domingo, 15 de setembro de 2019

Joaquim Manuel de Macedo (Aspectos biográficos)


Joaquim Manuel de Macedo, aspectos biográficos

De Joaquim Manuel de Macedo Poder-se-á dizer o que Batista Pereira disse de Rui Barbosa — "que foi um mundo"... Porque, como Ruy, Macedo foi o homem dos "sete instrumentos". Foi romancista, poeta, comediógrafo, dramaturgo, membro do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, historiador, corógrafo, deputado, médico e jornalista.

Filho de Severino de Macedo Carvalho e de Dona Benigna Catarina da Conceição, Macedo nasceu num sábado, 24 de junho de 1820, no Estado do Rio de Janeiro, na vila de São João do Itaboraí, que constava, naquela época, de "uma grande praça formando um semicírculo em torno da matriz, e quatro ruas quase fronteiras uma das outras, e comunicando com a praça".

Era de altura mediana, corpo cheio, cabeça até certo ponto arrogante, barba espessa e negra, sem bigodes, lábios grossos e sensuais, olhos castanhos e vivos, testa larga — sinal evidente e exteriorizador de sua inteligência máscula — cortada meio a meio pela ruga da sensatez...

Joaquim Manuel de Macedo foi uma vocação torcida. Formado em medicina pela Faculdade do Rio de Janeiro (tese defendida em 11 de dezembro de 1844 jugulada tema "Considerações sobre a nostalgia"), pouco ou nada fez dentro da carreira, porque, desde cedo abraçou a das letras, datando daí sua vasta bagagem literária.

Abro um parêntese para narrar, a respeito, um episódio. que se dá como autêntico. Certa vez, morreu-lhe em casa uma criada, sendo necessário, para enterrá-la, um atestado médico. Distraído, o médico-poeta saiu à procura de quem lho pudesse fornecer. Encontrando se com o barão de Capanema, e, perguntado por este aonde ia, Macedo contou-lhe o que ocorria em sua casa e a atrapalhação em que se achava.

— Agora — terminou ele — o mais difícil é um médico para o atestado.

— Um médico?! — admirou-se o barão.

E sacudindo o braço do romancista>

— Aqui está um!

Macedo caiu em si e riu-se da própria distração. 

Feche-se o parêntese. Como jornalista. colaborou na "Marmota Fluminense", no "Jornal do Comércio", na "Semana Ilustrada", na "Revista do Instituto Histórico" (com uma notável memória: "Duvida sobre alguns pontos de história pátria"), na "Guanabara" e "Nação". Dos seus folhetins do "Jornal do Comércio" fez um volume, em 1861, com o título 'Os romances da semana". Os artigos da "Semana Ilustrada" foram igualmente englobados em volume, subordinados ao titulo " Mazelas da Atualidade" (1867), sob o pseudônimo de "Mínimo Severo".

Como poeta, a sua obra-prima foi "A Nebulosa", poema-romance em verso solto, dividido em seis cantos e um epílogo, escrito em 1857. "

Na comédia firmou nome com as peças "Novo Otelo", "Cincinato Quebra-louças" ( magistralmente representada por Furtado Coelho), "Torre em concurso", " Remissão dos pecados". "Abraão", "Nina" etc.

Politicamente, teve deputação provincial nas legislaturas de 1864-1868 e 1871-1881, renunciou uma pasta no gabinete de 1864 e candidatou-se a senador do Império.

No teatro dramático, estreou talvez com "O cego" (1849) e "Cobé" (1852), às quais seguiram-se "O primo da Califórnia" (imitação do francês), "O sacrifício de Isaque" (drama sacro), e peças "Luxo e Vaidade" e "Lusbela", cheias de intensa paixão.

Como historiador e corógrafo, exerceu o magistério no Colégio Pedro II, tendo chegado mesmo a escrever "Lições de História do Brasil" (1861), "Noções de corografia" (1873), "Ano Biográfico Brasileiro" (1876) e Mulheres célebres" (1878), obras que, apesar de muito criticadas "foram copiadas pelos mesmos que as censuraram"...

Fui no romance, porém, que Joaquim Manuel de Macedo atingiu o apogeu literário. Apesar de não se esmerar em forma, foi um ótimo pintor dos costumes nacionais.

Na abalizada opinião de Inocêncio F. da Silva, "Joaquim Manoel de Macedo foi um espírito esclarecido". E foi-o de fato. Em mais de uma obra sua ("Vítimas algozes" etc.), ele profligou o abuso da escravidão, cerrando fileiras com Castro Alves, Patrocínio, Raul Pompeia e outros abolicionistas.

Ele, com sua "Moreninha", e José d' Alencar, com o "Guarani", foram os precursores do Romantismo no Brasil, não se levando em conta os ensaiadores (Norberto Silva e Teixeira de Souza).

Romancista popular, muitas vezes tocava as raias do pieguismo. Contudo. foi o primus inter pares para dispor cenas... A "Moreninha", sua obra-prima. é "uma das colunas do templo imponente em que deve elevar-se um dia a sua imortalidade", pequena amostra de seu talento pujante e de sua glória futura.

De Victor Hugo: "Em toda obra do pensamento — drama, poema ou romance —entram três ingredientes: o que o autor sentiu, o que o autor observou, o que o autor adivinhou". No romance, principalmente, para que seja bom, é preciso que haja muitas coisas sentidas, muitas observadas, e que as adivinhadas derivem lógica e simplesmente, sem solução de continuidade, das coisas observadas e das coisas sentidas. Ora, aos romances de Macedo não se pode negar o mérito de terem os três "ingredientes" de Hugo, "ipso facto", por um silogismo natural e espontâneo, eles são bons, com raras e inevitáveis exceções.

De sua exuberante bagagem de romances destacam-se: "A Moreninha" (sua obra-máxima, escrita aos vinte e quatro anos, com cinco edições sucessivas (1844), "O Moço Louro" (1845, dedicado "às mui delicadas e amáveis damas brasileiras, pelo acolhimento dado a minha filha Moreninha), "Dois amores" (1848); "Rosa" (1849); "Vicentina" (1853); "O Forasteiro" (1855); "A carteira de meu tio"; Memórias do sobrinho de meu tio" (em continuação ao anterior, 1861); "Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro" (1862-1863); "O culto do Dever" (1865),"Luneta mágica", "As vítimas algozes" (1869); "As mulheres de mantilha" e "A Namoradeira" (1870), "Um noivo e duas noiva" (1871); "Os quatro pontos cardiais" (1872), "Baronesa do Amor", "O Rio do Quarto" e "Nina" (1876); etc., etc.

Joaquim Manoel de Macedo, o romancista privilegiadamente fecundo e produtivo, faleceu aos 11 de abril de 1882, numa terça-feira funesta para as letras brasileiras...
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Infelizmente. é quase geral dizer-se indiferentemente Joaquim Manuel de Macedo e Manuel Joaquim de Macedo.

Joaquim Manuel de Macedo e Manuel Joaquim de Macedo foram duas personagens distantes uma da outra. Joaquim Manuel foi o escritor fecundo, e Manuel Joaquim, exímio violinista ("o grande rabequista", como foi cognominado em vida), primo-irmão do precedente.

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DANIEL SMITH
Revista "Vamos Ler!", 30 de junho de 1938.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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