domingo, 29 de setembro de 2019

Aluísio de Azevedo, vida e obra


Aluísio de Azevedo, vida e obra

Aluísio cursou as aulas primárias que aludi quando falei de Américo. Não consegui averiguar se estudou humanidades. Se o fez, foi irregularmente. Adquiriu, assim, por si a cultura que mais tarde veio a ter.

Muito jovem, foi colocado pelo pai, como caixeiro, no escritório dum despachante da Alfândega de São Luís.

Ele, porém, que tinha invencível ojeriza ao comércio, dava largas ao gosto pelas coisas de arte, aprendendo desenho, nas horas vagas, com o professor italiano Domingos Tribuzi.

Mas na aula, narra o ilustre João Afonso Nascimento, seu contemporâneo e amigo, era um revolucionário, que se insurgia contra as regras e a rotina do mestre, paro obedecer à impetuosidade do seu ardor juvenil, que o impelia o tentar obras que somente artistas já feitos se atreveriam a empreender.

Foi assim que, não conhecendo ainda regras elementares de desenho, pintou — a óleo! — uma truculenta, uma pavorosa cena de barricado, a que não faltava imaginação, e em que abundavam cores berrantes.

Mais tarde, ao manejo, — em que se adestrou, — do pincel e do lápis, deveu ele, um dos mais altos méritos de escritor. É que, antes de descrever os personagens que nos seus livros se movimentam, ele as pintava, a aquarela, se eram belas e boas, e caricaturava-as, a lápis, se eram ridículas ou más.

Esse "processo", escrevi eu, “foi de certo o que lhe construiu um dos lados mais vigorosos da obra literária, com a criação ou adaptação dos tipos que nela vivem, sofrem, chovam, riem, palpitam, fremem e dominam, com o cunho inconfundível que denuncia o artista, com a marra indelével que faz dos seus gracejos imagens reais da existência e do meio, provocando uns o carinho, outros a piedade, e assim, eles triunfam dentro da obra vencedora.

Embarcou Aluísio para o Rio, e ali ficou dois anos, trabalhando, caricaturista, no "Fígaro", no “Mequetrefe" e na "Revista Ilustrada”. A occisão era muito ácida.

De um lado, acontecimentos como a viagem de D. Pedro II à Europa, e a ruidosa questão chamada “os trinto botões", provocada por uma charge com que Bordallo Pinheiro suscetibilizou os melindres nacionais, davam ensejo à atividade do seu lápis humorístico, e aos comentários feitos nas legendas das caricaturas pela sua pena incisiva.

De outro, Artur Azevedo estava no galeria da fama, com a representação sucessiva, por mais de cem vezes, da peça filha de "Maria Angu", tradução e adaptação célebre ópera cômica de Lecocq, "La fille de Madame Angot".

Aproveitando a sua "récita de autor” e as estrondosas homenagens que então recebia, Artur, chamado várias vezes à cena, trovou, em uma delas, da mão de Aluísio, que se achava nos bastidores, levou-o ao palco, e disse à plateia: “Apresento ao generoso público fluminense (naquele tempo ainda não se dizia “carioca") Aluísio Azevedo, irmão do pai da filha de Maria Angu".

E a plateia ovacionou freneticamente os dois.

Embora assim acolhido no Rio. Aluísio retornou ao Maranhão, em 1879.

Então, o caricaturista se fez jornalista, primeiramente em "A Flecha”, redigindo uma seção humorística e assinando “Pitribi"; após, fazendo crônicos cintilantes, em "O Pensador", jornal anticlerical, de um grupo de moços (e cujo título ficou sendo a antonomásia pela qual era vulgarmente conhecido Eduardo Ribeiro, que se faria engenheiro militar e seria governador do Amazonas), e, mais tarde, assinando o pseudônimo “Lhinho", na "Pacotilha", a resenha crítica dos outros Jornais da terra.

Ainda nesse período de atividade na imprensa, publicou “Uma lágrima de mulher", farta novela, vazada nos deliquescentes moldes românticos do tempo, moldes que logo quebrou, seduzido pela escola naturalista, que transplantou para as letras nocionais, e da qual foi uma das mais altas expressões no Brasil.

Em 1881, deu a lume “O Mulato".

Não sei de outro romance-estreia que tão cedo e tão galhardamente tenha empolgado o público letrado no nosso país.

Os homens de letras mais eminentes e os críticos mais severos do Rio saudaram o livro com carinho e entusiasmo.

E o mesmo se deu em todas as outras Províncias.

No Maranhão não foi assim, e, aliás, bem se explica por que assim não foi.

Por uma parte, toda a sociedade local estava visceralmente interessada na questão religiosa e na questão do elemento servil, e Aluísio, abolicionista convicto e anticlerical ardoroso, carregando um tanto a mão nas tintas com que, ao sabor e ao impulso das suas convicções, pintou certas cenas e certos tipos, teria forçosamente que irritar aqueles que alimentavam ideias contrárias às suas, e eram a maioria.

Por outra, o "maneira" realista não poderia deixar de ser chocante para quem estava então acostumado a ler Lamartine, Pinheiro Chagas e Macedo.

Há ainda que, em várias personagens do romance, notaram flagrantes semelhanças com personalidades importantes de São Luís, e que eram indicadas, em voz alta, por toda a gente, o que aumentava ainda mais a irritação, já reinante, com a dos modelos apontados.

Ao contrário de Coelho Neto, que era um fantasista, Aluísio era um impressionista. Aquele escrevia o que a sua poderosa imaginação ideava; ele, o que a sua visão aguda observava.

Provável é, assim, que não poucos dos tipos que se veem em "O Mulato", sejam, realmente, fotografias uns, e caricaturas outros, de gente que a toda hora via em torno de si, e feitas, umas propositadas, outras quase inconscientemente.

Esse acúmulo de circunstâncias criou para o livro um ambiente entre frio e hostil, embora os amigos e companheiros do romancista recebessem com alacridade o seu triunfo conquistado extra-fronteiras provinciais.

Um só crítico, aliás poeta de mérito, a quem Aluísio aludiu no prefácio da 2ª edição do romance (e não lhe repito aqui o nome porque sei quanto ele mais tarde se arrependeu, e como se penitenciou da injustiça e da virulência da crítica), lá se ocupou do romance, paro, em períodos ácidos, aconselhar o romancista a que largasse a pena e fosse para a lavoura.

Aluísio, como se sabe, rejeitou o conselho. Não sei se com a recusa foi prejudicada a agricultura nacional... Sei é que as letras brasileiras muitíssimo lucraram.

Felizmente com o escoar dos tempos, as paixões serenaram, os antipáticos arrefeceram. E hoje não há no Maranhão quem não se envaideça haver sido um maranhense que escreveu "O Mulato".

Esse livro é, lá e fora de lá, tido muita gente, como, dentre quantos compôs Aluísio, o melhor e o mais completo. É, realmente, admirável. Bastaria a fazer a reputação de um romancista.

Mas, de mim, hesito em dizer qual o mais bem feito dos seus romances: se "O Mulato", ou se "O cortiço".

Pendo — sempre que os leio — para aquele... que estou a ler, tanto me aprazem os dois como, quase tanto, a "Casa de Pensão" e "O livro de uma sogra". 

Voltando para o Rio, Aluísio se fixou no romance, abandonando por completo o lápis de caricaturista, e quase inteiramente a pena de jornalista.

Escreveu, é exato, vários contos, e colaborou com Artur em diversas peças teatrais, obedecendo, neste particular, à influência do irmão que, aos 15 anos de idade, em São Luís, já escrevia a deliciosa comédia "Amor por anexins", longamente aplaudida pelas plateias do Brasil inteiro.

Mas romancista é que ele foi mais que tudo, e como tal sobre tudo vale.

Dos seus romances, eu desejaria falar minuciosamente aqui dando um rápido resumo do entrecho pelo menos de alguns.

Mas quem de vós não os leu?

Quem, entre todos vós, não se deliciou com os seus trechos descritivos, especialmente da Natureza, como que "transplantada" para o papel pela propriedade da sua adjetivação, e pela firmeza do seu estilo, que, na claridade singela e honesta, deslumbra como um raio de sol?

Das suas personagens, quem é que não se recorda de muitas, e não há topado com algumas no tumultuar da vida?

Amiúde com elas nos acotovelamos nas ruas, e temos a impressão de que foram arrancadas de seus livros para a existência real.

Aqui, é "Amância”, a velha irrequieta e nervosa, tagarela e maldizente, metediça e desbocada, que passo pelas páginas de “O Mulato", indagando de tudo, sabendo tudo e falando de tudo quanto havia pela cidade, barafustando por todas as casas e sarilhando por todas as ruas, chocalhante e peçonhenta qual uma cascavel.

Ali, é o "Coqueiro", da "Casa de Pensão", indivíduo frouxo e dessorado, amorfo e sem vontade, que se transforma bruscamente em herói, por um crime a que o arrosta o achincalhe duma situação humilhante e ridícula.

Acolá, é o "Jerônimo", o português cavouqueiro de "O Cortiço”, rude e honesto, sóbrio e trabalhador, que o ambiente amolecedor da estalagem e os capitosos atrativos da mulata "Rita Baiana" transmudam em desordeiro e criminoso, devasso e beberrão.

Mais adiante, "Olímpia" de "O livro de uma sogra”, mulher despida de preconceitos e muito avançada do seu tempo, que, ignorada no que tem de inteligente e de afetiva, arrosta com a inimizade e o ridículo, sem se importar de que a tomem por caprichosa e má, desde que faça a felicidade da filha, a quem ama com um amor profundo e raciocinado, feito de devotamento e de ternura.

É ainda o "André", de “O Coruja", personagem que Aderbal de Carvalho afirma ser irreal e meramente imaginária, quando é certo que ele é, apenas disfarçada por alguns traços, a de um bacharel desfortunado e alcoólico, que vegetou no Maranhão pela primeira metade do século passado, e que, por vestir sempre roupas usadas, que antigos colegas mais felizes lhe davam, era conhecido pela alcunha de "Roupa Velha".

Paro que citar mais?

Tipos como esses, magistralmente traçados, se encontram vários nos aludidos e nos demais livros de Aluísio,livros que todo o Brasil que lia, leu quando foram publicados.

Com os anos, os exemplares foram rareando nas livrarias, o que ficou sendo uma ameaça ao devido conhecimento da obra do romancista pelas gerações porvindouras.

Felizmente, porém, o espírito empreendedor dos editores Briguiet-Garnier já encetou a reedição de todos os seus romances e contos, e teve a boa intuição de confiar a direção do trabalho à incontrastável aptidão e à infatigável atividade de M. Nogueira da Silva, pronto sempre por a sua inteligência e a sua boa vontade a serviço de tudo quanto se relaciona com as nossas letras, e, em particular, com o cantinho que nascemos.

Há ainda na obra de Aluísio dois méritos a realçar.

Um, as dificuldades com que a realizou ele, que vivia, premido por aperturas financeiras, numa casa de cômodos, mas não se privava de passear à tarde pela rua do Ouvidor, trajado como “dândi", de cartola branca, fraque cinzento e botinas de verniz, — às vezes pertencentes a companheiros de "república", fato de que Coelho Neto dá testemunho em "A conquista".

Outro, a honestidade de escritor que, apanhar com fidelidade cenas e tipos, não hesitava em enfiar um casaco enodoado e umas calças remendados, e meter-se num quarto sordidíssimo que alugou num cortiço, onde esteve ameaçado de travar relações com a navalha dum "capoeira" convencido de que ele não era senão um "secreta" disfarçado, desde que o viu, casualmente, na rua, em elegante indumentária.

Tal sistema de vida, de falso conforto e de privações reais, levou-o a procurar (ainda os engrossadores solertes não haviam inventado o verbo "cavar"...), um pouso estável e remunerador.

Após efêmera passagem, como oficial-maior, pela Secretaria de Estado Fluminense, e com a intercalação de uma nova era de aperturas, foi nomeado: vice-cônsul em Vigo (1895 ), em Yokohama (1897) e no Solto (1899); cônsul em La Plata (1903), Cardiff e Nápoles (1906); cônsul geral em Assunção (1910) e, (191 1), cumulativamente com estas funções, adido comercial junto a todas as legações na América do Sul, para servir nos quais fosse designado.

Despendeu assim, na carreira consular, oito anos, dos cinquenta e seis incompletos que viveu (14 de abril de 1857-27 de fevereiro de 1913).

Fato curioso: colocado, mais nada, ou quase nada escreveu, pois desse período só se lhe conhece, publicado, um admirável estudo comparativo da mulher japonesa com a mulher norte-americana, e o qual vem na "Biblioteca Internacional de Obras Célebres".

Porque tamanha e tão lastimável inação, quando teve o pão garantido?

Várias hipóteses se hão formulado para o explicar.

Alvitram uns que ele escrevia, não por gosto, mas por necessidade, e, assim, quando não mais necessitou, não mais escreveu. Outros, que, afastado do Brasil, sentiu que lhe faltava o “meio" boêmio em que se fez, e fora do qual não sabia criar. Ainda outros, que estacou no ansiado desejo de realizar uma obra de integral perfeição artística, obra que imaginava, mas receava não poder escrever; perfeição que, nos seus sonhos, ia duma fabulação absolutamente original a uma forma literária impecável, e, mesmo, até uma caprichosa fatura material do livro.

E foi assim que, na atividade burocrática, e na inatividade artística, escoaram os derradeiros anos da sua existência, ensombrados por uma tênue nuvem de melancolia, cuja causa ele não devassou nunca a ninguém.
  
Mas gente de aguçada argúcia, ou gente daquela a quem agrada romantizar às vezes as coisas mais prosaicas da vida deduziu o seu entediamento da separação de alguém, em cujo retrato a aquarela, pintado em seda, e que não saía de cima da sua banca de trabalho, se viam um “Quimono" bordado de crisântemos, e uns doces olhos amendoados. Recordação de uma suave figura japonesa, a quem se ligou em Yokohama, e que não o quis acompanhar mundo afora, no desejo de não deixar sós os pais, velhinhos e encarquilhados, para os quais eram indispensáveis o seu sorriso de "gueixa” a sua meiguice de "mussmé”.


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Jornal do Comércio, 11 de abril de 1937.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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