sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Poetas Populares: João Melquíades Ferreira da Silva





JOÃO MELQUÍADES FERREIRA DA SILVA
O CANTOR DE BORBOREMA

João Melquíades, nasceu na cidade de Bananeiras, em 7 de setembro de 1869. Sentou praça nas fileiras do Exército Brasileiro, aos 19 anos de idade. Foi promovido a sargento, aos 22 de setembro de 1893. Fez as campanhas: de Canudos em 1897, do Acre, em 1903. Mestrou a banda de corneteiros do 28º Batalhão, em São João da Barra, no Estado de Minas Gerais.

Tendo sido asilado, em 1904, veio residir no Estado da Paraíba do Norte. Cantador e poeta de gabinete, escreveu e publicou muitos folhetins de versos, sendo alguns destes de combate ao Protestantismo. Anualmente viajava pelo interior dos Sertões do Nordeste, vendendo os seus folhetos e cantando. Nunca foi vencido por outros cantadores; tendo disputado com os seguintes: Joaquim Jaqueira, Silvino Pirauá, Josué Romano, Zé Duda, Manoel Raimundo de Areial, Luiz Percino, Manoel Cabeceira, Olegário de Maria, Gaudêncio Pereira, o cego José Sabino, Antônio Aragão, Baleia de Areia Branca, Jacó Passarinho, José Faustino, Azulão, André Paulino, Ignácio Maurício, Manoel Norberto, Antônio das Chagas Bretão, Domingos Cardoso, Francisco Pequeno, Manoel Fura Pedra, Antônio da Cruz, José Pretinho, Wenceslau, Alexandre Victor, cego Paulino, Henrique Librineiro, Antônio Tomé, Josué da Cruz, Manoel Simão, Joaquim Francisco, Zé Pedro, Adelino Cipriano, José Juvêncio e o cérlebre Preto Limão.

Publico em seguida alguns repentes do poeta Melquíades:


REPENTES CANTADOS AO SOM DA VIOLA

Fumo torrado é tabaco,
Sal de cozinha é tempeiro.
Bicho traquino é macaco,
Campeão de gado é vaqueiro.
Mochila comprida é saco,
E quem faz pão é padeiro.

Menino grande é rapaz,
Homem sabido é doutor.
Inverno é tempo de frio,
O tempo quente é calor,
Quem vende é comerciante,
E quem caça é caçador.

Donzela é senhorita,
Mulher casada é senhora,
Cavalo é bicho de carga,
Relógio é quem marca hora;
A espingarda dispara
A baila é quem vai embora.

Moça bonita é formosa,
Velha adulada é parteira.
Terreiro em rua é calçada.
Caminho em serra é ladeira,
Enredo é mexerico,
Toda bruxa é feiticeira.

Janela comprida é porta,
Porta pequena é janela,
Curral é prisão de vaca,
Porteira grande é cancela;
Casa é morada de gente,
Língua de pau é tramela.

Gravata de boi é canga,
Xale de besta é cangalha,
Quem corta pano é tesoura,
Faca de barba é navalha,
Cadeia é casa de presos
Mucambo é casa de palha.

Filha de rei é princesa,
Mulher de rei é rainha,
Galo é cantor de Poleiro,
Franga que põe é galinha,
Caldo de cana é garapa.
Massa torrada é farinha.

O queijo é massa de leite,
A carne é bom alimento.
Padre é doutor da Igreja,
Freira é moça de convento,
Quem ama quer muito bem,
Noivado é casamento.

Aluno é estudante.
Enquanto toma lição,
Política é p’ra doutor
Tomar melhor posição;
Relâmpago é fogo elétrico,
Zuada em nuvem é trovão.

Tecido é fábrica de pano,
Engenho central é Usina,
Casaca é para quem pode,
Roupa de padre é batina,
Cristão é da lei de Cristo,
Bispo é chefe de doutrina.

Muita conversa é zuada.
Livro de jogo é baralho.
Os pés é quem deixam rastro.
Povo ocupado é trabalho,
Brasa é carvão acesso,
Cinza de fogo é borralho.

Música de burro é chocalho,
O pau que toca é viola.
Velho caduco é vovô.
Moço enxerido é pachola,
Serviço de sapateiro
É fazer obra de sola.

No mangue mora o siri,
No peito mora a amizade,
Na boca mora o pedir,
No coração a maldade,
Na alegria o sorrir,
Na infância a mocidade.

No quintal mora o cachorro,
Mora o sapo na lagoa,
A onça mora na furna.
Mora o bague na camboa,
O veado na floresta,
O português em Lisboa.

Na Europa o europeu,
Na África o africano,
Na Ásia o asiático,
Na América o americano,
No Protestante a soberba
Por causa do seu engano.

Mora o caixeiro na loja,
O retalho no balcão.
Mora o valor no dinheiro,
O metro na medição,
O orgulho na riqueza,
Na Pobreza a Humilhação.

***

DESAFIO DE JOÃO MELQUÍADES COM CLAUDINO ROSEIRA


Claudino Roseira — Amigo João Melquíades
Recebi seu telegrame
Para vir cantar com sigo
Cheguei com muito vexame
Esse é seu cabra Roseira
Quando canta dá exame.

João Melquíades — Roseira deixe de arrojo,
Cante com mais simplidez.
Em que você deu exame
Foi em latim ou francês?
Na palavra telegrama
Já erraste o português.

Claudino Roseira   Melquíades inda não houve
Quem desse neste Roseira,
O cantador conhecido
No Belém, na Bananeira;
Conhece onde nasce o rio
Da água derramadeira.

João Melquíades  Roseira eu me admiro
De tua geografia!...
Eu pensei que mais lugares;
O colega conhecia;
É só Belém e Bananeiras
A tua corografia?

Claudino Roseira   Melquíades não me reprove
O meu saber ninguém toma
Este é Roseira falado,
Um cantador de diploma
Parece dez missonaros
Quando estão pregando em Roma.

João Melquíades    Roseira não pense nisso
Que é uma grande fraqueza,
Diploma é para doutor.
Examinado em certeza;
Não é para um cantor tolo
Que flagela a natureza.

Claudino Roseira    Você porque não conhece
O cantar de seu Claudino,
Um cantor de regra inteira,
De um saber muito fino;
Cantador de meia cara
Canta comigo, eu ensino.

João Melquíades    Roseira se acomode
Comigo ninguém arenga,
Você quer ser muito fino.
Porém com tudo se denga;
Vá conhecer seu lugar
Aleijado pé de quenga.

Claudino Roseira   Danado tu só diz isto
Porque estou desarmado
Tu estais é com inveja,
Porque eu sou estudado;
Quer se vingar em meu pé
Sem ele ser aleijado.

João Melquíades   Você porque não se enxerga
Anda com essa viola
Iludindo a humanidade,
Se fazendo de pachola;
Usa uma ou duas muletas
Que és digno de esmola.

Claudino Roseira   _Não preciso de esmola
Porque sou um fazendeiro
Moro em propriedade.
Comprada com meu dinheiro;
Não sou como um cantor
Que vive sem paradeiro.

João Melquíades   Você tem um chão de casa
Nele fez uma casinha
Tem dois pés de laranjeiras
E um chiqueiro sem galinha;
Uma besta espaduada,
No quintal uma porquinha.

Claudino Roseira   Eu sou o grande Roseira
Aquele cantor eleito
Conversa de presidente,
Barba de juiz de direito;
Honra de muié casada
Só faço verso bem feito.

João Melquíades — Sendo uma mulher casada
Honrada em bom sentido
Provando bem seu critério,
Tem seu valor garantido
Sua opinião parece
Dessas que é falsa ao marido.

Claudino Roseira   Senhor Melquíades respeite
Se quiser ser respeitado
Olhe bem que seu Roseira,
É cantor considerado:
Sou um cantor do agreste
D’um saber muito elevado.

João Melquíades — Roseira estás enganado
Ou por outra iludido
Se saber fosse assim,
Todo mundo era sabido;
O que você pensa é torto
Tudo que faz é perdido.

Claudino Roseira   Agora por desaforo
Eu quero lhe amostrar,
Que você em cantoria,
Peleja mais não me dar
Eu sou como cavalo bom
Quando pega a esquipar.
  
João Melquíades  Veja que ignorância
O colega tem mostrado
Dizendo que é um cavalo,
Marchador, domesticado,
Se tu fores bom para sela
Daqui eu sigo montado.

Claudino Roseira — Melquíades trate melhor
A este Claudino Rosa
Carreira de besta fera
Saber de seu Rui Barbosa
Trovão do mês de janeiro
Ventania temerosa.

João Melquíades — Roseira isso é um horror
Você não se considera,
Com esta barbaridade,
O seu cantar não prospera,
Deseja ser Rui Barbosa
E diz que é besta fera.

Claudino Roseira  Melquíades você se cale
E não roube o meu direito,
Sou enxada de dez libras
Quando arrasto vem o eito,
Sou língua de cão de fila
Que lambe qualquer sujeito.

João Melquíades — Roseira faça favor
No caso que poder ser.
Encurte mais sua língua
Para ela não me lamber.
Que você é muito zanho
Pode também me morder.

Claudino Roseira  Melquíades Roseira é
Mestre de bribioteca.
Carranca de onça tigre,
Olho d’água que não seca,
Taba de dez mandamentos
Ou um trem que desabreca.

João Melquíades — Roseira esta pronúncia
Repare bem que perdeu
Biblioteca sem “l”
Onde foi que você leu,
SE já encontrou escrito
Me diga quem escreveu?...

Claudino Roseira  Porém o Roseira é
Base da glória bendita,
Um cabra de cara feia
Com uma pronuncia bonita,
Dum fraseado bem feito
Quem não viu não acredita.

João Melquíades — Você cante o que souber
Eu não lhe empato a vontade,
É tolo O homem que teima
Com sua burralidade,
Porque sua cantoria
É ruim de qualidade.

Claudino Roseira — Também cante o que souber
Eu do meu lugar não saio,
sou quentura de curisco
Velocidade de raio.
Conheço por onde salto
E sei de que jeito caio.

João Melquíades  Roseira você me diga
Qual é o ano sideral?
Qual é o ano civil
Qual o ano tropical?
Dê-me esta explicação
Tudo em ordem natural.

Claudino Roseira — Melquíades eu já fiz estudo
Mais não prestei atenção.
Por viver muito ocupado
Com a viola na mão,
Cantando de feira em feira
A fim de ganhar o pão.

João Melquíades    Amigo tu não disseste
Que eras um fazendeiro
Proprietário bastante
De terra, gado e dinheiro,
Eu já vi que o Roseira
É um espanta poleiro.

Claudino Roseira — Melquíades eu já fui pobre
Mais hoje sou arrumado,
Doutores em minha casa
Algum já tem descansado
Ele mesmo sai dizendo
Que fora bem hospedado.

João Melquíades — Roseira você parece
Ter a cara de baralho,
Dois cantores uma noite
Chegaram de um trabalho,
Não dormiram em tua casa
Por não acharem agasalho.

Claudino Roseira — Isso é sua mentira
E do outro pareceiro.
Que em minha casa, cantor
Tem passado um mês inteiro,
Não faz despesa nenhuma
Anda engomado e no cheiro.

João Melquíades — Pois amigo Deus me livre
De hospedar-me em tua casa,
Quem nela se arranchar
Em vez de aumentar se atrasa,
Levando pouco dinheiro
De fome e sujo se arrasa.

Claudino Roseira — Porém o senhor não prova
Lá com minha vizinhança,
Você só canta atacando
De outro a perseverança,
Mais não pode com Roseira
O esteio da segurança.

João Melquíades — Eu não posso com você
Que no cantar dessadora,
Se compara com o mar
Que não descansa uma hora,
Diz que é cavalo bom
Porém é lerdo de espora.

Claudino Roseira — Eu digo e dou as provas
Sou amigo de Zé Duda
Café moca verdadeiro,
Cacau da folha miúda,
Barbatão sem ver curral
Pordo de primeira muda.

João Melquíades — Que vantagem faz você
Querer ser um barbatão,
Poldro é filho de besta
Você diz que é seu irmão?
Bicho com cara de gente
Assombra a qualquer cristão.

Claudino Roseira — O Roseira aonde canta
Estala como um pistom,
Sobe igual a o balão
Do grande Santos do Mont
Meu cantar é atraente
Quem me escuta acha bom.

João Melquíades  Roseira vamos deixar
Esse cantar sem proveito,
Vamos cantar perguntando
Que eu fico mais satisfeito
Torna-se o cantar mais claro
E do povo mais aceito.

Claudino Roseira — Eu não canto perguntando
Porque já fiz meu estudo,
Do que existe no mundo
Eu já conheço de tudo.
Conheço vista de cego
Sei da linguagem do mudo.

João Melquíades — Roseira não desembeste
Que eu corro e lhe pego.
Bote estilo em seu cantar
Que seu direito eu não nego,
Como é a língua do mudo,
Qual é a vista do cego?

Claudino Roseira — Melquíades você não pode
Comigo em cantoria,
Vista de cego é a vara
Puxada na mão do guia
Língua de mudo é aceno
O que você não sabia.

João Melquíades — Com cego você se arruma
Em sua literatura
Mais a linguagem do mudo
Para você ela é escura,
Você não conhece mimica
Como quer fazer figura!

Claudino Roseira — Você porque nunca viu
Roseira numa questão
É igual um redemuinho
Quando vem varrendo o chão.
Quebro pau, destelho casa
Pior que um furacão.

João Melquíades — Que vantagem leva você
Em destelhar casa alheia,
Quebrar pau varrendo o chão
Sem estar preso em cadeia.
Assim o colega estraga
Demais o lombo na peia.

Claudino Roseira  Melquíades em ciência pura
É que sou estrupissado.
Serro mais do que serrote
Adepois de está travado.
Corto mais do que navalha
Que tem o gume afiado.

João Melquíades — Roseira estás conhecido
Por cantador idiota
Além de velho és tolo
Além de tolo fiota;
Você de pedir já tem
Um pé troncho e a cara torta.

Claudino Roseira — Melquíades me trate bem.
Não seja tão atrevido,
Olhe minha qualidade
É de um homem sabido,
Eu não aguento pilhéria
Dum caboclo aborrecido.

João Melquíades — Tu me chamas aborrecido
Para mim és um flagelo;
Agora tome cuidado
Vamos cantar um martelo,
O pessoal quer ouvir
Quem é mais forte em duelo.

Claudino Roseira — Com negócio de martelo
Cantor não me atrapaia,
Eu aprecio a ciência,
Em que um cantor trabaia,
Martelo é cantoria
De cantor besta ou canaia.

João Melquíades — Você comeu duas letras
Matou o som deste nome,
Tirou o “l” e o “h”,
Sua ciência tem fome;
Vamos entrar em martelo
Agora sim, você come.

Claudino Roseira — Melquíades se você quer
Sair bem nesta cantada,
Não me converse em martelo
Nessa regra relaxada,
Se não eu quebro a viola
Na cara do camarada.

João Melquíades — Roseira por qual motivo,
Você não canta martelo?
Inventa uma valentia
Fica trêmulo e amarelo?
Ou você canta ou apanha,
Ou por outra eu o flagelo.

Claudino Roseira — Eu não canto desaforo,
Não faço gosto a mundiça.
Aqui só tem vagabundo,
É quem tem disto cobiça;
Agora, fale no código
Que eu conheço justiça.

João Melquíades — Roseira você respeite
Aqui tem homem importante!...
Não é para ouvir pilhéria
De cantor ignorante,
Use um pouco de moral
Não se faça tão pedante.

Claudino Roseira — Melquíades esta canaia
Deste lugar Cajazeira,
Eu aqui não vejo homem
Para brigar com Roseira,
Aqui só tem cafajeste
E cabra pé de poeira.

João Melquíades — Roseira tenha juízo
Não queira agravar ninguém,
Você com tal disparate
Não pode sair-se bem.
Dê essa viola a um cego,
Cantar assim não convém.

Claudino Roseira — Melquíades deixe de prosa
Com seu Claudino Roseira,
Que bota flor pela boca
Igual a carrapateira;
Não vai ouvir desaforo
P’ra dá gosto a cabroeira.

João Melquíades — Roseira você colega
É do reino animal,
Sua boca não dá flor
Você não é vegetal,
E só não canta martelo
Por ter um fraco ideal.

Claudino Roseira — Eu só não canto martelo,
Porque sou cantador fino
Se quer ouvir desaforo,
Pague a moleque ou menino,
Eu, por causa de martelo
Inda serei assassino.

João Melquíades — Roseira cale essa boca
Deixe dessa pabulagem,
Você não mata ninguém
Porque lhe falta a coragem,
És um doido malcriado,
Loucura não é vantagem.


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Fonte:
Francisco Chagas Batista: “Cantadores e Poetas Populares” (1929)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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