terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Poemas de Virgílio Várzea



Quem te vê delira, chora,
Se arrebata, treme, ri!...

Cruz e Souza

Pitágoras, Tycho Brahe e Galileu,
Aristarco, Hewehell e Filolau
Hiparco e Copérnico (Nicolau)
E o sábio, divinal, Ptolomeu!...

Newton, o descritor das leis do céu
E Jaques Lapier, que em sua nau
Deu volta a todo o globo, Ladislau
Tão grande imperador, qual Briareu!...

Todas essas cabeças tão dinâmicas
Onde giravam mil grandes pensamentos
Em ondas consteladas e titânicas!

Sumiram-se num mar de esquecimentos
As rubras chispações – fortes, dardânicas
Do mais agigantado dos portentos!...
  
  
A JULIETA DOS SANTOS
(Homenagem ao Gênio)

Dá-me uma centelha do teu gênio
Se queres que eu mais diga.

Do autor

O Himalaia, aquele monte enorme,
Que nÁsia impera — colossal, disforme,
De fronte tão ufana!...
A tua vista é nada; é qual poeira
Que n’asa do simoun — passa ligeira
Por sobre a caravana!...

O Etna bem furioso
No auge de erupção...
Não sofre tamanho abalo
Como sofre o coração,
Daqueles que cheios de pasmo
Te ouvem com entusiasmo,
E bradam — tu és um Deus!...
Teu nome — é a maior glória
Que ocupa do mundo a História...
Oh! tu viste do céus!!...

JULIETA!... ente divino
Tu és um nome, um portento!...
Muito maior que o Amazonas
É o teu grão pensamento;
Ele tem força que arrasta
E alagando devasta
Miríades de corações!!...
Tu alucinas a gente
Quando a plateia contente
Dá-te bravos milhões!!...

Quem pode na cena ver-te,
Sem sentir bem dentro d’alma
O entusiasmo ferver-lhe
Oh! augusta irmã de Talma?!...
Só se quem for com o ferro
Ou como além o serro
Que é coisa inanimada!...
Mas quem um’alma tiver
Há de um trono a ti erguer
Com a ideia perturbada.

Tu és astro luzente, excelso Gênio!...
Faz d’Universo o teu gentil proscênio
E põe-te a trabalhar!
Os anjos te serão espectadores
E o sol indo perdendo seus fulgores
Não mais há de brilhar!

Salve, pois, atriz ingente,
Que lá no céu futuro
Tu terás fulgor bem puro
Oh! sol do nosso país!...
Caminha... diva, rainha,
Reinarás em toda a parte...
O teu trono — é arte,
Logo serás bem feliz!

Lá nos espaços te louvam
Racine de Molière,
Shakespeare e Voltaire,
Mars, Clairon e Rachel,
E todos juntos — sorrindo
Exclamam com arrogância:
“Ela há de ter por jactância
A coroa d’arte, o laurel!”

Tu és da arte dramática
O condor — forte, valente!
Larga um voo bem ardente,
Tira da Ristori o espectro!...
Quando apareces no palco
Arroubando sempre as almas...
Lá na campa bate palmas
De Keean o famoso espectro!...

Tu tens na mente inspirada
Mais luz do que o dia tem!
E de toda a parte vem
Mil mundos pra te aplaudir!...
Que espetáculo tão soberbo!...
Toda a natureza é festa!...
É alegre, não é mesta
Porque está a sorrir!...

Se a Europa exulta, ufana
Por ter dado maravilhas,
As brasileiras famílias
Exultam também, alegres!...
Porque saiu de seu seio
O grand’astro teatral
— JULIETA, a imortal —
Maior que Emilia das Neves!

Sim, que ela é superior
A Fargueil e a Agar,
E mais que Sarah Bernhardt
A menina — JULIETA!...
É um portento, um assombro,
É o Colombo da cena...
É maior que a fama helena...
É um divino planeta!...

O teu nome, ó grande deusa,
Este século há de tomar...
O tufão — louco, a gritar
Já te chama d’imortal!...
Lá no porvir tua estátua
Com ligeireza já molda-se
É inteiriça, não solda-se
O mundo é seu pedestal!...

***

Assim como a noite foge pávida
Quando surge o claro e lindo dia,
Que espalha pela terra, só — magia
Quando o sol aparece lá no mar!
Assim também devem fugir bem rápidas
As sombras que povoam o proscênio,
Porque já é nascido o sol do gênio
Que ofusca — uma Lucinda, uma Favart!...

***

Não ouves clangor imenso
Pelo espaço a rolar?...
É das cem tubas da Fama
Que se partem a te louvar!...
Não ouves contra o rochedo
O vagalhão rebentar?...
É ele que ao ver-te em cena
Vem a ti um bravo dar!...

A natureza te aplaude
Delirando — que fanático
Se levanta o polo Ártico
E canta um Hino de glória!
Depois... fitando um instante
A grande extensão marinha,
Brada: — do palco é rainha,
Terá coroas de vitória!... —

Então, os Andes soberbos
Repercutiram o brado...
O polo Antártico altanado
Sua voz também ergueu!
E levantando seus olhos
Para as grimpas do infinito
Soltou este forte grito
— Não é da terra, é do céu!...

O terrível Hecla — num jorro
Da enorme erupção,
Disse com voz de trovão
— Ela é divino portento!... —
O Vesúvio além dos mares
Com o infinito nos ombros
Incutindo mil assombros
Gritou: — É Deus, em talento!...—

***

Tu passas rutilante em toda a parte
Oh! sol da nossa pátria! Oh! sol da arte!...

Por satélites tu tens
Vitória, Íris, Métis,
Mercúrio, Vênus e Tétis,
Que giram à roda de ti!
E tu dás luz para todos
Brilharem em harmonia
Derramando sã magia
Do firmamento até aqui.

Tu banhaste a fronte augusta
Lá nas águas do Jordão!
Então... teu ardente crânio
Transbordou d’inspiração!...
Para dizer-te o que és
Eu quisera ser Dantão!
Tu banhaste a fronte augusta
Lá nas águas do Jordão!

Tu és mais Gênio que Cristo,
Que foi sábio e poderoso!
Por isso eu te rendo um culto
E te adoro fervoroso;
Se eu pudesse te faria
Um poema mui mimoso...
Tu és mais Gênio que Cristo,
Que foi sábio e poderoso!...

***

A palma da vitória, tu tens sempre na mão,
Da cega Georgeta tu és a encarnação
Divina JULIETA!
A meta do belo, do grande e do sublime
Tu nos arrasta, como o vício ao crime
Arrasta o viciado;
E eu arrebatado
Fiquei... Já sem razão
Quis atirar-te aos pés meu pobre coração!
Depois... subir ao firmamento,
Delirante, louco, entusiasta
E os astros roubar nesse momento
Pra te coroar a fronte — grande, vasta
Que referve um fogo divinal
Que nos eleva aos céus do ideal.

***

Tu passas rutilante em toda a parte
Oh! sol da nossa pátria!... Oh! sol da arte!...

***

Dilúvios de pensamento
De Camões o grão poeta!
Nada é para exprimir
O que tu és, JULIETA!
Quanto mais meus pobres versos
Que em palidez se acham imersos
Sem pensamentos mui grandes!...
Mas... que por minha vontade
Iriam à imensidade
Passariam além dos Andes!...

***

Recebe, pois, bem alegre
Esta tosca saudação!
É filha do coração
Oh! atrizinha ideal!
Eu quisera pra cantar-te
Ser poeta qual Hugo...
Se felicitar-te vou
Fico estúpido, irracional!

Por isso... fiz-te estes versos
Que jamais terão valor,
Apenas é o penhor
Do culto que sei render-te!...
E num trono que se ergue,
Lá no mais íntimo dos céus
Perto do trono de Deus
Imperando eu hei de ver-te!...
 

A JULIETA DOS SANTOS

O Niágara vai contar aos mares,
O Chimboraso arremessa aos ares
A fama o teu nome!...

Castro Alves

Sentiu um choque o continente antigo
Ao ver pelos espaços um átomo de luz!
Partindo fulgurante do solo — Santa Cruz,
Levando estridulas ovações consigo!

O oceano lhe chamou — “amigo”
Vem, ilumina-me com clarões a flux!
Que eu te darei constelações azuis...
Vem... vem depressa conversar comigo!...

Mas qual, o louco não ouviu o grito,
Inda com a força do motor proscênio
Rápido sumiu-se além no infinito!...

Deixou na Europa todo o povo helênio
Idolatrando-o com fervor, contrito
Esse emissário do brasílio GÊNIO!

A JULIETA DOS SANTOS

Quando eu te vi surgir qual astro sublimado
De fimbria do horizonte do límpido proscênio,
Senti que do teu gênio
A luz suave e pura
Causava-me no cérebro vertigens de loucura,
E frases sem sentido então balbuciei
Como criança insonte que mal ainda fala
Depois... fiquei calado...
E quis ir a teus pés
Com força e entusiasmo dizer o que tu és.
Mas quando procurei juntar umas ideias
Ouvi um som mui brando de doces melopeias
Passarem pelos ares!
E vi também os mares
Com as rochas entoando
Músicas mil — divinas!...
Os vendavais bradavam nos espaços:
“Nós vamos abraçá-la com nossos fortes braços,
Porque Ela é a cena o grande Briareu
Que veio lá do céu
Mostrar à humanidade
A grã sublimidade
Da arte de Caetano!
E com valor troiano
Se tem apresentado
Fazendo um novo mundo do mágico tablado”.
Assim, com essas vozes, de novo delirei
E abismado em mi’mesmo eu logo me quedei
Até descer o pano...
É que do gênio a luz tão de repente
Faz a gente ficar quase demente!

***

Salve, pois, atrizinha — enorme, colossal
Que prendes a plateia ao mundo do ideal!!...

A JULIETA DOS SANTOS

Do Universo o Divino o grande Obreiro
Estava no repouso sem primeiro,
Quando ao cérebro gigante lhe ocorreu
Uma ideia maior que o próprio céu...
E foi: criar um Sol tão grande e colossal
Que mostrasse a todo o ser o mundo do ideal.
E trabalhou... seu trabalho foi diário...
E quando o concluiu... mandou um emissário
Dizer a todo o mundo
O Gênio tão profundo
Que tinha enviar-nos... E foi este um cometa
Que disse a toda a terra o nome — JULIETA!
É esse pois o nome do máximo dos portentos
Que, de luz em cada floco, milhões de pensamentos
Atira sobre nós,
Fazendo estremecer os ossos dos heróis
Que dormem há mil anos nas campas bem sepultos!
Com força magnética reergue os nobres vultos
Maiores que os titãs, imensos e tão grandes
Que vão ao infinito e passam além dos Andes!
Depois... abrem seus olhos cercados de montanhas
Que parecem mil lagos de orbitais tamanhas
Contemplando os céus!...
E vão Briareus
Unidos em corte
Saudá-lo, com presentes, do império lá da morte!

Então é toda a terra um grande Coliseu,
Onde se representam os dramas lá do céu!...

 

Tu triunfas na luta sobranceira...
Quando pisas no palco, majestosa,
Do zoilo vil a boca venenosa
Solta um — bravo — atrizinha brasileira!

Oh! menina feliz!  oh! feiticeira,
Que és amável, risonha, espirituosa,
Que nos fazes vida deleitosa
Quando mostras teu gênio — prazenteira!

Rainha do proscênio o céu te aclama
Com estridulo clangor, por todo o mundo
Corre teu nome nos anais da fama!!...

Dás glórias ao teu país — belo, fecundo,
Brasileia Cuniberti!... assim te chama
O nosso Imperador — Pedro Segundo.

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