quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Poetas Populares: Nicandro Nunes da Costa



NICANDRO NUNES DA COSTA
(1829-1918)

Nicandro, filho de Agostinho Nunes da Costa e Ana C. das Dores, era poeta glosador, improvisando com facilidade e muita rapidez. Fazia, em meia hora de improviso, longas poesias tão belas e tão perfeitas, que os nossos trovadores de hoje não as farão em um dia ou mesmo numa semana de estudos!...

Nicandro, foi o príncipe dos poetas populares do seu tempo; todos o admiravam e ninguém se aventurava ao desafiar na glosa, porque tinha a certeza de ser vencido; o único que o enfrentava era Bernardo Nogueira, mas sempre tratando-o por mestre. É que Nicandro sendo mais letrado e tendo seguros conhecimentos de Mitologia e História Sagrada, sabia bem aplicar esses conhecimentos na sua poética. Era, agricultor e ferreiro, homem honrado e pacato. Um dia, avisaram-lhe de que estava sendo processado, na Comarca de São João do Cariri, como mandante na tomada do preso Manoel Queiroz, da cadeia local.

Sem cumplicidade nesse fato e sem o dinheiro que move a justiça, resolveu fazer em a versos a sua própria  defesa. O juiz, lendo os versos que Nicandro lhe enviara autoados como razões, de sua defesa, pondo por terra a acusação, achou nos mesmos forte cunho de sinceridade e impronunciou o poeta.

Eis a defesa de Nicandro:

DEUS APRESENTE A VERDADE

Quem tem compaixão de nós
Nas terríveis aflições?
Quem os nossos corações
Vê e escuta senão Vós?
Sabeis que eu não fui atroz
Oh! Suprema Divindade!
Já que sois Juiz de Bondade,
Minha causa vos entrego;
A quem julgar como cego;
“Deus apresente a verdade”.

Não queiras, homem negar
A verdade a Deus aceita.
Nem te vai bem a suspeita
Por verdade acreditar.
Nada se pode afirmar,
Sem ter a realidade;
Portanto, ó Deus de Bondade,
Não queirais na terra ver
Eu ir pagar sem dever;
“Deus apresente a verdade”.

A VÓS nada é obscuro,
Tudo vedes, claramente:
Se a Vós é claro o presente,
Mais claro inda é o futuro!
Não vive o homem seguro
Da calúnia e falsidade...
De mim, por humanidade,
Tende dó, ó Bom Jesus,
Aonde há falta de luz,
“Deus apresente a verdade”

Padre Eterno — Deus clemente —
Em pessoas três distintas,
Justo és, Senhor; não consintas
Eu ir pagar inocente,
Um foco claro e luzente.
Lá da Vossa majestade,
Enviai, por piedade:
Vede quanto o gênero humano
Está sujeito ao engano!
“Deus apresente a verdade”.

Deu, Tomé ao morto vida:
O qual diz publicamente
Que Tomé era inocente
E qual foi o homicida:
O mesmo Santo decida
Desse ato à realidade;
Se há falta de claridade
Nalguns fatos duvidosos,
Como esses enganosos;
“Deus apresente a verdade”.

Se eu paguei, se eu fiz ensaio,
Se eu soube ou fui avisado
Que esse homem era tomado,
Caia sobre mim um raio!
De aqui não fujo e nem saio.
Deus me vê em toda parte;
Venenoso bacamarte
Se dispare e me espedace.
Uma Espada me traspasse,
Se nisso eu tomei parte!

***

VERSOS DE NICANDRO SOBRE A ESCRITURA SAGRADA

“Deus quando o mundo formou”

Tendo as águas ao mandado
Do Eterno, obedecido,
Esse elemento crescido,
Procurou seu agregado;
Ficou o campo enlameado.
Bicho ali inda não pisou.
Depois que a terra enxugou.
Seu autor tirou um bolão.
Bafejou-o e fez Adão,
“Deus quando o mundo formou”.

Formando primeiro Adão
Tirou-lhe a mulher dum lado;
O nome de Eva foi dado
À mãe de toda geração;
Inda não havia ambição.
Deus aos dois abençoou,
No Paraíso os deixou;
Inferno inda não havia,
Lusbel no céu residia,
“Deus quando o mundo formou”.

 “Deus provou maior encanto,
Quando o mundo quis formar:
Convidou para o ajudar
O Filho e o Espírito Santo;
Deu a Adão um belo manto,
Que muitos anos durou;
Só o perdeu quando pecou,
Comendo o fruto vedado;
Não havia inda pecado,
“Deus quando o mundo formou”.

Para abater o inferno,
Deus uma virgem enviou;
E de graças a ornou
Com seu poder sempiterno.
Ordenou o Pai Eterno,
Lá de sua jerarquia:
Que Isabel nascer devia,
Aos cinco de novembro;
E a oito de dezembro
A conceição de Maria.

Trêmulo a cabeça inclino.
Tocando-me ao coração,
A grande revelação
Do sábio oráculo divino;
De acordo com o “vaticino”,
Foi ela enriquecida
De dons, antes de nascida,
Para ser de São José,
Esposa, e templo de fé,
Foi Maria concebida.

Da serpente invejosa,
Que a Eva enganou,
Maria Virgem pisou
Na cabeça venenosa;
Desejou morder, raivosa
Essa serpente infernal
À rainha Universal
Que virgem e pura pariu
E virgem ao céu subiu.
Sem pecado original.

Deu luz ao Autor da vida,
Para uma mãe, que ventura!
Virgem santa, casta e pura,
Foi Maria concebida:
Da graça de Deus ungida,
O tormento corporal,
No seu ventre maternal,
Não sentiu quando encarnou
Sendo mãe virgem ficou.
Sem pecado original.

Não se salvava Moisés,
Nem Tobias, nem Jacob,
Nem José do Egito e Jó,
Simão, Jonas, Manassés,
Nem David, nem Afarés,
Nem o pai velho Abraão,
Nem Isaque nem Aarão,
Quantos tivessem vivido,
Se não tivesse nascido
A Virgem da Conceição.

Apareceu uma luz,
Cobriu-se de raiva Herodes...
Entrar no Céu tu não podes
Sem auxílio de Jesus.
Ele o remédio conduz
Para todo o pecador
Que contrito aos seus pés for
O remédio procurar;
Para este mundo salvar
Foi nascido o redentor.

Viu Eva enganando Adão,
Viu o fruto proibido
Ser por Eva e Adão comido,
E se oferece em redenção;
Viu do povo a ingratidão.
Viu da plebe a tirania,
De Pilatos a ousadia,
Pedro três vezes negar.
Viu Judas o entregar,
Jesus, filho de Maria.

O mundo em trevas vivia.
Veio nos trazer a luz,
O adorável Jesus,
Filho da Virgem Maria,
Trouxe paz, trouxe alegria,
A quem estava na incerteza,
Jesus de sua nobreza.
Desceu para nos remir,
E as portas do Céu abrir;
Bom Jesus, pai da pobreza!

***

A ÚLTIMA PELEJA DE NICANDRO COM NOGUEIRA

Nicandro — Eu saí da minha casa
Fui visitar o Nogueira
Me disseram que ele s’tava,
Na sua hora derradeira
Foi certo, pois o achei
C’o a vela na cabeceira.

 — Meu colega, estás doente
Pois eu vim te visitar,
Se teu mal for muito grave
Não o posso remediar.
Porém, amigo sincero
Eu venho te consolar.

Nogueira — Colega Nicandro, adeus
Eu fico muito obrigado
Em te abalares a vir
Visitar o teu criado.
É chegada a minha hora.
Porem estou consolado.

Nicando — Nogueira qual o teu mal
Eu quero muito saber,
Se não te trago remédio
Mas desejo o conhecer,
Quem não tem pena do próximo
Não se lembra de morrer.

Nogueira — É muito grande o meu mal;
Eu me acho esmorecido,
Parece que o meu corpo
Por dentro é todo moído.
Doe-me a cabeça e o rosto.
Pés, mãos, olhos e ouvido.

Nicandro — Quem era como Nogueira
Que quando ele falava
O povo todo em silêncio
Admirado ficava:
Qual o ronco do trovão
A sua voz ecoava!

Nogueira — Meu colega, o homem são
Não é igual ao doente.
Fala o doente sem força,
O são arrogadamente.
Vive o doente gemendo
E o são vive contente.

Nicandro — Isto é certo, meu colega.
Chegou afinal teu dia.
Porém ainda tens vivo
O estro da poesia,
Conheces o paganismo!
E entendes mitologia!

Nogueira Da vida, a doença tira
Todo o gozo e prazer,
Mas com o poeta fica
Arte de versos fazer
O estro da poesia
Com ele há de morrer.

Nicandro Baco também era Deus
Vulcano, Apolo, Netuno,
Saturno, Marte, Plutão,
Vênus, Minerva e Juno,
Haver tanto Deus na fabula.
Isso é o que eu “repuno.”

Nogueira — Ora isso não é nada;
Houve mais Júpiter e Reia
Que teve o filho alimentado
Pelo leite d’Amalteia;
O sol era o Deus Febo
A quem adorou Nemeia.

Nicandro Minos, Rhadamanto e Acho,
Cada um juiz superno
Segundo a idolatria
E seu fabuloso inferno;
Não tinham veneração
Ao supremo Deus Eterno.

Nogueira — Bucolion desposou
As ninfas e as Náiades.
E nos bosques habitava
Diana com as Dríades,
E muitas honras tiveram
Os heróis Abatíades.

Nicandro   Netuno era Deus dos mares
E dos infernos Plutão,
Vulcano coxo da perna
Forjava raio e grilhão,
Com o pomo da discórdia
Minerva fez confusão.
Nogueira — Meu colega eu sou cristão
Tive a água do batismo,
Tenho fé que essa água
Me livrará do abismo,
Não sigo a lei de Lutero
Nem também a do ateísmo.

Nicandro    Eu sei que tu és cristão
E segues a lei católica.
Segues a Santa Doutrina
Da nossa crença apostólica.
Foges do maometismo
E da crença diabólica.

Nogueira No tempo que eu podia
Sempre busquei confissão,
Mas logo vi-me em trabalho
E fugi de reunião,
Tenho medo de cair
Dentro de uma prisão.

Nicandro   Tenho fé, meu bom colega,
Que Deus, senhor de bondade,
Conhece mais do que nós,
Da sorte a diversidade,
Ele te dará perdão
Na suprema Eternidade.

Acho boa esta doutrina,
 — É lição de nossos pais,
O homem que é cristão,
E crê em Cristo, assim faz,
Seguindo este caminho.
De errar, ninguém é capaz.

Nogueira — Só não ia em toda igreja
Temendo uma traição,
Porque se fosse cercado
Não me entregava a prisão.
Desobedecia à força
E também ao capitão...

Nicandro — Não estás errado. Nogueira,
No teu modo de pensar;
Preso, nem p’ra comer doce,
 — Quem quiser vá esp'rimentar,
Se o doce for de açúcar
Na boca há de amargar.

Nogueira Já bebi desse xarope
Quando caí na prisão;
Boi solto se lambe todo,
Preso, de algema e grilhão,
Não bebe às vezes que quer
Nem sempre encontra ração.

Nicandro — De perigos e trabalhos
O homem deve fugir.
Fecham-se as portas da paz,
Vê as do cárcere se abrir
E o tronco já aberto
O grilhão pesado tinir.

Nogueira — Se é casado não se deita
Em os braços da consorte,
Não goza mais seu agrado,
Terrível é sua sorte
Entre a forca e a guilhotina
Deus lhe dê uma boa morte.

Nicandro — Nogueira, uma boa morte,
Vinda pelo Criador,
Havendo arrependimento
Em falta do confessor,
Morre alegre o moribundo
Consolado com a dor.

Nogueira — O meu mal provem da luta
Que eu tive com o Vicente:
Que raptou minha parenta
E ficou ali contente;
Pensando que eu tinha medo
Porque ele era valente.

Aonde ele, ‘stava eu fui
Buscar a depositada,
Disse-me o dono da casa:
Não lh’a entrego nem por nada.
Só depois de muita luta.
Tiro, talho e cutilada.

Nisto saltou o Vicente
E o noivo seu irmão;
Eu só com ele lutei
E os outros com o João,
Quando a luta se acabou
O noivo estava no chão.

Eu só, lutei com o Vicente
Fora dos meus camaradas,
Vicente com uma faca
Deu em mim duas furadas,
Eu com meu espadagão
Lhe dei muitas cutiladas.

Nisto eu ouvi dizer:
Matamos o valentão!
O Vicente bem ferido
Ficou estirado no chão,
Levamos a moça em paz
Feita estava a obrigação.

O Vicente no barulho,
Duas facadas me deu,
O que pude fazer fiz.
Porém nada me valeu,
Custaram muito a sarar
E é delas que morro eu.

Os 12 apóstolos de Cristo
Me toquem no coração,
Os sofrimentos da Virgem
Maria da Conceição,
No desamparo em que estou
Me ouçam em confissão.

Salvaram-se Madalena,
E Dimas o bom ladrão:
Foi concedido ao Longuinho
A sua vista e perdão;
O anjo de minha guarda
Me ouça de confissão.

Meu Jesus, meu Redentor
Me dê firme contrição,
E o sangue que caiu
Da Cruz, ensopando o chão
Perante as três potências
Me ouçam de confissão.

Quero a imagem do senhor
Meu Jesus crucificado,
Porque na hora da morte
Quero tê-lo a meu lado
Para pedir-lhe perdão
De tudo quanto é pecado”.

Nicandro — E ali fechou os olhos,
Abriu a boca e expirou,
entregou sua alma a Deus,
Na terra o corpo deixou,
Deus o fez sair da terra
E em terra ele se tornou.

Nicandro com o Nogueira
Eram mesmo que irmão,
O parentesco que tinham
Era o de Eva e Adão;
Como Castor e Polux
Viviam em reunião.

Adeus, adeus, Pajeú
Meu extremado sertão,
Nunca mais verás Nogueira
Glosar em uma função,
Nem também verás Nicandro
Glosar com o copo na mão.

Padre Nosso Ave Maria
Reze todo o fiel cristão.
Pela alma de Bernardo
Que morreu sem confissão,
E ofereça-os a Deus
P’ra dar-lhe a santa mansão.

MOTE
Acabou se a. poesia
Porque morreu o Nogueira!

GLOSA
Meu estro em melancolia
Para o túmulo navega
Porque morreu meu colega
Acabou-se a poesia
Minha alma sem alegria
Vê em São José e Teixeira,
Afogados de Ingazeira,
O sertanejo e o matuto
Todos cobertos de luto
Porque morreu o Nogueira.

***

TUDO SÃO HONRAS DA CASA

Achavam-se na cidade de Patos, a glosar os cantadores Germano da Lagoa, Silvino Pirauá e seu irmão José Martins...

Glosavam entre si, quando um dos circunstantes lembrou-lhes glosar sob o tema seguinte: “Tudo são Honras da Casa”.

Estando com um copo na mão, José Martins improvisou:

Da casa viva a “furquia,”
Portas, batentes, frechais
E as criações naturais
Que a dona da casa cria;
Lençol, toalha, “rodia,”
Vasilha funda e rasa,
Fogão, lenha, cinza e brasa,
Linha, tijolo e parede,
Cama, travesseiro e rede,
“Tudo são honras da casa.”

E no mesmo tom, continuou Germano:

Da casa viva a fronteira,
Calçada, quina e oitão,
Armário, baú, caixão.
Sala, corredor, traseira.
Quartinha, pires, chaleira,
E o bico por onde vasa,
Torno, pote, copo e aza,
“Chixelo”, botina e meia,
Caibros, pregos, ripa e “teia”
“Tudo são honras da casa.”

Silvino Pirauá beijou o copo e disse:

A honra mais importante
Que na casa dá um dom,
é um homem honesto e bom,
com uma esposa brilhante;
o poeta vigilante
Faz o verso e não se atrasa,
Glosador não me enviasa,
Nem me faz sair da linha;
Quarto, secreta, cozinha,
Tudo são honras da casa.

Germano da Lagoa entusiasmando-se, improvisou a seguinte estrofe:

Se houver poeta no lugar
Que faça mais seis ou sete,
Eu dou a cara a bufete,
Dou os olhos a furar,
Dou o pescoço a cortar,
Arrisco a própria cabeça!
Digo para que se conheça;
Nem Nicandro e nem Nogueira,
Nem na América Brasileira
Eu duvido que apareça!

O cantador Antônio Batista Guedes, obtendo uma cópia desses versos mandou-os ao seu tio Nicandro, pedindo-lhe que desse uma resposta na altura do insulto, ao atrevido Germano da Lagoa, que o julgava incapaz de fazer mais seis ou sete versos sob o tema “Tudo são Honras da Casa”.

Nicandro sentindo-se ferido no seu amor próprio, e defendendo a memória de seu colega Nogueira  — já falecido, respondeu-lhes, com a poesia que se segue:

Pensaste ter esgotado
A fonte da inspiração
E no reinado de Plutão
Ter os poetas trancado,
Teres Apolo amarrado
No cume dum alto monte:
E no coche de Faetonte
Corrido todo o universo;
Com as musas inda converso
Bebo ainda água da fonte...

 — “O Nogueira já morreu,
O Nicandro está caduco;
Vou fazer dele um maluco,
Um bestunto, um pai Mateu?
Um figura de Asmodeu! — ”
Pois estais mal entendido
Ouço, ainda tenho ouvido
Vejo, ainda não sou cego;
E meu lugar eu só entrego
Quando perder o sentido.

Nogueira com esse insulto
Cresceu tanto o coração
Que fez pipocar o chão!
Veio à testa do “tumulto”,
Olhou, mirou, não viu vulto,
P’ra lhe dar combate ou guerra.
Subiu serra, desceu serra,
Voltou outra vez p’ra traz,
E foi zombar junto c’o os mais
Defuntos dentro da terra.

Júpiter é filho de Reia
E Reia, mãe de Netuno.
E Netuno, irmão de Juno,
E Juno, Deusa de Deofeia
Salva a pátria Androcleia;
Quem te inspirou esta cena?
Não foi Tágides, nem Camena,
Não foi não, estavas sozinho...
Escuta por um pouquinho
Os rasgos da minha pena:

A casa p’ra ser honrada
De rica ou pobre família
Deve ter uma mobília
Completa sem faltar nada;
Ter punhal, facão espada,
Pelouro que tudo abrasa,
Que destrói, derriba, arrasa;
Bancas de armas, torneiras,
Pistolas e granadeiras,
Tudo são honras da casa.

No salão toca o piano,
E pendem de todos lados
Os quadros dependurados.
Alcatifas de bom pano,
Leques dourados de abano,
Jarra que de fria vasa
Trono onde a alma se “estaza,”
No oratório de oração
Da Virgem da Conceição;
“Tudo são honras da casa”.

Grelha, espeto, frigideira,
Tesoura, agulha, dedal,
Mesa, muro, horta, quintal,
Bule, prato, choc’lateira,
Caldeirão, tacho, sopeira;
Meu estro em rimar se apraza,
Não deixo nem uma vasa
Para entrares na espadilha;
Novela, Bíblia, cartilha:
“Tudo são honras da casa”.

Concha, almofariz, pilão,
Talheres, açucareiro,
Lamparina, candeeiro,
Salva, frasco, garrafão
Meu estro no escuro chão.
Por enquanto inda não jaza;
Nem me faz perder a rima,
Viola, bordão e prima,
“Tudo são honras da casa”.

Banca, tripeça, cadeira,
Pena, papel e tinteiro,
Alfinete e agulheiro,
Cesto, urupema, peneira,
Com licença da caseira
Canta modinha a rapaza,
As contas no fio engaza.
Menina formosa e bela
Inda virgem, inda donzela:
“Tudo são honras da casa”.

Não deve o homem brigar
Com arma destemperada,
Vai dar uma cutilada,
Se vira ou se ver quebrar,
Não pode intento tirar
Quem na cena ler avante;
Se teimares conspirante
Nesse intento denodado
Ficas desmoralizado
Passas por ignorante.

Um quinau, uma lição
Faz corrigir o aluno
Como o aviso de Netuno
Ao corneteiro Tritão;
Para o discípulo, aflição
Mas, para o mestre é glória,
Na aula tive a vitória
Fiquei por decurião
Agora da cá a mão
E te sujeita à palmatória...

Duas faltas encontrei
Nos versos que me mandaste,
Contra a arte pecaste
Quando dois erros achei
Os quais eu anotarei
Por estarem de parelha;
Repara quem te aconselha
Na rimação da poesia:
Forquilha não dá com cria,
Nem meia rima com telha.

Na arte metrificação
Se não pecaste, porém,
Eu te afirmo — que tem
Erro e grande em rimação,
La vai mais uma lição
A quem vive andando à cega;
É um conselho de colega
Aos poetas dispersos:
Nove vezes lê teus versos

Para então fazer entrega.


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Fonte:
Francisco Chagas Batista: “Cantadores e Poetas Populares” (1929)
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2020)

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