domingo, 15 de setembro de 2019

A Estética de Lima Barreto (Ensaio)



A Estética de Lima Barreto

Com uma atitude de franco negativismo pela exuberância da vida e de seus liames tentaculares de gozo e prazer, com estranha filosofia Lima Barreto crivou as figuras e os acontecimentos de seu tempo. Esta maneira sarcástica de transpor para o livro a sequência banal e vazia dos homens e fatos do Rio urbano e heterogêneo, no contato diuturno da rua e sua gente, aproximou Lima Barreto de Machado de Assis. Não há, porém, traço forte de união que une e prende indissoluvelmente os dois extraordinários mulatos. Em Machado de Assis a deficiência de imaginação criadora ficou inferiorizada pela magnificência acadêmica do estilo soberano e casto. Machado metamorfoseou-se em inúmeros personagens para poder dar movimentação às cenas e às figuras, num esforço vão e infrutífero, pois os fatos lhe são muito mais do espírito do que qualquer manifestação objetiva. Lima Barreto, propositadamente negligente ou então intuitivamente despreocupado na maneira de escrever, possuía maior imaginação e um dom singular de movimentar o assunto tratado, impregnando-lhe de ação cinemática mais intensa do que qualquer obra machadiana. Poder-se-ia alegar que Machado de Assis era analista meticuloso enquanto Lima Barreto se preocupava mais com os problemas pessoais ligados ao realismo das coisas e dos fatos. Na verdade é esta predileção que torna seus tipos mais humanos, mais reais, mais cheios de virtudes e defeitos e por isso mais naturais e mais vividos.

Lendo Lima o leitor tem aquela reminiscência saudosa de que já viu seus personagens ou já falou a muitos deles. Encontra-se o ambiente costumeiro das várias profissões, intrincadas no seu viver, porém intensamente naturais, em que o contato nos demonstra o lado íntimo de cada existência, afogada no acervo da mediocridade habitual e na miséria grotesca dos tipos mesquinhos em mistura com esta figura singular do filósofo meão das ruas suburbanas, cosmopolitas, com aspecto de bazar movimentado.

É a vida na gama de suas modalidades.

Que reação psicológica poderia despertar tal ambiente no escritor? Reação negativa que o obrigasse a reclusão voluntária? Não; a atração que a vida das ruas despertava no romancista era consequência de uma predisposição natural e depois excitada pela dipsomania. Este vício poucas vezes lhe deixou tempo de completa lucidez. Procurava escrever nos intervalos de sanidade mental. Seria, pois, delicada exceção se seus livros fossem modelo de perfeita técnica e estilística. Não quis e nem desejou respigar erros. Nunca teve pretensão de purista. A arte era-lhe propensão inata; escrevia para obedecer à sensação de ironia com que a existência lhe aguçava os dias. Era uma evasão ao tumulto diário. Deixou Lima Barreto, naturalmente, pelo feitio da vida gasta entre orgias noturnas e as mesas dos jornais, uma auréola de fantasia e lenda, multiplicada com o correr dos anos, que é o maior obstáculo à divulgação de suas obras. Contenta-se com a galhofa porventura vivida do estranho romancista e quase não se dá o real valor ao que escreveu. Aliás, assim também aconteceu a Emílio de Meneses. Quem há que não conheça uma de suas inúmeras pilhérias? E quem há que diga de cor um nome de alguns de seus magníficos sonetos?

A crítica também corroborou para esta posição difícil de Lima Barreto no conceito das gerações que o sucederam, quando o identificaram como o mais próximo irmão de Machado de Assis. O autor de "Brás Cubas" é na literatura brasileira um ponto perigosíssimo para quem deseja atingir-lhe a altura. Todos os escritores que intencionaram aproximar-se de Machado de Assis sofreram estranha inibição mental. Não foram além de uma obra que imita desgraciosamente o mestre famoso. Nem todos, porém, desejaram fazê-lo e se não fosse o grito uníssono da crítica, passariam ignorando tão nobre filiação. Lima Barreto, apesar de certas semelhanças, não procurou seguir o mesmo caminho do criador de "Capitu".

Não vejo razões para classificá-lo apressadamente como discípulo de Machado. Há, naturalmente, um aspecto comum a ambos, mas que não justifica a inclusão na galeria laboriosa e difícil de aluno do gago preeminente. O ponto remoto em que ambos se confundem é mais de contacto social do que propriamente artístico. Pobres os dois e de nascimento obscuro, mulatos ambos e de origem suburbana, do meio proletário e esconso projetando-se para o bulício febril da cidade tentadora; doentes psíquicos terminando a vida em dolorosa desagregação física, ambos talentosos criadores do romance psicológico. Machado de Assis é o humorista aristocrático, que ri interiormente, comedido, prefigurando os indivíduos numa atmosfera essencialmente cerebral, cujo ridículo assusta o romancista e seus personagens, enquanto o riso de Lima Barreto é franco, jocoso, democrático, espontâneo, que nasce na rua e morre na rua. Não tem medo do ridículo e até mesmo o provoca como desafio aos hábitos e costumes É esta a gaze que ele coloca nos olhos para o disfarce de uma alma dolorida. Aliás, a imaginação criadora serviu-lhe para retocar e dar brilho aos indivíduos observados, para caracterizá-los acentuadamente no lugar comum, na intenção real de caricaturá-los, sem com isso prejudicar-lhes os contornos. Esta feição jocosa do autor de "Isaías Caminha" é inata e constitui vezo pessoal e predileto. Lima Barreto vinga-se dos homens e das coisas exteriorizando-os de modo penetrante e angustioso. Aumenta-lhes as fraquezas, pintando-as com cores fortes; recalca-lhes as inferioridades de caráter para diabolicamente explodir-lhas nos complexos e nas confusões, superpondo as vaidades humanas, eternas e polimorfas, ao sentimentalismo inócuo e nem sempre aceitável; submete a criatura humana ao domínio de uma força social injuriosa e mesquinha.

Tinha prazer de realizá-lo. Fazia-o com talento e divertia-se com isto. Embora em excesso, às vezes, não teve o Rio de Janeiro, em seu tempo, outro fino artista que melhor o dissesse. O romancista não pode negar a feição hereditária desta peculiaridade brasileira dos escritores nacionais: revela-se em certos momentos, um sentimentalista sincero sobrepairando em ameno e suave lirismo. Tem o escritor diante dos olhos o deslumbrante poema tropical da cidade amada, erguida, pelo destino, no altar eterno dos morros e da baía. No alto o mesmo espetáculo de vida: um céu sempre azul e às noites as estrelas do poeta miraculoso que convidam à confidência. É um momento de contemplação; é um instante em que o homem agradece a Deus a onipotência da natureza subjugando-o no aconchego da terra mãe, amorosa e fértil; é um desejo de vida! A paisagem domina inteiramente o indivíduo. Cedem-se os nervos ao império dos elementos. O romancista não nega que ama a alegria de viver. Ele adora a cidade e dela não se pode afastar. O amor por ela é a fonte que o inspira a romanceá-la. Vive por ela e por ela deseja morrer. Nos momentos em que o objetivismo da natureza domina o interior do homem predestinado ao infortúnio, esboça-lhe o sorriso menos jocoso, porém mais amargo, desaparece o sarcástico para surgir o ironista que, talvez, se dissolva numa lágrima humaníssima, rolando pelos olhos edemaciados e indecisos.

Não ri à Voltaire, mas sorri à Thackeray.

Renasce da abstração fugaz o homem das orgias noturnas; volta a predominar o gume da vida falaz, pois assim tem ele vivido. Não se nega que tenha sido culpado. As razões de um vício vão muito além de quaisquer indagações pessoais. Remontam ao primitivismo de uma consciência de onde nem sempre os combates vêm à tona. Por isso se lhe dão respingos de lenda e fantasia. Há um predeterminismo orgânico que o meio favorece ou repele; soma-se a isto o caráter e eis uma equação biossocial desencadeando a tempestade. No caso de Lima tudo corroborou para o naufrágio físico do escritor; sem posição social definida, pois negava valor a tais coisas, absorvido pelo álcool, mal visto pela sociedade de falsos burgueses medíocres, compreendendo que a cor ainda mais o afastava dos homens, mergulha-se irremediavelmente no país das alucinações, onde os lampejos da sanidade são milagrosamente aproveitados em páginas que não seriam revistas, sem com isto, no entanto, desmerecer o valor da obra. Não quis e não pôde fazer trabalho de ourives; se o fizesse, se escrevesse como Machado de Assis, "com medo de Castilho", seria um dos mais perfeitos estilistas do romance nacional.

Vive ainda naquilo que deixou; a forma estética não desaparece porque o ritmo da vida romanceada pelo escritor é o mesmo, apenas mais sufocado pela civilização que hoje sobe os morros lavados e super-povoados da cidade que transpõe os limites da baía lendária. Voltasse o romancista e as emoções estéticas seriam para ele as mesmas. Nada modificou daquilo que viu nas almas de seus habitantes. As dificuldades sopesam os subúrbios e seus moradores já precisam ir além, pois que o ruído da avenida já lhes bate às portas. "'Isaías Caminha" não lê os telegramas pachorrentamente, mas ouve-os pelo rádio e "Policarpo Quaresma" é uma inútil resistência à sociedade que caminha sempre sufocando os incautos e imprevidentes.

E a história sempre se repete!

***

O romancista percebe o drama que se vai desenrolando nas páginas do livro como se o sentisse na vida real. É neste aspecto filosófico de não se escravizar à tortura da criação literária, mas apenas senti-la e transpô-la com a mesma intensidade emocional, que Lima Barreto atinge uma posição interessante na história do romance brasileiro. O autor não modifica ou cria uma situação; não é capaz de transviar um personagem para gáudio de uma tendência filosófica ou uma predileção individual; não falseia o ambiente para que ali possa viver o homem de seus intuitos. Os acontecimentos existem na feição natural do próprio encadeamento. Não se desvirtuam na "possibilidade" mas concretizam-se na "realidade". O clima do livro é a cópia do mesmo clima externo. Há, pela formação cultural condicionada ao estado pessoal do romancista, uma exacerbação de caracteres e consequentemente uma leve hipertrofia caricata das pessoas em suas modalidades diferentes, que não radica à estrutura orgânica da obra, mas atinge-a somente no seu feitio superficial. A crítica vê nesta especificidade criadora de Lima Barreto uma falha técnica, ou então um recurso de incapacidade construtiva. Porque o autor de "Numa e Ninfa", às vezes, nos dá impressão, em grande parte de suas obras, de um retratista, onde a magia do espetáculo é soberana em confronto com o romancista-autor. Em sua aparência literária a concepção estética dos romances de Lima é fraca, pois embora possuidor de um estilo característico para desenvolver os fatos em sua entrosagem descritiva, não quis torná-lo instrumento de feição estética, portanto de elevado valor literário, como dele se utilizaram Machado de Assis, Latino Coelho e Anatole France. Contrariou, sempre, a teoria do velho Lessing, que defende a linguagem como o elemento primordial da concepção estética.

Aliás, Lima Barreto sempre repudiou a construção apolínea da frase. Negava instintivamente ou talvez por simples atitude. Fazia parte tal gesto do complemento biológico do escritor. Não se pode estudá-lo sem que se apreenda esta constância na existência do infeliz mulato: uma vida humana negando-se à felicidade pelo instrumento da inteligência!

Nestes escritores a realidade confunde-se com a fantasia, o incriado iguala-se ao realizado pelo espírito. Há, por isso, dificuldade da crítica no julgamento destas individualidades literárias. São raros tais casos de estranha complexidade, mas existem nas civilizações imprecisas. Lima Barreto é um destes. Nem tanto quanto Machado de Assis ele se transpõe para o romance, mas quando o faz, não procura desmembrar os acontecimentos na técnica de "Brás Cubas", mas até mesmo os salienta como em "Isaías Caminha".


Enquanto Machado de Assis é o filho vitorioso da cidade e o indivíduo que assistiu ao fastígio da glória criada pelo esforço próprio, numa demonstração vigorosa do valor do homem e da realização do intelectual, Lima Barreto é o produto que sucumbiu à atmosfera que o cercava. Não teve forças para a reação que se podia esperar dele e deixa um mistério insondável na atitude que sempre tomou nos momentos mais decisivos de sua existência dolorosa e pungente. Negava sempre e às vezes sem ser necessário fazê-lo. Os estudiosos de sua produção são concordes em dizê-lo um revoltado e que só escrevia para vazar o ácido desta vingança contra a sociedade de seu tempo. Não foi um crítico insensato, apesar dos excessos da linguagem e do gume frio das observações. Caracterizou a época com acrimônia, porque não se pode deixar de ver nesta maneira de agir uma suposta auto-crítica, impulsiva e natural nos indivíduos rebeldes e inteligentes; o escritor, impotente por uma regeneração, sentia, no entanto. o prazer da recriminação voluntária, se bem que inoperante. Tinha consciência do que estava realizando, sabia que poderia ter criado obra imperecível na ideia e na forma, mas isto seria naturalmente uma negação à liberdade que ele desejava viver desordenadamente, como evidente protesto ao meio conspurcado de funcionários e jornalistas medíocres, que não o compreenderam e nem podiam perceber tal gesto num mestiço dipsômano e erradio.

Nesta caminhada não se sujeitou às doutrinas da sociedade assim como não se submeteu às normas da estética literária. O estilo era o reflexo desta vida vadia: solto, descolorido, simples, natural, humano e vivo. Não tem o ritornelo da frase na eurritmia dos sons. As cores não se cruzam para o reflexo das cenas. Tudo é água clara; não há contraponto ou acordes sinfônicos. No entanto, as criações de Lima Barreto vivem ainda. Deu-lhes o autor um sopro de realidade, porque as pintou no claro de suas alegrias e também no obscuro de suas caídas. É a vida e ninguém melhor do que ele para descrevê-la!

A linguagem é um meio de ênfase, mas não é um princípio criador, escreveu João Ribeiro. Provou-o o autor de "O triste fim de Policarpo Quaresma".

Lima Barreto aproveitou no estilo fluente o incrível poder de marcar as criações de seus livros com traços indeléveis e cicatriciais. Não há quem o leia sem ter sempre ao lado as figuras romanceadas pelo escritor. Sentimo-las reais, na rua, nas repartições e nas festas.

Onde porém elas sempre estão, na eterna filosofia do cotidiano, é no meio da multidão. Vivem aí democraticamente bem. A sociedade aceita-as compulsoriamente, porque elas constituem um estágio da mediocridade humana. Não se pode fugir à pressão do comum que nos embaraça a todo momento, na luta ingrata do espírito contra a matéria. Desta luta fugia Lima Barreto, quando embriagado, procurava entre a escória dos degenerados um pouco de ilusão. Era, porém, na composição estupenda dos romances que encontrava alegria, pois que como bem afirmou Mário Pilo "l'arte è un poderoso analgésico contro ogni male, contro ogno noia, contro ogni fasdidio."


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ORSINI CARNEIRO GIFFONI
Revista "Letras Brasileiras", novembro de 1943.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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