domingo, 29 de setembro de 2019

Discurso de Coelho Neto sobre Euclides da Cunha





Discurso de Coelho Neto

Estranho natal é o que vindes celebrar neste sítio! Nunca me constou que se entoassem cantos genetlíacos à beira das covas pela pauta Di Profundis, que é o hino desta mansão. Que se pode buscar nestes escaninhos de terra e pedra senão detritos? É muito forçar a imaginação pretender que vejamos vida onde tudo reflete a morte. Aqui não batem corações, nem ardem cérebros: aqui não há amores nem ódios, aspirações nem desesperos — um colmeal deserto onde não há cera nem mel, somente alvados.

Aqui não se distinguem feições, nem cores, nem maneiras porque tudo que era corpóreo está reduzido à sua substância: terra.

Entretanto eis-nos aqui reunidos para comemorar uma data natalícia com a mesma alegria deslumbrada com que os pastores se ajuntaram na caverna de Belém.

Lá havia um ser visível, apontado do céu pela estrela emissária, e aqui? estará ante nós o que buscais? Não, decerto; não está. Aos que foram ao túmulo ver o Nazareno morto disseram os que o guardavam: Ressuscitou! O mesmo vos direi eu do que pretendeis honrar neste canto de silêncio e que padeceu morte afrontosa: Surrexit on est hic!

Quando ele caiu, ferido pela mão ingrata, em cuja palma tantas vezes pusera, às ocultas, o ouro da beneficência que, em tal cadinho, se transmudou em ferro de traição, houve um espanto doloroso e as vozes da saudade deploraram o seu desaparecimento.

Logo, porém, outra voz mais alta apregoou a sua ressurreição, e essa voz foi a vossa, Mocidade, que sempre o acompanhastes forrando-lhe o caminho de flores, ungindo-lhe os pés de bálsamo, acariciando-o quando ele regressava cansado dos seus labores ou do fundo dos desertos, que eram o seu refúgio, como me escreveu do Amazonas:

"Não te direi os dias que aqui passo, a aguardar o meu deserto, o meu deserto bravio e salvador, onde pretendo entrar com os arremessos britânicos de Levingstone e a desesperança italiana de um Lara, em busca de um capítulo novo ao romance mal arranjado desta minha vida..."

Debaixo desta pedra branca jaz apenas a armadura — o guerreiro, despindo-a, alou-se espiritualizado, e vive imortal, fora do espaço e do tempo, na região pura e serena da glória.

A missão messiânica ficou nos Evangelhos, o rastro do espírito admirável, daquele que se dizia um bárbaro, aí está na sua obra.

O corpo é terra, o livro é eternidade. Aqui, achamo-nos diante da morte silenciosa; abramos Os sertões e teremos a vida com a sua ardência, com o seu tumulto, com as suas misérias e grandezas.

O túmulo é um livro fechado, encadernado em mármore, cujo texto ainda ninguém decifrou. O livro é um esplendor perene: as letras refulgem e, como diamantes, tanto mais brilham quanto mais as repele o tempo, que é o seu lapidário.

Homero cantava para os reis nas cidades de muros altos, ou nas granjas para os pastores rudes e os seus cantos são hoje monumentos que perpetuam o esplendor olímpico da Grécia.

As "Rústicas" de Virgílio deram-lhe, no seu tempo, os louvores de Horácio, a amizade de Augusto e a simpatia de Roma, hoje são os espelhos que refletem a civilização latina. A "Comédia", de Dante, era tida em Florença como a visão de um iluminado e o tempo fez dela o poema por excelência do grande ciclo da Idade Média.

Assim a obra do Pensador paira acima da Morte — é caridade que se não suplanta. Por mais esforço que fizesse Averrhós não conseguiu enterrar um raio de sol.

Veneremos o nome, prestemos o culto à memória, honremos o espírito que viveu no bocado de terra hoje coberto por vós de um branco lençol de mármore.

Gloria ao herói poeta!

Pode-se dizer de Euclides da Cunha o que Renan disse de Tourgueneff:

Un monde vivait en lui, parlait par sa bouche; des generations d'ancêtres perdues dans le sommeil des siècles, sans parole, arrivaient par lui à Ia vie et à Ia voix.

Le genie silencieux des masses collectives est Ia source de toutes les grandes choses. Mais Ia masse n'a pas de voix. Elle ne sait que sentir et bégayer. II lui faut un interprete, un prophète qui parle pour elle. Quel será ce prophète. Qui dirá ces soulfrances, niées par ceux qui ont intéret à ne pas les voir, ces secretes aspirations, qui derangent l'optimisme beat des satisfaits? Le grand homme, Messieurs, quand il est en meme temps homme de génie et homme de coeur.

Euclides, homem de gênio e de coração, foi o verdadeiro intérprete das massas ignoradas. Foi o poeta taciturno das solidões, o áspero historiador dos bárbaros.

Descreveu os desertos e o habitante trágico das terras bravas e, peregrino amoroso, não se contentou com percorrer as regiões incultas, ainda embrenhou-se na História e, assim como, em expedições trabalhosas, subia, por entre aningas, as águas insalubres dos grandes rios, abalsava-se às selvas, transpunha montes e tabuleiros áridos, assim também revolvia os arquivos refolhando-se nas crônicas primevas, em procura das origens do povo, cujos fastos pretendia escrever, a lanços, por monografias que seriam verdadeiros marcos ao longo da vida nacional.

Sobrava-lhe talento para o feito e a sua energia provada dar-lhe-ia forças para o levar ao termo, faltava-lhe, porém, indispensável ponto de apoio para que, sossegadamente e docemente, pudesse atacar a pretentosa construção, que ele assim me anunciava em carta datada de Manaus. "Nada te direi da terra e da gente. Depois, aí e num livro: Um paraíso perdido de onde procurarei vingar a Hiloe maravilhosa de todas as brutalidades das gentes adoidadas que a maculam desde o século XVII. Que tarefa, e que ideal! Decididamente nasci para Jeremias destes tempos. Faltam-me apenas umas longas barbas brancas, emarinhadas e trágicas."

O gigante só era feliz quando distendia largamente as asas em voos arrojados, longe das misérias da terra, olhando de alto os horizontes.

Mas as próprias águias e os condores cansam e baixam dos espaços aos cimos onde têm os seus ninhos, ele, não! só descera para sofrer.

O lar, que ele levantara com honra, resvalara no atascadeiro e, por maiores esforços que ele tentasse para reerguê-lo mais o sentia atolar-se, levando-o no enxurro. Insurgiu-se contra a vida e, num assomo de brio, achou a morte covarde.

Recolhido na lama andou o seu corpo de baldão em baldão até que lhe deram sepultura em terra de empréstimo e, vencido o prazo de agasalho, teria o despojo caído no refugo dos anônimos se a Piedade não o houvesse levantado, do abandono dando-lhe este jazigo, que transformastes em altar, onde vindes como crentes, comemorar as duas datas — a do seu nascimento, que coincide com a da fundação da cidade, que ele amou, com a da sua morte, em dia que se festeja no céu, como de glória.

Celebremos a do nascimento diante do túmulo como se cantássemos o louvor de um dia de sol radioso voltado para o ocaso, já rutilante de estrelas.

Que a romaria de hoje se torne uma religião da mocidade. Somos um povo sem cultos — honremos os nossos heróis, observando-lhes os exemplos e nenhum outro, mais do que o vosso patrono, no-los deixou tão belos, porque ele foi grande no gênio no amor da pátria, na austeridade e no brio.

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Revista do Grêmio Euclides da Cunha, 15 de agosto de 1905.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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