sábado, 24 de agosto de 2019

Eça de Queirós e sua obra (Resenha)



Eça de Queirós e sua obra

Muitas vezes me tenho procurado explicar a razão desta espécie de febre com que a público português, o mais inteligente e o mais culto, não lê — devora, cada novo romance de Eça de Queirós. Porque nunca semelhante interesse — entre a mesma classe de leitores — despertaram os romances de Camilo, apesar do seu enorme talento e da maestria com que manejava as letras sendo de todos os escritores do século XIX o que melhor lhe conhecia os segredos e os efeitos.

E de todas as vezes tenho chegado sempre à mesma conclusão:  que o interesse que despertam os romances de Eça de Queirós, resulta do fato do seu autor ser o escritor que em Portugal, deste século, e depois do visconde Almeida Garrett, atingiu o maior grau dessa cultura literária, mundana e cosmopolita, que hoje em dia constitui a suprema aspiração do chamado — “homem moderno.”

A nossa época, é uma época eminentemente sensualista. Idealismo ninguém sabe o que seja, e ninguém ousa cultivá-lo. De quando em quando, aparecem em diferentes centros da Europa alguns espíritos que pretendem — por mero esnobismo intelectual — reagir contra esta constante preocupação de gozo raffiné, que devora a nossa época de decadência. Mas são tudo reações inúteis, porque são meramente artificiais.

O ideal do nosso português moderno e mundano, é ser como o visconde Reinaldos, oprimo Basílio, ou o Carlos da Maia; ter o ceticismo e o humour do João da Ega; atingir a cultura de Fradique Mendes; amar essas lindas flores de decadência, essas finas mulheres ligeiramente românticas, da escola de madame Bovary ou de Francillon, e que atravessam os romances de Eça de Queirós, deixando um rasto de boa perfumaria delicada e cara; e viajar como o Teodorico, com Topsius ou sem Topsius, desde as portas da Havanesa até às regiões sugestivas do Egito e de Palestina...

Como Balzac, Eça de Queirós também talhou em português uma espécie de Rastignac, símbolo do verdadeiro dândi e do apaixonado, que muda por vezes de nome, num ou noutro livro, mas conserva sempre o mesmo fundo de caráter e o mesmo cunho de personalidade. E cada homem culto, filho desta civilização que só procura avivar o espírito para o gozo materialista da existência, encontra nesse tipo desenhado por Queirós  o seu figurino, — isto é: o que ele desejaria ser, como ele desejaria pensar, e como ele ambicionaria amar...

A este atrativo puramente humano e que constitui o segredo do romance, pois toda a obra de arte não é mais do que uma concepção do mundo exterior, segundo o temperamento do artista, — há a juntar, aos livros de Queirós, essa mesma incerteza da vida moral e material, que fez escrever a Sully Prud'homme o seu livro Que sais-je?... — a mesma dúvida em que a alma moderna se debate, sem saber onde reside a suprema bem-aventurança, se no puro ceticismo, isto é, na descrença, se nas consolações idealistas duma profunda fé religiosa...

Gozo e angústia, é a quanto se resume a acanhada vida contemporânea, e que Eça de Queirós tão superiormente traduz. O autor do Primo Basílio, quando escreve, tem o condão de fazer da sua prosa de artista, um claro espelho onde se reproduz nitidamente a elite da sociedade moderna.

Não há homem mundano que nessa obra não encontre um qualquer farrapo da sua alma; nem mulher que aí não veja indicada uma das muitas lutas da sua consciência, alguma das satisfações do seu orgulho, um ou outro dos insofridos arrebatamentos do seu coração amante...

Por isso os romances de Eça de Queirós, entre o público português, são sempre esperados, não com interesse, — com voracidade!

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MARIANO PINA
Revista Moderna, 20 de novembro de 1897.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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