sábado, 24 de agosto de 2019

Eça de Queirós por Abel Botelho (Resenha)


Eça de Queirós por Abel Botelho

Não há aí quem o não conheça, com o seu agudo perfil inteligente, o seu andar ao mesmo tempo desmanchado e rítmico, a sua ampla testa arejada de gênio, o mento contumaz, o supercílio doce e profundo, no olhar zorato e inquieto uma ânsia febril de apreensão, e no doloroso franzir das pálpebras, nos vincos da longa face emaciada, no rictus de sarcasmo dos seus lábios a dolorida expressão do fantasista que o exterior avassalou, o atormentado esvoaçar da águia que se viu forçada a chatinar na lama.”

E uma das figuras primaciais da nossa mentalidade, um dos culminantes e indestrutíveis padrões da literatura e da arte. Assim como Sá de Miranda e Bernardim assimilaram e abrangeram em si a nossa época trovadoresca; assim como o gênio de Camões soberbamente encarnou o nosso período cíclico da epopeia; assim como depois Gil Vicente sintetizou e viveu na exteriorização mais popular, mais caraterística, mais humana, esse período brilhante e renovador do quinhentismo; e Castilho foi a tradição, Herculano foi um salutar lampejo medievo, e Garrett foi a galante estadeação do romantismo, — assim também o Eça apareceu aí no momento em que o liberalismo e o criticismo haviam entre nós mudado a face às coisas, e em que uma ressicadora sede de renovação agitava todas as classes, e, num unânime viroteio de vontades e desabrochar de esperanças, a mais ardida e iluminada fé ao novo ideal norteava e erguia os espíritos famintos.

Apareceu o Eça e apareceu o Antero. Este no campo abstrato; aquele sob uma forma ostensiva e concreta. Um esclarecendo os cérebros; o outro aquecendo as almas. Por isso a influência do primeiro foi mais apreensiva e mais prática, teve um mais largo âmbito de aplicação, e, para quantos se interessam pelas manifestações intelectuais, para quantos olham e abraçam com amor os grandes mestres dominadores do Verbo, a larga figura, afilada e nervosa do autor do Crime do Padre Amaro ficou perenemente lucilando, como um símbolo sobre os escombros fumegantes do passado.

Assim, a sua aparição e manifestação não foram um mero acidente morfológico, antes cientificamente representaram uma consequência e vieram corresponder a uma iniludível e real necessidade. Motivo pelo qual a sua obra monumental, depois de haver sido num dado momento, como que um estrídulo grito de clarim, um vitorioso emblema guerreiro, ficou perduravelmente constituindo para as gerações subsequentes um dogma sagrado e resplendente. O Primo Basílio é uma bíblia. Os Maias, a Relíquia são outros tantos inapagáveis versículos dessa maravilhosa pandeta, para sempre viva, ardendo no nosso espírito, e que a rudes golpes de analise abriu sulco no dolorido espanto da nossa alma.

Por isso todo o bom português ama, admira e adora esse formosíssimo, portentoso e colossal edifício literário, todo em ricos mármores, traçado em largas linhas de síntese, baldaquinado de aladas fantasias, da mais imaginosa e bela eurritmia, rigoroso e fantástico, idealista e pagão, opulento de imagens que são espelhos, de conceitos que são colunas, de conclusões que são como formidáveis cúpulas audaciosas, para sempre erguidas na ampla serenidade azul da nossa gloriosa história!

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ABEL BOTELHO
Revista Moderna, 20 de novembro de 1897.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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