domingo, 29 de setembro de 2019

"Contos Gauchescos" e "Lendas do Sul" (Resenha)


"Contos Gauchescos" e "Lendas do Sul"

Estas duas obras são impressas num volume só. São sem dúvida as duas maiores obras do grande escritor patrício. Nestas obras ele mostra, sem dúvida, que é um dos mestres mais alto do nosso regionalismo, em todos os tempos, vivendo e fazendo o Rio Grande do Sul sentir, pulsar e sofrer em seus contos. Ele nos deu nestas duas obras todo o panorama, a paisagem, a alma dos seus rincões. Abrindo estas obras o que nos banha logo é um sopro desses imensos pampas do Rio Grande — com sua cor local, com seus vaqueiros indômitos, com seus costumes que as vezes diferem tanto do resto do Brasil, com sua linguagem meio espanhola, aberta, graciosa, demorada e pitoresca, toda música. E concluímos que Simões Lopes Neto é o único com capacidade peculiar de expressar o encanto secreto e vago da sua gente. Cremos que não há no conto brasileiro muitas páginas que se igualem, em emoção e ternura, a esta intitulada "O boi velho", síntese maravilhosa da vida animal feito para servir em humildade e sinceridade, e do coração do homem feito de ingratidão, de malícias, de perversidade, quando não apenas de indiferença.

Simões Lopes Neto é magistral em encontrar esses secretos mecanismos das almas dos homens, das almas dos bichos, das almas das coisas e das paisagens. Se ele fosse um escritor de outra língua, inglesa ou francesa, seu renome, hoje, correria o mundo, como corre o de um Kipling.

Esse dom de recuperação interior que o sortilégio de uma arte sem mistura tem o poder de acordar em nós — e aqui se abre a perspectiva humana e universal do regionalismo de Simões Lopes — nos lembra um dos passos mais comoventes de seus contos. Blau Nunes, o campeiro de "alma forte e coração sereno", perdera trezentas onças que não eram suas e estava desesperado. Quem é que ia acreditar que as moedas não tinham sido escamoteadas por ele mesmo?... E assim pensando, já engatilhava a pistola junto ao ouvido, para fugir à sua vergonha, quando, ao olhar em torno, como quem se despede de tudo, eis que se dá o milagre:

No refilão daquele tormento, olhei para diante e vi... as Três-Marias luzindo na água... o cusco encarapitado na pedra, ao meu lado, estava me lambendo a mão... e logo, logo, o zaino relinchou lá em cima, na barranca do riacho, ao mesmíssimo tempo que a cantoria alegre de um grilo retinia ali perto, num oco de pau!...

— Patrício! não me avexo duma heresia; mas era Deus que estava no luzimento daquelas estrelas, era ele que mandava aqueles bichos brutos arredarem de mim a má tenção...

O cachorrinho tão fiel lembrou-me a amizade da minha gente; o meu cavalo lembrou-me a liberdade, o trabalho, e aquele grilo cantador trouxe a esperança...

Eh-pucha! patrício, eu sou mui rude... a gente vê caras, não vê corações...; pois o meu, dentro do peito, naquela hora, estava como um espinilho ao sol, num descampado, no pino do meio-dia: era luz de Deus por todos os lados!...

E já todo no meu sossego de homem, meti a pistola no cinto. Fechei um baio, bati o isqueiro e comecei a pitar."

Em pleno fatígio de uma literatura "art nouveau", Simões Lopes, guiado pela intuição de um artista nato, escrevia com uma sobriedade e com rasgos de economia estilística que surpreendem.

É possível que a experiência do teatrólogo, anterior à obra do ficcionista, leve sua parte na extrema vivacidade de uma prosa por vezes tão dramática na contensão de seus elementos expressivos, e sempre tão segura no seu poder de comunicação. Vem daí que frequentemente damos por nós a ler os contos de Simões Lopes em voz alta, como diante de um auditório. Seu verbo chega a contrair-se a tal ponto que parece, aqui ou ali. deixar livres a ação ou a emoção que pulsam dentro dele. É então, uma e outra, assim soltas, como que reclamam a participação ativa do leitor. As imagens, os diálogos, as breves manchas de paisagem, parecem que dispensam as palavras e saltam do texto numa animação de formas vivas.

Moysés Vellinho, em seu livro Letras da Província nos diz: "São forte e puras as páginas de Simões Lopes. Sem qualquer contaminação mórbida, sem compromissos com o insondável mundo das complexidades interiores, sua pequena obra se oferece como um retorno ao paraíso perdido das coisas simples. O que ela nos mostra, sob uma atmosfera saudável e viril, são criaturas inteiriças, fiéis à lei do instinto, para o bem ou para o mal, nenhuma mistura, pois a mistura leva à dúvida e à confusão.

Todos caminhos são claros e abertos, e nos restituem a um mundo onde o milagre acontece a cada momento: "Caiu a serenada silenciosa e molhou os pastos, as asas dos pássaros e a casca das frutas".

Entretanto, os tempos foram passando, e hoje, há quarenta anos do desaparecimento do grande regionalista, aí está a impressionante trajetória que sua estrela já descreveu. Quebrado o silêncio que sufocara o surto de seu nome, silêncio que nem o fato da morte lograra romper, a figura literária de Simões Lopes Neto, como que aos poucos emergindo de um quase anonimato, acabou transpondo os estreitos muros de sua cidade e projetando-se muito além do simples âmbito regional.
 
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Jornal "Pioneiro", 18 de março de 1978.
Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019).

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