domingo, 19 de janeiro de 2020

Balada do Enforcado, de Oscar Wilde


BALADA DO ENFORCADO


In Memoriam
C.T.W.
Ex-soldado da cavalaria da Guarda Nacional
Executado
na Real Prisão de Reading, em Berkshire
a 7 de julho de 1896.

O.W.

I
Ele não trajava mais o seu uniforme vermelho, porque o sangue e o vinho também são vermelhos. E sangue e vinho lhe tingiam as mãos, quando o encontraram junto da morta, a pobre mulher morta, sua amante, que ele assassinara no próprio leito.

Com a sua roupa cinzenta e esgarçada caminhava entre os condenados. Tinha à cabeça um gorro de jogar críquete, e o seu andar parecia ligeiro e satisfeito. Mas nunca vi alguém olhar tão intensamente a luz do dia.

Nunca vi um homem com tão intenso olhar, fitando assim a pequena tenda azul, que os prisioneiros chamam céu, e cada nuvem flutuante que além vogava, desfraldadas as velas de prata.

Eu o via do pátio contíguo, onde me achava com outros desventurados. Estava a imaginar que falta, leve ou grave, seria a desse infeliz, quando uma voz, por traz de mim, segredou: “Aquele vai ser enforcado!...”

Que horror, santo Deus!... Os muros da prisão estremeceram de súbito, a meus olhos, e o firmamento tornou-se qual ígneo capacete de aço. E, conquanto minha alma estivesse imersa em profundo pesar, tal foi a minha angústia, que, naquele instante, ela nada sentiu.

Compreendi, então, que negro pensamento inexorável o perseguia, apressando-lhe o passo, e porque era que ele contemplava com olhar tão intenso a fastidiosa claridade do dia: o desgraçado assassinara a mulher amada, e, por isso, devia morrer também!

Mas todos matam o que amam... Alguns (que ninguém deixe de saber!...) o fazem com um olhar de ódio; outros, por meio de palavras carinhosas; o covarde, com beijos; o homem corajoso, empunhando uma arma...

Uns matam o amor, quando são moços; outros, depois de velhos; vários o estrangulam com as mãos do desejo; muitos, com as do ouro. Os melhores servem-se de punhal, pois os mortos esfriam depressa.

Há quem ame muito, e há quem ame pouco. Este vende o amor, este outro o compra. Aquele, ao praticar o mal, derrama copioso pranto, aquele outro o faz, sem um suspiro de compaixão. E todos matam o que amam, e ninguém e por isso condenado a morrer!...

Quem assim procede, não morre de morte infamante, em dia de negra desventura; não tem o nó corredio em volta do pescoço; nem ao rosto a máscara; ainda menos sente, no patíbulo, o vácuo sob os pés.

Não permanece no meio de homens silenciosos, que o vigiam noite e dia; que o vigiam, quando tem vontade de chorar ou quando tenta rezar; que incessantemente o vigiam, temendo que ele roube ao cadafalso a sua presa.

Não desperta, pela madrugada, com o rumor que fazem, ao entrar no seu cubículo, homens de sinistra catadura: o Capelão, de branco, todo tremulo; o Xerife, austero e cheio de compunção; e o Governador do presídio, de preto e cerimonioso, com o lívido semblante do Juízo Final.

Não se levanta às pressas do seu grabato — pobre homem! — para tornar a vestir o uniforme dos galés, enquanto o médico, sem deixar de fitá-lo atentamente, anota cada um dos seus gestos e contrações nervosas, olhando de vez em vez para o relógio, cujos leves tic-tacs soam como surdas pancadas de um martelo horrível.

Não sofre a angustiosíssima sede, que abrasa? garganta do condenado, ao aproximar-se a hora em que o carrasco, asperamente enluvado de couro, virá manietá-lo com três correias finas e longas para que ele nunca mais tenha sede.

Não inclina a cabeça, para ouvir a litania do ofício dos mortos. E, enquanto o terror da sua alma lhe assegura que ainda vive, não cruza com o seu próprio esquife, ao entrar no horroroso local do suplício.

Não volve ao céu o derradeiro olhar através da pequenina claraboia; não implora a Deus, com lábios de argila, que a sua agonia finde; e não sente na face o gélido beijo de Caifás.

II
Vestido com a sua roupa cinzenta e esgarçada, caminhava entre os condenados. Tinha à cabeça um gorro de jogar críquete, e o seu andar parecia ligeiro e satisfeito. Mas nunca vi alguém olhar tão intensamente a luz do dia.

Nunca vi um homem, com tão intenso olhar, fitando assim a pequena tenda azul, que os prisioneiros chamam céu, e cada nuvem que errante passava, longe, arrastando a fulva cabeleira crinisparsa.

Ele não torcia as mãos, como fazem esses insensatos que ousam tentar reviver a esperança, no antro do negro desespero. Limitava-se a olhar para o sol e haurir o ar da manhã.

Não torcia as mãos; não chorava, nem mesmo se lamentava. Apenas bebia o ar, como se nele encontrasse alguma virtude anódina. Bebia o sol, a longos haustos, como se o sol fosse vinho.

Eu e os meus companheiros de infortúnio, que passeávamos no pátio contíguo, chegávamos a olvidar nossas próprias misérias, e os crimes de que éramos culpados, observando com olhares de estúpido pasmo o homem que ia morrer.

Como era estranho vê-lo passear, com um andar ligeiro e satisfeito! vê-lo contemplar tão intensamente a luz do dia! e ao mesmo tempo dizer que ele tinha uma dívida tamanha a pagar.

O carvalho e o olmo são árvores de ramagem deleitosa, frondescendo ao contato da primavera. É horrível, porém, ver a árvore do Cadafalso, com a raiz mordida pelas víboras más; verdejante ou ressecada, nela um homem deve morrer, antes que ela dê o seu fruto.

O mais alto lugar é a sede da Graça Divina, para onde todos os esforços humanos convergem. Quem desejaria achar-se, entretanto, com a sua gravata de cânhamo, no alto de um pelourinho, e através desse colar de assassino volver o derradeiro olhar ao firmamento?

É deliciosamente agradável dançar ao som dos violinos, flautas e alaúdes, quando o amor e a vida nos são propícios... Mas não é suave dançar com agilidade no espaço.

Enquanto nos acudiam tais pensamentos, observávamos o mísero, e fazíamos extravagantes suposições. Quem nos diz que o nosso fim não será idêntico ao dele? Ninguém sabe até que inferno de horrores sua alma cega pode transviar-se...

O homem que ia morrer deixou finalmente de passear em companhia dos outros miseráveis... Disseram-nos que já estava no acanhado e lobrego cubículo, para onde se transferem os condenados à morte, antes do momento fatal... E eu soube que nunca mais tornaria a vê-lo, neste doce mundo do Senhor!... Nunca mais!...

Como dois navios em perigo, que passam na tormenta, cruzamo-nos um dia na vida. Nenhum sinal trocamos; nenhuma palavra dissemos. E não havia palavra a dizer, porque não nos tínhamos encontrado no seio da noite redentora, mas num dia de opróbrio.

Ambos estávamos cercados pelos muros de uma prisão, e ambos éramos dois Deserdados da Sorte... O Mundo repelira-nos de seu seio, e Deus de Sua Solicitude... O laço que se arma para apanhar o Pecado, colhera-nos em suas malhas. ..

III
O pátio da antiga Prisão por Dívidas tem as lájeas carcomidas. Transudantes de umidade, porejam os muros altíssimos que o cercam. Era aí, sob o cálido céu, que ele arejava, e tinha sempre um guarda em cada flanco, por lhe obstar o suicídio.

Às vezes, costumava sentar-se entre aqueles que lhe vigiavam a agonia; que o vigiavam, quando se levantava para chorar ou quando se ajoelhava para rezar; que o vigiavam a todo momento, receando que ele roubasse ao patíbulo a sua presa.

Duas vezes por dia, fumava no seu cachimbo, esgotava um caneco de cerveja... Sua alma estava tão cheia de resolução e firmeza, que, em nenhum dos seus íntimos recessos, abrigava o medo... Em certas ocasiões ele chegava mesmo a dizer que se sentia contente por ver próximas as mãos do carrasco.

O Governador citava os artigos do Regulamento: o Doutor dizia que a morte não era senão um fato científico, e duas vezes por dia vinha o Capelão, e deixava um pequeno livro.

As suas expressões eram singulares, mas os guardas não ousavam interrogá-lo. Quem aceita por missão vigiar encarcerados, deve fechar a boca a sete chaves, e afivelar ao rosto a máscara da impassibilidade.

Se assim não fizer, poderá comover-se, e a que viria nesse covil a piedade humana? Que palavra de esperança poderia socorrer, nesse lugar, a alma de um irmão?

Realizávamos a procissão dos loucos, rodeando o pátio, em marcha lenta e cadenciada... Não nos importava celebrar essa ridícula cerimônia tradicional, pois bem sabíamos que éramos a própria brigada do diabo, e que homens de cabeça raspada e pés acorrentados formam alegre mascarada.

Quebrando as unhas e ensanguentando os dedos, desfiávamos cordas alcatroadas; esfregávamos as portas das masmorras; limpávamos os tetos; areávamos os luzentes varões; e, por turmas, ensaboávamos os assoalhos, fazendo grande ruído com os baldes d’água.

Também cosíamos sacos; quebrávamos pedras; batíamos no chão com as gamelas onde comíamos, desentoávamos os hinos religiosos; e enfim suávamos, fazendo mover a roda do moinho... Alegremente executávamos todos esses bárbaros e pesados serviços, a que éramos coagidos, para adormecer o terror, tranquilamente, dentro do coração.

E conseguimo-lo, por momentos. Tão calmo repousava ele, que os dias vogavam serenos, como uma balsa levada ao sabor da corrente... Estávamos como que olvidados do tenebroso destino que aguarda os réprobos, quando, de uma feita, ao regressar do fatigante trabalho, passamos junto a uma cova recém-aberta.

Com a goela hiante, voraz, a cova amarela bocejava, esperando o seu alimento. A própria lama exigia sangue ao asfalto corroído. E soubemos que, antes de loirejar entre nuvens a aurora, um de nós, pendente da forca, dançaria no espaço...

Hirtos e solenes, entramos, com a alma atenta à morte, ao espanto e ao destino. O carrasco passou, arrastando os pés, com o seu saco de ferramentas... Cada preso tremia, ao entrar para o seu túmulo numerado.

Por toda aquela noite, os fantasmas do medo povoaram os corredores vazios... Na cidade de ferro, de cima a baixo, sentiam-se passos furtivos, que se não podiam ouvir... Pelas grades de ferro, que ocultam as estrelas, rostos lívidos pareciam espiar curiosamente.

Só ele repousava, tal quem adormecesse, deitado sobre a macia relva de um prado, e alegremente sonhasse. Os guardas velavam-lhe o sono, e não compreendiam como é possível dormir tão sossegado, estando o carrasco tão perto.

Os que choram por quem jamais soube o que era chorar, esses não podem conciliar o sono... Por isso, nós outros, os desventurados, passamos em claro aquela noite de infindável angústia... Cada qual sofria mais cruciantemente, ao recordar a dor imensa que devia estar a torturá-lo...

Ah! é horrível padecer por outrem! O sofrimento retalha-nos a alma, cravando, até ao punho, a envenenada lâmina do seu gládio. Foram, então, como chumbo derretido as nossas lágrimas, vertidas pelo sangue que não derramamos. Na sua ronda noturna, calçados molemente de feltro, espiavam os guardas para dentro das enxovias, pelos postigos gradeados... Com olhar de espanto e pavor, avistavam aquelas fôrmas indecisas, genuflexas no chão... E interrogavam-se uns aos outros, como era que orávamos por quem jamais orara!...

Passamos toda a noite ajoelhados, em oração — dementes conduzindo o luto de um cadáver. As plumas agitadas pela noite, ondeando na sombra, eram como os penachos de um carro fúnebre. E o sabor do remorso era tal o de um vinho acérrimo, dado a beber por uma esponja.

Ouviu-se o canto dos galos, purpúreos ou cinzentos, mas a aurora não despontou. Nos ângulos da nossa prisão se agachavam os fantasmas oblíquos do Terror. Dir-se-ia que, cingido pelas trevas, cada qual doidejava nesse campo obscuro!

Passavam e repassavam... Deslizavam rapidamente, como viajantes em manhã de nevoeiro... Bailando, saltando, subindo, descendo, deslocando-se, fazendo mil contorções, cada qual mais sutil, fingiam os raios da lua, coando-se através da folhagem do arvoredo... Na cadência dos seus passos cerimoniosos, com trejeitos e esgares, vinham chegando ao mesmo ponto de reunião.

Com esgares e gestos funambulescos, vemo-los quais sombras impalpáveis, dando-se as mãos!... Girando, girando, em grande ronda fantástica, dançaram todos eles uma sarabanda... Os passos de dança desses arlequins do diabo tão floreados eram, tão caprichosos, que semelhavam os arabescos impressos pelo vento na areia.

Com piruetas de autômatos, dançavam agilmente os espectros. Soprando nas flautas do medo atordoavam-nos mais e mais, ao celebrar aquela horrenda mascarada... Cantavam ruidosamente, longamente cantavam, porque o faziam para despertar os mortos...

“Oh! Oh! — bradavam eles — o mundo é vasto, mas os homens coxeiam, sob grilhões. Se o jogo dos dados, uma vez por outra, é um recreio gentil, nunca espere ganhar quem se aparceira com o Pecado, no mistério do seu lupanar”.

Esses ridículos seres, que com tanta alegria pinoteavam, não eram de modo algum formas aéreas. Para nós, que tínhamos a existência acorrentada, e cujos pés não podiam caminhar em liberdade, ah! pelas chagas de Cristo! eram vivos e bem vivos, e de horrendo aspecto!...

Rodando... rodando... valsavam e redemoinhavam... Alguns, cheios de afetação, giravam aos pares... Outros, com a seriedade pretenciosa dos seus passos, galgavam as escadas. E todos eles, com finos sarcasmos e carinhosas olhadelas, chegavam a imiscuir-se nas nossas preces...

O vento da madrugada começou a gemer, mas a noite seguia o seu curso... Lenta... lentamente, fio a fio, uma a uma, até a última, as trevas urdiram todas as malhas do manto colossal... Enquanto orávamos, temíamos a justiça do sol!...

O vento gemedor veio errar em torno do presídio, até que, tal qual uma roda de aço a girar, sentimos os minutos penetrando-nos o ser. O vento gemedor, qual foi o nosso crime, para termos tal carcereiro?

Assim como se veem as coisas mais horrorosas, através do cristal de um sonho, vimos a corda de cânhamo pendente do pelourinho... E ouvimos o começo da prece, que o laço do carrasco abafou, num grande clamor...

A dor, abalando o condenado, foi tão grande que o fez soltar aquele angustiosíssimo grito. Ah! ninguém lhe conheceu tão bem, como eu, o remorso despedaçador e os suores de sangue. Porque lodo aquele, que vive mais de uma vida, também deve morrer mais de uma morte.

IV
No dia em que se executa um réu, não se diz missa no presídio. O sacerdote tem o coração enfermo, o rosto lívido e, em seus olhos, vê-se escrito o que ninguém deve ler...

Por esse motivo ficamos encarcerados até quase meio-dia. Quando o sino bateu, vieram os chaveiros abrir os cubículos, um por um, fazendo retinir as grandes e pesadas chaves. Antes de abrir, espiavam pelo orifício da fechadura... Então, cada qual saiu do inferno em que jazia sozinho, e todos descemos pesadamente as escadas de ferro...

Fora das masmorras, no pátio, respirávamos o bom e puro ar do Senhor. Não era, todavia, como costumávamos fazer nos demais dias... O rosto de um estava branco de medo; sombrio era o de outro. E eu nunca vi homens tristes contemplar tão intensamente a luz do dia!...

Nunca vi homens tristes, com tão intenso olhar, fitando assim a pequena tenda azul, que os prisioneiros chamam céu, e cada nuvem que no alto passava, indiferente na sua venturosa liberdade.

Alguns passavam cabisbaixos. Esses sabiam que, se cada qual sofresse a pena merecida, também eles deveriam morrer... O outro assassinara uma coisa viva, ao passo que eles haviam assassinado uma coisa morta...

A sombra dos varões de ferro, enxadrezados, projetou-se, enfim, na parede caiada, fronteira ao meu grabato. Ah! nesse momento eu soube que, em certo lugar do universo, a aurora do Senhor, em vez de loura e rosada, é cor de sangue e terrível.

Às seis horas da manhã varremos os nossos cubículos. Às sete, tudo repousava em sossego. Mas um sopro fremente de poderoso voo parecia agitar a prisão, como se um pássaro colossal tatalasse invisivelmente as grandes asas... É que a deusa sinistra da morte, de hálito glacial, nele havia penetrado para matar!...

O desgraçado passou... Não vestia púrpura deslumbrante nem cavalgava um ginete, alvo como o luar... Três metros de corda e um nó corredio — eis tudo quanto exige a forca.

Estávamos como alguém que, atascado num paul, caminhasse a esmo, tateando a sórdida escuridão. Não ousávamos balbuciar sequer uma prece, nem dar livre curso à nossa angústia. Alguma coisa jazia dentro de nós. Era a esperança.

A justiça humana segue direito seu caminho, sem dele se desviar uma única polegada... Ela tanto fere o forte, como o fraco... Sua marcha é implacável. .. Com o seu calcanhar de ferro, a monstruosa parricida esmaga o forte!...

Esperávamos que soassem oito horas. Tínhamos a língua espessa e ressequida. O bater das oito era o golpe do destino, que torna maldito um homem. E o destino emprega um nó bem corredio, tanto para o melhor como para o pior dos homens.

Nada mais tínhamos a fazer, que esperar pelo sinal anunciado. Semelhantes a rochedos fincados num vale deserto, ali estávamos quedos e mudos. Mas o nosso coração batia precipite, como um doido rufando um tambor.

De súbito, o relógio da prisão abalou o ar fremente... De todo o presídio elevou-se, então, uníssono gemido de impotente desespero, tal o grito que se escutasse, soltado por algum leproso no seu antro.

Quem peca pela segunda vez, desperta uma alma já morta para a dor, e arranca-lhe o sudário manchado, fazendo-a verter — mas em vão! — densas gotas de sangue.

Como sonâmbulos, caminhando inconscientemente, automaticamente, passeávamos na ponta dos pés, em volta do pátio acimentado. Caminhávamos silenciosos, em grande moda, e ninguém proferia uma palavra.

Rodávamos o pátio, em silêncio. Em cada cérebro vazio turbilhonava a memória das coisas horrendas, como um vento forte redemoinhando no ar... O pavor surgia em nossa frente, e sentíamos o terror coleando por traz de nós.

Os carcereiros pavoneavam-se, aqui e ali, guardando o seu rebanho de feras. Garbosos, ostentavam o fardamento novo dos domingos. Mas, pela cal viva grudada à sola das suas botas, bem sabíamos a que cerimonia haviam assistido.

No lugar em que fora aberta a cova, já nada mais se via. Denunciava-a, apenas, um montículo de terra e areia, junto ao horrendo muro da prisão, e um pouco de cal viva, para que o réprobo tivesse um sudário.

Aquele desventurado tem uma mortalha, como bem pouca gente pode desejar. Lá embaixo, bem no fundo do pátio de um Presídio, ele jaz, nu, completamente nu, para sua maior vergonha, envolto num lençol de chamas.

Pelo tempo adiante, a cal devorar-lhe-á a carne e os ossos. Durante a noite, roerá os ossos rijos; e, de dia, a carne tenra. A cal viva come sucessivamente carne e ossos. Mas, também, devora sem cessar o Coração.

Durante três longos anos, não se semeará, nem se plantará, naquele sítio. Durante três longos anos, o lugar maldito conservar-se-á estéril e limpo, fitando o Céu, pasmo, com um olhar sem reproche.

Os homens cuidam que o Coração do assassino corrompe qualquer semente, que sobre ele se plantar. Mas, não é exato. A benemérita Terra de Deus é mais generosa do que se pensa. Ali, naquele terreno, a rosa vermelha, mais vermelha ainda desabrocharia, e a rosa branca, mais branca, mais imaculada.

De sua boca nasceria, talvez, uma rosa encarnada, rubra, purpúrea. De seu Coração, outra brotaria, branca, alvíssima de neve. Quem poderá dizer de que maneira estranha Nosso Senhor Jesus Cristo manifesta Sua Santa Vontade, depois que se viu o cajado seco de humilde Peregrino florescer à vista dum grande Papa?!...

***

Mas, nem a rosa alvíssima de leite, nem a rosa escarlata, podem florir, respirando o ar duma masmorra. Ali, só pode haver seixos e pedras... Os Homens da Lei sabem que, muitas vezes, as flores têm acalmado o Desespero de um homem de coração simples...

Por isso, nunca, jamais, nem a rosa cor de vinho, nem a rosa cor de leite, cairão despetaladas sobre esse pedaço de terra e areia, junto ao muro do Presídio, para dizer às pessoas, que passarem pelo pátio, que o Filho de Deus morreu por todos nós.

***

Não obstante — mesmo morto e enterrado ele continuará ainda, como outrora, cercado pelos pavorosos muros da Prisão, e que ninguém venha chorar, ou rezar, por quem jaz em terreno tão ímpio:

O Miserável repousa em paz, ou em breve repousara. Nada há ali que possa amedrontá-lo. O Terror não passeia de dia, por aquele sítio, pois a Terra, sem claridade, em que ele descansa, não tem Sol, nem Lua.

Eles o enforcaram, como se enforca um animal! Nem sequer mandaram dobrar o sino, lugubremente, de modo a dar algum sossego à sua Alma aterrada!... Levaram-no precipitadamente, e trataram logo de ocultá-lo dentro dum buraco.

Despiram-lhe toda a roupa, e o abandonaram às moscas! Caçoaram da sua garganta entumecida e arroxeada, e dos seus olhos puros e fixos. Com grandes gargalhadas o envolveram no lençol com que costumam amortalhar os condenados.

O Capelão não se ajoelhou à beira desse tumulo infamado. Também não o assinalaram com a bendita Cruz que Jesus Cristo deu aos Pecadores, justamente porque o Morto era um daqueles, para cuja salvação Nosso Senhor baixou à Terra.

Tudo está perfeitamente bem. Ele transpôs as fronteiras conhecidas da Vida. Por ele, lagrimas de estranhos encherão a Urna da Piedade, há muito quebrada... A h! porque serão os Réprobos que hão de chorá-lo, e os Réprobos nunca deixam de chorar!...

V
Ignoro se a Lei tem, ou não, razão. A única coisa que nós, os Condenados, sabemos, é que os muros da Prisão são sólidos; e que, cada dia que se passa, é como se fosse um ano, mas um ano de longos dias infindáveis. Eu, porém, sei mais o seguinte: Todas as leis que os homens têm feito, desde o dia em que o primeiro dentre eles tirou a vida a seu irmão, e que o Mundo da Aflição começou, todas elas desperdiçam o que é bom, e só conservam o que não presta.

Sei ainda (Ah! como seria bom se todos pudessem também sabê-lo!) que, cada Prisão que se edifica, e construída com os tijolos da Infâmia, e cercada de férreos varões, com receio que Jesus Cristo veja como os homens mutilam seus próprios irmãos.

Por meio de grades, eles desfiguram a Lua graciosa, e cegam o bom Sol. E fazem muito bem em ocultar o seu Inferno, pois, lá dentro, ocorrem coisas que não deveriam de ser vistas, nem pelo Filho de Deus, nem pelos filhos dos homens.

As ações mais vis, à semelhança de ervas venenosas, espalham-se pelo ambiente da Prisão. Só o que o Homem tem de bom, é que ali se esgota, se aniquila. A pálida Angústia vela à porta. O carcereiro e o Desespero.

Porque eles amedrontam as crianças, fazem-nas sofrer fome, até que chorem noite e dia. Flagelam o Fraco; açoitam o Idiota; zombam dos Velhos cobertos de cãs. Alguns enlouquecem; todos se tornam piores; e ninguém pode murmurar sequer.

Cada estreito e escuro cubículo, que habitamos, é infecta e lôbrega sentina. O hálito fétido da Morte viva empesteia o respiradouro. Ali, tudo, exceto o Desejo, reduz-se a pó, na Máquina Humana.

A água salobra, que bebemos, vem cheia de nauseabundo limo; o pão, que pesam com meticuloso cuidado, é misturado com cal e gesso. Ali, o Sono nunca se deita: caminha com olhos esbugalhados, implorando o Tempo.

***

Apesar de se ver, constantemente, o magro Espectro da Fome e o lívido Fantasma da Sede, pouco caso se liga ao tratamento que dão no Presídio. O que gela e mata inteiramente, é que, cada pedra que levantamos durante o dia, à noite se transforma no nosso próprio Coração.

Com as sombras da Meia-Noite pairando eternamente no Coração, e o crepúsculo no cubículo, cada qual, no seu Inferno separado, desfia a corda alcatroada, que lhe dão por tarefa, e faz girar a roda... Então, o Silêncio amedronta mais que o som dos sinos de bronze!

Jamais voz humana alguma de nos se aproxima, para nos consolar com doces palavras. O olhar, que a todos os instantes espia pelo ralo, é impiedoso e duro. Esquecidos do resto do Mundo, apodrecemos, tendo o corpo e a Alma gastos.

Aviltados e sós, enferrujamos, desse modo, a cadeia de ferro da Existência. Alguns, proferem maldições; outros, choram; muitos não deixam escapar o menor gemido. Mas as Leis Eternas do Senhor são indulgentes, e partem o coração empedernido.

***

Cada Coração que se parte no pátio ou no cubículo duma Prisão, é como aquela caixinha quebrada, que deu o seu tesouro a Deus, e encheu a habitação do lazaro com os perfumes do nardo mais precioso.

Felizes aqueles cujos Corações podem partir-se e ganhar a paz do Perdão! De que maneira o Homem poderia executar o seu plano, e purificar a Alma do Pecado? Onde, senão num Coração partido, poderia Jesus Cristo penetrar?!...

***

O Homem de garganta entumecida e arroxeada, e de olhos puros e fixos, espera as Santas-Mãos que receberam o Bom-Ladrão no Paraíso. O Senhor não despreza o Coração partido e contrito.

Os Juízes concederam-lhe três semanas de vida, só três pequenas semanas, para que ele curasse a Alma do desacordo em que estava consigo mesma, e purificar da mais leve gota de sangue a mão que empunhou a arma homicida.

Com lágrimas de sangue, ele purificou-a — a mão que manejara o ferro. Só o sangue pode apagar o sangue. Só as lágrimas podem curar. E a mancha vermelha, que era de Caim, mudou-se no selo alvíssimo de Jesus.

VI
No Presídio de Reading, perto da cidade, existe um túmulo infamado. Dentro dele jaz um miserável, devorado pelas línguas das chamas, envolto num lençol ardente. Esse túmulo não tem inscrição alguma.

O Enforcado aí repousará, até que Jesus Cristo chame os Mortos, no Dia do Juízo Final. Não e preciso prodigalizar lágrimas, nem soltar suspiros abafados. O Homem matou a quem amava, e por isso teve que morrer.

No entanto, todo o mundo mata o que ama. Alguns (que ninguém deixe de sabê-lo!...) o fazem com um olhar de ódio; outros, por meio de palavras carinhosas, o covarde, com beijos; o homem corajoso, com um ferro.

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