domingo, 29 de setembro de 2019

Os começos de Monteiro Lobato (Biografia)



Os começos de Monteiro Lobato

É muito interessante conhecer as primeiras coisas que um escritor produziu, e ainda mais a "primeira". E tivemos a sorte de descobrir a primeira coisa escrita por Monteiro Lobato e publicada no jornalzinho "O Guarani", dos meninos do Colégio Paulista, na cidade de Taubaté, onde nasceu o nosso escritor. Vamos reproduzir ipsis litteris essa "primeira coisa" — e já de entrada veremos que vem assinada com pseudônimo, uma mania de Monteiro Lobato antes de aparecer "já feito" pelas colunas do "Estado de São Paulo", muitos anos depois. O pseudônimo usado por Monteiro Lobato em seu primeiro artiguinho impresso em jornal foi a palavra "Josbem", de José Bento. Eis o artiguete de "O Guarani":

"RABISCANDO...

Como sofria de insônia, escrevi a um conhecido médico perguntando qual o melhor narcótico que ele conhecia, ao que me respondeu: "Caro Josbem: Há trinta anos que sou médico e sempre tenho empregado como narcótico o ópio, a codeína e outras. Mas há poucos meses, lendo a Enciclopédia do Riso e da Galhofa, encontrei lá a seguinte anedota: EMENDA PIOR QUE O SONETO — Um escritor escreveu no primeiro capítulo dum seu livro — outras coisas; na impressão saiu "oltras coisas"; e o editor pôs na Errata "ostras coisas". Isto é o que se chama emenda pior que o soneto". Ao acabar de ler essa "anedota", um irresistível sono apoderou-se de mim, e quando acordei vi que estava ali um narcótico, mais poderoso que quantos conhece a medicina. Tenho-o empregado com admiráveis resultados em quem sofre de insônia, e é de fácil aplicação, porque basta ler duas ou três vezes. Vou mandar felicitar o Sr. Pafúncio Semicupiu Pechincha, autor de tão maravilhosa descoberta. (Assinado) Dr. Mebsoj". — Nunca empreguei esse narcótico como manda a fórmula desse médico, porque desde esse dia basta lembrar-me das anedotas do tal Pafúncio para que a insônia fuja espavorida". — JOSBEM.

Parece que essa "Enciclopédia do Riso e da Galhofa", da autoria de Pafúncio Semicupio Pechincha, foi um dos primeiros livros que Monteiro. Lobato leu, — e muito se impressionou, porque não só fez dele o objeto de sua estreia na imprensa colegial, como várias vezes o citou mais tarde, em contos e artigos. No conto "O Engraçado Arrependido", dos "Urupês", há este trecho, a propósito do Sousa Pontes, o tal engraçado: "Sabia de cor a "Enciclopédia do Riso e da Galhofa", de Fuão Pechincha, a criatura mais dissaborida que Deus plantou no mundo..." Devia ser terrivelmente dissaborida a tal enciclopédia, edição do velho Garnier, por que Lobato leu-a em menino e dela nunca mais se esqueceu.

Essa "estreia" de Monteiro Lobato na "imprensa" ocorreu em 1896. Tinha ele pois 14 anos — e já prenunciava o escritor de mais tarde. Estilo correntio, conciso e já a contar coisas. Monteiro Lobato nunca fez estilo por estilo, nunca escreveu sonoridades que nada dizem. Sempre procurou contar alguma coisa, ou arrasar com alguma coisa. A sua fúria arrasadora começou muito cedo. Aos 14 anos já arrasava o tal Semicupio Pechincha, que talvez sobreviva apenas através do que Monteiro Lobato disse dele no "Engraçado Arrependido",

A.N.
Revista "Fundamentos", outubro de 1946.
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2016)

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