domingo, 3 de novembro de 2019

Afrânio Peixoto: Guerra com o Paraguai (História do Brasil)



Guerra com o Paraguai

O domínio jesuíta no Paraguai fora memorável experiência, de coesão obediente. Separado de Espanha em 1813, o ditador Francia governa com autoridade; morto em 40, Carlos Antônio Lopez é o novo ditador, até 62, preparado o filho, na Europa, para a sucessão. É Francisco Solano López, que tomou parte na guerra de Rosas, tem grandes bens e sonha uma glória “napoleônica”. Desde 50 o Brasil trata, com a república, livre navegação no Rio Paraguai (nosso acesso a Mato Grosso), que Carlos Antônio López dificulta. No Uruguai, o Presidente Aguirre maltrata a Brasileiros do território neutro: o Governo Imperial protesta e depois da missão diplomática Saraiva, manda Mena Barreto, por terra, com 4.000 homens, e por mar, diante de Montevidéu, o vice-almirante Marques de Sousa, depois Marquês de Tamandaré, exigindo, por ultimatum, cessação dos vexames. Aguirre devolve o ultimatum e os imperiais violam a fronteira, enquanto a frota exercerá represália às violências. Aguirre invoca Solano López, que declara não assistirá impassível à invasão do Uruguai pelos Brasileiros.
Aguirre, exasperado, comete atos de violência contra o Brasil: os Brasileiros invasores, reunidos aos insurrectos Uruguaios, que comanda Venâncio Flores, conseguem as vitórias de Salto e Paissandu. Montevidéu é bloqueada, por terra e mar (65); Aguirre foge para Buenos Aires e outros dos seus parciais refugiam-se no Paraguai. Flores assume o poder, no Uruguai. O vapor brasileiro Marquês de Olinda, que levava para Mato Grosso o presidente Carneiro de Campos, é aprisionado à passagem em Assunção, e ele encarcerado cruelmente (11 de novembro de 64), vindo a morrer, atormentado, em 67. É o começo da Guerra do Paraguai. Ao mando do General Barrios 6.000 homens tomam Nova Coimbra, Albuquerque, Corumbá, Miranda, Nioac e Dourados, ao sul de Mato Grosso.
O Peru, a Bolívia e o Chile declaram-se neutros. Para atingir o Paraguai precisamos do Uruguai e da Argentina, no caminho. Tanto o Brasil como o Paraguai pedem licença à Argentina, para passagem de tropas no seu território, o que é recusado. Mas López invade Corrientes, captura dois navios argentinos e ocupa a margem esquerda do Paraná. Trata-se, então, em Buenos Aires, a Tríplice Aliança, (1 de maio de 65) pela qual a Argentina, o Brasil, o Uruguai, unidos, marchariam contra o Paraguai: o general em chefe será o presidente da Confederação Argentina, enquanto as operações, de nosso lado, tivessem base nesse país; o almirante Tamandaré seria o comandante da esquadra; as despesas seriam dos três governos; a guerra não cessaria senão mudando o governo do inimigo. O Brasil daria o contingente de 45.000 homens; 25.000 os Argentinos, nunca realizados; os Uruguaios eram apenas 1.600. López tinha um exército aguerrido e municiado, de 80.000 homens. Por isso a guerra nos vem a custar cerca de 100.000 homens, durante cinco anos, e 500.000 contos. Os sucessos, até o termo, merecem relevo.
A 11 de junho de 65, na foz do Riachuelo, afluente do Rio Paraná, perto de Corrientes, oito navios paraguaios, rebocando seis baterias flutuantes, desceram a corrente a todo vapor, passaram pela esquadra brasileira, viraram de direção e romperam o fogo. Com oito navios, o chefe de divisão Francisco Manuel Barroso, depois Barão do Amazonas, nascido em Lisboa, enfrenta-os, e inaugura nova tática de ataque, acometendo com o esporão do seu navio, a fragata “Amazonas”, ao inimigo, ato de grande sucesso náutico, perdendo os Paraguaios quatro vapores, seis baterias flutuantes e mais de mil homens: nós apenas perdemos a corveta “Jequitinhonha”, encalhada no começo da refrega. São heróis nossos Pedro Afonso, Greenhalgh e Marcílio Dias.
Contra os Uruguaios entra López, com 12.000 homens, ao mando de Estigarribia e Duarte, que saqueiam São Borja, repelindo Mena Barreto. Flores e Paunero batem Duarte e cercam Estigarribia em Uruguaiana, cortando-lhe a retirada para o Paraguai. Estigarribia e suas tropas entregam-se ao Imperador do Brasil, que, com os genros Conde d’Eu e Duque de Saxe, haviam acorrido ao teatro da guerra (17 de Setembro de 65): é a rendição de Uruguaiana. Por solicitação dos Estados Unidos — a princípio simpáticos aos Paraguaios — o Peru, o Chile, a França e a Inglaterra propõem um termo à guerra, que o Brasil recusa.
Os aliados tomam Corrientes, onde estabelecem base de operações, hospitais, depósitos de munições. Atravessam o Paraná em Passo da Pátria, defronte do forte de Itapiru, que é tomado por forças de Osório e frota de Tamandaré, depois de duro combate, a 25 de abril de 66. A 24 de maio é o triunfo de Osório em Tuiuti. Porto Alegre toma, com 9 mil homens, Curuzu. Curupaiti é um completo revés. José Joaquim Inácio substitui Tamandaré, Caxias é o comandante dos Brasileiros, e, por ausência de Mitre, chamado a jugular a revolta de um dos Estados da Confederação, o chefe dos aliados. Contorna então as linhas fortes de Rojas e avança, por um rodeio de nove léguas, até a margem esquerda do rio Paraguai, impedindo as comunicações do inimigo com a sua capital. Caxias concentra-se em Tuiuti.
O presidente Couto de Magalhães consegue, com os próprios recursos, libertar a sua província de Mato Grosso. A 15 de agosto de 67 a esquadra subia até Humaitá, infranqueável. Os Paraguaios atacam com 9 mil homens, sendo rechaçados pelos nossos, em Tuiuti. Caxias é de novo chefe dos aliados, reclamado Mitre ao sul, onde assassinam Flores, em Montevidéu. Os navios brasileiros, comandados pelo capitão de mar e guerra Delfim Carlos de Carvalho, a 19 de fevereiro de 68, conseguem, corajosamente, franquear a passagem de Humaitá; nesse ato distinguiram-se Jaceguay, Maurity e Custódio de Melo, tomando os nossos o forte do Timbó.
A 22 de março desse ano, o general Argolo toma as linhas de Rojas. Ocupou-se Curupaiti e Osório ataca a fortaleza de Humaitá, retirando-se o inimigo pelo Chaco e entregando-se sem mercê. Caxias segue contra Assunção (26 de agosto de 68), chega ao Tebiquari, sofrendo dos representantes de Inglaterra e dos Estados Unidos violação do bloqueio. Contorna Angostura, acomete os Paraguaios pela retaguarda, vence na Ponte de Itororó, toma Villeta. Mena Barreto toma Piquisiri e Caxias Lomas-Valentinas, fato que determina a rendição de Angostura (30 dezembro de 68). Distinguem-se nesses sucessos Mena Barreto, Andrade Neves, Argolo Ferrão, Antunes Gurjão, Correia da Câmara, Uibúrcio de Sousa. A marcha termina em Assunção (3-5 Janeiro de 69), abandonada; Silva Paranhos instala um governo provisório na Capital do Paraguai, a 15 de agosto de 69. Segue-se a perseguição a López, fugitivo.
Como a guerra se prolongasse e a impaciência pública fosse grande pela terminação dela, o Imperador nomeia general em chefe ao Príncipe Gastão de Orleans, conde d’Eu, que, estudado no terreno um novo plano de campanha, empreende a perseguição dos Paraguaios fiéis ao ditador. Vence em Peribebuí, em Caraguateí, em Campo Grande; López refugia-se nas montanhas. Mandado no seu encalço o General Correia da Câmara, depois Visconde de Pelotas, alcança-o em Cerro Corá, na margem esquerda do Aquidaban, afluente do Paraguai, a 1º de março de 70: recusando entregar-se, é morto pelo soldado Chico “o Diabo”.
Dessa campanha, — em que fomos provocados e tivemos de suportar a aliança, topograficamente indispensável, de Argentinos e Uruguaios, operamos atos de bravura, sofremos privações e epidemias, gastamos meio milhão de contos, derramados no Prata, sem compensação econômica nacional, e sacrificamos uma centena de milhar de brasileiros, voluntários a maior parte, recrutados às vezes, — não há motivo de jactância, mas há a satisfação do benefício produzido: libertamos o Paraguai e a América do Sul de um tirano, que armara os seus Guaranis contra a civilização: pensavam, fanatizados, os que morriam em campanha, ressuscitar em Assunção.

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