domingo, 19 de janeiro de 2020

Luís Delfino - Livro "Atlante Esmagado"




A GRANDE LÁGRIMA

Ignari hominumque locorumque...

Virgílio — Eneida

Vem. Há uma ilha ignota
Para mim e para ti:
Palácios em cada grota,
Muita luz no sol que ri...

Multa alegria em teus olhos,
Muita testa em cada flor:
A vida um mar sem escolhos
À sombra de nosso amor.

Enchendo o espaço, cobrindo
De almo alvoroço e prazer
O sol do teu rosto lindo,
Que tudo faz esplender.

Minha alma as asas abertas,
Fremindo nas tuas mãos
Por essas praias desertas...
Os corações — dois irmãos...

A vida um hino eviterno
Em duas liras num som:
Dois numa barca ao galerno...
Ai! como isto tudo é bom!

Mas olha: deixa a cidade,
Fujamos, fujamos já:
Beba-se até à ebriedade
Os raios de ouro, que inda há

Dentro da taça da vida...
Que não o veja ninguém:
O gosto bom da bebida
Às últimas gotas vem.

Como duas borboletas
Brinquemos num vale a sós:
E o próprio vale, se isto aceitas,
Que inveja vai ter de nós!

Vamos. — No bosque vizinho
Arrulham as juritis...
Vou lá fazer nosso ninho:
Vem: olha, vais ser feliz.

Tu, lá chegando, adivinha...
Há conspiração geral:
Hão de aclamar-te rainha
Todo o bosque e todo o val.

Ouvirás as sinfonias
Das palmas e dos rosais:
Fauno a dar-te alto os bons dias,
E a dar-te baixinho os ais...

Prepara-te, foge, voa...
Não cismes, que então não vens:
Guarda-te a aurora uma coroa
De lírios, rosas, cecéns.

Um lago, em nesga do prado,
Dorme, líquido lençol,
E tem no seio engastado
Um grande diamante — o sol.

Descalça teus pés, desdobra
Nesse límpido cristal
Teu corpo, e o sol, — grande obra, —
Apanha e põe no sendal.

À noite, os dois alabastros
Dos teus pezinhos tu pões
Entre o barulho dos astros,
Saltando na água aos milhões,

Neles bulindo aos cardumes
Alegres, com tal rumor,
Que começo a ter ciúmes
De ver-te os pés na água pôr.

Onde o sonho me arrebata;
Onde o desejo me quis!
Estamos já dentro da mata;
Lavas já teus pés gentis...

Como é bela esta ilha ignota:
Vamos pois viver ali:
Palácios em cada grota,
Muita luz no sol que ri...

Vamos já, pois fica certa,
Que, se olhares para trás,
A ilha fica deserta,
Eu não vou e tu não vais.

Custa pouco o inconveniente
De não ires e eu ficar:
Uma lágrima somente
Grande... amarga... como o mar!...



A NOIVA DO CADÁVER

O, if thou teach me to believe this sorrow,
Teach thou this sorrow how to make me die,
And let belief and life encounter so
As doth the fury of two desperate men
Which in the very meeting fall and die!

Shakespeare — King John

Vinhas tocada de um bulcão violento,
Pobre folha duma árvore arrancada;
A palidez da morte debuxada
No rosto macilento:
Teus pés traziam tua formosura,
Como uma estátua em base mal segura,
Que oscila e varre o vento...

Com tuas mãos tão brancas como as penas
De alva pomba, que treme e sente frio,
E as leves asas róridas sacode,
De as ter molhado ao rio,
Abriste a porta trêmula e chorosa!...
Nunca a aurora molhou mais branca rosa
De esplêndido rocio.

E os dois astros seguiam do oriente
Par a par, em serena claridade,
Diante deles toda a imensidade,
Deus inda mais adiante...
Eis de repente um deles cai sem lume!...
Viu-se o golpe: ninguém ver pode o gume
Da espada fulminante!...

Tinhas a rosa dos vergéis dos sonhos
Colhido já e quase no teu seio:
Mas quem assim tão de repente veio
Roubar-ta, ó linda amada?
Quando uma voz te disse: — é morto o noivo: —
E ias pegar na rosa e viste o goivo...
Caíste fulminada!...

O raio que golpeia o monte, a rocha:
O furacão que os ápices procura,
Caiu sobre o teu sonho de ventura,
Como uma águia cobarde:
Ó fina flor de tão suave aroma,
Para salvar-te um Deus nem tarde assoma?
Não vem... nem mesmo tarde?

Como te palpitou o peito ardente,
Que mágoa ou que prazer encheu-te o seio,
Quando o teu lábio a sua fronte algente
Beijou em doce enleio?!...
Que fez teu coração dilacerado,
Quando sobre o seu corpo debruçado
Tinhas teu corpo a meio?

Quando o teu jovem sangue espadanando,
Enchia de calor teu corpo inteiro,
E fazias de ti seu leito brando,
Seu doce travesseiro?
E co'a boca colada à sua boca,
Querias dar-lhe, ó linda amante louca,
Teu sopro derradeiro?!...

Estava adiante a mocidade e a vida,
Tudo o que a alma procura, anseia, anela,
De primavera esplêndida cingida
De um noivo a fronte bela:
Era o doce mancebo que sonharas:
Ias com ele em breve às santas aras,
Ó cândida donzela.

Oh! como a dor te acentuava o rosto,
E cinzelava os teus mármores traços.
Eras a eterna estátua do desgosto,
Caídos os dois braços.
Derreado o cabelo, o gesto insano,
Como soluça, arqueja e chora o oceano,
E se rasga em pedaços...

Só com ele na alcova e tu coberta
Do teu dó, do teu luto e desvario,
Vinhas ver o espetáculo sombrio,
Mas não... mas nunca aquilo:
Ver-te e não levantar-se?! Oh! desgraçada!
E um momento ficaste mutilada,
Como a Vênus de Milo!...

Eu vi um quadro assim: era uma cópia
(Fiel a cri) de uma mulher de Guido:
Pelas dobras do colo e do vestido
Revolvida a melena,
Pálida a fronte bela, olhos vermelhos,
E abraçando um cadáver de joelhos:
— Jesus e Madalena. —

Tinhas dessa mulher santa a atitude
De estátua derrubada e a forma e o encanto:
E na aflição, no soluçar, no pranto,
Eras bela e sublime!...
Porém, com ela, em seu sofrer violento,
Só te não perturbava o sentimento
De uma culpa, ou de um crime.

Morto aí estava!... Ai!... morto!... e na primeira
Primavera da vida amena e doce!...
E a louca Ofélia se pusera à beira
Do berço em que dormia!...
Dormia ali o amante um sono infindo!
—Acorda... acorda... — E dela o braço lindo
Embalde sacudia!...

Ó pobre Ofélia, Ó mármore esculpido
Com tanta graça e esplêndido em brancura,
Que te dizia o teu amante ao ouvido
Na impassível postura?
Sentiste-lhe saltar alguma fibra?
Aquela carne não tremeu... não vibra
Sob a tua mão tão pura?...

Nada te disse, nada te dizia!...
Eras na dor, no prantear sozinha!
Ele que ontem a poeira beijaria
Dos teus pés de rainha,
Estava mudo na dor que te elevava,
Ele escravo que agora, como escrava,
Plangente aos pés te tinha.

Mas como te arrancaram desse leito
Em que dormia o teu porvir brilhante?
Ai! quem pôde soprar-te a vida ao peito,
Sem te animar o amante?
Viúva rola que não sais do ninho,
E esperas vê-lo à volta do caminho
Surgir a todo o instante!...

Oh! não virá! — Não acharás conforto
Na sua imagem límpida e querida:
Teu pobre amante a âncora da vida
Lançou no eterno porto;
Mas como eu bendissera igual instante,
Se foras tu a minha triste amante,
E eu fora aquele morto!...

Teus infantinos, delicados ombros
Vergam com tanto peso de amargura...
Em tua doce e pálida figura
Ri-se a morte tão calma!...
Oh! reparte comigo... — eu sou robusto —
Dor, tristeza, viuvez, lágrima, susto,
As sombras de tua alma.

Quero medir a dor que conter pode
Uma alma, que talhou a morte em duas:
Sobre o meu coração, mulher, sacode
Todas as dores tuas...
Oh! dor, eterna filha dos pesares,
De que profundidões rompem os mares
Do pranto em que flutuas?...

Mulher tão linda que em mistério eu amo,
Se a violência da dor faz que sucumba,
Lancem-me a morte e Deus à mesma tumba,
Que eu quero acompanhá-la:
Como dois corações entrechocados,
Caem do abalo mortos, e enterrados
Dormem na mesma vala.

Dormem? Quem sabe? Há grandes desgraçados,
Mais do que tu, Romeu! nem são chorados!
Ninguém na terra os vê; e olhos voltados
Deles tem mesmo Deus...
Mesmo Romeu os apunhala e mata!...
Eles nasceram sob estrela ingrata,
E eram também Romeus!...

Vê-se desta mulher na fronte o sulco,
Que a dor... a intensa dor golpeara nela,
Como do anjo caído à fronte bela
A cicatriz da lança,
Com que o irmão o esmagou, conserva ainda:
E no dedo gentil da mão tão linda
Guarda o anel da aliança.

Reflexo eterno desse amor tão puro,
Tem nele a triste história ou vivo emblema:
Há coração tão rijo que não gema
De ver assim quebrados
Esses fios de pérolas brilhantes,
Que iam ligar num só os dois amantes,
E em lágrimas tornados?

Se há Deus, se a cova dá para o infinito,
Certo cadáver deve sentir inda
O corpo quente duma amante linda,
Trêmula de ansiedade,
Que o envolve nos seus braços, nos seus beijos,
E prolonga os seus últimos desejos
Até a eternidade.

Rola viúva e virgem, que eu não possa
Levantar o teu véu de negra renda,
Que à luz do sol do céu teus olhos venda,
E os venda ao meu amor!...
Oh! que eu não possa... que eu não deva amar-te
Mas ao menos comigo a dor reparte:
Dá-me toda a tua dor...

Eu sou também pra ti o amante morto:
Tu és a Ofélia que eu perdi no lago:
Nem eu posso pedir-te o teu afago,
Nem tos posso oferecer...
Somos os tristes mortos da esperança!
E a mim, como ao teu noivo, que descansa,
Nem me resta morrer!...

Ai! não teria, não, como o cadáver
Do teu esposo em breve e noivo apenas
O perfume das brancas açucenas,
E o aperto dos teus braços,
E o achego do teu corpo a um corpo mudo:
Ali restam do teu amor em tudo
Eternamente os traços...

Vives hoje na margem solitária
De uma lagoa plácida e tranquila,
Como o guará, que pra morrer se exila
Na espessura do mato.
Bela palmeira de haste derrubada,
Revês a coma verde inda enrolada
Nos cristais do regato.

E eu amo-te sozinha assim na sombra
Do sítio, em que ninguém te sonha e pensa
Chorando a tua dor profunda e imensa,
Pobre rola viúva...
Já não te alegra mais o sol que passa:
Ris talvez, quando o céu se despedaça
Em lágrimas de chuva...

Quando e como me veio este amor grande?
Como a luz doce dum luar de outono,
À meia noite, quando a terra em sono
Na sombra se reclina:
— Quem a desoras bate na minha alma? —
Eu perguntei: — e vi-te, estrela calma
Iluminando a ruína...

Como te visse, pareceu-me... (engano
Da alma talvez) mas eu o cri decerto,
Que era um arneiro amplíssimo e deserto
A minha vida inteira:
Que ia dela os grilhões levando a rastro,
E que eu te conhecia, como um astro,
Seguindo a minha esteira...

Eu te vi sempre... eu te conheço muito!...
Sempre te amei... oh! sempre te amaria...
Mas que eras tu, mulher, eu não sabia...
Ai! de mim! ai! de mim!...
Tarde... ai! tarde acordei!... Era já crime,
Beijar-te os pés até, mulher sublime,
Joia perdida enfim...

Tesouro de uma pérola sem preço,
Que eu vi rolar às margens do ribeiro,
Que eu deixei apanhar ao companheiro,
Sem me lembrar de vê-la:
Quando ele a teve, eu vi o que eu não tinha!
A culpa não foi dele: ai! foi só minha
De te perder, estrela.

Então eu pus o coração ao cepo,
E disse: — ó dor, em pé: levanta o malho;
Foi pedra o coração, fá-lo cascalho,
Bate nele e o tortura:
Sofre? castiga-o, — é teu dever: que importa?
Mata-o, pois, mata-o, — já que enfim está morta
A esperança da ventura... —

Como se cava o chão e se levanta
Mármores, bustos, capitéis, colossos,
Grandes ruínas, rútilos destroços
De impérios sepultados,
E novos templos rojam-se aos espaços,
Da própria dor levanta os teus dois braços,
Redoira os sóis passados...

E disse mais: — esse murmúrio baixo,
É como a queixa inútil do regato:
Como um ruído vão dum insensato,
Que fala e que não pensa:
Duram mais os espinhos do que as flores:
Anjos, não conheceis humanas dores...
Nem minha dor imensa.

Para secar as asas da sua alma
Molhadas pelo inverno em que caminha,
Já não esperou sol, como a andorinha
Num galho solitário:
Ficou do sol que a vida lhe há dourado
A lembrança — esqueleto iluminado
À luz dum lampadário...

Resta-lhe agora a noite de tristeza,
Salpicada de lágrimas; a vida
Como estátua de mármore caída
Em charco do aguaceiro...
Só fica neste inverno rigoroso
Tarda andorinha a voejar sem pouso,
Sem sol, sem companheiro...

Desestrelada noite, és triste agora!...
Mas como te respeito a dor sublime!...
Todavia responde-me se é crime,
Vir ver-te à solidão?
Anjo de asas abertas sobre o vaso
Que encerra as coisas desse amor, acaso
Não te falta um irmão?

Um dentro do sepulcro, outro de fora,
Sem um Deus que se erguendo — unam-se — diga:
Mas a saudade ao céu inda te liga,
Anjo a meto isolado:
Dize-me: no palácio que te abriga,
Não darás tu a um pobre, que mendiga,
Um cantinho ao teu lado?...

Se me negares tudo, a parca esmola
Do mendigo que bate à tua porta
Vergado, pois que leva a esperança morta
Dos ombros através,
Dos teus olhos — joalheiros de diamantes —
Se tens deles alguns menos brilhantes,
Um... atira-lhe aos pés...

Um distraído olhar de condoimento
Ao irmão na dor; um gesto compassivo,
Que acaso fosse um tênue lenitivo
À mágoa que o golpeia!...
Forjou bem forte o anjo da saudade
Essa, que a alma te prende à eternidade,
Insondável cadeia!...

Tenho uma grande lágrima tão quente,
Que era bastante só, pra derretê-la;
Mas invisível vai de estrela a estrela
O grilhão, que ao granito
Do túmulo te prende; — ele atravessa
O céu, os astros, cai na treva espessa,
E se estende ao infinito!...



NOTA

Este pequeno poema de ocasião pede um reparo. Era eu estudante e passava umas férias na Tijuca, numa pequena casa, branca, tímida, escondida entre o mato e para as vertentes que olham a lagoa de Jacarepaguá. — Nos frequentes passeios que dava pelos sítios escolhidos, solitários, de uma selvagem grandeza, que os amadores conhecem e que todos não compreendem, encontrei-me por vezes com um moço de distintas maneiras, triste, simpático e que se aprazia sobretudo dos lugares em que aquela natureza chora e soluça mais rude, mais delirante, mais grandiosamente.

Pouco e pouco fizemo-nos conhecidos. Conhecermo-nos, foi amarmo-nos.

Um dia, aos últimos raios do sol da tarde, comovido contou-me ele este episódio de vida íntima: Era seu amigo um jovem que morrera de uma síncope na véspera do consórcio. A formosa e interessante senhora, sua noiva, enviuvara um dia antes de efetuar o casamento.

Ele mesmo a amava reconditamente, em silêncio, dentro dos limites de sua consciência e do seu coração.

Motivo insuperável tornava inútil qualquer tentativa junto àquela mulher, presa agora a um sepulcro pela saudade e cuja chorosa viuvez a levantara ainda mais aos olhos seus.

Impressionado ainda, salpicado de suas próprias lágrimas, ainda a ouvir-lhe os soluços profundos, como arrancos de um mar em convulsão, envenenado do contágio de sua imensa dor, apropriei-me ao assunto; foi esta elegia a obra de um momento, que li no dia seguinte com certa comoção, parando de quando em quando, para deixá-lo chorar livremente.

Parece que o melancólico trecho palpitava de verdade, porque, erguendo a cabeça e cravando os olhos úmidos, vermelhos, e espantados sobre mim, perguntou-me com uma cólera mal disfarçada: conheces e amas também essa mulher?...

Apertei-lhe as mãos e sorri-lhe tristemente.

Eu nunca a vira.

Meu companheiro de férias reside hoje na Europa. A Senhora, que vi depois algumas vezes e que, em verdade, era adorável, creio que é morta há muito tempo, após ter viajado pela Grécia e pela Itália, países de grandes recordações e de grandes ruínas, onde as almas que desaprenderam o rir encontram os prolongamentos das suas tristezas, das suas recordações e das suas ruínas, como um eco de vida inteira de lágrimas.

O inútil poema não produzirá nenhuma impressão em ninguém mais. Que importa? Tinha sido só para ele. Ela mesmo nunca teria conhecimento nem dessa paixão, nem deste poema.

***

Hoje que se pública o canto elegíaco, todos são mortos, exceto o seu autor. — O tempo faz desaparecer tudo.

Luís Delfino



ATLANTE ESMAGADO

Um dia ouvi... (abismo eterno, onde caído
Um século jaz, depois de ter ouvido
Essa música doce, etérea, inebriante...)
Nos meus cabelos o teu lábio palpitante,
Como as asas de uma ave a tiritar medrosa,
Depor um beijo... ouvi!... Tua boca cor de rosa,
Ninho de colibri, ninho do teu sorriso,
Que tem mais esplendor que a ave do paraíso,
Tua boca, mulher, pousou nos meus cabelos.
Um céu!... Era demais! Dobrei os meus joelhos,
Vacilei ao luzir dessas constelações,
Que me vinham buscar em loucos turbilhões!
E eu tinha ao mesmo tempo o severo semblante
De Anteu, que vai cair, ou de esmagado Atlante.
Em torno a mim havia as serpes. Laocoonte.
Era Tifeu descendo o céu, e monte e monte
Despenhados sobre ele, após o infando crime:
Sentia a enormidade incógnita, que oprime;
De um excesso de luz estava a fronte ferida;
Era um deslumbramento imenso a minha vida.
Rolava por cairéis de abismos sem escolhos,
Com abismos nos pés, escuridões nos olhos:
Esmagava-me o céu descido do seu beijo:
Nunca até ele houvera ensaiado um desejo,
Quando vi de repente aquela chuva toda
De astros, que vinham nele a iluminar-me em roda...
E foi ele tão leve, e trêmulo, e queixoso,
(Que infinito há num beijo, ai! num beijo e seu gozo!)
Como o doce ranger das estreladas portas
Na noite silenciosa, em fundas horas mortas,
Quando pela calada a alma absorta cisma,
E olhando o azul ao suave e diáfano prisma
De um sonho alado crê, que um anjo, que resume
Todo o amor, que há no céu, todo o esplendor da aurora,
Vem ver-nos, estendendo a áurea fronte de fora,
Fugindo após, lanceado o coração de ciúme.

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