domingo, 15 de setembro de 2019

Celebrando a Machado de Assis (Ensaio)



Celebrando a Machado de Assis

Celebrar a Machado de Assis é propriamente celebrar a dignidade e a elevação da obra literária. Grande coisa é a unidade de uma vida, a convergência invariável de todos os seus dias e todas as suas horas para um só e mesmo ideal, principalmente quando este é um dos que com mais pureza resumem o que de divino guarda ainda a Humanidade, no meio das suas mil misérias... Machado de Assis, tendo-se votado à sua Arte desde a adolescência, conservou-se-lhe fiel, sem hesitações nem desfalecimentos, até hoje que já lhe branquejam os cabelos sobre a fronte ainda jovem, porque ele, como me dizia numa carta, não é "dos que dão para octogenários." Intacto o fervor dos vinte anos o alenta no labor literário; mestre consagrado, não entende que tal qualificação lhe seja uma aposentadoria; não lhe falem de dormir à sombra dos conquistados louros, ou de pousar sobre os muitos livros superiormente escritos, a forte e nobre pena, ativa como a enxada do camponês madrugador, fina como o buril do escultor que sonha com deuses e galateias. Sempre moço, ele deseja estar à frente dos moços, combater com eles, com eles ir jornadeando pelo futuro avante. Provavelmente, seduções pérfidas o assaltaram, aqui e ali, no seu longo caminho; mais de uma vez por certo, a Política — sereia estranhamente falaciosa e lasciva, a cujas propostas poucos escapam nas nossas terras da América — veio segredar-lhe aos ouvidos ternuras e promessas quais só ela as sabe; mas Machado de Assis, como quem conhecia bem a loureira formosa e cínica, encolheu os ombros, desdenhoso, e foi andando. Assim era, assim é. Outra glória não pede e não quer senão a que lhe vem da sua própria obra. Vasta é ela, e vária, distribuída em tão largo tempo, com sinceridade e perseverança, por quase todas as "províncias da literatura", como antigamente se dizia. Cultiva a poesia, o conto, o romance, o teatro, a crítica, o folhetim, a crônica, tudo isso galhardamente; sendo pelo estilo um artista acrisolado, ser ainda um pensador, um humorista, um moralista, uma espécie de filosofo sem presunções, que, descuidoso de nos dar o seu sistema completo, nos dá tão só fragmentos soltos de filosofia; eis o que enche de brilho excepcional essa fecunda existência; eis também o que me tentaria a ensaiar sobre ela um detido e minucioso estudo, que tomaria meio fascículo, ao menos, da Revista Moderna... Mas o espaço é tirânico na sua estreiteza. Apenas posso, a traços breves, interpretar o temperamento tão original de Machado de Assis.

Poeta, rimando sonhos nas manhãs da adolescência, ele aparece, em momento de transição, entre os ultra-românticos ululantes ou possessos, fracos herdeiros daquela forte geração que abriu o século, e os parnasianos da Musa impassível, dispostos a lavrar o verso como matéria preciosa e fria; o senso da harmonia — inato no seu espírito como no de um ateniense — ensina-lhe a evitar, com igual zelo, ambos os extremos, mostrando-lhe bem que a estrofe não pode ser o eterno tubo lacrimejante dos funerais arcaicos, ou o banal porta-voz de retóricos furores, mas que também reduzir a poesia a mera arte imitativa ou plástica é, não só baixar-lhe o nível, mas restringir-lhe ordinariamente o horizonte. Em verdade, desde então, os seus versos revelam, como feição predominante, um justo equilíbrio entre a essência e a forma, segundo se nota em particular nas composições dos gregos. E com certos gregos tem ele pontos de afinidade; não falo nos arroubos de Píndaro, ou nas exuberâncias fogosas de Alceu; mas não o reconheceriam por parente Minermo, Simônides, Anacreonte? Justamente Uma ode de Anacreonte, que se lê nas Falenas, o velho de Téos não a faria com mais elegância, nem com tanto sentimento. Semelhanças se acharão também entre Machado de Assis e os bons quinhentistas, cujas redondilhas tão límpidas e conceituosas especialmente lhe agradam. Mas, para diferenciá-lo dos gregos, há o grande fato do Cristianismo, que, conquistando todas as gentes, a ninguém permitiu mais ser pagão, nem a Gautier, nem a Carducci, nem ao mesmo Goethe; e, para distanciá-lo dos quinhentistas, aparecem outros elementos, como a Reforma, a Enciclopédia, a Revolução Francesa, e os graves problemas sociais que não preocupavam os entendimentos naquela ara de navegações e descobertas... Mas vê-se que Machado de Assis bebeu inspiração nas mesmas fontes que Garrett, de quem tem a graça meditativa e mórbida, sem ter de certo as áscuas do seu candente lirismo. Ele nasceu bem na sua época, e é deveras um moderno, a despeito de muita coisa que o fere acaso nos modernos costumes, a despeito dos clássicos encantos com que a sociedade antiga lhe acena dos seus longínquos nimbos. Excluo a Idade Média; então o seu libérrimo espírito o tornaria suspeito a todos os tiranos, e o apontaria aos rigores do Santo Ofício... Nas Falenas e nas Americanas, como nas Crisálidas, já se manifesta, traço saliente da sua estética, a melancolia; mas é a melancolia genérica do sonhador, vaga e quase voluptuosa, não a melancolia característica do pessimista, raciocinada e resignada a um tempo, que ressumbra em composições ulteriores, como o Círculo vicioso e a Mosca azul.

Também foi gradualmente que na prosa se desenvolveu a sua índole de maravilhoso humorista, que no Brás Cubas atingiu o sumo grau de originalidade e independência. Os prenúncios de tal pendor apenas se lhe adivinham nos primeiros contos e romances pela preocupação psicológica e moralística; mas ainda os caracteres humanos lhe fornecem antes recursos dramáticos para o enredo e o desenlace da ação que estímulos para o exercício da sua magistral ironia.

Essa flor amarela e mórbida do desencanto, sem dúvida uma forma, e das mais requintadas, da sabedoria, só pode ser, num indivíduo ou num povo, resultado de longo cultivo, de complicada evolução. Como se engendrou e desabrochou ela no espírito de Machado de Assis? Para a sua alma, delicadamente, angustiosamente sensível, tanto como refletida e analista, a experiência deve ter caminhado depressa ora, no espetáculo da realidade, dois fenômenos capitais sobretudo o impressionam, quando ele considera o homem face a face com a natureza a que pertence: um é a sua pequenez, a sua quase nulidade como fator na ordem universal, sujeito qual está sempre a um encadeamento de leis que não formula a seu talante e não pode suspender ou ab-rogar; outro é a sua insignificância mesmo no foro íntimo, tantas causas conhecidas e desconhecidas concorrem lhe para enfraquecer o livre arbítrio até nos mínimos atos.

Assim, os personagens de Machado de Assis são geralmente caracteres indecisos, hesitantes, atormentados pela moléstia da dúvida; incoerentes? contraditórios? de acordo; mas verdadeiros por isso mesmo. O ziguezague está mais na lógica real que a linha reta; nada tão comum como a dualidade, a multiplicidade até de uma alma humana; algumas há de uma só peça, mas são tão raras! Também ninguém melhor que Machado de Assis acompanha e traduz as modificações lentas que sofre uma ideia até tornar-se volição e ato. Vede o caso dos cinco contos de réis no Brás Cubas, e o da Atalaia com o Rubião do Quincas Borba, e ainda o estudo magnífico do Enfermeiro nas Várias Histórias. Compreendo que, por vezes, os comentários do escritor se vos afigurem perversos, sendo somente justos. Um único homem ousou desnudar-se ante a posteridade, mostrar-se tal qual era; foi Rousseau nas Confissões; e fez logo a impressão de um monstro... Machado de Assis por sua parte, descobrindo em flagrante certos cantinhos obscuros de humanidade, ilumina-os de súbito com uma frase fulgurante. O leitor protesta, ofende-se, brada: Maldizente crítico! E, entretanto, ali não há mais que a tranquila constatação de um fato. Basta, por exemplo, um trocadilho; como quando ele diz: "Marcela morria de amores pelo Xavier. Morria, não. Vivia. Viver não é o mesmo que morrer, segundo afirmam todos os joalheiros deste mundo..." A atitude do autor é a de juiz severamente minucioso no inquérito e indulgente na sentença, porque, no seu critério, as circunstâncias atenuantes não escasseiam; mas estas só aproveitam a cada indivíduo, e não ao conjunto dos seres, à maneira por que está organizado o mundo, onde a parte do erro suplanta a da razão... Tudo isso já indica bastante que a sua filosofia não pode ser alegre. Eu acredito que a princípio o estoicismo secretamente o atraísse como o ideal das escolas. Mas nem todos chegam à perfeição de professar que a Dor é uma ilusão; Machado de Assis não tem o caráter duro que o estoicismo pede, e para ele a Dor é uma indubitável e inevitável realidade; o prazer é que não passa, acaso, de dor abortada... Ora, se nos cumpre a todo o transe suportá-la, suportemo-la ao menos com espírito; e se nenhum esforço nos subtrai ao jugo férreo do Destino, mostremos a nossa superioridade de entes racionais, não envergonhando-o, que ele tem a face rija e cínica, mas escarnecendo-o sem cólera... Então, a ironia é a grande arma; simplesmente, é uma arma de dois gumes, que fere também os que usam dela.

E a ironia de Machado de Assis é particularmente acerba. Comparai-o com os humoristas ingleses, sobretudo com Sterne, a quem o ligam algumas semelhanças de forma; aqueles são mais zombeteiros e menos profundos, interessando-se especialmente pelos contrastes graciosos e grotescos; Machado de Assis busca antes, ou encontra sem os buscar, contrastes moralmente trágicos; o próprio Heine não vai tão longe como ele nesse ponto, nem Anatole France, que em não poucas páginas recentes lembra assaz o nosso autor. Portugal tem hoje o seu grande humorista: Eça de Queirós; mas este não é porventura tão amargo no brilho violento e militante dos seus períodos, como Machado de Assis na mansidão quase ingênua com que expõe os seus trechos de doutrina. Há tal capítulo no Brás Cubas que, à primeira vista, desperta irresistivelmente o riso; e depois deixa nos lábios um sabor de fel — recordando o riso provocado por aquela erva venenosa... precisamente: o riso sardônico. Machado de Assis é, pois, de algum modo, um demolidor de ilusões e talvez de teorias, demolidor sem ódios nem exageros. Mas, em compensação, quantos e que altos monumentos de estilo tem construído! Porque o estilo é uma das condições superiores que asseguram a imortalidade à sua obra. Antes de tudo, ele possui na linguagem um instrumento admirável de expressão, conciliando a pureza castiça do idioma clássico com a maleabilidade, a precisão, a força sintética que exige a literatura moderna. Sóbrio, exato, singelo por gosto e não por pobreza de vocabulário, ele não descura as qualidades musicais do período; tem o habito da frase bem feita, de tal jeito que as suas crônicas, e não raro as suas cartas, se podem ler como páginas de livro. Aqui e ali, muita gente lhe achará capítulos pouco claros, ou excessivamente pálidos; mas isso acontece quando o pensamento mesmo é cheio de reservas e distinções, ou sutil demais, quase intraduzível em palavras. De resto, convenho em que pessoas simplicistas se desesperarão com frequência, ao ler alguns dos seus livros. Lembra-me um amigo desta classe a quem emprestei o Brás Cubas; restituiu-mo ao fim de poucas horas. "Não o entendo — disse-me — perdi quatro ou cinco vezes o fio da ação." E tinha razão; porque a ação para Machado de Assis não vale por si própria, como para os romancistas dramáticos; vale unicamente como motivo de interpretação. Por isso ele não se apressa, como não se apressa o sábio que estuda um fenômeno curioso, e se preocupa só com as condições do experimento. Também trata de quando em quando o leitor com essa absoluta sem-cerimônia que desnorteia os Acácios, e não trepida em mistificá-lo se é preciso. Il ne se gêne pas. "Não é impossível que eu desenvolva este pensamento antes de acabar o livro; mas também não é impossível que o deixe como está." Em outro ponto, depois de narrar episódios, intrigas, conseqüências de um baile, interrompe-se para notar de passagem : "Este baile — ia-me esquecendo dizê-lo — era em casa do Camacho." Outra coisa que ele desdenha são os efeitos retóricos; detesta a ênfase e a hipérbole tanto como a banalidade. Assim é que numa página do Brás Cubas, tendo exposto certa opinião em frases levemente oratórias, logo zombando, acrescenta: "Vive Deus! eis! um bom fecho de capítulo!" Há leitores que não perdoam essas liberdades...

Compreende-se que, com tais tendências, ao seu estilo falte por vezes movimento, ao menos movimento físico, ainda que o delírio de Brás Cubas nos dê em traços de Buonarotti a marcha épica das idades. Ajuntarei a propósito que as suas comédias são animadas, lépidas, ligeiras, sem digressões nebulosas que tolham a viva cidade do diálogo, e a distribuição bem cabida das cenas uma dela, o tu, só tu, puro amor, considera-o Teófilo Braga a melhor composição dramática existente sobre Camões. Mas eu imagino que Machado de Assis se trabalhasse habitualmente para o teatro, destinaria as suas peças a um auditório sumamente restrito, por que, assim como a hilaridade grosseira, lhe repugnam os lances violentos que entusiasmam o povo; as situações emocionantes que ele prefere são todas de nuanças e há nuanças terrivelmente trágicas... Do teatro antigo o drama favorito para Machado de Assis é suponho eu, o Prometeu e do teatro moderno o Hamlet. Um concretiza a sua concepção humana, o outro fala a linguagem do seu temperamento.

Os recursos descritivos não entram na sua esfera usual de observação; não que ele rejeite a descrição quando o assunto lha impõe; mas não se compraz nela, nem a procura intencionalmente. Os objetos lhe interessam menos pelo aspecto pitoresco que pelo sentido íntimo e pelas relações mútuas. Para ele, certamente, "a paisagem é um estado de alma". Isso não significa que Machado de Assis trate os seus personagens como simples sinais algébricos, ou meros símbolos imaginários. Gosta de no-los apresentar principalmente quando valem a pena disso, como a formosa Virgília: "Era dessas figuras talhadas em pentélico de um lavor nobre, rasgado e puro, como as estátuas, mas não apática nem fria. Ao contrário tinha o aspecto das naturezas cálidas, e podia-se dizer que na realidade resumia todo o amor..." Os seus olhos "davam uma sensação singular de luz úmida", e a sua boca era "fresca como a madrugada, e insaciável como a morte". As mulheres evocadas por Machado de Assis — para quem o eterno feminino é um vasto elemento moral — têm de ordinário uma soberania de beleza, de sedução, de resistência ou mesmo de virtude, que lhes confere a vitória na luta com o sexo rival. Perversa não vejo nenhuma; perturbadoras há muitas, e de penosa decifração. Se é licito tomar uma comparação à pintura, — direi que essas mulheres não semelham às Sibilas hercúleas de Miguel Ângelo, às suaves e sadias camponesas de Rafael, nem às donzelas esguias e místicas de Fra Angélico, nem às ninfas robustas e sensuais de Rubens; semelham às criaturas estranhas e complexas de Leonardo de Vinci. Leitor, se algum dia viste no Louvre a Gioconda, esquecer-lhe-ás jamais o sorriso singularmente enigmático e cético, o mesmo da Leda que na Villa Borghese reina, com a sua nudez triunfante, dourada carinhosamente pelo tempo?...

E as conclusões do filósofo? São de um pessimismo consumado. O Brás Cabas termina assim : "Há um saldo a meu favor: Não tive filhos; não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria". Reparai agora como acaba o Quincas Borba: "Chora os dois recentes mortos, se tens lágrimas. Se só tens riso, ri-te. É a mesma coisa. O Cruzeiro do Sul, que a linda Sofia não quis fitar como lhe podia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens".

Portanto, a existência é miséria, e os astros contemplam indiferentes os nossos infortúnios. Mas não haverá para alem dos astros alguém compassivo e remunerador — essa Justiça imanente que é ao mesmo tempo imanente Misericórdia? Cuido não errar afirmando que Machado de Assis, na sua consciência, tem a fé intensa com que se apela das iniquidades transitórias para a Suprema Sabedoria, que concerta e harmoniza as aparentes contradições do universo. Demais, ele está longe de ser um blasé. Zombar de certas ilusões não é dizer que tudo seja ilusão, como discutir aparências de virtude, não é negar a virtude mesma. Ele acha seguramente que a vida, apesar dos seus lados mesquinhos tem muita coisa digna de afeto e culto; crê nos sentimentos fundamentais do homem, crê também na Arte nessa Musa consolatrix, de quem fala com paixão não menor que a de Cícero celebrando os seus caros estudos no meio das discórdias civis. A ela, à suprema apaziguadora, à mágica deidade que "muda o agudo espinho em flor cheirosa", à meiga e carinhosa enfermeira que sana todas as feridas e consola de todas as decepções, deve Machado de Assis os seus momentos de mais grato e produtivo sossego, longe do frívolo combate em que as gentes se digladiam para conquistar bens efêmeros, cuja posse, as mais das vezes, não corresponde à intensidade do desejo... Deve-lhe também a imensa vantagem de partilhar todos os gozos espirituais deste século tão rico deles, sem ter sabido nunca do seu recanto sul-americano; pois uma fina e rara intuição substitui na sua mente o proveito das viagens; de tal modo que o meio nacional, ou antes fluminense, dominante nas suas obras, adquire, através de tão especial temperamento, sem perder a sua exatidão, uma peregrina transcendência que o tornaria interessante para os estrangeiros como para nós mesmos. De resto ser bom é ainda um dos meios mais seguros de ser feliz, e Machado de Assis é nobremente, essencialmente, bom. Quando um artista está como caráter abaixo do seu próprio engenho, o público nada tem a ver com isso, porque os vícios dele não devem prejudicar o brilho da sua obra. Mas a superioridade moral em equilíbrio com a superioridade intelectual forma um tão belo conjunto que provaria mau gosto, mesmo estético, quem o olhasse com indiferença. E essa esquisita harmonia que faz do Presidente da Academia Brasileira o orgulho dos seus amigos entre os quais me honro de ser contado; e ela é também para mim a garantia de que quantos o prezam e admiram terão em ler este estudo o mesmo prazer com que eu o escrevi.

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MAGALHÃES DE AZEREDO
Revista Moderna, 5 de novembro de 1897.
Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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