar como havia esperanças, continuava soprando mais violento e mais ponteiro ainda.

Já não tinham remédio senão tentearem-se em bordos cada vez mais e mais curtos.

Do meio daquela imensa turba que a olhava de terra, saíam de quando em quando uns gritos agudos e estridentes, que se misturavam como sinistro uivar da tempestade. Em poucos minutos a corveta estava sem mais recurso algum. Deu a popa ao vento, e avançou empavesada aproando à terra. Então fez-se um absoluto silêncio em toda aquela gente. As luzes afogueadas dos archotes cruzavam-se em diversas direções, levadas pelos homens que iam e vinham com os utensílios que podiam servir naquele apertado lance.

A embarcação estaria a vinte braças de terra. Quase que desapareceu na curva de uma onda, em seguida veio acima no costado de outra, que a teve como suspensa uns segundos e que a arremessou depois com a fúria de um gigante que desse de ombros a uma montanha.

As nuvens tinham-se separado em negras e pesadas massas; pelas fendas abertas transudavam uns raios da lua, lançando um clarão sinistro e lúgubre sobre aquela cena, que o espírito mais leviano não poderia ver sem se sentir profundamente subjugado por ela.

Passados alguns momentos, principiou a ouvir-se uma confusão de vozes que pretendiam infundir coragem nos pobres náufragos.

Eles obedeciam ainda ao mando dos oficiais. A rigorosa disciplina não se perturbou nem com a aproximação do momento supremo!

Em pouco tempo estavam quase todos salvos; o valor e a eficácia com que os de terra os socorriam prevenia tudo. A coragem sobrava naquela nobre gente. As vagas batiam com o mesmo ímpeto; o navio estava próximo a despedaçar-se totalmente. Faltava salvar-se um homem, que ajudara a todos, e que esperava para ser o último. Era o comandante. Deitou ambas as mãos â corda que estava presa a terra. Nesse momento uma vaga bateu em cheio no costado do navio e fê-lo pender todo a um lado. A corda estalou, e o mancebo desapareceu. Alguns marinheiros deitaram-se instintivamente ao mar. Todos foram vítimas com ele.

A marinha inglesa perdeu nessa noite uma linda corveta e um dos seus mais bravos oficiais. — Miss Ofélia o homem que devia ser seu marido.

No outro dia de manhã a vaga azul e serena veio depor na praia o cadáver do infeliz marinheiro. Uma larga ferida que tinha na cabeça, fazia acreditar que a sua morte fora rápida.

Um mês depois, miss Ofélia dava grandes cuidados ao médico que a tratava. Dizia-se que estava tisica. Eu sei que a vi um dia a passear no campo, e estou certo que a Santa Filomena dos bosques não deveria ter no rosto uma expressão mais sublime de dor, do que a que se derramara no semblante pálido daquela mulher.

A sua beleza, que até ali era provocadora e por assim dizer mais própria para falar aos sentidos do que ao coração, abatida e macerada pela mão do infortúnio, assemelhava-se à imagem de uma virgem mártir.

Uma noite estávamos os três, Ofélia, Sir John e eu. O inglês, que se tinha sentado ao piano, tocava uma valsa de Strauss, cujo ritornelo melancólico acordava com a voz fraca e fluente daquela mulher que me falava da sua vida passada.

Como ela amava! Que tesouros de afeto se encerravam naquele coração! Se um dia se tornariam a abrir para outro homem! Que homem tão feliz devia de ser esse! Tudo isto pensava eu, escutando as suas palavras que vinham tanto da alma, admirando a sua formosura que parecia a de um anjo descido à terra para consolar os infelizes.

Sei que ao sair dali amava-a outra vez, não com o frenesi daquela noite em que a vi no baile, mas com toda a admiração de um amor verdadeiro.

O pior de todos os rivais, meu bom leitor, é o que morreu já. Vivo, resta-nos a esperança, embora louca, de o podermos vencer; o amor próprio entra-nos a remorder por dentro, e supomo-nos superiores a ele, e julgamos produzir maior efeito na mulher; deste modo resta-nos a luta ao menos, de outro não há suplício que se lhe igual, nem desespero que se lhe aproxime.

Imagina que estás ao pé de uma mulher que amas, que essa mulher amou antes de ti outro homem, que esse amor não terminou senão com a morte dele!... a cada palavra de afeto que ela te diga, vê-lo-ás surgir diante de ti, o maldito defunto! e repetir-te ao ouvido, com voz solene, as mesmas frases que te seduzem, que te enlouquecem, mas que já o seduziram também noutro tempo a ele.

Então vem-te de súbito a tremenda ideia que se essa entidade fantástica para ti se convertesse de repente numa entidade real para ela, vê-la-ias cair-lhe aos pés arrebatada, esquecer-te, e dizer-lhe: Sou tua outra vez!

Depois, o respeito que inspira um túmulo: as virtudes, os dotes físicos e morais que se exageram no morto!... Há momentos em que o teu anjo mau te inspira a sacrílega ideia de lhe maldizeres a alma e te impele a ires revolver-lhe as cinzas. Achas-te então abatido a teus próprios olhos: encontras-te a braços com as misérias das paixões vis, e foges horrorizado de ti mesmo. Se um acidente qualquer vem entristecê-la, são saudades dele. Se um dia espontaneamente te protesta que amor assim não o sentira nunca por outrem, que duvida pungente te dilacerai... Se vivesse, podias esmagá-lo com a tua felicidade; o orgulho da vitória indenizava-te do passado; assim diz-te amargamente a consciência que venceste porque estavas só no campo. Oh! que martírio é esse, nem sequer ao menos nos resta o acre prazer do ódio. Quem se atreve a ir gravar palavras de maldição sobre a pedra rasa de uma sepultura?!

Eu amava Ofélia, e mais infeliz ainda que na hipótese que acima aventurei, ela nem sequer se lembrava de mim.

Imagina os dias, as horas de incríveis torturas que passei. Uma tarde, em que estávamos os dois no jardim, atrevi-me a dizer-lho. Confessei-lhe que não pretendia ouvir dos seus lábios um protesto de amor, sabia que era impossível isso, mas queria, no momento de me separar dela para sempre, revelar-lhe francamente o que sentia.

Ofélia escutou sem se admirar as minhas palavras, e disse-me depois com um sorriso de adorável melancolia:

— Sabia-o já; sabia-o, e tinha pena, porque eu não posso amar mais ninguém neste mundo.

Recolhi religiosamente no coração aquelas palavras: ela estreitou-me a mão e dissemo-nos adeus, certos de que nunca mais nos tornaríamos a ver. Ofélia partia no dia seguinte para o campo; aconselhava-lho o seu médico, porque estava gravemente enferma. Eu sabia que depois disto não poderia encontrá-la mais.

Passaram dois meses. No dia 6 de março o paquete que vinha do Rio de Janeiro, e que devia conduzir-nos para Lisboa, estava fundeado na bania eram sete da manhã, e, com aquela exatidão inglesa, anunciou que levantava ferro em sendo meia-noite.

Isto, meu caro leitor, de deixarmos uma terra onde já o coração se aninhou, é das coisas menos agradáveis que nos podem acontecer neste mundo.

Sete meses que se vivem num país daqueles, onde além de grande civilização nos costumes, se encontra um carinho, uma hospitalidade tal no centro de certas famílias, que quase nos suprem os desvelos da nossa, não esquecem nunca. Para mim a lembrança de certas pessoas, que ali me receberam, não se me há de desvanecer do coração, por mais que viva.

Daqui, do meio desta grande cidade, onde tudo c oco e banal, onde apenas se encontra um ou outro que, escapando à febre furiosa das paixões e ambições políticas, nos aperte sinceramente a mão, envio eu a esses com quem aí lidei tão estreitas relações de amizade, em bem sentido adeus.

Às sete da manhã chegou o vapor, à meia-noite devíamos estar prontos e todos a bordo já.

Não fazia vento e os gemidos abafados que o mar arrancava de espaço a espaço, pareciam o respirar opresso da natureza. A mim faltava-me o ar; algumas horas apenas e nem ao menos tornaria a avistar mais o horizonte que encobria aquela mulher.

Sir John estava no meu quarto: confessei-lhe tudo; disse-lhe que queria vê-la ainda uma vez, tínhamos tempo, mas era mister que ele me acompanhasse.

O inglês olhou para mim, com singular sorriso; depois disse-me:

— É uma loucura, vai fazer-lhe pior.

— Não importa, quero.

— Mas eu é que não posso acompanhá-lo.

— Por quê? perguntei eu admirado. — Um dia lho direi.

Calei-me, fiquei como se uma mão poderosa me tivesse derribado.

Pouco depois de meia-noite o vapor acendeu os seus dois globos corados, e avançou direito pela bania. Eu estava encostado à amurada do navio e sentia ainda nos ouvidos o eco daqueles adeuses que me haviam sido proferidos entre as lágrimas da despedida.

O vapor dobrou os cabos, a cidade desapareceu e eu dei de frente com a ossada escalvada e negra das rochas. Desci para o meu camarote e dormi um sono pesado e sem sonhos até às sete do dia seguinte.

Quando me levantei já Sir John passeava na tolda.

— Por São Jorge! exclamou ele assim que me viu, o meu amigo vem pálido como um cadáver: aqui tem, saúde a majestade do pleno oceano.

Não lhe respondi uma palavra: fui-me até à popa, e pus-me a olhar para a Madeira que apenas se distinguia como uma nuvem no horizonte.

O norte fresco sublevava as ondas azuis-ferretes iluminadas por um sol vivíssimo. Com efeito, aquela vista, aquela atmosfera, arrancavam-me do meu horrível pesadelo.

O navio estava atochado de ingleses e brasileiros. São as duas raças mais opostas que ha. Uns brutalmente circunspetos, gastando três palavras e meia por dia, mesmo com os seus particulares amigos. Os outros sempre com um sorriso estereotipado nos lábios, dirigindo todas aquelas pieguices açucaradas que produzem ânsias gástricas. A calça do brasileiro é fabulosamente larga, a do inglês excessivamente estreita. A voz do primeiro em falsete, e com uns requebros que se assemelham aos do lundum chorado: a do segundo um grunhido que mais se articula do que se pronuncia e áspero como o seu caráter soberbo. Um enfim quase preto, e outro deslavadamente branco. Quando estes dois tipos se encontravam no tombadilho, ninguém imagina o delicioso contraste que faziam.

Entre os ingleses havia um que me surpreendeu logo à mesa do almoço. Foi Sir John quem me disse que era seu compatriota e que embarcara conosco na Madeira. Eu primeiro tomei-o por um desses minhotos que vão descalços para o Brasil e que voltam dentro de poucos anos senhores de um milhão de cruzados.

Era a mais extravagante figura de homem que se pode imaginar. Inglês até aos ombros, isto é, cara vermelha como uma malagueta e pescoço entaipado numa disforme gravata branca: o resto brasileiro legitimo; grosso cordão de oiro posto em repetidas dobras, uma espécie de quinzena de cotim de linho e calças da mesma fazenda.

O que me deu mais nos olhos foi o temível chapéu que trazia, preso de um lado por uma larga fita de linha; a cor era já assas duvidosa, as abas monstruosas e a copa tinha seguramente um côvado de altura.

— Conhece este estafermo! perguntei eu a Sir John.

— Pessoalmente não, mas sei que é de uma família nobre e que tem dez mil libras de renda por ano.

— Haverá alguma mulher que o queira, apesar disso?

— Duvida, meu caro amigo? disse-me Sir John rindo.

— Eu sei? parece-me que sim. Continuamos a passear ambos sobre o convés.

O meu amigo C. de C. tinha-se retirado para baixo padecendo já os horríveis incômodos do enjoo, e a quase todos os nossos amigos havia acontecido o mesmo. No fim de um largo silêncio disse eu para o meu companheiro:

— Ora vamos, a que se apega esse seu pertinaz cepticismo, de onde nasce essa exclusiva falta de fé nas mulheres? Na sua vida tem dois fatos já; Matilde não morreu de paixão? Ofélia não lhe vai talvez acontecer o mesmo?

O inglês parou e fez um ligeiro movimento de cabeça.

— Meu caro, Matilde tinha o peito fraco, senão talvez se tivesse salvado, enquanto a miss Ofélia pode ser que o ar do campo a restabeleça em breve.

— E restabelecida que esteja?

— Provavelmente casa e vive muito feliz com seu marido.

Sir John é um homem diabólico, não acredita nem no céu nem na terra!

— No céu ainda lhe não disse que descria, na terra há de vir tempo em que lhe aconteça pouco mais ou menos o mesmo do que a mim.

— Paramos de repente rindo a bandeiras despregadas; uma rajada de vento apanhou em cheio o homérico chapéu do célebre inglês, e arremessou com ele para o pleno oceano. O infeliz deitou-lhe um olhar saudoso quando o viu boiar nas ondas e desceu vagarosamente as escadas escutando o som da sineta que tocava para o jantar. Quando voltamos outra vez acima, vemo-lo a ele andando às corridinhas de um para outro lado e trazendo na cabeça outro chapéu tão semelhante ao primeiro que nós estivemos quase a acreditar que seria o mesmo.

No segundo dia de viagem até às quatro da tarde tinha perdido cinco chapéus; com outro da mesmíssima forma que trazia completava-se a meia dúzia.

Isto era num sábado; no domingo pela manhã devíamos avistar a terra. Nesse dia ao jantar Sir John ficou colocado diante de mim. No lugar em que estava foi obrigado a trinchar para três brasileiros, que tinha à direita e dois compatriotas que lhe ficavam à esquerda. O infeliz tendo de satisfazer às dispendiosas necessidades daqueles vigorosos estômagos, passou toda a mesa sem atravessar bocado.

Os criados tinham-se esquecido de lhe trazer a lista no princípio do jantar, à sobremesa puseram-lha defronte; Sir John agarrou dela, leu-a, e disse-me com uma expressão indefinível:

— Aqui tem, veja o meu amigo tudo quanto eu poderia ter comido!

Às onze da manhã do dia seguinte descobrimos o Cabo da Roca, às duas estávamos na bania de Cascais.

Que sensações tão diversas me agitavam nesse instante o espírito! Tornava a ver a pátria, ia abraçar dentro em pouco os meus.

Isto fazia-me estremecer de alegria, mas a imagem pálida e triste de Ofélia vinha perturbar-ma, e cerrar-me melancolicamente o coração.... Aquela mulher estava cercada para mim de uma aureola sagrada de beleza, de paixão e de dor.

Passeava agitado pelo tombadilho, e respirava a largos tragos a viração fresca do norte. Toda aquela gente tinha vindo para o convés; as muletas que traziam os pilotos da barra bordejavam diante de nós em diversas direções, e esta cidade erguia-se das águas em todo o esplendor da sua beleza.

Sir John devia de estar nesse momento ao pé de mim; pressenti-o, voltei-me e com efeito dei com ele que estava encostado à borda do navio.

Era outro homem; aquela sarcástica e irônica expressão que tinha de ordinário impressa no semblante, desaparecera totalmente. Os sobrolhos carregados, franziam-se, anuviando-lhe a fisionomia, e as rugas profundamente acentuadas da testa espaçosa, contraídas então, denunciavam-no como mergulhado em sérios pensamentos.

Foi singular a impressão que senti vendo-o assim, quis quebrar o silêncio, reteve-me um receio involuntário; decidi-me por fim.

Sir John, vamos-nos separar em breve; não será ainda tempo de me explicar a razão por que se quebraram as suas relações com Ofélia? Lembre-se que mo prometeu.

O inglês sobressaltou-se e olhou para mim abstrato; vi que não tinha entendido nada. Houve um momento em silêncio. Foi ele quem o quebrou.

— Diga-me, ama deveras aquela mulher e acredita-a casta como uma virgem e inspirada como uma santa?

— Não lho confessei já?!

O pungente e irônico sorriso que lhe havia desaparecido dos lábios, tornou-lhe a adejar por eles, mas como pronunciado e amargo desta vez!

— Tem razão! há fisionomias de anjo que não podem mentir. Nós os céticos, é que vemos através dessas encantadoras existências, as misérias das paixões humanas agitando-se em toda a sua hediondez, vemos mal! Senão, quem nuns olhos transparentes que estremecem à mínima sensação, deixaria de ver o espelho da alma nobre, cândida, apaixonada?! Nós, nós só, porque um poder maligno nos impele a isso.

Isto parecia mais que ele o dizia a si próprio do que a mim. Eu-sentia o fel que transudava de cada uma daquelas palavras, mas não me atrevia a responder.

Uma gargalhada desconchavada e estridente dada por Sir John ao pé de mim, fez-me voltar de relance; o sexto chapéu do impossível inglês tinha ido banhar-se nas águas verdes do nosso pátrio Tejo. Era com efeito o último; o desgraçado vendo que teria de desembarcar em carola, levou impetuosamente ambas as mãos à cabeça a ver se podia agarrá-lo ainda, mas não encontrou já senão as enormes orelhas, as quais azamboou com duas furiosas punhaladas. Sir John continuava a rir como um perdido, contudo conhecia-se que era mais um riso nervoso e contrafeito do que uma explosão espontânea.

Parou de repente, agarrou-me no braço e apontando para o inglês que apenas se podia tentear nas pernas, disse-me:

— Ali tem o que vai ser dentro de três meses marido de Ofélia; a partida para o campo foi no dia em que se contratou o casamento. Continue agora a acreditá-la santa, e até mártir, se quiser.

Depois disto, quem chega de uma viagem, tem mãe ainda, e sabe que o espera anelante, vai arremessar-se nos braços dela, e exclamar interiormente

— Aqui está o único amor deste mundo!


---
Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...