9/15/2019

José de Alencar: Perfil Literário (Memória)


José de Alencar: Perfil Literário

A primeira vez que vi José de Alencar foi em 1860.

Estava com os meus onze anos apenas; — nessa idade em que todas as impressões são fortes, violentas; — nessa idade em que despontam para o homem os primeiros raios da poesia. Passava ele por Pernambuco em demanda da província natal, aonde ia buscar as inspirações potentes, que o artista deveria depois transformar na joia conhecida no mundo literário sob o nome de Iracema. É incalculável o abalo que me causou então esse olhar distraído e ao mesmo, tempo brilhante, esse olhar excepcional que todos nós lhe admirávamos, e que denunciava o vidente, em constantes comunicações com os intermúndios do pensamento.

Considero essa data como um acontecimento em minha vida.

Na minha ingenuidade de criança julguei-o mais do que um homem; e, porque o Guarani, primeiro romance que li, já grandes sulcos traçara em meu tenro espírito, pensei que o autor de coisas tão bonitas mal poderia roçar a terra com os pés. Esta circunstância influiu de um modo decisivo sobre a minha vida futura.

Nos meus devaneios pueris nunca entraram nem as ambições gloriosas da palavra, nem os delírios da política, nem as pujanças do dinheiro, nem os arrastamentos das belas artes; parecia-me, porém, que não haveria grandeza superior à de um fazedor de livros, e principalmente de livros como o Guarani. Si parva licet... não sei se em boa hora me veio este anch io son pittore. Ignorava as torturas do ideal, e estava ainda bem longe de pensar nos castigos que a natureza inflige ao audaz que tenta levantar o véu dos seus mistérios. Seja, porém, como for, deste ponto data o meu desvairamento literário. Pudesse tão peregrino engenho ouvir-me da tumba, aonde o deitou para sempre a combustão de um cérebro ardentíssimo, e eu o culparia desassombrado por tamanho crime!

O que é certo é que, depois de 1860, foi-me o vulto daquele homem obsessão constante, nas aulas, nos passeios, no repouso... E ainda agora me recordo do prazer profundo, quase atingindo à idolatria, com que indagava as menores, particularidades de sua vida escolástica, pondo-me a par não só do seu modo de pensar, como do método empregado na composição de suas obras. Essa tenaz cultura da imagem de um artista, pelo decorrer da vida de acadêmico, assumiu proporções incalculáveis.

José de Alencar viveu na minha alma durante essa época com um vigor indizível. Povoava-a inteiramente. A sua imagem absorvia-me, os seus livros roubavam-me as horas mais preciosas; e pensamento que não viesse vazado pelos moldes que lhe eram peculiares, repelia-o meu espírito como ao amargo a boca. Era que o seu estilo fluente e suavíssimo embriaga-me como sutil veneno. Minha alma estava de todo saturada.

O ardente desejo de torná-lo a ver foi enfim satisfeito em 1870. Tinha então o autor de Lucíola abandonado o gabinete 16 de Julho. Fui encontrá-lo no ameno sítio da Tijuca, onde desafogava-se das lutas tão malfadadas, empreendidas por sua titânica inteligência contra mil obstáculos opostos à sua carreira. Para seu espírito de artista este período constituíra uma noite tenebrosa, sulcada por enormes relâmpagos de gênio. De alguma maneira essa noite o extenuara; e foi talvez gérmen de dissabores, para os quais não criara a natureza a alma de quem tão feminilmente traçara os tipos de Ceci,de Carolina, de Diva e outros; dissabores que, como mais tarde agravaram os seus incômodos, tendo antes disto impressos ao seu caratê de romancista direção desconhecida.

Com razão a poesia reconquistava-o; e a sua vingança foi solene, porquanto no remanso deste ócio foi que ele compôs os livros de Senio.

Escrevia ele os Sonhos d'ouro quando aí cheguei, romance que ia lendo à família, capítulo por capítulo, à proporção que os ia compondo. Jovial, como quem acabava de um pesadelo, sua alma mostrava-se desanuviada de todos os pesadumes que por vezes a enegreciam. Pude então ver quão amorável era aquela criatura, e de que recursos para cativar os outros não dispunha o seu coração de poeta.

A Tijuca é incontestavelmente um sítio próprio para ninho de poetas, e dir-se-ia que, graças à amenidade daqueles píncaros, José de Alencar, quando para ali refugiava-se, esquecia-se do mundo. Verdadeiro genuflexório, como ele mesmo a chamou, posto entre a terra e o céu, a Tijuca tinha o mágico poder de transformá-lo, isto é, de obrigá-lo ao seu papel. Seu espírito gentil perdia-se na vastidão da nossa pujante natureza, mergulhava-se nos abismos, nos limbos do pensamento, e, uma vez retemperado, quando voltava, era para trazer-nos, como o mergulhador de Schiller, alguma gema inestimável.

Não descreverei as impressões que experimente nesse dia famoso. Descendo a coisas mínimas, apesar da intimidade, direi mesmo da ingenuidade em que se envolvia aquela alma em ocasiões semelhantes, o ídolo não desceu do altar em que o colocara a imaginação do adolescente. O prestígio aumentava mais e mais, e, a cada particularidade em que seu espírito fértil se projetava, novos e desconhecidos alentos tomava minh'alma. Na volubilidade de uma conversação animada fez-me percorrer todos os repositórios de seu saber, todos os recessos de uma imaginação tropical. José de Alencar tinha desses dias de expansões e quem quer que o encontrasse nessas felizes disposições, podia ver bem de perto a matriz, o veeiro de onde jorravam tão preciosos metais.

Ainda estou bem lembrado de uma frase que ouvi-o pronunciar indolentemente, quando passeava pelas alamedas do pitoresco sítio da Tijuca, assuntando a propósito do mais insignificante objeto que caía sob suas vistas:

— Coisa singular! Ninguém havia de supor, dizia ele, que as imagens mais frequentemente empregadas em seus livros brotavam-lhe da pena quando menos esperava, sem que pudesse determinar em que situação a natureza fornecera-lhe os precisos elementos.

Sem o pensar o autor de Lucíola confirmava, confessava a lei ditada por um eminente crítico moderno, isto é, que a maior parte do gênio consiste em atos inconscientes. Das vulgaridades douradas por sua imaginação passou de súbito para a revelação dos trabalhos de Hércules. Com o mais vivo interesse ouvi então a invocação dos Filhos de Tupã, a descrição da luta entre dois guerreiros selvagens, e uma barcarola mimosa, trecho sublime de um poemeto sobre Niterói que ainda está por publicar.

É inútil referir que surpresa experimentei vendo-o no meio dos seus manuscritos, e quase que, por assim dizer, no momento mais solene da vida do artista — o ato de gestação.

Entrando em seu gabinete de trabalho, não me escapou a observação de quanto ele era avesso à pose. Em torno de si nem um só desses objetos grotescos de que ordinariamente se costumam cercar os fantasiosos.

No seu ninho da Tijuca tudo respirava simplicidade e candura. A natureza e ele.


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ARARIPE JÚNIOR
José de Alencar: Perfil Literário.
Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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