domingo, 29 de setembro de 2019

Paulo Setúbal: Onde nasceu "Alma Cabocla" (Resenha)


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Onde nasceu "Alma Cabocla"

Pouca gente sabe que Paulo Setúbal, autor de tantos livros populares de história romanceada, residiu dois anos em Lajes, cidade do planalto catarinense, onde já morava seu irmão mais velho, João Setúbal, que ali se casara com filha de fazendeiro e se dedicava ao comércio.

Isso foi em 1919. A esse tempo o autor de A Marquesa de Santos ainda não era conhecido como escritor. Mas já andava às voltas com as musas, tendo publicado alguns versos na imprensa paulista.

De sua estada em Lajes, encontramos breve notícia em Confiteor, livro póstumo em que Paulo Setúbal nos descreve o seu retorno ao Catolicismo dentro de uma atmosfera impregnada da mais pura e suave poesia mística. Tendo adoecido gravemente em São Paulo, e após longa convalescença, os médicos lhe aconselharam mudança de clima. Foi quando Paulo Setúbal, que já conhecia as virtudes tonificantes dos ares lajeanos por informações de seu irmão, resolveu embarcar para Santa Catarina. Em Lajes, não só recuperou logo a saúde como ganhou muito dinheiro fazendo inventários para os herdeiros das vítimas da "espanhola". Dinheiro que ele esbanjou no jogo, deixando-nos uma página do mais vivo realismo sobre esse aspecto de sua permanência cidade de Correia Pinto.

Deixemos, porém, a vida de Paulo Setúbal para nos ocuparmos da sua poesia. Segundo afirmam alguns dos seus contemporâneos de Lajes, foi ali que ele escreveu parte dos poemas que compõem o seu primeiro livro e único no gênero: Alma Cabocla. Certo, quando se transferiu para lá, já os levava na sensibilidade e no espírito. Sim, porque são reminiscências dos tempos de estudantes em férias pelo interior, cuja paisagem se fixou para sempre na tela emotiva do poeta. Daí por que tudo em Alma Cabocla, é tipicamente da sua terra: os quadros da Natureza, com notas de suave e ingênua doçura; o ambiente familiar, com as Nhá Carolas e os Zé Macucos; o trabalho na fazenda com os colonos derriçando café e as festas do arraial vibrando na ruidosa alegria dos seus fandangos. Às vezes, porém, na paisagem rústica, recorta-se um quadro, uma cena que parece ter sido fixada em Lajes, tal é a semelhança de traços com o meio lajeano. São exemplos estes versos alusivos a uma Festa de São João e em que o caboclo aparece dançando de botas e esporas, o que é comum nos bailes improvisados nas fazendas, ou, mesmo, nos pequenos povoados do planalto catarinense, ao som da sanfona que geme até madrugada:

E no sapateio se nota
Aos risos dos que lá estão,
Nhô Lau, de esporas e bota,
Dançando junto à Nhá Cota,
Viúva do Conceição...

Outro aspecto que, muito de corrida, desejo fixar nesta crônica, é o do artesanato do poeta. Tenho o manuscrito da Alma Cabocla, isto é, o caderno em que Paulo Setúbal escreveu os versos que, mais tarde, já em São Paulo, havia de publicar em volume. Fernando Afonso Ataíde, tabelião e jornalista, era amigo íntimo do poeta. E este, ao regressar ao seu Estado natal, entregou-lhe um caderno de grossa capa de papelão revestida de papel vermelho. Era mais que uma simples lembrança: o próprio espírito do amigo que partia, a sua alma de poeta no frêmito dos primeiros vôos. Nesse caderno estavam escritos, ora a lápis, ora a tinta, todos os versos de Minha Terra, primeira parte de Alma Cabocla.

Quando residi em Lajes, entre 1940 e 1942, fiz amizade, ali, com Saul Ataíde se não me engano o filho mais maço de Fernando Ataíde. Saul guardava com todo carinho não só os originais das poesias de Setúbal, como todos os livros que pertenceram ao velho Fernando. Alma generosa, não sabendo recusar nada aos amigos, tão logo percebeu o meu interesse pelos manuscritos, deu-mos com amável dedicatória.

Quem lê a musa cabocla de Paulo Setúbal, tem a impressão de que os versos foram escritos de um só jacto, tal a naturalidade que deles escorre. No entanto, até nesses poemas, em que parece não haver o menor artifício, verifica-se, pelas inúmeras emendas dos originais, que não foi sem esforço que o poeta conseguiu nos transmitir aquela impressão de simplicidade e espontaneidade que nos fica de sua leitura.

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NEREU CORREA
Revista "Leitura", junho de 1958.
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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