quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Enghelberto (Conto), de Eça de Queirós



Enghelberto

Enghelberto, senescal das Ilhas, príncipe da Escânia e Senhor de Elfingor, a quem outros também chamavam o Cavaleiro de Estanho, era, na loura e corada flor dos seus vinte e três anos, o mais duro pecador da cristandade.

Em toda a Dinamarca se contava que seu avô, o velho Ulfan, para o tornar bravio e estranho a toda a doçura, lhe dera a chupar no berço corações de ursos ainda sangrentos.

Enghelberto tivera por mãe a filha deste chefe temeroso, a duquesa Tifânia, "Tifânia soberbíssima" ou "Tifânia dos peitos altos" — pois sob estes dois nomes a celebrou, em versos latinos, Hinkmar, deão da Sé de Roskilde — a tão falada Tifânia, que em moça, vestida de couro e com um casco de ferro, comandara uma frota de piratas, estrangulara o conde Magnus, seu primeiro marido, vivera depois em apregoada e triunfal concubinagem com o abade do Mosteiro de Soroé, e por fim desposara o príncipe da Escânia, moço néscio e risonho que tinha lindos cabelos cor de ouro. Mas o pai de Enghelberto, nem Tifânia decerto o conhecia, porque andando o príncipe da Escânia e a sua hoste a guerrear com Canuto IV contra o margrave de Visgrath, ela alternadamente recebia no seu leito, aberto e tumultuoso como uma praça pagã, um cavaleiro de Aquitânia, foragido na Dinamarca, um carniceiro, cujos braços felpudos e sujos de sangue, jogando a barra na festa de Santo André, a tinham maravilhado, e o cardeal de Modena, legado do Papa.

Quando Enghelberto nasceu, todas as tochas e lâmpadas do castelo de Kolnor — assim o juraram o vílico e as aias sobre os Santos Evangelhos — se apagaram bruscamente, e as que estavam apagadas começaram, maravilhosamente, a alumiar com uma luz muito clara e muito firme. Depois, ao fim de três dias, Tifânia morreu, sem agonia, ditosa e serenamente, soltando um pequenino suspiro de entre os lábios onde errava um sorriso de virgem que dorme, cansada, depois de uma festa, e que sonha com as grinaldas, as sedas, os lumes e as cadências doces das harpas. Sobre o seu corpo envolto em brocados brancos e coberto de jasmins brancos, três bispos, os de Aahruz, de Calmar e de Elsenor, espalharam o incenso e as águas lustrais e, em panegíricos facundos, declararam que a muito alta duquesa, senhora de Elfingor, tão poderosa na Terra, seria ainda toda-poderosa no Céu, resplandecendo ao lado de Deus-Padre.

O príncipe da Escânia, antes de findar o seu luto e a sua dor, porque aquele néscio moço amava a sua terrível mulher, morreu também, de uma pústula maligna. E Enghelberto, órfão de pai e de mãe, ficou com o sombrio avô Ulfan, no castelo de Kolnor, onde foi crescendo como um prodígio, em beleza e em maldade.

Ainda pequenino, à noite, à lareira, brincando junto à grande cadeira de carvalho, onde o velho Ulfan se conservava imóvel na sua longa peliça de rato da Armênia, o filho de Tifânia furtava muito destramente os alfinetes das aias, para espetar os pés nus do frade, que sobre o seu escabelo e na sombra do capuz, lia dormentemente a História das Cem Batalhas ou os Milagres de Santo Anschere. As suas aias andavam sempre arranhadas e feridas nas faces, da violência das suas mãos, pouco maiores e mais brancas que pétalas de magnólia. Desde que pôde correr pelo castelo, o seu maior gosto, o que lhe punha nos olhos admiráveis um brilho mais contente, era chamuscar com uma tocha a cabeleira crespa dos pajens ou, de cima de uma galeria, arrojar grossos escabelos sobre os serviçais e homens de armas que atravessavam a claustra.

Uma ocasião, tanto contentamento lhe dera quebrar, com uma barra de ferro, as pernas de uma velha galguinha italiana que outrora o legado do Papa dera a Tifânia, que desde então, constantemente, procurava, pelos canis e pelos aidos, algum cachorro ou anho sem defesa que pudesse torturar. Um dia que errava fora das muralhas, avistando uma velha que caminhava lentamente à beira dos fossos, vergada sob um feixe de lenha, correu de leve, sem rumor, e atirou a triste criatura à água, que felizmente era baixa e pouca porque findava o estio e havia paz em Kolnor.

Mas quando ao domingo, na igreja, sobre o estrado senhorial, quieto ao lado do velho Ulfan, com os seus lindos cabelos de ouro todos em anéis, caídos sobre o gibão de brocado, o gorro pousado no chão e as mãos postas, ele erguia os olhos docemente para o coro onde os noviços cantavam, as mulheres, pela nave, sorriam de admiração, enlevadas como diante de um anjo. E ainda depois, pelas ruas, cismavam com aqueles olhos de um azul tão luminoso, e profundo, e translúcido, como elas nunca tinham visto, nem no mar nem no céu.

A sua inteligência era singularmente clara e destra. O velho cônego da Sé de Roskilde, que vivia em Kolnor, numa torre isolada, e lhe ensinava a História Santa, as letras, os números, as divisões do Mundo e o curso dos astros, em breve soube menos que Enghelberto, e diante da sua curiosidade pelas coisas do saber, ficava enleado, tartamudeando, até que o terrível discípulo, saltando do escabelo e rindo, lhe vinha puxar as barbas ou mascarrar a face de tinta.

Chorando, um dia, o velho clérigo veio rogar a Ulfan que lhe permitisse voltar a Soroé, rezar na sua cela as suas horas canônicas. E o rude avô, que nunca soubera sequer escrever o seu nome, galhofando e de bom grado lho consentiu, no receio de que o herdeiro das suas armas e terras viesse a estragar a vida, como um rapado e macilento clérigo, entre pergaminhos cobertos de letras. Já ele andava inquieto por ver o neto mais manso, e sem aquela turbulência, aquele desdém da dor e indiferença pelo sofrimento, que são prenúncios de uma alma esforçada e soberana.

Enghelberto aprendera a cavalgar todo o ginete, e a atirar à flecha, e a manejar o montante, e a emparar de broquel, sem que através desse contato com as armas e no brio de provar destreza e força, ele se abandonasse a outras violências, além de vergastar algum cavalariço ou quebrar os dentes com o guante a algum pajem tardio. E Ulfan, com desgosto, o vira já por vezes durante as tardes macias, passear no vergel, devagar, parando a escutar o cantar dos repuxos ou a colher uma rosa silvestre à maneira de uma donzela e como se na sua alma estivessem resvalando pensamentos de graça e de doçura.

Para o desviar então da moleza, quis que ele se entregasse à caça, que acorda e aguça o gosto da guerra — e com esse intento lhe preparou uma matilha de alões e de lebréus da Bretanha, e os melhores açores e falcões que o margrave de Holtorp pôde obter na Pomerânia e no país Russiano.

Imediatamente Enghelberto se tornou um caçador violento e insaciável. Logo de madrugada, saltava na sela, e de arco ao ombro, a aljava cheia batendo-lhe a coxa, o cutelo passado no cinturão, soltava três toques de buzina, saudando o avô, que do alto da torre, embrulhado na sua peliça de rato da Armênia, as barbas a esvoaçar no vento frio, lhe acenava com a mão cabeluda. E então, colhendo sobre o guante o falcão encarapuçado de couro, Enghelberto transpunha a galope a levadiça, e desaparecia entre o arvoredo, sobre a neve dura, no meio do uivar furioso dos alões e da grita dos monteadores, armados de machados, de redes, de rojões pontiagudos e de puas de ferro.

Só pela noite cerrada recolhia a Kolnor, todo vermelho do ar agreste e do furor da matança, rouco de gritar aos lebréus, com manchas de sangue sobre o gibão de couro, cheirando a selva e a fera.

Era sobretudo a caça bravia dos javalis e dos ursos que o deleitava. Mas nem o abater dos animais, o mergulhar do cutelo nas carnes arquejantes, recebendo sobre a face os esguichos de sangue quente, nem o rasgar das peles e o arrancar das entranhas que atirava aos lebréus, lhe calmavam a febre de matança. E ainda à ceia, contando ao avô as proezas, recomeçava os longos brados do montado, cravando a faca furiosamente na madeira escura da mesa!

Mas depois, ao canto da lareira, cansado e adormecido sobre os coxins de couro, a face entre o ouro dos cabelos, com as longas pálpebras docemente cerradas e o buço lourejando como seda fina sobre os lábios escarlates e cheios de seiva, era tão formoso e parecia tão doce, que o velho capelão, pousando o breviário sobre os joelhos, murmurava para o velho Ulfan:

— Vede como há pouco era Nemrod, tão cru, e agora o tomaríeis por um menestrel de grã-gentileza, que passava e pediu agasalho.

Nem o capelão, porém, nem o velho Ulfan, o admiravam tanto na sua gentileza como Korlina, a aia especial que àquela hora preparava e trazia a Ulfan o vinho quente com especiarias. Era uma alemã do Holstein: viera com seu irmão — mandado pelo margrave para adestrar os falcões e fazer neles a delicada operação de lhes coser as pálpebras — e como se mostrara hábil em preparar os licores e os doces, ficara no serviço das cozinhas de Kolnor, que ainda eram rudes e de artes simples, como no tempo dos Jarls.

Muito tempo ela mostrara a Enghelberto, claramente, os seus desejos, nos vivos e lampejadores olhares com que o chamava. O moço, porém, que nenhum seio de mulher ainda roçara, desviava a face, corando ardentemente e hirto no seu orgulho. Mas uma tarde, no vergel onde Korlina apanhava ervas aromáticas, caiu sobre ela bruscamente, e, brutalmente, conheceu o amor.

Mas a trigueira moça foi apenas para ele como um copo onde se bebe à pressa e de um sorvo, e que se repele, saciada a sede. Bem depressa lhe enjoou as tranças muito negras e duras, os braços penugentos, a pele amarelada — e mesmo findou por a empurrar com mão rude, quando ela, surgindo nalgum sombrio corredor abobadado, lhe puxava a manga e o solicitava com uma humildade lasciva.

Já a esquecera, já ela se esbatera na turba vaga dos servos, quando, uma manhã de inverno e de grande neve, atravessando o pátio para o canil, a viu sob a funda porta da torre do tesouro, pendurada do pescoço de um cavalariço que ria alvarmente. Imediatamente a mandou agarrar, e ao pobre servo, e levar a uma das negras prisões do castelo, sob os ferros. À noite, quatro homens entraram no cárcere, amordaçaram Korlina e o cavalariço; ataram os dois corpos um ao outro, peito contra seio, com fortes cordas; estenderam aquele fardo miserável sobre uma padiola, e assim o levaram à luz de uma lanterna através da neve, para fora das muralhas, até ao fundo valado, para onde o atiraram sobre a neve fofa. Outra neve caiu e para sempre os cobriu...

E nesse momento, Enghelberto, diante da chaminé flamejante, passando a mão carinhosa sobre a cabeça fina de um galgo, exclamou de repente, rindo, para o capelão que lia num velho in-fólio:

— Rezai agora uma das vossas rezas por duas almas muito quentes que eu mandei arrefecer!

Do outro lado, de entre as grossas peliças em que se amodorrava, pesado de vinho quente, o velho Ulfan murmurou preguiçosamente:

— Conta a façanha...

Enghelberto encolheu os ombros leves:

— Uma bagatela, senhor, vilões punidos!...

E o velho chefe tornou a cerrar as pálpebras pesadas.

Toda a vida de Enghelberto se empregava na caça. Mas saciado já de abater ursos, lobos e javalis, completava agora aquela festa de matança com correrias pelos povoados e pelos caminhos, espalhando ruínas e dor. Os seus moços de caça formavam, pela multidão e pelo ruído das armas, um verdadeiro bando de guerra. Com eles, em galopes furiosos, ao estridor das buzinas, passava destruidoramente sobre as searas maduras, atravessava as aldeias, atropelando as crianças que brincavam à soleira das portas, ou, no pendor de uma colina, caía bruscamente sobre um rebanho que debandava em grande espanto, flechando as reses e o pastor. Depois, o sombrio bando, afogueado e ofegante, invadia alguma taberna à beira de uma estrada, esvaziava as pipas de cerveja, espancava o taberneiro e fazia um grande lume na lareira com os bancos partidos e as arcas escavacadas a machado.

Certa tarde, avistando na orla de um bosque uma récua de machos carregados e três mercadores que descansavam e comiam na sombra de um carvalho, galopou para eles, ordenou que lhe mostrassem os seus salvo-condutos. E ainda o mais velho, que tinha um longo nariz adunco e uma barba aguda de bode, rebuscava no peito, por dentro da simarra, com a mão trêmula, já Enghelberto gritava ao seu bando que o amarrassem, e aos dois outros, a três árvores, "porque aquelas eram decerto mercadorias roubadas!"

Debalde os três homens, já amarrados a troncos, juravam, com os olhos esbugalhados de terror, serem honrados mercadores de Nuremberga que iam à feira de Roskilde, com cartas e franquias do bispo de Tréveros!

Enghelberto e os seus homens, desmontados, já cortavam as cordas dos fardos, e iam espalhando pelo chão, com olhos chamejantes de cupidez e de pasmo, toda uma riqueza de estofos purpureados de Veneza, de couros lavrados de Córdova, tecidos de Gaza bordados a ouro, brocados de Arles, tapetes orientais, armas marchetadas, peliças da Frísia, pacotes de especiarias, frascos de essência de rosa, e azeite da Provença em botijas entrançadas de palha.

Então Enghelberto, vendo que os seus homens já disputavam com olhos chamejantes a posse daquelas coisas reluzentes e para eles estranhas, soltou um grande brado e ordenou que aquela rica presa fosse repartida segundo a lei da guerra, a lei antiga e venerável de Trotão, o Grande. E, divertido, entusiasmado com a bela aventura, quis que se cumprisse todo o velho cerimonial.

As buzinas soaram, como num final de batalha; os fardos, as mercadorias, foram amontoados em torno do estandarte de Kolnor, cravado no chão; e o mais velho dos homens de armas dividiu a presa em três lotes — porque o terço pertence ao chefe — e foi depondo em grandes braçadas, veludos, sedas, tapetes e couros lavrados, aos pés de Enghelberto, que se colocara sobre uma pedra, muito sério, apoiado ao seu grande arco. Depois, os restantes lotes foram divididos em catorze quinhões e repartidos pelos catorze homens, que o vilico chamava um a um, e que se agachavam, remexendo com as mãos escuras a doçura dos veludos, e soltavam gritos de gosto se lhes cabia alguma arma com lavores de prata, ou ficavam rindo alvarmente diante de algum espelho de marfim ou de um molho de finas rendas que desdobravam. E todos, depois, iam considerar o lote de Enghelberto, que supunham de coisas mais preciosas, por ser o lote do chefe.

Mas Enghelberto, para mostrar o seu desdém da presa, nem descera sobre ela os olhos — e repelindo, com a sua grossa bota de couro vermelho tauxeada de prata, os veludos, os cofres, as essências e as peças de baixela que ante ele se amontoavam, acenou com o arco e saltou sobre a sela.

Então o mais moço dos mercadores amarrados às árvores, vendo consumada e irreparável a rapina de tantos bens, não se conteve, e estrebuchando entre as cordas, com o pescoço esticado, todas as veias a estalar e grossas lágrimas nos olhos cor de azeviche, gritou furiosamente:

— Ladrões! Ladrões! Ladrões!

Imediatamente Enghelberto, erguido sobre os largos estribos, retesou o arco, com a flecha apontada ao peito do miserável.

Mas o vilico acudiu:

— Lume, meu doce senhor! Lume, que a flecha é arma nobre para o judeu maldito!...

E assim era pelo velho costume saxônio. Então Enghelberto mandou que amontoassem toda a sua parte da presa, misturada a galhos secos, em torno da árvore onde gemia o judeu amarrado, e que lhe lançassem o fogo que é devido aos carrascos do Senhor Jesus Cristo.

Em breve as chamas, o fumo denso, envolveram os urros, o estrebuchar do miserável. E os outros dois, ao lado, nem gemeram, lívidos de terror, quando Enghelberto lhes gritou, rindo:

— Vós outros, esperai pelos lobos!

E o bando cavalgou, partiu em grande algazarra...

Era a estação doce e triste em que nunca anoitece — e o Sol ia alto no ar fino, com um brilho lívido de ouro embaciado. Pelos rudes caminhos, recolhendo a Kolnor, a cavalgada trotava, ruidosa, estranha e mais cheia de cores que uma procissão de Natal. Alguns dos homens, tendo atirado sobre os ombros as largas peças de seda amarela ou vermelha que recaíam, envolvendo os cavalos, pareciam reis magos. Sobre pontas de lanças, iam arvorados como bandeiras, ricos tapetes tecidos em Babilônia ou finos véus nupciais que deixavam no ar um sulco branco; grossas mãos cabeludas agitavam ao alto molhos de plumas multicolores e espelhos que faiscavam, tocados de sol; e as risadas não cessavam em torno daqueles que, gulosamente e de um só trago, tinham esvaziado algum frasco de azeite de Arles, e vomitavam, debruçados no arção, berrando contra os judeus malditos. Os que haviam espalhado essência de rosa sobre os pelotes de pele de lontra, iam com um sorriso contínuo, no orgulho do perfume que exalavam. E todos se queixavam de que se não tivesse apalpado os judeus, para lhes tomar os bons dobrões de ouro que decerto traziam no forro das simarras. Na frente, ao lado do estandarte de Kolnor, Enghelberto, tendo dado o casco ao escudeiro, com os cabelos soltos, a linda face alta, sorria, como perdido em pensamentos suaves.

Ao chegar ao morro onde assentava o castelo de Kolnor, foi ele o primeiro que percebeu na torre de menagem e sobre o caminho de ronda, arqueiros, outros homens, que acenavam, como se houvesse grande nova. Atirou o cavalo pelo morro — e logo, ao transpor a levadiça, soube pelo sobrerrolda que o seu avô Ulfan estava morrendo.

Depois, subindo a negra escadaria de pedra, o vilico ainda lhe contou que se receberam, nessa tarde, notícias de se terem revoltado e tresmalhado a monte todos os servos de Jarna...

Quando Enghelberto, abrindo a grossa porta de carvalho chapeado, avistou o avô estendido no rude leito feito de grossas traves negras, vestido com a cogula de Cister, entre tochas acesas, teve um brado de cólera contra os dois monges e o notário, que se conservavam imóveis, junto à alta fresta do quarto abobadado.

— Como ousastes?... Vilões, vilões!... O meu doce senhor morrendo sem as suas armas, já amortalhado na trapagem de frade, entre tochas!

O mais velho dos monges balbuciou, curvado sob aquela grande cólera:

— Senhor, está morto desde a hora de prima...

Enghelberto empolgou as barbas longas do santo homem, que sacudiu furiosamente:

— Mentes! Está vivo!... Vivo e forte para te arrancar a língua, falsário! Onde é que tu viste em toda a Dinamarca, um senhor — e o senhor de Elfingor!... — morrer desarmado?

Com os guantes de caça que arrancara das mãos, apagou violentamente as altas chamas amarelas das tochas. Depois, tirando de sobre o peito do avô o crucifixo que atirou a um dos monges, gritou aos escudeiros apavorados que revestissem o seu senhor com todas as suas armas negras, sem sobreveste, como em dia de batalha.

E enquanto os escudeiros se apressavam, empurrou o vilico para o fundo da janela onde o sol ainda batia:

— Que me contavas há pouco de servos e de revoltas em Jarna?

O vilico, muito pálido, apenas sabia, por mensageiros chegados nessa tarde, que os servos se haviam levantado, matando o regente, por se terem dado vinte das suas mulheres e dez crianças, com cem carneiros e cinquenta marcos de prata, em saldo de uma dívida ao Mosteiro de Soroé... Tinham queimado vivo o regente, numa meda de palha...

Enghelberto sorriu, tocando o buço leve:

— Lá iremos a Jarna... E também ao Mosteiro de Soroé, ver os carneiros e a prata, que decerto foram mal contados...

Voltou ao leito, arranjou sobre o corpo do avô, já armado, a espada, de modo que o forte punho pousasse bem sobre o coração, e murmurou, como no canto de morte de Lodborg:

— Era forte e feriu com a espada! Depois estendeu a mão, num grande gesto de promessa, sobre a face do velho chefe, mais temeroso na sua rigidez:

— Sossegai, meu doce senhor, que eu serei tal como vós fostes no mundo. Terras que me deixais serão alargadas e o nome que de vós me vem se acrescentará em terror. Deste negócio de Jarna, não tenhais mágoa, que a vingança cairá onde é devida. Para a grande jornada que ides empreender, não vos faltará cavalo, que eu mandarei convosco enterrar o vosso, levando no arção um saco com cem marcos. Adeus! Que a Senhora Santa Virgem vos leve por sua mão ao Walhalla, como deve a um valente senhor de Elfingor!

Lentamente dobrou o joelho, beijou a rude mão coberta de rudes pelos que pousava rigidamente sobre a espada. Depois, com um gesto seco aos monges silenciosos e encolhidos na sombra do capuz:

— Agora, sim! O senhor de Elfingor morreu! Trazei a mortalha e rezai as rezas!

Nessa noite o corpo de Ulfan, Cabeça de Ferro, foi aberto e enchido com sal, e por sobre a armadura, com que de novo o vestiram, rebrilhava uma túnica de pano de ouro, orlada de arminhos tingidos de vermelho. E assim o colocaram, depois de penteados os longos cabelos, na sua vasta cadeira de carvalho, no topo da sala de armas, com o seu escudo aos pés, e nas mãos um livro de horas coberto de pedras faiscantes. Ao lado, o bailio segurava o pendão de Elfingor — um sol negro sobre um mar de escarlate. Seis monges rezavam de joelhos nas lajes. A espaços, duas tubas de guerra ressoavam. E o notário, na sua longa garnacha negra, lia num rolo de pergaminho, numa grande voz, a resenha das batalhas que batalhara Ulfan, e os assaltos que fizera, e as fortalezas que tomara.

No entanto, desfilavam os oficiais de Kolnor, os feudatários, os arqueiros, os homens de armas, os besteiros e todos os servos, e cada um dobrava o joelho ante o chefe morto, fazia o sinal da Cruz, e tocava com os dedos nas lajes, como para se cobrir de pó. E depois iam saudar Enghelberto que de pé no outro topo da vasta sala, se conservava imóvel e hirto, com um trêmulo e alto molho, de plumas brancas no elmo, uma sobreveste de lã branca por cima da armadura, um vasto manto de almáfega branca rojando em pregas no chão e as duas mãos envoltas num véu branco e pousadas sobre os copos da alta espada, de onde pendia um laço branco.

Ao outro dia, o grande corpo de Ulfan foi embrulhado numa pele de veado e metido num sarcófago feito com as tábuas da galera em que ele comandara a sua expedição à Escânia. Aos seus pés, foi posta uma vasilha cheia de água benta do Jordão; sobre o seu peito pousaram uma relíquia santa, o osso de um dedo de

Santo Anskere, e sobre cada uma das faces, a metade de uma hóstia consagrada. Seis vassalos de Elfingor conduziram o esquife, coberto com um pano tecido de ouro, de que Enghelberto, caminhando atrás nas suas grandes roupagens brancas, segurava com as duas mãos as duas pontas franjadas. Por todo o vasto terreiro brilhavam filas de tochas — e o rumor sob o céu cinzento era grande e lúgubre, com o gemer lento das tubas o dobrar dos sinos e os uivos soltos das carpideiras.

Quando o esquife penetrou no vasto sarcófago de pedra bruta e rude como uma pia de gado o alferes da mesnada colocou sobre ele, desembainhada, a espada de batalha de Ulfan. Então o notário, tirando de dentro da garnacha negra o rolo de pergaminho, de novo disse, numa lenta e grande voz, a nobreza de Ulfan, e os seus feudos, e as suas ações, e as suas batalhas, e todos os seus feitos em cinquenta anos de errante e sangrenta glória. E a cada pausa, num coro choroso, as carpideiras gritavam:

— Tanto revolveu a terra que abriu a sua sepultura!...

Depois, selado o enorme tampo de pedra com os selos de Elfingor e rezadas grandemente as bênçãos rituais, queimados o incenso e as resinas aromáticas, cada homem de armas, cada servo das glebas, veio depor sobre o sarcófago um ramo verde de pinheiro ou de abeto.

À porta do jazigo foi escavada uma grande cova, onde se enterraram vivos o cavalo de Ulfan e o seu lebréu favorito. E para que o chefe morto, antes de subir ao Walhalla, se não sentisse solitário no seu sepulcro, toda a noite, em redor, besteiros e soldados bateram com as lanças sobre os escudos e sopraram nas tubas de guerra.

E nunca na Dinamarca houve tão grande festim funerário. Das salas juncadas de erva verde, as mesas trasbordavam para o terreiro onde besteiros e colonos se sentavam em almofadas, sob velários franjados.

Os gamos, os gordos carneiros assados, eram trazidos sobre padiolas. Cem cessar se rolavam pipos, de onde as pontas das ascumas faziam esguichar a cerveja nova — e as canecas eram esvaziadas de um trago, em honra do chefe morto. Bardos e menestréis, ferindo as harpas, cantavam as lamentações de Gudrun, o canto de morte de Lodbrog. E os homens de armas, excitados pelos cantos heroicos, arrancavam as lorigas de couro e combatiam até que os fios de sangue corressem sobre os grandes peitos nus e brancos, por entre o rude pelo ruivo.

No ar já triste da tarde, os sinos não cessavam de dobrar, lentos e lúgubres. Às grades das prisões, sob a torre, apareciam as faces escaveiradas dos prisioneiros que o cheiro das comidas atraía e que choravam de fome... E os soldados arrebatavam os arcos e flechavam os miseráveis. E quando desceu a noite, abandonando sem ruído a capela, as carpideiras seguiram os soldados para a beira dos fossos e para debaixo das árvores da horta...

Ao outro dia, toda a vassalagem se juntou na imensa sala de armas, onde Enghelberto, de pé diante da grande sede senhorial de Ulfan, esperava todo armado, com as suas armas de batalha, tendo de um lado o alferes que sustentava o pendão, e do outro o marechal da hoste, que trazia sobre uma almofada as chaves dos castelos de Kolnor, de Elfingor, de Jarna e de Lindau.

Então, pela grande porta, entrou o senescal, trazendo nas mãos, religiosamente, uma taça terrível e magnífica — um crânio humano cravejado de rubis, assentando sobre um pé de ouro, e que pertencera a Siwald, Olho de Enguia, rei da Gótia e da Jutlândia. Ajoelhando no grande silêncio, ofertou a taça a Enghelberto, que muito lentamente a ergueu nas mãos ambas, e gritou:

— Por meu avô Ulfan, pela taça de Siwald, que é a taça da memória, e perante vós todos que sois testemunhas, juro que nunca pagarei tributo! Com a espada e a lança ferirei, por amor dos meus direitos; ante os meus inimigos tornarei o meu nome terrível, e morrerei de pé e armado!

Bebeu lentamente, gravemente. Molhou as pontas dos dedos nas gotas que restavam no fundo da taça, e traçou sobre a couraça uma larga cruz. Depois, subindo ao estrado, tomou assento com força na sede senhorial, batendo com os punhos fechados, pesadamente, sobre os dois braços de carvalho lavrado, que representavam dois focinhos de lobo. E o duro fulgor do olhar, que relanceou pela vasta sala côncava, fez baixar de terror todas as faces.

Mas já os trombeteiros, correndo aos balcões, atiravam para o terreiro uns sons festivos e roucos. Os sinos repicavam com estridor. O sol negro do pendão, agitado, movia os seus raios negros sobre o elmo de Enghelberto; a seus pés jaziam as grossas chaves dos castelos; para a abóbada subiam rolos de fumo dos turíbulos que dois capelães acéfalos balouçavam, saltando sobre as pontas das sandálias. E a um gesto arrebatado do marechal da hoste, todos bradaram, com as espadas e lanças faiscando no ar:

— Preito a Enghelberto, príncipe da Escânia! Preito a Enghelberto, senhor de Elfingor! Preito a Enghelberto, duque de Jama!

A imensa aclamação rolou, fazendo tremer as lanças nas hastarias, e ainda no terreiro ressoou mais alta, mais forte, repetida pela vilanagem que se apinhava até às barbacãs, agitando ramos verdes. Excitados, repuxando as correntes de ferro, os lebréus e os mastins latiam furiosamente.

Logo nessa madrugada, Enghelberto fez soar o alarme, e com dez lanças e cem arqueiros, correu sobre Jarna.

Os servos revoltados, armados de chuços e de foices, apenas cobertos de peles rotas de carneiro, erravam num bando, já desordenado e incerto, pelas matas que limitavam a terra senhorial. Uma tarde, desceram para a beira de uma lagoa que altas dunas dominavam.

Aí os colheu Enghelberto e sobre eles correu com os seus pesados homens vestidos de ferro e os mastins ferozes, como numa alegre caçada.

As armaduras, os penachos, os pendões, o estridor das buzinas, deslumbraram e aterraram aquela horda miserável, e em breve, junto à lagoa cinzenta, sob o céu baixo e triste, não houve mais que um montão de cadáveres a que os cães lambiam o sangue, e uma fila de cativos, amarrados com grossas cordas, que os homens de armas iam empurrando a picadas de lança para as muralhas de Jarna.

Enghelberto resplandecia, no gosto e na glória da sangrenta façanha, e ainda por vezes, durante a marcha pelo vale sombrio, estacava o corcel e despedia uma flecha sobre o bando dos cativos, rindo do grito agoniado que se erguia, dos dorsos que se encolhiam de terror. Dois dos miseráveis, feridos, sem poder andar, foram amarrados pelos pulsos aos arções de dois cavaleiros e arrastados.

Depois, transpostas as enormes muralhas do imenso castelo de Jarna, logo no terreiro, sem descavalgar e sem atender ao vilico que o saudava e lhe oferecia as chaves da torre, intimou os servos cativos, sob pena de serem todos esquartejados, a que lhe apontassem o chefe que os incitara e os levara para o monte. Um homem de grandes membros, mais louro que o milho e de ar simples e doce, logo se adiantou, batendo no peito.

Então Enghelberto, rindo, ordenou que o coroassem chefe e rei de rebeldes, com um aro de ferro em brasa. Depois — que o esfolassem!

E com um grande gesto de desdém, consentiu que aos outros cativos apenas se decepasse uma orelha e o nariz.

Então, desmontando, bateu com o guante de ferro na face do vilico que esperava, lívido e trêmulo, e bradou:

— Vilão falso, que assim deixas tresmalhar as reses do teu amo! Limpa a face, besta feia! E de beber, de beber depressa, da boa cerveja nova, que a poeira foi grande!

Cedo, ao outro dia, Enghelberto saiu do castelo, montado numa mula branca, sem cota nem elmo, levando apenas uma lança de monte, e seguido de três escudeiros e de três mastins. Assim percorreu todas as suas terras, a seis léguas em torno de Jarna.

Adiante, marchava o verdugo, um machado na mão, um grande saco de couro a tiracolo. E ao passarem pelos servos que trabalhavam nos campos, por diante dos casebres dos colonos ou pelo meio dos povoados, o verdugo parava, tirava do saco pedaços de carne morta e arremessava-os para as portas e às faces dos homens ajoelhados, gritando:

— Aviso! Aviso! Orelhas e narizes de servos de Jarna!

Desde este feito, Enghelberto habitou o castelo de Jarna, que pela vastidão, a espessura das torres, as rochas sobre que se erguia e a sombria riqueza das velhas salas, melhor condizia com o seu orgulho, o seu gosto de luxo e o risco das bravas empresas — e o grande nome do duque de Jarna começou a ressoar temerosamente por sobre a Dinamarca, que, pela fraqueza do rei Elrico, o Cordeiro, e pela feroz turbulência dos condes e dos senhores, e pela imensa relaxação dos seus bispos que viviam de mortandade e de roubo, se tornara como uma terra bravia, sem lei humana, sem lei divina, e tão talada, tão esfaimada, tão revolta, que nela era melhor ser lobo do que ser homem!

Como é grande em ramagens um abeto entre tojos rasteiros, assim entre os maus barões era grande em maldade o duque de Jarna.

Não havia em toda a Jutlândia castelos mais fortes em fossos, muralhas, torres, trens e engenhos de guerra do que os castelos de Jarna, de Kolnor e de Elfingor. Dentro de cada um deles, na grossa torre da alcáçova, as paredes desapareciam sob os grossos molhos de armas, e as arcas estalavam ao peso do dinheiro em ouro e em prata. E atraídos pela sua fama sonora, pelos largos soldos que dava, pela esperança das ricas tomadas e pela violência das empresas, toda a sorte de homens bravios, aventureiros, bastardos pobres, vassalos, rebeldes, freires excomungados, bandidos e foragidos, corriam da Escandinávia, da profunda Germânia e até da Aquitânia e da Ibéria, para se acolherem ao seu seguro pendão e comer da sua farta caldeira.

Assim se tornou um chefe irresistível Enghelberto, senescal das Ilhas, príncipe da Escânia e senhor de Elfingor, a quem também chamavam o Cavaleiro de Estanho.

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