domingo, 12 de janeiro de 2020

Apoteose Camoniana (Poesias), de Xavier de Carvalho


A RENASCENÇA
(A Ramalho Ortigão)
A Renascença que foi obra toda humana,
Chamando à vida nova a forte raça ariana,
Co'a pólvora, a imprensa, a bussola e a alquimia,
A Arte a renascer na lira dos poetas,
Copérnico que traça a órbita aos planetas
E Martinho Lutero afirmando a heresia;
Dante que tudo vê com seu olhar de lince,
A “Ceia do Senhor” de Leonardo Vinci
E Masacio que tem “madonas” ideais,
Colombo e Gutenberg e Magalhães e Gama,
Bacon que ensina a vida e Erasmo que proclama
O rubro alvorecer das ciências naturais;
Galileu que nos prova a rotação da terra
E contra quem a igreja ergueu terrível guerra,
Aristóteles que, intransigente e altivo
Foi quem traçou as leis novas da evolução,
Cravou golpe profundo, em cheio, à religião
E em bases afirmou o Credo Positivo;
Magalhães que demonstra a terra como esfera,
Gioto que nos pinta a tela mais sincera,
O feudalismo à morte, as comunas em luta,
A alma das nações erguendo-se fremente
E pouco a pouco, a claro, as lendas do Oriente,
Enquanto o santo ofício as consciências enluta;
Bruno que a igreja queima, afirmando a Verdade,
Miguel Ângelo que achou os tons da realidade
No “Juízo Final” a luz das gerações:
Todo esse renascer das Artes e Ciências
E o rebate febril de todas as consciências,
Resume-se afinal no livro de Camões.


NOS PAÇOS DA RIBEIRA
(A Manoel Duarte de Almeida)
E Camões recitava! Em frente dele
A Princesa Maria, em fundo pasmo
Escutava vibrante de entusiasmo
Versos cheios de amor, ciúme e fel.
A corte envolta recolhida e atenta
Ouvia esses sonetos delicados,
Onde a Paixão brilhava violentaE
 a alma se partia em mil bocados.
E Camões recitava!
Dos seus versos,
Com paisagens e largos céus diversos,
Evolava-se o aroma da violeta...
E entre o grupo dos pajens e das damas
Sanguineamente como duas chamas,
Dominavam os olhos do poeta.
NATÉRCIA
(A João de Deus)
Era em seus olhos duma luz magoada
Que ele sentia palpitar a vida,
Natércia! a virgem branca e dolorida,
A alma da sua alma, a bem-amada!
Era em seus lábios de escarlate vivo,
Eflorescentes de carícia e lava,
Que o coração do poeta se abismava
Como num banho de perfume ativo.
Foi assim que ele a amou liricamente,
Ora em sonetos de paixão fremente
E éclogas cheias de saudade triste;
E assim lhe disse o derradeiro adeus,
Ao vê-la erguer-se aos luminosos:
“Alma minha gentil que te partiste.”


O EPISÓDIO DE INÊS

(A Ferreira de Brito)
Há não sei que de místico e suave
Nesse vulto amantíssimo de Inês:
Manhãs de abril e sinfonias de ave,
O luar calmo e o verde céu inglês.
Delicada! em instantes de sossego
Decorria-lhe a vida em tons dolentes,
Entre arrulhos de amor! sonhos fulgentes!
“Nos saudosos campos do Mondego.”
Inês! ninguém melhor descreveria
Como Camões, em ondas de harmonia.
Esse poema de paixão querida,
Em que passaste a eflorescente vida,
“Aos montes ensinando e às ervinhas”
”O nome que no peito escrito tinhas...”


O ADAMASTOR
(Ao Conde de Sabugosa)
Á flor das ondas, tenebrosamente
Entre o rugir dos fortes vendavais
Olhando os oceanos frente a frente,
Como um monstro das lendas medievais;
O Adamastor erguia-se inclemente
Invectivando em maldições fatais:
Gama que busca um novo continente
E ri das coisas sobrenaturais.
Entretanto quem era esse fantasma,
Que ao ver a frota Portuguesa pasma
E diz frases vibrantes de crueza?
Ele era o Antigo Espírito que absorto
Via o “maravilhoso” extinto e morto,
E o Homem dominando a Natureza.


ILHA DOS AMORES
(A Fialho de Almeida)
Há nesses versos ruivos e frementes
Todos feitos de sol e de impureza
A fulva cor nervosa das serpentes
E um vago sonho de gentil duquesa.
Em cada frase de uma sereia ou deusa

E em cada riso de tritões ardentes:

Descubro ondas de carne onipotentes

E escuto o grito audaz da Natureza.
Camões! há nos teus versos enseivados,

Beijos que ferem, seios inflamados

E a mulher toda nua, exposta ao sol.
E ao ler essas estrofes cor de lava,

Sinto a minh'alma alucinada e brava,

Entre um incêndio enorme de arrebol.


LONGE DA PÁTRIA
(A Camilo Castelo Branco)
Rasgando as ondas cruas, braço a braço

Com mil perigos e cruéis tormentos;

Ralado de desgosto e de cansaço

À chuva! à neve! aos vendavais! e aos ventos!
Em frente aos soes que estouram violentos,

Arremessando ondas de luz ao espaço;

Horizontes em brasa! céus cinzentos!

— Nada receia aquele peito d'aço!
E do rio Me-Khong as fundas águas,

Ouvindo ao longe as soluçantes mágoas

Dum povo ilustre na história humana;
A manso e manso, afrouxam a corrente,

Para que ele pudesse epicamente

“Cantar a gente ilustre lusitana!”


O JAU
(A Xavier Pinheiro)
Enquanto o povo, em bando, escalavrado e roto,

Cantava pela rua os Salmos da Agonia

E a nação moribunda era um profundo esgoto,

E a História se tornou em trecho d’elegia,
A pátria cruelmente arruinada e exangue,

Sem família, sem lar, sem amigos, sem pão,

No horizonte somente a lama, o luto e o sangue,

Em toda a parte a raiva e a desesperação;
O luminoso poeta, a alma aventureira,

Que atravessou cantando uma existência inteira,

A lutar pelo bem e a destruir o mau:
Achou na hora final, em vez de coroa etérea,

Num leito de hospital a enxerga da miséria

E por único amigo um pobre negro: — o Jau.


OS LUSÍADAS
(A Queiroz Veloso)
Epopeia de luz! os seus versos vermelhos

Como agudos punhais, rubros ao sol da glória,

São as Taboas da Lei, os nossos Evangelhos

E o poema triunfal de toda a nossa história.
Por isso hão de passar as eras sobre as eras,

Os séculos sem fim num desfilar escuro

E esse livro será a luz das primaveras,

Que nos indicará as praias do futuro.
E num áureo fulgor de chispas diamantinas,

Centos d'anos depois ainda essa epopeia

Em nós acordará a mais vibrante ideia.
E se o povo cair exausto entre ruínas,

Ó Lusíadas! ó Bíblia aberta par em par,

Os nossos corações farás ressuscitar.


NO TRICENTENÁRIO DE CAMÕES
(A Teófilo Braga)
Se aqui pudesse vir Camões, nestes instantes,

Da campa onde repousa há já trezentos anos,

Se aquela rude mão que fulminou tiranos

E sustentou cruéis batalhas de gigantes,

Pudesse ainda agitar em crispações vibrantes

O velho Portugal de heroicos puritanos;
E visse como o altivo estandarte das quinas

Tremula esfarrapado ao riso do estrangeiro,

As terras de além-mar vendidas a dinheiro,

A pátria toda em lama, em trevas, em ruínas,

As grandes tradições no fundo das sentinas

E o soluço final dum povo aventureiro;
Ele, o imortal poeta, e velho combatente,

Sonoro coração cheio de amor e glória,

Alma toda febril, vastíssima, marmórea;

O guerreiro fatal que, erguendo um bravo ardente,

Escreveu co'a espada o livro aurifulgente

Onde em letras de luz fulgura a nossa história:
Nesse instante talvez, espectro desolado!

Chorando amargamente o seu velho país,

E não vendo da glória o fúlgido matiz

Engrinaldar enfim o nosso lar sagrado,

Deixava-se outra vez morrer abandonado

Batido de vergonha, extático, infeliz!
Mas contra toda essa atroz miséria hodierna,

Vibrai sonoramente! ó almas de leões,

E ergamos todos nós, em nossos corações,

Ao clarão triunfal da religião moderna,

Um sacrário febril de imensa luz eterna,

Em que o Futuro adore o vulto de Camões.

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