quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Poetas Populares: Antônio Batista Guedes


ANTÔNIO BATISTA GUEDES
(1880-1918)

Antônio Batista Guedes, nasceu em Bezerros, Estado de Pernambuco, criando-se na fazenda Riacho Verde, na Serra do Teixeira. Até a idade de 20 anos foi agricultor. Tendo fixado residência no Recife em 1903, abraçou a profissão de cantador, tendo como mestre Silvino Pirauá. Cantando e negociando, vendendo livros ambulante, percorreu diversas vezes os Estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Era repentista e glosador, dotado de muita memória tinha conhecimentos rudimentares de História Sagrada e História Universal.

Tendo fixado residência na cidade de Guarabira, onde desempenhou, por algum tempo, o cargo de Delegado de Polícia, abandonou a profissão de cantador e publicou vários folhetos de versos de sua autoria.

Publico em seguida uma longa peleja de Antônio Batista com Germano da Lagoa, tendo Germano se dado por vencido, depois de ter discutido sobre a criação do mundo e a História do Brasil.

Batista, tendo-o vencido, fez uma bela descrição da mitologia, mostrando conhecer a história da fábula.

Apaixonado pelas coisas de sua terra natal, fazia sempre que encontrava-se entre conterrâneos, em sua vida errante de cantor, longas e emotivas descrições de fatos que os enchiam de enternecida saudade. Em Fortaleza, certa noite, ouvido por pessoas de alta representação social, fez sentida resenha de sua terra, o que lhe valeu calorosos aplausos.

O leitor fará o merecido conceito a esse talentoso cantador.


PELEJA DE ANTÔNIO BATISTA COM GERMANO DA LAGOA

Com Germano da Lagoa
Eu desejava cantar,
E fui à Santa Luzia
Com o fim de o encontrar;
A peleja que tivemos,
Vou nestes versos contar:

Germano cumprimentou-me
Com muita solicitude;
Dizendo: — Senhor Batista,
Deus lhe dê boa saúde;
Tenho o prazer de consigo
Cantar hoje. Que virtude!

Antônio Batista — Obrigado, senhor Germano,
Aceite também os meus
Votos de prosperidade
E saúde, na paz de Deus;
É isso o que lhe desejo,
A si e a todos os seus.

Germano Lagoa — Amigo Antônio Batista
O senhor, que veio ver?
Aqui na minha ribeira.
Veio comprar ou vender?
E se vem desafiar-me
Faça favor me dizer.

Antônio Batista — Germano, eu venho aqui
Só pela necessidade
Que tinha de conhecê-lo,
Lhe digo com lealdade:
Eu venho vender cantigas
Para comprar amizade.

 Germano Lagoa — Senhor Antônio Batista,
Me disseram em sua ausência
Que o senhor era um cantor
De elevada competência;
Que respondia perguntas
Em toda e qualquer ciência.

Antônio Batista — Na informação que lhe deram,
Algum exagero eu vejo;
Mas como estamos cantando
Aproveite o bom ensejo
De fazer suas perguntas
Que respondê-las desejo.

Germano Lagoa — Pois seu Antônio Batista,
Se tem memória feliz.
Puxe por ela, e, não diga;
Que avisá-lo eu não quis;
Vamos ver se o senhor canta
Certo como o povo diz.

Antônio Batista — Pode cantar seu Germano,
Eu sentido descoberto
Que quando canto com mestres,
Às vezes também acerto;
E já vi que p’ra cantar
Com o senhor, não me aperto.

Germano Lagoa — Seu Batista não blasone
Que eu não creio em ditério;
Olhe que eu tenho elemento
P’ra derribar seu império;
Agora vamos cantar
Em um sentido mais sério.

Antônio Batista — Já que o senhor diz assim
Descubra seu pensamento,
Reconheço que o amigo
Tem eloquência e talento;
Mas, saiba também que eu
Tudo o que disser sustento.

Germano Lagoa — Não fale precipitado,
Pabulagem não é dote.
Cito-lhe o rifão antigo,
E o meu colega o anote:
“Nem com tanta fome ao prato,
Nem com muita sede ao pote.”

Antônio Batista — Parece que o meu colega
Se enganou pela miragem,
Porque no meu cantar simples
Não existe pabulagem;
Mas, p’ra sustentar meus atos,
Nunca me faltou coragem.

Germano Lagoa — Senhor Batista, em perguntas
Sou primeiro sem segundo,
E se a História Sagrada
Você a conhece a fundo,
Me responda em quantos dias
Deus formou todo este mundo.

Antônio Batista — A Bíblia Sagrada diz:
Em suas cronologias
De acordo com os profetas
Abraão, Moisés e Elias,
Que o Deus onipotente
Criou o mundo em seis dias.

Germano Lagoa — Foi em seis dias é certo
Diz a Escritura Sagrada,
Porem a sua resposta
Tem de ser mais explicada,
Conte os dias de-per-si,
Certinho, sem faltar nada.

Antônio Batista — Deus, fez no dia primeiro
O ar e o sopro do vento,
No segundo, o firmamento,
E, o mar fez, no terceiro;
No quarto o sol ou luzeiro
Que a toda a terra alumia;
No quinto a alimária,
Fez no sexto o ser humano;
E o Grande Deus Soberano
Descansou no sétimo dia.

Germano Lagoa — Sim senhor, a escritura
Afirma que foi assim;
Mas, eu inda lhe pergunto
Porque não cheguei ao fim.
Me diga aonde Deus fez
P’ra Adão morar um jardim.

Antônio Batista — Situou Deus o jardim
Lá entre os rios Fison,
O Tigre e o Eufrates,
E o grande rio Geon;
E nesse jardim do Éden
Tudo o que tinha era bom.

Germano Lagoa — Estou ciente de que
Acertado respondeu,
Agora me diga qual
Foi o homem que nasceu
Primeiro de que seus pais
E a avó seu sangue bebeu?

Antônio Batista — Foi Abel, filho de Adão,
Que nas mãos de Caim morreu
Os seus pais feitos por Deus
Nem um deles não nasceu;
Sua avó que era a terra
Do neto o sangue bebeu.

Germano Lagoa — É certo que os pais de Abel
Feitos por Deus não nasceram;
Mas quais foram os dois profetas
Que neste mundo viveram,
Se acham hoje no céu
E é certo que não morreram?

Antônio Batista — Foram Enoque e Elias
Porque assim era preciso,
Serem com vida chamados
Para o santo Paraíso,
De onde só sairão
No grande dia de juízo.

Germano Lagoa — Foram esses não errou;
Mas inda pergunto e u:
Na expedição de Coré,
Me diga o que sucedeu?
E Noé o que fez primeiro
Quando da Arca desceu?

Antônio Batista — Coré não acreditava
Dos santos na predição,
Por isso a terra engoliu-o
Com a sua expedição;
Noé ao descer da Arca
Deu graças a Deus então.

Germano Lagoa — Todas as suas respostas
Com a Bíblia combinaram,
Até aqui vamos bem,
Os seus versos me agradaram
Me diga de Adão a Cristo
Quantos anos se passaram?

Antônio Batista — Os arautos cronológicos
Nos afirmam sem enganos,
De acordo com as tradições
Dos tempos diluvianos,
Contam de Adão até Cristo
Quatro mil e quatro anos.

Germano Lagoa — Combino com o que me diz,
Porém, adiante inda vou;
Diga qual foi o vivente
Que neste mundo andou.
Serviu muito a Jesus Cristo,
Morreu e não se salvou?

Antônio Batista — Este, foi uma jumenta
Segundo o que está escrito;
Que carregou a Jesus
De Belém para o Egito;
Alguns dos santos profetas
Isso já tinham predito.

Germano Lagoa
— Vejo que p’ra responder
Você tem boa teoria;
Mas, agora me responda
Com toda sabedoria,
O que é que Deus não vê
E 0 homem vê todo dia.?

Antônio Batista — Isto não está escrito,
Mas, segundo os cálculos meus;
Tudo a Deus é visível
No mar, na terra e nos céus.
Mas o homem vê outro homem
E Deus não vê outro Deus.

Germano Lagoa — Estou de acordo, Batista,
O senhor respondeu certo,
Mas agora em outro assunto,
Eu nas perguntas lhe aperto;
Me diga agora por quem
0 Brasil foi descoberto?

Antônio Batista — Foi descoberto o Brasil
Por Pedro Alvares Cabral,
Comandava ele uma esquadra
Que vinha de Portugal;
E avistou casualmente
O grande Monte Pascoal.

Germano Lagoa — Sim senhor, foi isso mesmo,
Numa viagem que fez;
Porem diga-me em que ano.
Em que dia e em que mês,
Realizou-se esse feito
Desse grande português.

Antônio Batista — No ano mil e quinhentos,
A vinte e dois de abril.
Por esse grande almirante
Foi descoberto o Brasil,
Terra gigante da América,
Cheia de riquezas mil.

Germano Lagoa — Foi assim diz a história:
Não pode ser reprovado,
Mas, esse almirante vinha
A isso determinado?
Preciso que meu colega
Deixe tudo isto explicado.

Antônio Batista — Cabral ia para as índias
Mas, tendo a rota perdido.
Só devido as ventanias
Que o tinham perseguido;
Avistou casualmente
Um país desconhecido.

Germano Lagoa — Respondeu certo, porém,
Eu prossigo em minha guerra:
Me explique todos os pontos
Que a nossa história encerra:
Que nome Pedro Cabral
Deu a essa nova terra?

Antônio Batista — Pero Vaz Caminha, escreve
Com muita verdade e luz.
Ao seu rei longa carta
Que toda história traduz:
Nela, diz: — Cabral à terra
Deu o nome de Vera-Cruz.

Germano Lagoa — Vai respondendo direito
Sem faltar virgula nem til;
Responda-me outra pergunta,
Com sua verve sutil.
Se o nome era Vera Cruz,
Porque chamamos Brasil?

Antônio Batista — Este nome, diz a História
Se derivou da madeira
Do pau brasil, procurado
Pela indústria tintureira,
Que foi a matéria-prima
Da exportação primeira.

Germano Lagoa — Até aqui o senhor
Respondeu corretamente;
Responda-me outra pergunta
No seu brilhante repente;
Se Pedro Alvares Cabral
No Brasil encontrou gente?

Antônio Batista — O Brasil era habitado,
Pela indígena nação.
Sendo em mais de cem tribos
Dividida ela então:
Se ignora de onde veio
Dos Índios a geração.

Germano Lagoa — Vejo que o senhor responde
Sem alarde; nem vexame
E que as suas respostas
Não há mesmo quem reclame
Me fiz de examinador
Devo aprovar seu exame.

Antônio Batista — Senhor Germano da Lagoa;
Lhe fico muito obrigado,
Pelo seu franco elogio
E por me ter aprovado;
Mas você veio buscar lã
E foi quem saiu tosquiado.

Germano Lagoa — Estou certo, seu Batista,
Que o senhor não canta ruim,
Mas, inda não fui vencido
Não deve pensar assim;
Eu já puxei por você
Agora puxe por mim.

Antônio Batista — Sinto não poder ser tanto.
Por me faltar teoria.
Porem convido o amigo
P’ra me fazer companhia,
Cantando mais uma hora
Sobre a Mitologia.

Germano Lagoa — Senhor Batista, eu pergunto,
Na paz e boa harmonia,
Faça favor, me dizer:
O que é Mitologia?
De que trata esta ciência
Que o senhor me anuncia?

Antônio Batista — Mitologia é a Ciência
Do tempo do paganismo.
Na antiga Grécia e em Roma,
Ela já teve heroísmo;
É aceita como fábula
Por nosso Catolicismo.

Germano Lagoa — Não o posso acompanhar,
Por não conhecer a história,
Mas lhe peço que prossiga
Puxe por sua memória.
Cante só que eu me calo
Porque foi sua a Vitória.

Antônio Batista — Quando ouvi essas palavras
Fiquei muito satisfeito.
Notei que meu coração
Sorria dentro do peito.
Ele calou a viola
E eu prossegui desse jeito:

Começo a explicação
Confiado em minha arte
Por Júpiter, Baco e Marte
Que a Vênus amava então,
Saturno, Reia, Plutão,
Vesta, cupido e Urano,
Cibele, Minerva, Jano,
Anfitrite e Netuno,
Mercúrio, Diana e Juno,
Apolo, Ceres, Vulcano.

Júpiter onipotente.
Por ter seu pai expulsado
Do céu traiçoeiramente,
Porque de reinar somente
Era a sua pretensão...
Na maior constelação
Íris à terra desceu
E nas cores do arco seu
Deu-me a primeira lição.

Longe do mar de Netuno
O cocheiro Faetonte
Percorria o horizonte
No seu coche de tribuno;
De Anfitrite e de Juno
Tinha ele a proteção;
Apolo tendo na mão
Um livro de poesia,
Com prazer e galhardia
Deu-me a segunda lição.

Júpiter filho de Reia,
Foi numa ilha criado
Sendo ali alimentado
Pelo leite de Amalteia;
Concebeu Saturno a ideia
De que o tempo era oportuno
Para o irmão de Netuno
Fazer o seu casamento;
E nesse mesmo momento
Casou Júpiter com Juno.

Vulcano presenciou
Que Vênus o atraiçoava,
Porque Marte a amava;
E a Júpiter se queixou
Seu trono então se abalou
Num alvoroço constante,
Júpiter sempre arrogante,
Mandou depois da contenda
Vulcano forjar na tenda
Os raios contra o gigante.

No Olimpo a deusa Lucina
Presidia o casamento
Era esta por seu intento
Da produção heroína;
Da fuga de Proserpina
Ceres bem se ressentiu...
Porem Júpiter que viu
Chamou Ceres e Plutão,
Fez a paz em condição
E a aliança se cumpriu.

Cupido filho de Vênus
Tido por deus do Amor
Era muito enganador
Com as setas de venenos;
Apolo não era menos,
Morava no monte Pindo,
De lá um dia saindo
Vê Latona que dizia:
Grande é a sabedoria
Que fez Apolo tão lindo.

Minerva guia o trabalho,
Diana dirige a caça,
Netuno aos mares se alça,
Vulcano forja no malho;
Vênus deu um agasalho
A Saturno fugitivo
Narciso encontrou motivo
De namorar seu semblante;
Plutão um feroz gigante
Fez de Cérbero cativo.

Os quatro filhos da terra
Foram rebeldes sem par,
E tentaram destronar
Júpiter em feia guerra,
Mas Ele no trono emperra
E com seus braços possantes
Lançava raios vibrantes.
Dando combates diários;
Venceu os adversários
Com seus raios fulminantes.

Plutão querendo casar
Consigo mesmo combina
Ir raptar Proserpina
E no inferno a desposar
Ceres sai a procurar
A sua filha querida
Indo encontrá-la detida
No reinado de Plutão,
Sendo dessa região
A deusa reconhecida.

Saturno filho de Urano
Tinha um tão mau destino
Que do sexo masculino
Acabou o gênero humano;
Na Itália morava Jano.
Cibele é deusa da terra;
Marte era o deus da guerra
Era irmão da deusa Juno;
O império de Netuno
No oceano se encerra.

Sobre a mitologia
Canto inda uma noite inteira,
Contando dessa maneira
Dos deuses a jerarquia;
Mas perto já vem o dia
E eu preciso descansar,
Vou a viola parar
E aos circunstantes peço
Que os erros do meu verso
Queiram todos desculpar.


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Fonte:
Francisco Chagas Batista: “Cantadores e Poetas Populares” (1929)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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